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Bammer: “Gerir as emoções, dentro e fora do ringue”

Nos meus artigos realço frequentemente a importância da componente mental. Este destaque não é por acaso – muitas pessoas, ao início, estão demasiado preocupadas com o seu tamanho ou forma física para entender que por muito que um bom look possa causar boa impressão, os duelos que vão acontecer dentro da cabeça são bem mais relevantes.

Para se ser alguém no Wrestling, não é preciso um enorme QI – o Wrestling não é algo complexo e que esteja só ao alcance daqueles que têm muita massa cinzenta para utilizar. Todos conseguem compreender a nível teórico como se executam as manobras, como se entregam promos ou como tem um bom combate. No entanto, observamos que na prática é tudo bem mais difícil. E é aqui que entram as emoções.

O obstáculo invisível

Pela academia do WP passaram muitas pessoas, algumas apenas para experimentar um treino, outras para lá ficarem vários anos. Aqui, o que verifiquei em muitos casos é que os obstáculos que enfrentavam não eram físicos: eram mentais.

Os obstáculos podiam ser de vários tipos, como por exemplo:
– falta (ou excesso) de confiança em si próprio;
– falta (ou excesso) de confiança nos outros;
– cabeça fora do sítio;
– mente fechada;
– traumas;
– mania da perfeição.

Toda a gente se consegue identificar, de algum modo, com algum destes problemas. As pessoas que mais tarde se tornaram graduadas WP acabaram por superar estes obstáculos, com a ajuda do tempo e dos restantes colegas de treino. Muitas vezes somos o nosso pior inimigo e o Wrestling, como certamente muitas outras actividades, pode ser essencial para nos conhecermos melhor e entendermos o que somos ou não capazes de alcançar.

O obstáculo que na verdade não existe!

O obstáculo que na verdade… não existe!

Estes conflitos não nos acompanham só na academia de Wrestling – mais tarde, podem voltar numa situação específica dentro do ringue ou disfarçados, numa situação totalmente diferente. Se entendermos como lidar com eles, teremos garantidamente uma vida bem menos complicada.

Apesar de cada caso ser diferente, os 6 obstáculos que referi em cima são realmente os mais populares neste contexto. Por esse motivo, vou analisá-los um pouco e explicar como podes combater cada um destes travões.

Falta (ou excesso) de confiança em si próprio

Este é um tema delicado porque põe em causa a imagem que temos de nós próprios e o que os outros pensam de nós. Na minha experiência, não houve propriamente um padrão – alguns alunos apareciam no primeiro dia com confiança suficiente para dominar o mundo e outros mal conseguiam ganhar coragem para dar uma queda, receosos do que as pessoas pensariam ou achando que fariam um mau trabalho.

A confiança é importante no Wrestling – dificilmente estarás disposto a ir para uma arena cheia de pessoas a olharem para ti se não tiveres o mínimo de confiança nas tuas capacidades. Mas o que está em causa é isso mesmo: seres capaz de entender os teus pontos fortes e fracos, conhecer os teus limites, para nunca achares que estás erradamente abaixo (ou acima) de um desafio.

Seja na academia seja no circuito profissional, os (bons) colegas vão sempre lembrar-nos quando estamos a subestimar-nos ou a sobrevalorizar-nos. No treino, se um professor te diz que acredita em ti e que consegues, certamente acabarás por perceber que ele tinha razão.

Se o teu problema for falta de confiança, experimenta desconstruir um desafio em pequenos passos e completar cada um. Quando somares essas pequenas partes, resolver o problema será certamente mais fácil.

Se o teu problema for o contrário, não te preocupes: um colega (ou o professor) rapidamente tratará de te dar um banho de humildade se o estiveres a pedir.

Falta (ou excesso) de confiança nos outros

Isto é tanto um problema para ti quando estás a começar, como para todos os outros quando vêem mais um novato a entrar pela porta. Se no Wrestling tens de ser confiante para enfrentar o público, também é verdade que tens de confiar em quem vai pegar em ti e atirar-te ao chão nesse dia.

Terás que aceitar a ideia de que terás a vida dos outros nas tuas mãos e vice-versa

Terás que aceitar a ideia de que terás a vida dos outros nas tuas mãos… e vice-versa

Se o teu problema for falta de confiança nos outros, aqui estão as más notícias: no Wrestling, nem tudo depende de ti. Vais sempre ter de partilhar o ringue com outros lutadores, alguns bem cuidadosos, outros nem tanto. Terás de te saber proteger e evitar lesões, claro, mas se tens o hábito de tremer assim que pegam em ti, tens 2 soluções: ou pedes que te levantem mais vezes nos treinos para ganhares confiança ou escolhes um desporto individual, em que tudo dependa só de ti.

Se adoras Wrestling, quererás ficar, portanto terás de descobrir uma maneira de suportar a sensação de não teres a tua própria vida nas tuas mãos.

Por outro lado, também não podes achar que vai tudo correr bem e que todos vão tomar bem conta de ti. Há malta que tem menos técnica, menos paciência ou é simplesmente descuidada. Terás que te proteger a todos os momentos, mesmo que confies imenso na pessoa com que estás a trabalhar- isso não é sinónimo de desconfiança, é simplesmente garantir que do teu lado estás a fazer todos os possíveis por facilitar a vida ao teu colega e não comprometer a tua carreira ao mesmo tempo.

Cabeça fora do sítio

Antes de sermos lutadores, somos pessoas. A vida prega-nos partidas e é impossível estarmos exactamente no mesmo estado de espírito em 2 dias distintos. Às vezes estamos preocupados com um teste que temos para a universidade na semana seguinte, uma entrevista de trabalho, um SMS que nunca mais chega ou uma pessoa no balneário (ou na plateia) que preferíamos que tivesse ficado em casa.

Vive o presente o resto do mundo pode esperar

Vive o presente… o resto do mundo pode esperar

O melhor conselho que te posso dar aqui é viveres no presente. De pouco adianta estares preocupado com o que te vai acontecer na próxima semana enquanto estiveres a treinar ou num espectáculo; se tomaste a decisão de ir ao treino mesmo com determinado assunto a ocupar-te a tua mente, o melhor (para o teu bem e para o dos teus colegas) será focares-te a 100% no que estás a fazer e guardar o resto para depois.

Por vezes, isso é mais fácil escrito do que feito, mas deves recorrer às técnicas que sabes que funcionam contigo: por exemplo, ouvir música, pensar em Wrestling, relaxar com um aquecimento puxado ou fazer algo que te coloque a mente na zona em que tem de estar.

Mente fechada

Um grande motivo para tantos alunos demorarem muito mais tempo a evoluir do que o suposto é a mente fechada que levam para os treinos. Têm uma opinião preconcebida do que um golpe/exercício/combate deve ser e não estão dispostos a mudar. E é por isso que atravessam um caminho bem mais longo do que outros alunos mais flexíveis.

Muitos alunos sentem que por terem passado alguns anos a acompanhar à acção na televisão ou no YouTube estão em condições de combater no primeiro treino e que sabem perfeitamente construir combates e realizar golpes, simplesmente por visionarem combates ou jogarem Playstation. Estudar combates é sem dúvida uma excelente ferramenta, mas naturalmente não substitui o treino real, da mesma forma que não é por vermos todas as semanas a Champions League que jogamos como o Ronaldo ou o Rooney nas partidas com amigos.

Muitos pensam que aquilo que lhes é ensinado é “apenas uma opinião” e não a forma correcta de fazer as coisas. Muitos adaptam as técnicas porque “lhes dá mais jeito” de outra forma. Essas pessoas terão um longo caminho pela frente e sofrerão muitas desilusões. Se fores para o treino como uma tábua rasa, disposto a absorver todo o conhecimento que te será passado, estarás muito melhor posicionado para completar rapidamente o treino com distinção.

Traumas

Às vezes, é difícil largar o passado. Todos tivémos algumas más experiências nas aulas de Educação Física e o Wrestling, por vezes, recorda-nos disso mesmo. Muitos alunos do WP mostraram, ao início, dificuldade em fazer uma cambalhota, subir até à 3ª corda ou pegar no adversário. O problema? Correu mal no passado.

Superar um trauma não é coisa fácil mas a paixão pelo Wrestling ajuda

Superar um trauma não é coisa fácil… mas a paixão pelo Wrestling ajuda

Com muita satisfação posso dizer que uma elevada percentagem desses alunos venceu os seus traumas – mas não foi de um dia para o outro. O segredo passou por enfrentar o medo, entender o problema e experimentar formas de o contornar. Se o problema do aluno é ter confiança para pegar em alguém, então para começar pega em sacos de boxe. Se não consegue dar uma cambalhota sozinho, começa por fazê-lo com ajuda.

É incrível o conjunto de obstáculos que alguns alunos trouxeram para as aulas e que superaram: só mostra o quanto o Wrestling pode ser um bom incentivo para dar a volta a algumas das barreiras mais teimosas da nossa vida.

Mania da perfeição

Um problema mais raro (mas sem dúvida muito complicado de superar) é a obsessão pelo perfeccionismo. A maior parte das pessoas não é assim tão perfeccionista (apenas acha que o é) e utiliza este argumento como uma justificação para não arriscar. Problema real ou não, é um obstáculo que trava algumas pessoas.

É verdade que para chegarmos a um bom nível, primeiro teremos de tentar e de falhar muito, mas muitas pessoas assustam-se com esse primeiro falhanço por gostarem de ter controlo sobre o que fazem. Basicamente, nem sequer chegam a tentar.

Para mim, ser perfeccionista é mostrar atenção ao detalhe, repetir os movimentos até à exaustão para ficarem o melhor possível visualmente e procurar ter brio no que faz. Aqui, a chave está na repetição – é algo totalmente diferente de nem sequer aparecer, por ter medo que fique mal.

Vou repetir: um perfeccionista é alguém que treina um movimento 1.000 vezes, alguém que visiona todos os seus combates e que procura encontrar formas de criar as lutas mais realistas possíveis, respeitando a sua integridade artística. Não tem medo de falhar, aliás, sabe que esse falhanço é parte do processo. É completamente diferente de alguém que quer que tudo lhe saia bem à primeira.

Agora que isto está fora do caminho, o meu conselho para superar esta mania passa por repetir o máximo possível todos os aspectos que nos fazem comichão, mas aceitar a ideia de que o nosso primeiro combate não terá a mesma qualidade do 10º, do 100º ou do 1.000º.

Quanto mais repetires, mais perto estarás de obter o 10/10

Quanto mais repetires, mais perto estarás de obter o 10/10

Deves aparecer e combater/treinar o maior número de vezes possível, seguro de que cada dia será melhor do que o anterior. A ideia de imperfeição pode assustar, mas só vamos roçar essa suposta perfeição se continuarmos a tentar.

Conclusão

Uma boa atitude e uma mente esclarecida vão-te garantir um caminho bem mais simples até ao topo. Por muitas boas razões que possas ter para justificar os teus demónios, a verdade é que está nas tuas mãos superá-los e só tu perderás se te ficares pelos lamentos. Como tu, toda a gente tem receios, cabe a ti conhecer-te e descobrir como os resolver para que não desistas do teu sonho e seguir em frente.

Um abraço e até para a semana – gostava de aproveitar para agradecer a todos os que compareceram no primeiro Hangouts do Wrestling.PT e a quem visitou o meu novo blog para descobrir como aceder à WWE Network fora dos EUA. Fico à espera, como sempre, dos vossos comentários, mensagens e tweets!

Sobre o Autor

- Bruno “Bammer” Brito é português, treinou em Calgary, Alberta, Canadá e foi durante 6 anos treinador principal da academia do WrestlingPortugal. Durante esse período, foi responsável por formar alguns dos mais conhecidos e talentosos lutadores nacionais da actualidade e está agora a partilhar as suas experiências com a comunidade do Wrestling PT.

10 Comentários

  1. PMB - há 3 anos

    Excelente artigo Bammer :) , para mim é um dificil viver no presente lenbro-me por vezes dos meus traumas =$ mas um dia vou ultrapassar, espero eu.Como dizes muitas vezes somos o nosso pior inimigo.

    • Sem dúvida. O que até não é má notícia, significa que é algo que só depende de nós para mudar e melhorar :)
      O Wrestling, felizmente, faz com que muita coisa seja possível – já apareceu muita malta com más experiências das aulas de educação física que acabou por superar tudo e mais alguma coisa!

  2. Miguel Costa - há 3 anos

    Gostei bastante como sempre e hoje mesmo que queira acrescentar ou perguntar qualquer coisa não consigo, devido à qualidade do artigo no qual disseste tudo :)

    PS: Na 3ª imagem #SpoilerBammerWins lol

  3. Jardel Silva - há 3 anos

    Muito Bom Artigo Como Sempre,Bammer Eu Queria Que Fosse Fizesse Uma Coluna De Como Ser Dar Bem No Mic-Skills,Ser Bom No Seeling,Ser Bom Em Wrestling Técnicos e Entre Outros.Acho Que Seria Interessante Porque Eu Quero a Aprender Bastante Pra Quem Sabe Um Dia Ser Um Wrestler e Um Wrestler De Alta Qualidade.

  4. CM Pedro - há 3 anos

    adoro os teus artigos, aprendo muitas coisas, obrigado Bammer :)

  5. Grande artigo .
    Ja agora uma pergunta pessoal se for possivel responder :
    Tas fora de Portugal por causa do wrestling ?´
    E onde o Wrestling te cai levar ?

    • Obrigado por leres :)
      Neste momento não tenho grandes planos quanto ao Wrestling, sem ser frequentar a academia do WP sempre que possível. Neste momento estou na Suíça mas não devido ao Wrestling, apenas por uma oportunidade de Marketing que surgiu!

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