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Bammer: “Os 9 erros mais frequentes enquanto aprendiz”

Depois de 1 semana bem agradável em Portugal, de volta à Suíça. O ponto alto das minhas mini-férias foi sem dúvida o dia passado na academia do WP, onde tive a oportunidade de conhecer vários alunos novos, rever alguns dos meus grandes amigos e matar saudades do ringue, num combate com o Rúben Branco.

Como fui professor da academia durante muito tempo, tenho sempre curiosidade em conhecer caras novas quando a visito, para entender as motivações da nova geração e testemunhar o potencial de cada um. Fiquei muito satisfeito com a harmonia do grupo, com a vontade que cada pessoa mostrou em querer trabalhar bem e com o ambiente em geral.

Há ali muita gente que está no caminho certo – estão a evoluir depressa e a errar rapidamente. E ainda bem, porque quanto mais cedo errarmos, mais rapidamente passamos para a fase seguinte.

O treino do passado sábado em Queluz

O treino do passado sábado em Queluz

Errar faz parte da aprendizagem e muita gente confunde erros com experiências negativas. É verdade que nem sempre são agradáveis, mas são passos necessários que se têm de dar no caminho até ao topo.

O que se segue é uma lista daqueles que são provavelmente os erros mais frequentes que uma pessoa dá quando está a começar. Alguns testemunhei no sábado passado (o que me motivou a escrever este artigo), outros eu próprio cometi e outros são simplesmente populares.

Esta lista não é um conjunto de erros a evitar – como disse em cima, é normal (e benéfico) que se erre. Não é por errares que o Wrestling não é para ti. Se não cometeres estes erros, certamente cometerás outros. Mas não deixa de ser uma boa lista para se ter em conta, até quando já se está num nível avançado do treino.

Vamos a isto!

#1: Fazer tudo a correr

Quando estamos dentro do ringue (ou em colchões) não temos grande noção do que está a acontecer visto de fora. Isso faz com que o nosso timing esteja muitas vezes dessincronizado com o do público – achamos que temos de ser mais rápidos do que realmente acontece.

O público não consegue absorver longas sequências de acção furiosa. Vai querer respirar um pouco (e o teu adversário também). Nos primeiros tempos, estamos tão preocupados em “mostrar” trabalho que fazemos 50 golpes num minuto – e ficamos sem ar passados 2 ou 3 (que nos pareceram 10).

Às vezes é engraçado desafiar os alunos a dominarem os seus adversários durante um par de minutos. O que eu espero ver é meia-dúzia de murros, 3 ou 4 suplexes, interacção com o público e mais um par de manobras de circunstância. Na prática, muitas vezes assisto a uma compilação de todos os golpes que determinado aluno consegue fazer.

Dicas: Ajustar o nosso timing à audiência é um processo complicado, que requer não só experiência como o uso dos ouvidos e das gravações dos combates em vídeo para posterior análise. Certifica-te que gravas os teus combates e tenta habituar-te a ver o teu combate de fora, mesmo estando lá dentro. Vais chegar lá com repetição.

#2: Ser demasiado duro (ou mole) no que faz

Alguns alunos são incrivelmente tensos no que fazem – querem esmagar o pulso do colega num wristlock ou furar a barriga do adversário com um pontapé. Já outros mal tocam no oponente, com medo de o magoar.

Aqui, procuramos sempre o equilíbrio: algo que pareça agressivo e que o adversário sinta, mas sem consequências no final do combate. Não poderás ter medo do contacto, mas terás de ter técnica suficiente para saber onde acertar antes de desferir o golpe.

Finlay aqui a esticar Harry Smith

Finlay aqui a esticar Harry Smith

Dicas: Não sou propriamente o lutador mais meigo de Portugal, mas (felizmente) também nunca magoei ninguém. E vou sempre preferir levar meia dúzia de socos na cara do que receber 1 murro que nem me toca. Uma frase que sempre esteve na minha memória é esta, de uma das grandes lendas do Wrestling, Fit Finlay: “hit very hard in very safe places”. Nenhum lutador se importará que haja contacto – já o contrário acontecerá.

#3: Não levantar a cabeça

Quando um aprendiz está no ringue, há várias preocupações: não esquecer os spots, acertar este ou aquele golpe para impressionar o público e pensar no que vai fazer a seguir.

No meio de tantos pormenores, muitas vezes nem vemos a cara do lutador. Está a lutar para ele e não para o público ou para a câmara. Tal não só demonstra nervosismo como não dá uma hipótese para a audiência se relacionar com as emoções do lutador.

Dicas: Cria uma ligação com o público, mesmo que este seja o teu professor e o árbitro. As expressões são tremendamente importantes: vem cá acima “respirar” e observa quem está à tua volta e troca menos olhares com a lona.

#4: Achar que o Wrestling são só golpes

Já o disse imensas vezes: os golpes são apenas palavras num combate de Wrestling. As manobras são importantes, mas não são tudo. Podes conhecer imensas palavras “caras”, mas tal não significa que consigas contar uma boa história ou escrever um bom livro. Acontece o mesmo no ringue.

Dicas: Preocupa-te menos no número de suplexes que consegues entregar por combate e mais com o sentido que dás ao teu combate. Pensa em contar uma história, não numa exibição de manobras.

#5: Experimentar manobras que nunca treinou

Se é o teu 3º treino e só aprendeste 3 golpes, serão esses que deves executar. Pensa SEMPRE na tua segurança e, sobretudo, na do teu colega.

Algumas pessoas gostam de “saltar níveis” – é no treino que deves testar manobras arriscadas, mas só depois de dominares as bases. Não precisas de treinar o Moonsault enquanto não tiveres um bom lock-up.

Não guardes aquele brainbuster que nem sabes se consegues fazer para uma surpresa no teu primeiro combate. Nem faças uma maluqueira da 3ª corda que não testaste primeiro num colchão.

Suplex da 3ª corda? Treina-o primeiro.

Suplex da 3ª corda? Treina-o primeiro.

Dicas: Não interessa o número de vezes que já viste aquele Dragon Suplex na televisão; se não aprendeste a fazê-lo antes, não inventes.

#6: Falar demais

Antes de um lock-up dizes ao teu colega “lock-up”. Depois, avisas que vem aí um hammerlock. De lá, dizes “inverte com drop toe hold”.

É normal que queiras estar em controlo. Mas a comunicação no ringue não é um relato de um jogo de futebol. Não só distrais o adversário como corres o risco de estragar o prazer de assistir ao teu combate.

Dicas: Habitua-te ao improviso. Não queiras fazer tudo à tua maneira e deixa-te levar pelo que acontece no combate. O que me traz para o próximo ponto…

#7: Ficar incomodado na altura de improvisar

Muita gente congela quando vê o colega a levantar-se antes do tempo, a ir para o canto em vez de ir para a corda ou a sair do ringue quando não era suposto tal acontecer.

Quanto mais reagires num combate, mais natural e realista tudo parecerá. Não combines 90% do combate – combina 10% e deixa o resto para o momento. Obviamente que para que o resultado seja bom, precisas de bastante experiência e treino. Mas é uma boa prática – quanto mais o teu corpo se adaptar ao que o adversário faz, mais interessante e único o teu produto final será.

Dicas: Vai demorar, mas habitua-te: quanto mais confortável estiveres na altura de improvisar, mais divertido e natural será para ti. Podes ler mais sobre a importância do improviso aqui.

#8: Não procurar a diferenciação

A maior parte dos alunos, quando está a começar, quer ser igual ao seu ídolo. Uma cópia do Jeff Hardy, do John Cena ou do CM Punk. Quer aprender as suas manobras e quando há uma situação pensa “o que é que o meu ídolo faria?”. E eu próprio pensei assim durante muito tempo.

Depois percebi que estava errado. Percebi que ninguém se ia lembrar de mim por ser “parecido com o outro”. Até o Chris Benoit, que conseguiu ser provavelmente a melhor cópia de sempre de um lutador (Dynamite Kid), talvez até superando-o, teve essa comparação todos os dias da sua carreira.

Dicas: Os ídolos são importantes para nos inspirarem e nos manterem motivados. Mas enquanto artistas não devemos procurar ser uma imitação de alguém. Se o teu sonho é chegar à WWE pensa: de que vale seres parecido com o Rey Mysterio ou o Undertaker quando eles já têm o original?

#9: “Sim, mas…”

Já falei do “Sim, mas…” antes porque é algo frequente nos primeiros tempos. Há muitos alunos que se acham especiais ou que pensam que já sabem tudo porque vêem Wrestling há “x” anos. E muitos nem o fazem por mal.

Não me digas esta!

Não me digas esta!

Quando estás a começar, limita-te a aprender as bases, a ouvir o professor e os alunos mais experientes e a fazer o que te é pedido. Mesmo que saibas mais, tem paciência: o teu momento acabará por chegar. Mesmo que prefiras fazer os golpes ao contrário por seres canhoto, aprende a fazer como TODOS os outros fazem e antes de pensares que sabes o que o professor vai dizer, ouve-o até ao fim.

Ah! E não arranjes desculpa para justificar tudo o que te é corrigido.

Dicas: O respeito é muito importante no Wrestling. Mesmo que sintas que há pessoas que sabem menos do que tu ou que “não estão ao teu nível”, deves conquistar o teu lugar no grupo e ganhar o respeito de todos antes de promover mudanças ou pedir tratamento especial. Num mundo em que as vitórias são completamente virtuais, nunca és mais do que os outros.

Conclusão

Se não estás a errar, não estás a tentar. Os erros têm de ser encarados com um sorriso, mais que não seja porque te mostram que o caminho não é por ali. Espero que com este artigo entendas os erros mais populares, para que os possas contornar com maior facilidade na tua escalada até ao sucesso.

Até para a semana malta. Como sempre, venham daí esses comentários, mensagens e tweets!


O 2º Hangouts do PTW é já no Domingo!

O 2º Hangouts do WPT é já no Domingo!

Anunciando o segundo Google Hangouts!

À semelhança do que aconteceu no dia do Elimination Chamber, o Wrestling.PT fará mais um Hangouts, desta feita antes do grande espectáculo do ano, o WrestleMania XXX.

Aqui, contarei novamente com a participação do Afonso Malheiro, do João “Pégaso” Sena e do administrador do Wrestling.PT, Luís Salvador. Desta feita, teremos mais um convidado: Hugo Santos.

Neste episódio, falaremos dos nervos de estar em ringue, de algumas memórias de Wrestlemanias anteriores e, claro, do que esperar este ano.

No Domingo terás mais detalhes, mas se tiveres questões ou sugestões podes colocar desde já. Se ainda não viste, aqui fica o anterior. Até lá!

Sobre o Autor

- Bruno “Bammer” Brito é português, treinou em Calgary, Alberta, Canadá e foi durante 6 anos treinador principal da academia do WrestlingPortugal. Durante esse período, foi responsável por formar alguns dos mais conhecidos e talentosos lutadores nacionais da actualidade e está agora a partilhar as suas experiências com a comunidade do Wrestling PT.

13 Comentários

  1. José Afonso Pereira - há 3 anos

    Muito verdade, tudo o que aqui disseste, acho q todos nós na fase de aprendizagem inicial (digo isto porque estamos sempre a aprender neste business), passamos um pouco por isto… E acho mesmo que a melhor maneira, é admitir os erros, e melhorá-los. Eu já fui um desses casos, do sim mas, e de me justificar, mas para quê? Se erraste, erraste. There’s no turning back. Melhora e comprova isso aos teus professores. Mais um grande artigo, Bammer.

  2. Thanks! Obrigado por leres :)

  3. Silveira9 - há 3 anos

    Excelente artigo part time champion :P

  4. Miguel Costa - há 3 anos

    Excelente artigo!
    Sempre disse e sempre ouvi dizer que não se aprende sem se errar. Errar é humano e quem nunca o fez que se acuse.
    O problema, como tu disseste, acaba mesmo por estar na forma como se reage aos erros e na forma como se ultrapassa e se retira lições dos mesmos.
    Keep it up!

  5. Dantlast - há 3 anos

    Ótimo artigo Bammer. Gostaria de perguntar, qual o “estilo” de PW é o mais desgastante para o profissional e o que é mais arriscado. (powerhouse, highflyer, etc) Finalmente consegui realizar o sonho de lutar, e constantemente venho lutando. Absorvi um pouco do estilo do Jeff e Matt Hardy, porém, sem aquele “complexo” de hardy, como você disse em um post, gostaria de sua opinião sobre esse estilo mais “flyer hardcore” e se tem alguma dica para me dar. Obrigado.

    • Pessoalmente, não sou grande fã desse estilo. Adoro tudo o que tem a ver com high-flying mas a componente hardcore do Wrestling para mim não faz qualquer sentido. Para mim, o Wrestling é uma arte em que procuramos contar uma história com o corpo e onde o objectivo é simular combates realistas e seguros, apelando às emoções da audiência. O “hardcore” estraga a parte da segurança, portanto tudo o que não é seguro 10 vezes em 10 descarto de imediato.

      Relativamente ao desgaste, cada estilo tem os seus prós e contras. Diria que não há um melhor do que o outro – devemos ajustar o nosso treino ao nosso corpo e ao que queremos ser no ringue, para garantir que temos uma carreira longa e sem lesões!

  6. Afonso.A.Q17 - há 3 anos

    Excelente artigo Bammer!

  7. PMB - há 3 anos

    Ótimo artigo Bammer :)

  8. Seth (Reader) - há 3 anos

    Tenho de ser sincero. Adoro os artigos do Bammer. É uma leitura bué fluída e nada aborrecida. Bammer escreve coisas acertadas e de forma humilde.

    “Não sou propriamente o lutador mais meigo de Portugal, mas (felizmente) também nunca magoei ninguém. ” – Humildade ao mais alto nível. Posso afirmar que das poucas vezes que trabalhei com o Bammer, NUNCA me aleijou, e os seus forearms e european uppercuts fazem bué barulho, são bué intensos, mas não doem nada. São muito safe.

    Infelizmente sou um dos exemplos de alunos que diziam “Mas” a toda hora. Mesmo sabendo que não tinha razão, era já um “hábito” tentar justificar os erros. E não só no Wrestling. Faz parte da minha personalidade.

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