Bammer: “Tu e o Booking”

O teu desempenho no ringue está já a um bom nível. Tens procurado encontrar o teu lugar no Wrestling e, como consequência, a tua personalidade no ringue (e fora dele) começa a definir-se. Estás finalmente pronto para dominar o mundo? Não.

Para não seres apenas mais um, precisas de algo que não está nas tuas mãos: um plano criativo.

Criativos- porque precisamos deles?

Já sabemos que ser um bom atleta não chega para vingar no Wrestling. De pouco serve a impulsão no dropkick ou a força no suplex se não existir uma história que crie interesse à volta de um lutador ou de um combate. Numa típica plateia de Wrestling, apenas 5–10% são fãs hardcore (aqueles que conseguem distinguir um wristlock de um hammerlock), pelo que para agradar a todos será necessário bem mais do que apenas uma mão-cheia de grandes manobras durante 2 ou 3 horas.

Para além disso, por muito que uma promo ou um angle desperte curiosidade na plateia, em 95% dos casos enquanto lutador não podes simplesmente ir para o ringue e dizer o que te apetece ou lutar contra quem tens vontade nesse dia. É necessário planear o cenário a médio/longo prazo para cresceres gradualmente dentro da federação, consoante a tua prestação face aos vários adversários que te sejam designados.

Quem vai determinar o que vais fazer em cada espectáculo será então a equipa criativa, pelo que é importante entender onde é que o teu trabalho começa… e acaba.

Um criativo de Wrestling

Destes senhores podes esperar todas as ideias e mais algumas

A atitude a ter

Em muitas promoções de Wrestling, o booker é simultaneamente o promotor. É ele que decide quem quer para um espectáculo, quanto vai pagar aos lutadores e o papel de cada um no show. Por esse motivo, os bookers nem sempre são vistos com bons olhos (afinal de contas, são o “chefe”) mas é importante que percebas que se te procuraram, é porque têm uma ideia para ti e querem utilizar-te para beneficar a marca que gerem.

Se trabalhaste a tua personagem e consegues diferenciar-te dos outros lutadores do teu país, mais chances terás de ser chamado (e, provavelmente, quanto mais personalizado fores, maiores hipóteses terás de te pedirem apenas para seres tu próprio). No entanto, em muitos balneários há uma boa parte de lutadores que são apenas bons wrestlers, pelo que tem de haver um esforço conjunto para que todos os lutadores alcancem um posicionamento único em cada espectáculo- assim serão todos (cada um à sua maneira) memoráveis.

Esses lutadores têm de ter uma atitude positiva que compense a lacuna de personalidade. É muito improvável que, num show de 3 horas, 100/1.000/10.000 pessoas queiram assistir a 10 combates praticamente iguais em que tudo o que está em jogo é apenas a competitividade. O mais provável será criar um “espectáculo de variedades”, com um bocadinho de tudo: combates em equipas, combates entre mulheres, combates de comédia, combates sem regras, etc. Por esse motivo, enquanto lutador deves ser flexível e aceitar ideias criativas com uma mente aberta, pois provavelmente será essa atitude e a vontade de converter qualquer ideia em “ouro” que te garantirão mais visitas à federação.

O público no Raw
Lembra-te: cada pessoa está aqui por um motivo diferente

Naturalmente, se sentes que a ideia não é boa o suficiente deves manifestar-te, mas nunca sem uma boa justificação e um bom par de alternativas. Se és um rapaz de 20 anos com 1.60m dificilmente o promotor quererá que sejas a pessoa mais aterrorizadora e dominante do plantel, por exemplo, pelo que a maioria das ideias deverão fazer sentido, mas se realmente não te sentires confortável sem dúvida que te deves manifestar.

Também convém distinguir aquilo que queres ser daquilo que és realmente- podes querer ser uma máquina de destruição, mas se não fores o lutador mais musculado do plantel essa ideia poderá não parecer muito realista.

Tens de ter uma excelente noção de como és visto pelo exterior. Muitos alunos e lutadores inexperientes têm uma ideia muito vincada do que querem ser, mesmo sem conseguirem traduzir essa ideia no ringue. O problema é que muitas vezes, não são ideias muito originais. Ser apenas “o wrestler” num plantel que conta com melhores lutadores para esse papel, por exemplo, não te vai trazer resultados, a não ser que seja uma companhia que venda apenas workrate, como a ROH que precisa de muitos do género.

Se o teu sonho é chegar a uma companhia de topo sendo apenas um grande wrestler técnico, terás então de chegar a um estatuto semelhante ao do Daniel Bryan ou Kurt Angle, que pelo caminho adquiriram, ainda assim, IMENSA personalidade para condizer.

Ringue do Impact Wrestling vazio

Para teres sucesso neste ringue terás de ser mais do que apenas um bom wrestler

Independentemente do que for pensado para ti, lembra-te: ideias sugeridas pelos bookers podem ser boas oportunidades para testares coisas novas e ver como o público reage. Estas experiências fazem parte e podem trazer-te muitos benefícios mais tarde na tua carreira, pelo que recomendo que sejam sempre encaradas de forma positiva.

Sê proactivo

Como em qualquer emprego onde há chefes, tens 2 hipóteses: ou ficas sentado à espera que te chegue trabalho ou levantas-te e vais à procura de tarefas. No Wrestling, à semelhança de muitos outros locais, a proactividade é valorizada: se tiveres ideias que queiras debater com a equipa criativa (e se procurares tu próprio um posicionamento único para o teu lutador) poderás estar a resolver uma dor de cabeça à equipa criativa- para não falar de que será provavelmente muito mais fácil para ti desenvolver e representar uma ideia que tu tiveste do que uma que alguém teve por ti.

Frequentemente uma ideia gera outra ideia e é possível que os criativos consigam maximizar uma invenção tua. Dificilmente serás criticado por trazer ideias à mesa, a não ser que o faças consistentemente sem a devida reflexão- terá sempre de trazer valor acrescentado tanto a ti como à companhia e tens de estar preparado para defender o teu raciocínio.

Até que ponto têm os criativos poder?

Como em muita coisa na vida, a resposta é “depende”. Se fores um wrestler acabado de chegar, provavelmente a tua opinião servirá de muito pouco. Se fores o principal nome da federação, é possível que te dêem mais ouvidos. No entanto, vai depender mais do teu profissionalismo e da relação que estabeleces com eles.

Idealmente, nunca se tratará de quem tem mais poder mas sim quem tem a melhor ideia para que todos os lutadores fiquem bem na fotografia e o promotor e a audiência saiam a ganhar.

Até que ponto tens liberdade?

A resposta a esta pergunta será igual à anterior- vai realmente depender da importância do espectáculo desse dia. Existem dias em que poderás apenas ouvir “tens 10 minutos para brilhar, vai combinar o combate com o teu colega, ganhas tu” e haverão outros em que terás um guião detalhado sobre o que terás de dizer e o que terás de transmitir durante o combate. Ao microfone, também te poderão apenas dizer “vai ali dizer que não gostas do teu adversário durante 5 minutos” ou dar-te um guião para contares uma história épica de 10 minutos que explica como a rivalidade com o teu adversário desse dia é importante.

Obviamente, cada federação dá uma atenção diferente ao factor “história” e a juntar a isso poderemos ter de equacionar ângulos de câmera, posicionamento dos árbitros, interferências, pontos a destacar pela equipa de comentários e até cortes para anúncios. Novamente, consoante a tua reputação, experiência e peso na companhia, poderás ter direcções mais ou menos rígidas para o que esperam de ti.

Guião de uma edição do Impact Wrestling

Guião de uma edição do Impact Wrestling

O guião

Tradicionalmente, há 2 tipos de guiões:

– em house shows será mais provável apenas encontrares uma folha colada à parede do balneário com o conjunto de combates, os vencedores e eventuais promos, bem como os respectivos tempos.

– em shows mais elaborados, receberás um guião que descreve todo o show, dedicando 2 ou 3 parágrafos a cada segmento que podem relatar com precisão o que é suposto dizer numa promo ou fazer num combate, juntamente com pormenores para a equipa de produção, como quais as músicas de entrada que vão tocar, notas para comentadores e eventuais acessórios necessários.

Como é óbvio, em house shows, por existir menor pressão e maior liberdade, pede-se maior improviso e é geralmente o local para experimentar “ coisas novas”. Aquilo que já foi testado e aprovado fica reservado para os shows mais elaborados (por exemplo os que são gravados para TV/DVD/Web), que terão geralmente maior visibilidade.

O papel dos agentes

A equipa criativa pensa nas histórias e nas personagens mas, se não tiver conhecimento real de Wrestling, dificilmente conseguirá aconselhar o lutador no que diz respeito a manobras. Como uma boa parte dos lutadores são grandes fãs de Wrestling, muitos encontram rapidamente as respostas necessárias para traduzir o guião em manobras; no entanto, para esse efeito, algumas federações têm agentes (como é o caso da WWE ou do WP).

Essas pessoas (que são geralmente bem mais experientes) estão encarregues de pegar no script elaborado pela equipa criativa e traduzir as ideias que lá estão em manobras/sequências de wrestling, ficando de certo modo também responsáveis pela qualidade “teórica” do segmento. Quanto maior o peso dos agentes, menor a liberdade dos lutadores, chegando a um ponto em que podem ser quase meros actores/executantes nas suas mãos. São eles que vão sugerir, por exemplo, uma sequência onde há uma troca de pins, armdrags e dropkicks para comunicar um combate equilibrado e competitivo ou uma vitória por schoolboy para comunicar o oportunismo do vilão.

Aqui, o mesmo se aplica: ideias, proactividade e respeito são mais-valias. Tive oportunidade de ser o agente de muitos combates dos vários shows do WP e sempre ouvi excelentes ideias dos envolvidos, que muitas vezes acabavam por ser melhores que as minhas sugestões.

O outro lado da história

Na minha passagem pelo Wrestling português passei muitas vezes por agente mas nunca quis ter qualquer envolvimento a nível criativo. No entanto, acho fundamental conhecer o outro lado e por esse motivo, à semelhança daquilo que já fiz anteriormente, convidei mais 2 dos meus grandes amigos do WP a dar o seu parecer sobre este tema.

São eles:

– O Afonso Malheiro, que para além de ser uma das personagens nos Webshows do WP, foi uma das mentes responsáveis pela maioria dos shows do WP.

– O João “Pégaso” Sena, que começou como wrestler e passou depois por uma fase de um ano em que foi booker e wrestler em simultâneo.

Aqui ficam os seus testemunhos:

Afonso Malheiro

Afonso Malheiro

Ter uma boa relação com os criativos, no caso do WP, era relativamente simples: quem tivesse uma boa ética de trabalho, independentemente do resultado final, era alguém com quem eu gostava de me dar. E sempre tive particular gosto em trabalhar com quem propunha as suas ideias e melhorava o que já estava pensado para uma personagem ou “storyline”.

No fundo, todos queremos que o produto tenha o máximo de sucesso possível, por isso o que é relevante é o mesmo que é relevante quando se treina no ringue: mostrar entrega, aprender e tentar inovar. Também ajuda cultivar uma relação amigável, claro.

Há lutadores que não são (nem é suposto serem) grandes criativos, mas executam muito bem o que estava pensado e dão uma vida às ideias que elas nunca têm no papel ou numa conversa. Com outros, como o Pégaso, sempre foi tão simples quanto “Faz aí uma promo de minuto e meio para A, B e C.”

A minha função no WP era pôr as pessoas certas no sítio certo. E, no caso da parte criativa, isso é 1000 vezes mais fácil com um “student of the game”.

João Pégaso Sena

João “Pégaso” Sena

Uma das coisas mais importantes a reter é a preponderância de ter respeito pela tarefa do outro: saber quando acaba o nosso trabalho e começa o trabalho dele.

Um wrestler deve também ter humildade e, quando discorda com a direcção criativa do produto, lembrar-se de que o booker trabalha com uma “big picture” que o lutador provavelmente não vê da posição onde está. Eu próprio já passei várias vezes por alturas em que não gostava da ideia da equipa criativa, mas apesar disso tive fé na sua capacidade e avancei com o que me foi proposto, entregando-me a 100% – e surpresa!- o resultado final foi muito bom, apesar da minha opinião inicial. O lutador maldisposto nem sempre tem razão.

Similarmente, enquanto criativo já recebi propostas de lutadores que divergiam da ideia que eu tinha estruturado a priori e decidi confiar na opinião do meu plantel e deixá-los seguir com a ideia deles. Mais uma vez, acabei agradavelmente surpreendido.

No entanto, há que identificar as melhores alturas e (talvez mais importante ainda) a melhor forma de comunicar discórdia com a equipa criativa. Por exemplo…

BAD IDEA.

Dizer agressivamente que o “booking” não faz sentido nenhum e passar o resto do dia nos bastidores a espalhar a discórdia ao resto do plantel, afirmando que as ideias da equipa criativa são más.

GOOD IDEA.

Com respeito, pedir para falar em privado com os bookers e propor uma alternativa, explicando os benefícios da mesma. Caso esta seja recusada, manter-se fiel à ideia dos bookers e ter fé que vai correr tudo bem.

Mais vale termos todos respeito uns pelos outros e deixar o produto final falar por si, do que entrarmos em guerras para ver quem é que tem razão.


E assim se conclui mais um artigo deste espaço que procura tornar-se o manual definitivo para o (aspirante a) lutador. O que achaste? Era assim que vias o processo criativo? Fico à espera da tua reacção, como sempre, através de comentários, mensagens ou tweets!

Sobre o Autor

- Bruno “Bammer” Brito é português, treinou em Calgary, Alberta, Canadá e foi durante 6 anos treinador principal da academia do WrestlingPortugal. Durante esse período, foi responsável por formar alguns dos mais conhecidos e talentosos lutadores nacionais da actualidade e está agora a partilhar as suas experiências com a comunidade do Wrestling PT.

13 Comentários

  1. OMGMOMENT - há 3 anos

    Diz ao Pegaso que para mim ele tem grande talento, faz isso bammer, por favor!

  2. jmj - há 3 anos

    A wp ja acabou ? Se nao porque que nao houve shows este ano ?

  3. Conspo - há 3 anos

    Bom artigo Bammer. Eu queria perguntar-te uma coisa: Com que anteçedência é que os wrestler recebem o guião? Porque se recebem no próprio dia não percebo como decoram promos tã longas…

    • Obrigado por leres :)
      Bela questão. Já cheguei a receber o guião alguns dias antes do show mas o habitual é ser distribuido no dia D. Na WWE acredito que o mais frequente seja também receberem apenas instruções no dia do espectáculo (geralmente chegam cedo à arena, várias horas antes e têm tempo para preparar os segmentos) e em alguns casos até pode ser o árbitro, através do auricular, a comunicar com os lutadores se existirem decisões a ser tomadas “no momento”.
      Quanto a decorarem promos tão longas… bom a verdade é que raramente esses senhores decoram muito material. Os “grandes” recebem apenas os pontos pelos quais têm de passar e a preparação mental e o improviso tratam do resto. Quando é um confronto entre vários lutadores, terão no entanto que pelo menos decorar as deixas uns dos outros.

  4. Dan - há 3 anos

    Ótimo como sempre! Bammer, gostaria que me explicasse o que é um “lutador técnico”. Por que Daniel Bryan é considerado e, Roman Reigns por exemplo, não? Gostaria que se possivel tirasse essa minha dúvida..obrigado!

    • Obrigado pelas palavras! Bem, geralmente os lutadores técnicos são lutadores que utilizam um estilo mais clássico, baseado em golpes tradicionais de wrestling e menos em brawl ou high-flying. Ao mesmo tempo, têm por hábito trazer grande realismo às lutas, seja pelo perfeccionismo na execução do movimento seja por se esforçarem para que os seus combates façam o maior sentido possível.
      Espero que isso faça sentido!

      • Dan - há 3 anos

        Entendi Perfeitamente! Muito obrigado por finalmente tirar essa minha dúvida!

  5. Bahal - há 3 anos

    Sigo as duas “maiores” companhias de wrestling.. e continuo a afirmar que, apesar das devidas distancias, o wresling portugues apenas precisa de mais exposição.

    Bammer, mostras ter grande conhecimento da area… cada “artigo” teu é uma biblia para quem pretende ingressar no meio. Acredito que nao fazes mais porque “somos” apenas uma minoria que precebe e compreende o meio. Parabéns!

    Com mais exposição mediatica certamente conseguiamos ter lutadores em com carrreiras asseguradas em empresas de topo! O problema surge exatamente nessa exposição… Somos um pais pequeno e se 2% da população visse wrestling eram apenas 200k o que para as nosssa televisões é manifestamente pouco!

    Acho que começar com um show\programa bimestral talvez fosse uma boa forma de se presentarem a população em geral… mas para isso é preciso que alguém aposte em vocês e numm horário que valha a pena!

    • Obrigado por leres e pelas palavras :)
      Sim, é um pouco como referes- nunca se pode esperar de um país desta dimensão e com esta cultura algo similar ao que se vê vindo da América do Norte. Ainda assim, confesso que estou bastante orgulhoso com o facto de existirem neste país 8-10 bons lutadores capazes de impressionar em qualquer local da Europa :)

  6. The Mentalist - há 3 anos

    Que artigo brilhante, muito de minhas dúvidas foram esclarecidas

  7. PM - há 1 ano

    Grande artigo, fiquei a perceber muito melhor o papel dos Hookers.

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