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Impacto! #140 – Wrestling TV (2)

Na primeira parte deste artigo dedicado à relação entre o wrestling e a televisão, trouxe a transcrição das ideias de Vince Russo sobre as negociações entre a TNA e a Spike TV e que penso que mostra o quanto o mercado televisivo hoje não se interessa pelo wrestling. Isto é extremamente preocupante para a TNA, que recentemente viu a Spike TV a renovar o contrato televisivo até ao final do ano. Mas e depois?

Claro que no meio de tantos de rumores houve quem questionasse porque razão a TMZ, um canal de “informação” que se dedica a produzir conteúdo vão sobre celebridades e figuras públicas, de repente surge como órgão de informação privilegiado com interesse num produto de wrestling e no seu futuro televisivo. Estranho. Se me parece que este foi um rumor plantado na TMZ, Dixie Carter confirmou que havia negociações em curso. Por isso, algures entre os rumores de que a Spike TV pretende abandonar os conteúdos de wrestling e uma renovação do Impact Wrestling, estará a verdade de tudo isto.

Independentemente de tudo isto, as discussões que abordam a TV, negociações e possibilidades são intrigantes. Muito intrigantes. É bastante correcto dizer que o negócio do pro wrestling mudou ao longo das últimas décadas. A televisão é hoje e mais que nunca o cálice sagrado do wrestling. As promoções de wrestling hoje prosperam através dos acordos televisivos que conseguem alcançar, uma realidade que afeta não só o mundo do wrestling, mas qualquer negócio na indústria do entretenimento(onde incluo o desporto). Basta ver o exemplo do futebol, onde qualquer clube hoje valoriza muito mais os acordos televisivos que consegue alcançar, em comparação com o número de pessoas que comprar bilhete para ver os jogos. É da televisão e de tudo o que a rodeia que o wrestling gera receitas.

Dito isto, as recentes mudanças no comportamento dos espectadores, sobretudo na forma como acedem à programação e os efeitos desse acesso, alterou a forma como as promoções de wrestling geram receitas, levando a quebras dos modelos tradicionais de audiência televisiva e levou também os canais a olharem cada vez de forma mais indiferente para a indústria do wrestling, bastando pensar, por exemplo, nas dificuldades que a TNA está a passar com a Spike TV e mais grave, com as dificuldades que a WWE tem para vender os seus produtos secundários e inclusive a própria Raw.

Durante o final da década de 90 – talvez o melhor período da indústria do wrestling – havia concorrência no mercado, existiam vários produtos e opções, um conjunto de lutadores e personagens únicos na história do wrestling e verdadeiros superstars, mas ainda assim nesta tempestade perfeita para o pro wrestling, foi negligenciada a súbita exposição do wrestling à audiência na televisão. Foram os anos 90 que mudaram o wrestling televisivo de um produto pontual para um conjunto de transmissões semanais regulares, onde a TV deixou de ser o palco para preparar os eventos ao vivo e passou a ser o próprio evento. Algo que nem a WWF, nem a WCW tiveram a sensibilidade de perceber que um show de wrestling na televisão não pode ser apenas o caminho para um evento ao vivo especial (PPV), nem que o público não está disposto a consumir várias horas de programação ao longo da semana, se esta não tiver significado. O WCW Thunder é exemplo perfeito de como mais horas de televisão sem qualquer investimento, prejudicam mais que ajudam.

Ainda assim, durante os anos 90, o público era mais tolerante ao que estava a ser produzido pelas promoções, simplesmente porque o conteúdo era de difícil acesso. Não sei como era a realidade nos Estados Unidos, mas lembro-me que para assistir a um show de wrestling eu tinha que empregar um enorme esforço e dedicação. Se na minha infância foi uma questão de sorte o Canal 1 investir numa hora de WWF e que anos mais tarde, para retomar esse gosto era preciso aguardar algum canal decidir transmitir wrestling, o que eventualmente aconteceu com a alemã DSF e mais tarde com a TNT, mas não esqueço de ver cassetes de wrestling em casa de amigos e de jogar os raros títulos que chegavam a Portugal para as consolas de então. Felizmente, aos poucos essa busca deixou de ser necessária, com o WCW Nitro a ter hora marcada. Depois veio a internet, no final dos anos 90 já era possível procurar os conteúdos online e descarregar alguns show, com uma qualidade miserável e com downloads que levavam semanas a ficarem concluídos. Com o avançar da tecnologia, felizmente tudo se tornou mais fácil e hoje conseguimos ver um show de wrestling em directo ou descarrega-lo da internet poucas horas depois da sua transmissão. Sites como o Youtube tem hoje um arquivo incrível de combates e shows acessível 24 horas por dia.

Hoje não só os fãs de wrestling têm maior exposição e acesso a conteúdos, como os seus hábitos televisivos também mudaram. Aquela “fome” de wrestling já não existe, quando qualquer um de nós pode hoje facilmente aceder a qualquer hora e em qualquer lado à programação que queremos.

Hoje, facilmente podemos ver em direto qualquer evento da WWE ou da TNA. Sites como o Youtube permitem o acesso aos shows das promoções indies e também internacionais, já para não falar do enorme arquivo de eventos de organizações já extintas (ECW, WCW…) ou de show com décadas de existência. Agora se juntarmos a tudo isto, aquilo que a televisão é hoje, com todo o tipo de conteúdos que transmite, o wrestling tem um grande dilema: como ganhar dinheiro, estabelecer a marca e destacar-se diante dos espectadores, quando o público tem horas quase infinitas de conteúdos concorrentes e as cadeias de televisão têm opções mais baratas de produzir? Parece-me que o espectador tem cada vez mais poder.

Ora mesmo com a mudança repentina no poder, o wrestling precisa da televisão para fins de sensibilização e de receita, enquanto outros produtos (séries e filmes) evoluíram com a mudança, podendo tornarem-se sustentáveis em plataformas como o Netflix através de assinaturas e de alguma publicidade durante a emissão. No entanto, apesar de a WWE estar a oferecer muito conteúdo por um preço convidativo, o Wrestling.pt tem publicado as noticias relativas à venda de subscrições e a procura simplesmente não está lá. Com muita dificuldade, as vendas nem sequer se aproximaram de um milhão de subscritores. Este projecto da WWE é uma ameaça para a restante indústria, pois reduz dramaticamente a procura dos fãs por produtos de wrestling, ao mesmo tempo que obriga as restantes promoções a reduzirem o preço dos seus eventos e produtos. Uma network não é má ideia, no sentido de permitir que os espectador assista ao que quiser, quando quiser, mas na minha opinião este modelo vai arruinar tudo o que esteja fora do universo WWE.

Concluimos então que a televisão mudou a indústria do wrestling, do tempo em que as promoções viviam para os shows ao vivo (como as promoções indy ainda hoje o fazem) para o tempo actual em que o produto televisivo é a prioridade e os chamados house shows são praticamente irrelevantes. Aliás, são raras as vezes que aquilo que acontece num house-show tem impacto no produto televisivo. A TNA não foge a esta regra, mas apesar de tudo consegue dar aos fãs uma boa experiência de wrestling ao vivo, apresentando todos os seus lutadores nesses eventos. No entanto, claramente o foco é a televisão.

O que as organizações hoje estão com dificuldade em ajustar-se é a realidade de que os Pay-Per-Views morreram. Não só as quebras nas vendas tem sido dramática para a TNA e para a WWE, como a própria TNA claramente desistiu do conceito do PPV mensal, enquanto a WWE parece apostada em integrar os PPVs na programação da Network. Aliás, tanto a TNA como a WWE (com diferentes capacidades financeiras) têm procurado fazer a transições para novas realidades e experiências. No caso da TNA com a opção de ter apenas 4 PPVs anuais, pré-gravando os TNA One Night Only e colocando conteúdo pago no seu canal do Youtube. Seja em que formato for, a verdade é que a TNA e a WWE, ambas se estão a afastar do modelo tradicional de PPV mensal que custava aos fãs mais de 40 dólares para aceder. Esta mudança trás um impacto brutal nas contas das organizações. Curiosamente, os únicos desportos que ainda lucram bastante deste forma de PPV são o Boxe e a MMA, que curiosamente beneficiam da pouca exposição dos seus eventos, ou seja, o número de horas de nova programação nestas modalidades é quase nula, aumentando assim o “apetite” dos fãs pelos eventos. Percebem agora onde quero chegar com esta ideia?

O antigo formato de quatro semanas de programas de televisão que desaguam num pay-per-view e alguns house shows para contentar os fãs em mercados locais, funcionou tão bem por tanto tempo, mas agora parece fraturado. Com tanto conteúdo disponível no pro wrestling (mais uma vez, a questão da saturação), os fãs não estão dispostos a desembolsar dinheiro para ver um produto que podem quando quiserem. Aliás, quantos de nós compra os PPVs a que assiste?

A paisagem de pro wrestling está atualmente em mudança. A televisão e o wrestling tem uma ligação única, pois o wrestling tenta manter-se a par das alterações no formato, na acessibilidade, nos hábitos televisivos e na procura, mantendo os fundamentos necessários para a sobrevivência – presença e dinheiro. E, claro, devem fazê-lo mantendo aquele raro equilíbrio de ser um produto de TV e um produto de eventos ao vivo ao mesmo tempo.

Uma coisa é certa, mesmo que a TNA chegue a acordo com a Spike TV, terá obrigatoriamente de olhar para o futuro e delinear um plano que acompanhe os novos hábitos dos fãs. Se a TNA, como a indústria do wrestling, conseguitão eventualmente fazer a mudança só o tempo dirá.

E para terminar, uma pergunta: Mas considerando que hoje há uma quantidade monstruosa de canais, que precisa de uma quantidade quase infinita de conteúdos no ar, não é estranho que em 2014 o wrestling é visto como um produto de baixa qualidade, mesmo quando é capaz de atrair milhões de espectadores regularmente todas as semanas?

Vídeo da Semana

Uma lição de história pelo professor Scott Steiner!

Até ao próximo Impacto!

Sobre o Autor

- Colaborador do Wrestling.PT para os conteúdos da Total Nonstop Action!

7 Comentários

  1. MR Perfection André Santos - há 2 anos

    Excelente segunda parte e levantaste muitas recordações do baú, como por exemplo a exposição do wrestling quando éramos putos. Era quase impossível vermos um PPV ou combates decentes transmitidos em Portugal ou na eurosport. squash matchs era o mote ou o combate entre Tito Santana vs Virgil…que vi 262626277628 vezes quando tinha 12 anos.

    Actualmente vejo o wrestling de uma forma pragmática e com alguns dos valores terem sido perdidos e isto só la vai com uma mudança de conteúdo e de capacidade de tornar as coisas mais interessantes e não uma lavagem de cérebro para vender seja o que for.

    Claro que o dinheiro faz falta para fazer as coisas “andar” mas a preocupação de massacrar os ouvintes com isso faz saturar os fás que procuram alternativas, como ver bom wrestling nas indys. Basta ver o caso de Daniels que vai enfrentar Aj Styles pela 88383838 vez, mas mesmo assim dá pica ver…porque? Não sei mas não houve promoção? Não interessa! Queremos ver wrestling!

    A TV e directos televisivos são essenciais sem duvida mas o que terá mudado para aos média terem desligado a ficha para o wrestling? Solução? Tal como dizes equilibrio!

    Excelente meu caro!

    • E apesar de não ter dito no artigo, eventualmente o wrestling vai ter que reformular a forma como se apresenta. Para conquistar de novo o mercado televisivo irá precisar de largar o estigma que existe de que um show de wrestling é falso e é algo para miudos. Eu pergunto, então e o Breaking Bad ou o Game of Thrones são documentários? A questão é que o wrestling precisa de voltar a encontrar o seu nicho, ou se apresentando de forma mais “cartoonizada” semelhante ao que a WWF fazia no final dos anos 80 inicio dos anos 90, ou terá que seguir para uma vertente totalmente extreme/hardcore em que a noção de “falso” seja ultrapassada por um produto claramente arrojado ao ponto de ninguém questionar a dificuldade do que é feito ou até talvez estaja na hora do wrestling mudar para um formato mais próximo de um filme/série de acção, sem estar confinado ao ringue e às arenas.

      Mas este é o formato e penso que hoje estamos numa era que as organizações terão igualmente de pensar se a televisão é o caminho ou se haverá outras formas de chegar ao público, como e com que regularidade. Até a WWE tem perdido muitos milhões desde este salto para a Network (estou a basear-me nas noticias que vou lendo por aqui). Digamos que neste momento não há respostas, mas certamente quem tiver a sorte de ter uma visão vencedora tem oportunidade de ganhar uma importante fatia de mercado.

  2. Roberto "THE VIPER" - há 2 anos

    Excelente artigo. Este é um bom assunto aqui discutido.
    Eu por exemplo vejo a network aqui no WPT, os combates antigos que quero relembrar e também os atuais vejo no WPT e no Youtube e dailymotion. A uns anos atrás quando eu era ainda menino transmitia-se a WWE aqui no Brasil no SBT mas naquele tempo aqui no Brasil o pessoal ainda não era interessado em Wrestling e o SBT desistiu de transmitir a WWE no Brasil, atualmente tem mais gente interessada. Atualmente no Brasil a WWE e transmitida no Esporte Interativo. Em relação as propagandas na atual programação da WWE tem um tanto que exagerado a propaganda do 9,99, chegando a aparecer em um bolo ou na foto de seu novo Logo. Atualmente o wrestling principalmente da WWE (em minha opinião) tem menos qualidade que em anos atrás, os combates que tinham HBK,Edge,Mick Foley,Austin,Undertaker (em uma melhor condição fisica) e substituido por combates um tanto repetidos e na maioria desses repetidos, combates fracos e com pouca emoção . Espero que nos próximos anos tenham melhores combates e segmentos a WWE pois se querem mais audiência que façam isso e terão mais com certeza. O NXT e tem atualmente um melhor show que o Main Event e o Superstars (em de algumas Smack’s também). A TNA tem atualmente melhores shows que a WWE (não todos os shows da TNA). A network esta ae porque mais subscrições e igual a mais dinheiro, mas que não esta sendo o que a WWE pensava que ia ser, com milhões e milhões de subscrições. Quando tem Raw live por aqui mesmo no WPT, muitas pessoas não veem mais live, colocam esse tempo em dormir ou em fazer outras coisas. Eu sempre vejo live, pois ”ainda” espero que em alguma Raw haja algum um bom show. Parabéns Jorge pelo excelente artigo.

  3. Eu não estou em condições de avaliar o produto da WWE e quem costuma ler o Impacto! sabe que esta seja talvez a primeira vez que fiz referências claras à WWE, mas é inevitável olhar para as tremendas dificuldades que a empresa de referência está a sentir a nivel televisivo, para perceber o quanto a relação entre o wrestling e a televisão está a entrar num período critico.

  4. danielLP21 - há 2 anos

    Excelentes artigos Jorge (este e o da semana passada). A meu ver, o aparecimento da Network é um dos maiores suicídios que a WWE já fez, e que os afectará não só a eles, como ao Wrestling em geral. Para os fãs, a ideia foi fantástica, mas para eles foi um erro de amador. Será que ninguém sabe o que são streams? Que hoje em dia qualquer fã pode ver a Network sem pagar? Começo a achar que são crianças a gerir aquela empresa. Bem sei que é difícil consegui contratos televisivos e as vendas de PPV’s morreram, mas não haveria outra solução? PPV’s incluídos numa mensalidade 10 dólares? Para mim, não tem cabimento nenhum.

    Em relação à TNA, espero sinceramente que consiga o seu contrato televisivo, seja com a Spike TV, seja com outra (desde que seja uma alternativa credível). Não está fácil, e a ver vamos se a mudança para as Quartas-Feiras ajuda, prejudica ou deixa o produto na mesma.

    • A grande questão da transição para a internet é exatamente como levar as pessoas a pagar por conteúdos que estão acessiveis gratuitamente. Neste caso a indústria da televisão e do cinema depara-se com o mesmo problema.

      Penso que a NJPW é um exemplo de sucesso, já que as streams para os eventos deles são quase impossíveis de obter, mas é bom lembrar que é uma promoção que não terá tanta gente interessada em encontrar essas streams.

      Este é um debate importante para o futuro da indústria.

  5. Control - há 2 anos

    Excelente artigo Jorge..A WWE quer empurrar goela a baixo inúmeros shows que na maioria das vezes só pioram a cada semana, vejo como um tanto exagerado toda essa programação e como você destacou bem aquela ‘fome’ de wrestling já não existe mais e a ideia da Network foi um tanto quanto mal elaborada,por que tenho que pagar se posso ver a maioria das coisas(ou praticamente tudo) de graça,ai chegamos a questão dos PPV’s que morreram como disse bem.Hoje temos acesso a tudo a internet nos dá tudo de graça,ai que entramos em mais um assunto sobre isso que são a pirataria de CDs na internet onde você apenas baixa e pronto tudo de graça ,o que gerou bastante confusão com algumas bandas ou artistas quando isso começou,hoje compro CD´s por paixão que tenho ,mas se tratando de wrestling ai é uma questão diferente e em outro contexto é algo muito maior.Espero mesmo que a TNA consiga enfim o seu contrato pois como todos aqui temos um apreso grande por essa companhia,como disse bem só o tempo irá dizer o que vai acontecer.

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