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Opinião Feminina #295 – Fool me once…

Cinco anos depois, a WWE realizou mais uma edição do WWE Draft. Edição que está associada ao regresso da separação do plantel, permitindo que Raw e SmackDown tenham novamente uma oportunidade de competir entre si. Embora nada do que tenha acontecido na passada terça seja definitivo e irreversível ao ponto de condenar à partida uma nova tentativa de criar competição entre o Raw e SmackDown, algumas das decisões tomadas deram que pensar.

Desde que a WWE anunciou que o SmackDown passaria a ser transmitido em direto que surgiram relatos que tal era uma tentativa da USA Network de melhorar as audiências do programa que continuava a pagar o preço de ser o filho bastardo da programação da WWE. Portanto, suponho que é esse o raciocínio necessário para analisar a última edição do Draft – terá sido feito o suficiente para garantir que o SmackDown muda aos olhos dos fãs, ganha um novo respeito e volta a cultivar audiência ou não?

De um ponto de vista superficial, a resposta é positiva. A maior estrela que a companhia teve nos últimos dez anos, John Cena, tornou-se residente permanente do SmackDown. Tal manobra definitivamente coloca um ponto de exclamação no Draft, tendo em conta que esta foi decisão que a WWE se recusou firmemente a tomar há cinco anos. Porém, este ponto de exclamação é acompanhado de um asterisco que a WWE poderá acreditar que é demasiado pequeno para ser notado pelos fãs ou USA Network – a aproximação do fim de carreira de John Cena.

Ao longo das últimas semanas tem sido noticiado que o seu horário tornou-se bastante mais leve e que este não irá aparecer em tantos eventos ao vivo como normal. Isto aliado às suas crescentes propostas de aparecer em filmes de Hollywood, apresentar os mais variados programas e ao seu recente acordo com Leftfield Entertainment para criar vários novos projetos, deixa os fãs curiosos para saber se iremos mesmo ter John Cena a tempo inteiro no SmackDown ou não.

Há catorze anos, The Rock foi escolhido para o SmackDown, mas também passou muito pouco tempo lá exatamente pelas razões apontadas em cima. Será que o afastamento de John Cena será mais gradual e, nos primeiros anos, nem iremos dar pela diferença, ou será que dentro de um ano contam-se pelos dedos as aparições significativas que este fez no programa? É uma questão que apenas o tempo responderá, mas é o suficiente para estabelecer um padrão nas escolhas para o SmackDown.

As restantes estrelas de topo escolhidas são AJ Styles, Randy Orton e Dean Ambrose. Randy Orton, tal como John Cena, faz parte da velha guarda, visto que ambos já alcançaram tudo o que tinham para alcançar na WWE e são dos nomes mais estabelecidos que a companhia tem.

Todavia, ao contrário de John Cena, Randy Orton não é um nome que cause alarme, surpresa ou até excitação em ver transferido para o SmackDown. Randy Orton fez parte do SmackDown durante alguns dos seus anos mais irrelevantes e aborrecidos, portanto esta transferência não significa necessariamente uma mudança de atitude da WWE para com o programa.

Dean Ambrose, por sua vez, é um talento que tem sido claramente desvalorizado como estrela de topo. Este resume-se a ser a pessoa forçosamente porreira que se limita a dizer meia dúzia de piadas, enquanto é derrotado com uma facilidade hilariante pelas estrelas a sério – Brock Lesnar, Roman Reigns, Triple H, entre outros. Colocar Dean Ambrose como estrela principal do SmackDown não abona a favor do programa depois de vermos a forma como Ambrose foi apresentado ao longo dos últimos meses/anos.

No que toca a AJ Styles, embora a sua idade o coloque no grupo da velha guarda com John Cena e Randy Orton, a verdade é que este é uma novidade na WWE e ainda pode ter uns belos reinados e rivalidades com estrelas mais jovens que precisem de brilhar.

Com estas análises não estou a tentar criticar cada uma destas escolhas. Na realidade, até concordo com a maioria – senão todas – apenas estou a tentar salientar o padrão por detrás das escolhas: nenhuma destas estrelas é, aos olhos da WWE, um dos grandes nomes do futuro da companhia. A melhor hipótese para tal é Dean Ambrose e a apresentação dele ao longo dos últimos meses deita essa teoria por terra num ápice.

Este é o primeiro problema que podemos encontra no WWE Draft – como é que o SmackDown pode ser competitivo e visto ao mesmo nível que o Raw, quando nenhuma das estrelas que a WWE considera valiosas para o seu futuro se encontra lá? Resumindo, a apresentação do SmackDown como o filho bastardo continua, porque não possui nada verdadeiramente indispensável. A transferência de John Cena funciona como areia para os olhos, mas não consegue disfarçar que a atitude da WWE não mudou.

Roman Reigns, Seth Rollins, Finn Bálor, New Day, Sami Zayn, Cesaro, Kevin Owens, Rusev, Enzo & Cass e até Brock Lesnar encontram-se no Raw. Estas são as estrelas mais promissoras do futuro da WWE e as mais populares de momento. Estes são também, à exceção de Brock Lesnar, o futuro da WWE. É um facto que o SmackDown também tem alguns nomes que irão, decididamente, fazer parte do futuro, mas são muito menos nomes e são nomes que, ou estão ainda em processo de desenvolvimento, ou apenas não são considerados indispensáveis.

Por coincidência das coincidências, a divisão do plantel deixou o Raw com os brinquedos mais porreiros. O Raw ficou com as duas equipas mais populares da divisão, uma delas detém os títulos de equipas; ficou com os nomes mais sonantes da divisão feminina, incluindo a campeã; ficou com a Divisão de Cruiserweights, embora os comentadores do Cruiserweight Classic estejam ligados ao SmackDown e este último seja o programa que se promove como sendo dedicado ao Wrestling; e ainda ficou com o campeão de Estados Unidos.

Não há qualquer razão para o Raw ficar com três campeões, em breve quatro. Não há qualquer razão para o Raw ficar com a Divisão de Cruiserweights. E melhor ainda, não há qualquer razão para dividir a Divisão Feminina e a Divisão de Equipas.

A WWE não tem a destreza, talento ou dedicação necessária para criar histórias e rivalidades entre várias equipas, em diferentes programas, sem necessariamente envolver os títulos, permitindo assim que os campeões flutuem de programa em programa, portanto eventualmente os fãs irão pedir a criação de mais títulos para os lutadores terem uma desculpa para lutar. E se há uma coisa que, definitivamente, a WWE não precisa é de mais títulos.

Compreendo que o Raw precise de mais elementos, visto que tem uma hora a mais que o SmackDown, mas se apresentar um produto mais focado no Wrestling é a imagem de marca do SmackDown, então o programa deveria ter ficado com a Divisão de Cruiserweights. Afinal, ficou com Kalisto e a Divisão de Cruiserweights era perfeita para ele começar a sua carreira a solo, longe dos Lucha Dragons. O SmackDown deveria ter ficado também com Cesaro, Sami Zayn e Neville.

Tenho sérias dificuldades em acreditar que Cesaro e Neville não se vão perder no Raw, num programa mais concentrado nos desentendimentos entre os seus responsáveis do que nas rivalidades entre os seus talentos. A carreira de Neville desde que se estreou na programação principal é um exemplo perfeito disso. Porque é que agora será diferente? O mesmo se aplica a Cesaro.

Os dois poderiam brilhar e prosperar no SmackDown, com tempo suficiente para deliciar os fãs com as suas habilidades, e eventualmente poderia ser que se tornassem populares o suficiente para fazerem a transição para o Raw. Com tempo para se exibir e brilhar, Cesaro seria uma das estrelas principais do SmackDown numa questão de meses. Basta ver os combates dele para perceber que ele só precisa que lhe acendam o rastilho de tão pronto que está. Talvez seja cinismo, paranóia ou puro pessimismo, mas não consigo acreditar que o Raw irá fazer justiça a Cesaro. Não depois destes anos todos de oportunidades falhadas.

Também menciono Sami Zayn porque, apesar de ter excelentes habilidades ao microfone e ter mais carisma que Cesaro ou Neville, sentia que era necessário este estar num programa diferente de Kevin Owens. Zayn precisa de começar a cultivar uma audiência afastado de Kevin Owens. É preciso que os fãs o comecem a conhecer quando este não está em rivalidade com o seu némesis.

Owens teve oportunidade de fazer isso durante vários meses, mas Zayn ainda não teve. Os fãs da WWE já viram um Kevin Owens antes de Sami Zayn, mas ainda não viram um Sami Zayn sem Kevin Owens. Gostava que Zayn tivesse a oportunidade de, com mais tempo e paciência, num programa dedicado a Wrestling, se dar a conhecer aos fãs. Acho que este teria melhores hipóteses de sucesso com esta oportunidade. No Raw, custa-me mais a acreditar que este não se vá perder um pouco. Se o SmackDown ficasse com estes três talentos, com a Divisão de Cruiserweights e o título Intercontinental, acredito que a divisão fosse mais equilibrada e o programa poderia ser um estrondoso sucesso logo à partida.

O Raw poderia ficar com o título de Estados Unidos, com a divisão feminina e com a divisão de equipas, para preencher a terceira hora, enquanto o campeão principal flutuava entre os dois programas a defender contra os adversários mais merecedores. A Divisão de Equipas e a Divisão Feminina não têm talentos e estrelas suficientes para serem separadas entre dois programas.

Como já disse, o Raw ficou com os melhores brinquedos, enquanto o SmackDown ficou com uma mistura entre a velha guarda e os talentos que estão em fase de apresentação ou desenvolvimento. Não há absolutamente nada de errado com estes critérios de escolha. Simplesmente fomos prometidos algo diferente. Porque estes têm sido os critérios para a escolha de talentos da última década. Para o Raw vão as estrelas a sério, os indispensáveis, para o SmackDown vão aqueles que precisam de desenvolvimento.

E para o SmackDown competir com o Raw, para o SmackDown ter uma hipótese de deixar de ser visto como inferior, como o filho bastardo, estes critérios tinham que mudar e, na terça, vimos que não mudaram.

Pode estar nos planos da USA Network tornar o SmackDown mais relevante, de forma a aumentar as audiências, mas não é esse o jogo que a WWE está a jogar. Ou então não o está a jogar bem e pensa que consegue a insultar a inteligência dos fãs e obter os mesmos resultados. Até poderá consegui-lo, temporariamente, mas eventualmente, tal como já aconteceu no passado, as evidências serão demasiado fortes e o SmackDown perderá interesse novamente.

Não posso dizer que isto me surpreenda particularmente. Desde que foi anunciado que Stephanie McMahon iria lançar uma biografia em outubro e que o objetivo da WWE, com o lançamento do livro, seria preparar a transição pública de Vince McMahon para Stephanie McMahon como cara da WWE, que esperava que Stephanie continuasse a obter imenso destaque em televisão. Stephanie, como mulher de sucesso num mundo dominado por homens, não poderia ficar num programa diferente que os nomes mais sonantes da divisão feminina, assim como ficou com os nomes mais interessantes do plantel.

Isto não é cinismo, nem sequer azia. É um facto. Se o plano da WWE é começar a preparar a transição de Vince McMahon para Stephanie e Triple H, visto que Vince já conta com setenta anos, e Stephanie será a cara, enquanto Triple H é o herdeiro direto no que toca à situação criativa e relações com o talento, então Stephanie não poderia ficar com a mão mais fraca. Publicamente, esta precisa de parecer que sabe o que está a fazer, que é inteligente e que a sua personagem é vital para televisão.

Depois de ter Vince McMahon ao leme da companhia durante décadas, é normal que investidores e restante público fiquem hesitantes quando chega a altura de passar o testemunho. O investimento na imagem de Stephanie é vital para ajudar a transição. Ela não podia ficar aquém do irmão que, até ao momento, não passa de uma figura televisiva e não tem qualquer poder nos bastidores.

Era giro tentar uma estratégia em que os donos não são as estrelas da companhia e os louros do sucesso de um produto de qualidade seriam suficientes para os promover publicamente, mas já não vivemos nesse mundo há muito tempo – e sim, esta parte foi azia.

O Draft foi um conjunto de manobras políticas que em nada beneficiou a campanha que a WWE alegou começar – valorização do SmackDown. Algumas das manobras políticas envolveram a escolha dos talentos do NXT que seriam promovidos à programação principal.

Numa imitação realista do mundo a sério, os comissários e diretores gerais do Raw e SmackDown teriam promovido os campeões e antigos campeões do NXT, ou seja, Samoa Joe, Asuka, Bayley, Finn Bálor, The Revival, American Alpha ou Shinsuke Nakamura. Este último, apesar de nunca ter vencido qualquer título no NXT, foi uma maiores contratações recentes da WWE e tem vencido todos os seus combates. Estas são as escolhas realistas, porque se estes responsáveis estão a tentar lutar entre si para ter os melhores talentos, apresentar o melhor conteúdo e ter as melhores audiências, então apenas faz sentido ir atrás dos campeões ou antigos campeões primeiro.

Não foi isso que aconteceu. Finn Bálor e American Alpha foram os nomes óbvios, mas foram os únicos que fizeram sentido dentro da narrativa que a WWE estava a tentar contar.

Mojo Rawley, Nia Jax, Alexa Bliss e Carmella nunca foram campeões no NXT. Mojo Rawley nunca passou de uma equipa claramente inferior que perde sempre para equipas mais fortes. Alexa Bliss e Carmella lutaram pelo título feminino do NXT, mas nunca em edições especiais do TakeOver, e apesar de apresentarem melhorias óbvias de semana para semana, ainda não chegaram ao topo da divisão. Nia Jax, apesar da sua inexperiência, chegou a lutar pelo título feminino em vários especiais, mas é a eterna dama de honor porque nunca foi campeã. Do ponto de vista da apresentação do Draft, não faz qualquer sentido estes nomes terem sido escolhidos à frente de Bayley ou Asuka.

Todavia, como já disse, o Draft não foi aquilo que tinha sido prometido e os jogos políticos continuaram. Bayley e Shinsuke Nakamura ficaram no NXT, porque a promoção não se podia dar ao luxo de perder as suas duas maiores atrações, embora não faça qualquer sentido continuarem no NXT. Foi pela mesma razão que Finn Bálor ficou no NXT durante dois anos, depois de ter sido noticiado que, tendo em conta aquilo que lhe estavam a pagar, a WWE não iria querer que este desperdiçasse lá muito tempo. Nakamura está na mesma situação.

Como já foi repetidamente referido neste espaço, o NXT evoluiu de território de desenvolvimento na prática para uma pura fachada, onde as suas maiores estrelas são veteranos da indústria e estrelas desenvolvidas que há muito deveriam ter sido promovidos. O NXT precisa de continuar a ser um sucesso e a esgotar bilheteiras, portanto ainda não é altura de certas estrelas serem promovidas.

Além disso, de um ponto de vista político, também ajuda o facto de quase todos os promovidos terem sido estrelas que a WWE desenvolveu de raiz porque vieram de outras modalidades – facto apontado recentemente pelo Wrestling Observer. Desta forma, o NXT não perde as suas grandes atrações, permitindo que este continue a ser um sucesso, e a WWE pode dizer que o Performance Center é um sucesso no que toca ao treino de talentos de raiz, visto que tantos foram promovidos num curto espaço de tempo (Rawley, Corbin, Bliss, Jax, Brooke, American Alpha e Carmella.

Resumindo, o Draft não foi o que era prometido, nem funcionou para cumprir o seu propósito público. Mas também, raramente é. Isto não significa que a divisão de plantel já foi um fracasso e que o mundo está a acabar, mas não é propriamente um bom presságio quando se começa pelo pé esquerdo e se evita resolver os problemas existentes da programação. Mas lá está, quando resolver os problemas não é o objetivo, não se pode dizer que foi um fracasso. Publicidade enganosa, sim. Fracasso? Não.

Excelente semana a todos, até à próxima edição!

Sobre o Autor

- Administradora. Publico parte das notícias, faço a gestão da League, dos Passatempos e ainda sou escritora do artigo “Opinião Feminina”.

8 Comentários

  1. 434 Days - há 4 meses

    Mais um excelente artigo.

    Este draft teve o seu número de desilusões. Embora tenha gostado de uma ou outra escolha para o SmackDown, este foi claramente retratado como inferior apesar de ter um nome sonante como John Cena. Quanto ao NXT, eu percebo de um ponto de vista de negócios, mas os talentos deviam ter o que merecem e por isso os mais dotados já deviam ter subido e vice versa com os que ainda precisam de trabalho.

  2. RFBM - há 4 meses

    Excelente artigo, não há como não concordar. Sublinho a parte onde referes os talentos do NXT que deveriam ter subido e os que não deveriam (pelo menos nesta fase).

  3. Anónimo - há 4 meses

    o artigo opinião feminina nunca fala de pontos positivos apenas os pontos negativos e esta sempre a enxegaro lado negro da wwe

  4. danielLP21 - há 4 meses

    Dizer que o Ambrose não faz parte do futuro mas que o Cesaro faz é um ENORME exagero e sinal de pessimismo.

  5. Anonimo - há 4 meses

    Nao concordo com o campeão deambular por ambos shows a ter feuds com wrestlers dos dois shows. Cada show tem que ter o seu titulo e os wrestlers da raw so lutam na raw e os do smackdown no smackdown. Só nos big 4 quando muito e numa especie de bragging rights é que se deviam encontrar.

  6. Anónimo - há 4 meses

    eu não sou um fã do Finn Balor, mas sei que ele tem uma historia porem acho que Nakamura deveria ter subido a o roster principal mais precisamente ao SmackDown, mas ja estou acostumado as cagadas da wwe principalmente em draft

  7. Maur - há 4 meses

    Excelente artigo, como sempre.

  8. Anónimo - há 4 meses

    Espero que com este RAW e este Smackdown a tua opinião tenha mudado…

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