Opinião Feminina #305 – Talking Smack

Infelizmente, sinto que esta crónica se tornou demasiado negativa ao longo das últimas semanas. Meses. Ou até anos. É possível que seja um reflexo da qualidade do produto apresentado semanalmente pela WWE, assim como pode ser o resultado de crescente cinismo e exigência.

Sei que há uma década não me incomodaria tanto os New Day não terem combates de elevada qualidade e apenas se resumirem à química entre os três e às suas piadas. Também sei que provavelmente não teria ficado tão incomodada com o envolvimento de Triple H no combate que tornou Kevin Owens no novo campeão Universal. A alegria de ver Owens como campeão teria oprimido por completo qualquer receio que o envolvimento de Triple H tivesse causado.

Os últimos anos de Dean Ambrose como bobo da corte não me teriam preocupado ou aborrecido de tudo, pois provavelmente teria achado todas as suas piadas hilariantes e seria a última fã a aperceber-me que talvez não fosse o melhor para a sua personagem. A verdade é que há dez anos estava a ver pela primeira vez os erros que a WWE cometia pela segunda ou terceira vez. Agora, a situação é diferente.

Ora, apesar de cada vez se tornar mais claro que, à exceção de algumas mudanças e de uma óbvia evolução na política de contratações, assistimos frequentemente aos mesmos erros e problemas, apenas com protagonistas diferentes, continuam a existir programas que merecem a nossa atenção, estrelas que merecem o nosso apoio e momentos que irão inevitavelmente, para o bem ou para o mal, ficar na história. Independentemente das razões, por reconhecer todo o pessimismo e energia negativa que esta crónica tem transmitido, hoje quero focar-me num aspeto que a WWE tem controlado e apresentado bastante bem – Talking Smack.

O Talking Smack, juntamente com o Cruiserweight Classic, está na corrida para melhor programa de Wrestling do ano. O que é curioso porque, ao contrário do Cruiserweight Classic e de tantos outros programas, o Talking Smack não envolve Wrestling, por assim dizer. É um programa de conversa, seguindo as mesmas pisadas dos especiais que a WWE transmite sempre antes de qualquer evento. Por essa mesma razão, o anúncio do programa não despertou qualquer excitação nem criou burburinho.

Mais programação, quando a WWE já apresenta Raw, SmackDown, NXT e os ocasionais eventos mensais, era impensável para o calendário de alguém que queira ter um horário de Wrestling minimamente equilibrado. Mais programas de conversa ainda mais impensável era. Enquanto o Cruiserweight Classic proporcionava excelentes combates repletos de emoção e energia, apresentados de forma diferente à habitual, o Talking Smack apenas prometia conversa.

E prometer mais conversa num mundo tão controlado e rígido como o da WWE não é algo que, propriamente, faça os fãs saltar de empolgação para assistir. Todavia, contra tudo o que se poderia esperar, o programa tem sido um sucesso e uma mais valia para o SmackDown e as suas estrelas.

Ao contrário de tudo o que se esperava, em vez de assistirmos a discursos forçados por pessoas que estão a debitar um guião, estamos a ver discursos emocionados e genuínos dados num ambiente relaxado e confortável. O Talking Smack transformou-se num programa onde as estrelas do SmackDown podem testar as suas capacidades orais, assim como apresentar e desenvolver as suas personagens. Que outra coisa se pode dizer da experiência de estrelas como Dean Ambrose, The Miz, Alexa Bliss, Becky Lynch e The Usos no programa?

É curioso, porque o sucesso do Talking Smack vem sugerir que não são só os erros que a WWE tem tendência a repetir, mas também algumas das fórmulas que no passado foram um sucesso, sejam estas aplicadas conscientemente ou não. A ideia de discursos dados em estúdio pelos lutadores, sem qualquer som da audiência e um entrevistador capaz, não é novidade e é definitivamente algo que a WWE apresentou imenso no passado.

Não só o Talking Smack apresenta os lutadores do SmackDown como personagens sérias e multidimensionais, como os deixa explicar, aparentemente pelas suas próprias palavras, quem eles são e o que querem. E se no fim do dia se descobrir que, na realidade, o Talking Smack é tão controlado como qualquer outro programa, então a WWE continua a merecer crédito por apresentar algo que convence os fãs da sua autenticidade.

Porém, se de facto o Talking Smack for tão genuíno quanto se pensa, então a ideia que a WWE deveria esquecer os guiões forçados e dar apenas algumas indicações aos lutadores no que devem dizer volta a ganhar mais força. Torna-se cada vez mais claro que, embora nem todos tenham a desenvoltura e facilidade de falar sem um discurso preparado por terceiros, uma porção significativa do plantel conseguiria sobreviver, quiçá singrar, apenas com indicações.

Há muito que é defendido que este ambiente estéril e forçado prejudica os lutadores e que vários teriam muito mais sucesso ao microfone sem tantas amarras. O Talking Smack vem, definitivamente, apoiar essa versão. No Talking Smack, os discursos soam mais naturais e genuínos do que qualquer outro debitado em direto no Raw ou, em algos casos, SmackDown. O programa serve também de desafio para os membros do plantel para desenvolverem as suas personagens, de forma a que as consigam defender quando chegar a altura de aparecer no programa.

Ao longo dos últimos anos, vários fãs se têm questionado como é que a mesma companhia que apresenta o NXT pode também apresentar o Raw ou SmackDown, dada a discrepância de qualidade entre os programas e de apresentação. O Cruiserweight Classic e o Talking Smack juntam-se ao NXT no elite de programas muito diferentes da programação considerada principal.

É curioso porque o Talking Smack não é apenas diferente, é também melhor a apresentar e desenvolver personagens do que o Raw que, por acaso, conta com três horas para o fazer. Isto vem também provar que mais tempo não é a resposta certa quando não se sabe como exibir e enaltecer várias personagens. Mais tempo não serve de nada se não existir uma gestão inteligente do mesmo e uma direção decidida.

Para além da sua fórmula vencedora, existem outras razões para o sucesso do Talking Smack: Daniel Bryan e, em particular, Renee Young. Depois de ter passado anos e anos a contratar mulheres bonitas sem um pingo de carisma para fazerem as entrevistas nos bastidores, a WWE decidiu finalmente recorrer a profissionais que sabem o que estão a fazer.

E há poucos profissionais que sabem tão bem o que estão a fazer na WWE como Renee Young. Desde que surgiu como entrevistadora em 2013 que Young exibiu carisma, atitude e uma pose completamente diferente daquilo a que os fãs estavam habituados a ver nos últimos anos. Young sempre teve a noção de qual era a sua função e as suas reações, aparentemente genuínas e naturais beneficiavam todos aqueles com quem ela interagia.

Young é também a única pessoa que torna os especiais que a WWE transmite antes de cada evento semanal (Kickoff Show) minimamente toleráveis, pois tem nos seus ombros a missão ingrata de coordenar um painel de comentadores, constituído por pessoas que têm pouca vontade de estar presentes ou pouca habilidade para o fazer, durante uma ou mais horas.

Renee Young é, sem dúvida, um dos pilares – senão o pilar mais importante – do Talking Smack e as suas reações dizem tudo. Através do seu trabalho, Renee Young brilha imensamente, sem ofuscar aqueles que tem a função de ajudar. Uma lição que mais figuras na WWE deveriam aprender e seguir.

Do lado oposto de Young, sempre presente no Talking Smack, está Daniel Bryan, General Manager do SmackDown. Bryan tem sido uma figura, de certa forma, controversa no programa, devido ao seu confronto com The Miz. Bryan destaca-se no Talking Smack pela sua sinceridade descontrolada. Na maioria das vezes, este parece não ter qualquer filtro naquilo que diz, descrevendo as histórias mais curiosas no ar ou até mencionando promoções que a WWE sempre tratou como tabu. Já aconteceu este aparecer, em certas edições, mais sossegado e controlado, depois do que apenas se pode supor ter sido um puxão de orelhas pelos oficiais principais da companhia, mas eventualmente este volta ao normal.

A sinceridade e naturalidade de Bryan, para além de reforçar o espírito do programa, jogam bastante bem com Renee Young que, frequentemente, fica chocada ou um pouco atrapalhada com o candor do seu parceiro.

E aqui entramos no meu único receio envolvendo o Talking Smack – honestidade a mais. Por favor, não revirem os olhos, sei que parece que a WWE não consegue ganhar. Ou é condenada por apresentar um produto demasiado controlado e estéril, sem qualquer naturalidade ou carisma, ou é condenada por apresentar algo demasiado honesto. Sei que pode parecer que vou condenar a WWE independentemente das suas ações, mas não é esse o meu objetivo.

Honestidade e genuinidade são aspetos que há muito faltavam na programação da WWE. Aspetos essenciais para o sucesso das personagens que a companhia apresenta. Todavia, precisa de ser uma honestidade que não corrompa as narrativas já estabelecidas pela companhia. A honestidade é uma das grandes razões de sucesso do Talking Smack e, no programa, várias estrelas têm usado honestidade para desenvolver as suas personagens, muitas vezes de formas que a WWE não permite na sua programação principal (ex: The Usos reconhecem que Roman Reigns é a razão para os fãs se terem virado contra si).

Porém, a honestidade também pode vir a ser o calcanhar de aquiles do programa. Quando temos Daniel Bryan a acusar The Miz, um campeão Intercontinental e ex-campeão mundial, de lutar de forma mais soft, estamos a ser sinceros demais. Estamos a desprezar os feitos de The Miz na WWE. Estamos a desprezar o trabalho que foi preciso para lutar no combate principal da WrestleMania e para ser detentor de vários títulos. Isso vai desvalorizar estes feitos, o que irá prejudicar futuras gerações que em breve estarão a lutar por eles.

É preciso honestidade, sim, mas uma honestidade que não destrua por completo as narrativas que são essenciais à indústria. Não nos podemos esquecer que o objetivo, no fim do dia, é contar uma história coerente e emocionante que cative a atenção dos fãs. Haviam outras formas de Daniel Bryan atacar The Miz como lutador, como já explorei em edições anteriores.

Esta semana, John Cena deu mais um exemplo de honestidade perigosa. Não é a primeira vez que John Cena faz algo do género, pois este tem suficientemente liberdade para não precisar de um programa secundário como o Talking Smack para o fazer. O que John Cena disse de Dean Ambrose é fácil de entender e de concordar, porque este não se transformou na grande estrela que todos, em 2012, acreditávamos que este iria ser.

Mas, lá está, a honestidade é uma ferramenta perigosa num mundo que fabrica fantasias como a WWE. John Cena acusou Dean Ambrose, a pessoa que o derrotou de forma limpa dias antes, de ainda não ter concretizado todo o seu potencial.

Então, que significado poderá ter uma vitória de John Cena contra Dean Ambrose? Nada, se este ainda não conseguiu encontrar aquilo que o irá catapultar para o topo. E se John Cena disse isto de Dean Ambrose, depois de Ambrose o ter vencido, então que significado pode ter tido a vitória? Se Dean Ambrose não tem qualquer valor, então John Cena desvalorizou a sua própria derrota e eventual vitória.

Isto é muito semelhante ao que John Cena fez com Kevin Owens no ano passado, depois de Owens o ter vencido de forma limpa. John Cena acusou Owens de não ser um homem e insultou-o repetidamente até à desforra. Apenas depois de ter vencido Kevin Owens é que John Cena reconheceu que este merecia o seu respeito. Sou só eu, ou a ordem lógica dos acontecimentos está completamente trocada?

Não sei o que devo culpar pela honestidade destruidora de John Cena – se o formato do Talking Smack, se o padrão a que John Cena sucumbiu nos últimos anos. Existem argumentos e provas para ambos. Apenas resta um facto – a honestidade é uma ferramenta muito perigosa que deve ser usada cautelosamente e inteligentemente.

Num mundo que fabrica fantasias e sobrevive à base de sonhos, precisamos de naturalidade e paixão, não de verdades que têm o poder de acabar com a fantasia e deixar a narrativa nas mãos dos fãs. Esse é um erro do qual a WWE ainda está a tentar recuperar. De qualquer das formas, o Talking Smack continua a ser o melhor programa que a WWE apresenta atualmente, por ser diferente, empolgante e repleto de paixão e atitude. É um ambiente que proporciona aos participantes a oportunidade de explorar e expor as suas personagens de forma a criarem uma melhor ligação com os fãs. O Talking Smack é, definitivamente, algo a que a WWE deveria prestar mais atenção, não só para aprender o que não deve fazer, mas também para aprender o que deve fazer.

Até à próxima semana!

Sobre o Autor

- Administradora. Publico parte das notícias, faço a gestão da League, dos Passatempos e ainda sou escritora do artigo “Opinião Feminina”.

6 Comentários

  1. danielLP21 - há 2 meses

    Ótimo artigo.

  2. 35antonio - há 2 meses

    Excelente artigo e concordo a 100% contigo.

    O problema, na minha opinião, também é a WWE não se esforçar para manter o mínimo de kayfabe, exemplo disso é o Stone Cold podcast em que o Austin irresponsavelmente expôs o Dean Ambrose. A WWE em vez de abafar um pouco a situação, eles resolvem colocar esse momento no YouTube o que ajudou muitos casuais a virarem-se contra ele. Como tu disseste: a honestidade pode ser muito perigosa.

    Boa noite!

  3. KILL OWENS KILL - há 2 meses

    Grande artigo. Concordo com tudo, principalmente quando fala da Renee e da honestidade ser uma faca de dois gumes.

  4. Gonçalo" the best" - há 2 meses

    Excelente artigo!

    Concordo, é dos melhores programas na WWE.

  5. LuísZiggler - há 2 meses

    Não concordo minimamente com a parte do Brian. A ideia que é “vendida” é de que o campeão heel (com mania que é actor):
    1) Tem um estilo soft onde não quer magoar-se
    2) Não gosta de competir
    3) Não gosta de ser atingido na cara (para poder aparecer nos filmes)

    Como é que isto vai prejudicar a personagem dele…como heel?
    Acho que os comentários do Brian fizeram mais pelo Miz que a escrita dos oficiais da WWE durante anos, até porque lhe deram uma razão genuína para ficar furioso e se defender (em vez de ficar furioso porque, por exemplo, desrespeitam a sua autoridade na Miz TV ou ideias brilhantes do género da programação semanal da RAW). E não acho que ele tenha sido minimamente sincero, acho que foi 100% planeado porque encaixa na personagem do Brian e toca na ferida do Miz de forma credível, não sendo reconhecido pelo valor que sente que tem.
    Gosto do artigo e concordo que é um programa fantástico, mas desta vez não posso dizer que concorde com o resto que é dito!
    Obrigado pelo artigo e opinião anyway!

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