Opinião Feminina #315 – More of the same

A indústria do Wrestling, por ser o irmão bastardo do circo e o primo de quem toda a gente na família tem vergonha do teatro, é frequentemente olhado de lado, desvalorizado e ridicularizado pelos demais. Todos sabemos, por experiência própria, como todos reagem quando dizemos que acompanhamos a indústria. No entanto, não acredito que a indústria mereça tratamento preferencial e acho que deve ser julgada tal como todas as outras formas de arte pelo seu impacto e influência junto da sua audiência. Numa tentativa de melhorar a sua imagem, a WWE passou os últimos anos a tentar fazer uma revolução feminina na companhia e, embora a situação da divisão feminina seja melhor tratada agora do que alguma vez foi na história da companhia, ainda há muito para fazer.

Na mesma altura em que Sasha Banks e Charlotte fazem história ao lutarem no combate principal do Raw múltiplas vezes, terem o privilégio de lutarem num combate de Hell in a Cell e serem o último combate desse mesmo evento, o sexismo e a objetificação de algumas das estrelas da divisão não deixou de existir. Poderão dizer que estou a ser demasiado exigente com a WWE, pois a companhia continua a ser um reflexo da realidade – no que toca aos direitos das mulheres, o mundo melhorou bastante mas não acabou com o sexismo ou com a desigualdade. É justo dizer isso, mas não é razão para pararmos de tentar melhorar as coisas. A pior atitude que se pode ter face à desigualdade – seja ela qual for – é a aceitação ou resignação.

Há algumas semanas, Enzo Amore, completamente despido, cruzou-se com Lana nos bastidores. Enzo Amore, uma das personagens mais adoradas da companhia, um dos heróis da divisão de equipas, expôs-se a Lana nos bastidores, sem qualquer convite da mesma, e foi tudo tratado como se fosse uma gargalhada. Rusev, o marido de Lana em história e na vida real, ficou naturalmente possesso, mas a sua raiva está a ser desvalorizada porque este, em teoria, é o vilão da história.

É hipócrita a forma como a companhia tenta forçar a evolução nuns aspetos – Sasha Banks e Charlotte enfrentaram-se no primeiro Hell in a Cell feminino da história, um combate cuja a única história que tinha era o facto de ser o primeiro – e continua a ser tão retrógrada, primitiva e sexista noutros. Ao fazer com que um favorito dos fãs tenha este tipo de comportamentos, a WWE está a normalizá-los. Está a dessensibilizar os seus fãs para a gravidade dos mesmos. Crianças podem crescer a pensar que podem exibir-se, sem serem convidados, podem fazer comentários insultuosos e sexistas, não só porque viram os seus heróis a fazê-lo um dia, mas porque não percebem o problema do que estão a fazer.

Por vezes, nem acontece conscientemente. Todos nós somos moldados, pouco a pouco, pela educação que recebemos, pelos exemplos que nos são dados e pelo que consumimos. Aquilo que crescemos a ver, subconscientemente, poderá moldar os nossos comportamentos futuros. Como, na altura, não percebemos que aquela atitude era assim tão grave, um dia iremos repetir ou fazer algo semelhante. Nessa altura, duas coisas diferentes podem acontecer – podemos perceber que estávamos errados e deduzir a origem da crença que nos levou a comportar desta forma ou podemos continuar convencidos daquilo em que acreditamos e decidir que são todos os outros que estão a exagerar, a fazer um grande filme, e a querer impor um comportamento politicamente correto a todos.

Enzo Amore, uma das personagens mais engraçadas e carismáticas da WWE, ficou resumido a isto – um pervertido que se expôs a uma mulher nos bastidores e não mostra qualquer remorso ou apresenta pedido de desculpas. Pior, na semana seguinte, Enzo continua a fazer comentários insultuosos e que apenas pioram o seu comportamento inicial. Como seria de esperar da WWE, Lana acaba por seduzi-lo para o atrair para uma armadilha, onde este acaba espancado por Rusev, para que os fãs não tenham dúvidas que Enzo é uma vítima.

Ou seja, a WWE está a normalizar o que ele fez a Lana e está agir como se não fosse nada de mal. Como se Lana e Rusev é que estivessem a exagerar. Afinal, deviam ter apreciado a anatomia de Enzo como a obra-prima que parece ser, não? Tudo isto não acusa só uma enorme falta de criatividade na WWE, como é um desperdício dos talentos em jogo. Nenhum dos envolvidos precisa disto ou vai beneficiar com isto.

Esta situação de Enzo Amore com Lana, não só é sexista e vai contra a dinâmica das personagens, afinal porque raio é que Rusev deve ser vaiado por ter ficado zangado quando um homem se expôs à sua esposa, especialmente sem ter sido convidado a fazê-lo, como não é um caso isolado. Infelizmente, esta não é a primeira vez que Enzo é sexista ou insultuoso e, no que toca à carreira de Lana, o que não falta são exemplos de comentários e comportamentos sexistas que em nada beneficiaram alguma das personagens envolvidas ou avançaram com uma história em particular de uma forma positiva.

Não sei se é porque esta é uma mulher muito bonita ou porque não é uma lutadora ativa como as outras, mas a personagem de Lana tem sido muito mal tratada da pior forma possível. Podemos lembrar-nos de quando John Cena, o eterno herói da WWE, sugeriu que Lana teria feito certos favores para garantir que a vida de Rusev seria facilitada, quando o trio rivalizou no ano passado. E, não que tenha sido pior na altura do que é agora, mas na altura Lana ainda era apenas a representante de Rusev e não tinha sido demasiado sexualizada em televisão.Na altura, Lana e Rusev não tinham qualquer relação romântica em televisão.

Podemos também lembrar-nos dos comentários que The Rock – o Enzo Amore de há quinze anos – quando se cruzou com Lana em múltiplas ocasiões. Não só a comparou a uma prostituta, como sugeriu ter tido relações com Lana em frente ao marido dela. Parece que o caráter de Lana é definido pela sua nacionalidade e afiliação a Rusev e, como ela é vilã, todos os comentários, por mais sexistas, insultuosos e injustos que sejam, são justificados. Mas não são. Nunca são.

E os exemplos não param. Por todo o lado, na WWE, há exemplos de comentários sexistas, desvalorização dos talentos femininos e condescendência masculina. Se tiver que fazer uma lista, então durante os próximos meses não falaremos de mais nada. E, num desenvolvimento curioso, por vezes algumas das senhoras da WWE são colocadas em situações em que são insultuosas e sexistas. Portanto, isto não é uma questão de culpar o género. É uma questão de culpar a mentalidade de quem está por trás da companhia. E quem fala de sexismo, pode falar também de homofobia ou racismo. Comentários homofóbicos não são raros na WWE, especialmente quando falamos de personagens como Enzo Amore ou The Rock.

Enquanto estes comportamentos, estas atitudes absolutamente desprezíveis, forem normalizados pela WWE, existirão pessoas que irão achar que elas são absolutamente normais. Não se pode contar uma história onde o herói, uma pessoa que os fãs tanto veneram, têm estes comportamentos mas eles são desvalorizados porque a pessoa é mesmo muito engraçada ou carismática. Neste momento alguém pode estar a dizer o que The Rock, Enzo Amore, Jerry Lawler e tantos, tantos outros, dizem em televisão porque acha fixe. Ou, porque não acha que é um problema. Neste momento, alguém pode estar a ouvir comentários semelhantes ao que The Rock, Enzo Amore e tantos outros fazem, mas acha que merece ou que não são nada de especial.

Apesar do uso deste tipo de comportamentos que excluem, isolam ou recriminam uma porção da sociedade, acusar uma séria falta de criatividade, seria uma situação um pouco diferente se fossem os vilões a ter estes comportamentos e a serem castigados por eles. De forma a mandar uma clara mensagem que este tipo de atitudes não são aceitáveis. Mas, quando são heróis a fazê-los, para o júbilo e aplausos da multidão, sem mostrar qualquer remorso ou arrependimento, aí torna-se completamente inaceitável.

É porque estes comportamentos são normalizados que, mais tarde, surgem fãs a queixar-se que a atitude politicamente correta das pessoas está a arruinar o entretenimento. É porque estes comportamentos são normalizados que vários defendem que o entretenimento não é espaço para defender a igualdade entre géneros, o respeito e a representação de pessoas de diferentes raças, religiões e orientação sexual. Afinal, só querem relaxar e fugir desses tópicos aborrecidos que dominam as notícias, sem nunca se aperceberem que o entretenimento (e a arte no geral) é sempre influenciada pela sociedade, situação políticas e crenças atuais.

Não é possível isolar o entretenimento numa redoma sem qualquer influência do exterior – mas também não é isso que querem, o que querem é continuar com estes comentários e comportamentos, porque um dia foram ensinados a aceitá-los e a vê-los como nada de especial.

Já lá vão alguns anos desde que assistíamos regularmente a combates em roupa interior, em piscinas e de almofadas, mas a mentalidade continua a mesma. Repetidamente, ao longo da sua curta carreira na WWE, Lana tem sido atacada de forma desnecessária e sexista. De certa forma, esta parece estar a seguir as pisadas de Vickie Guerrero, cuja carreira também foi minada por comentários sexistas, através de constantes ataques ao seu peso e aparência.

Lana chegou ao plantel principal da WWE como parte de uma dupla forte e unida, onde esta era independente e tinha igual importância. Desde a sua chegada, esta foi repetidamente insultada e comparada a prostitutas, assim como várias pessoas deram entender que tiveram relações com ela. Eventualmente, esta aliou-se a outro lutador durante uns meses onde passou por uma mudança de visual e dinâmica. Esta tornou-se uma personagem mais sexualizada com a sua relação romântica com Rusev a tornar-se no ponto focal de toda a sua existência. Agora, Lana é só a mulher que apenas Rusev pode ter.

E durante todos estes anos, foram poucos os momentos em que Lana agiu como uma tradicional vilã. Até à rivalidade com John Cena, esta nunca interferia nos combates de Rusev – combates que este vencia de forma limpa e dominante. Parece-me que tanto Lana, como Rusev, apesar de serem extremamente talentosos e eficientes a comportarem-se como vilões, passaram grande parte do seu tempo no plantel principal da WWE a serem as vítimas das suas rivalidades e a receberem ódio que não mereciam. Rusev está agora na segunda rivalidade consecutiva onde um herói (ou suposto herói, no caso de Roman Reigns) age de forma completamente inapropriada e insulta a sua esposa e, por incrível que pareça, é o vilão por reagir da forma esperada. Lana e Rusev são extremamente talentosos, mas, criativamente, foram completamente desperdiçados ao longo dos últimos anos.

Como se pode ver, a falta de criatividade exibe o pior da mentalidade da WWE e, infelizmente, destrói toda a boa fé que a sua campanha de publicidade (revolução feminina) conseguiu angariar. Há certas atitudes que não podem ser normalizadas e, infelizmente, são aquelas que revelam o pior que ainda existe na companhia.

Peço desculpa pelo atraso na publicação desta edição. Desejo uma excelente semana e até à próxima semana!

Sobre o Autor

- Administradora. Publico parte das notícias, faço a gestão da League, dos Passatempos e ainda sou escritora do artigo “Opinião Feminina”.

15 Comentários

  1. 434 Days - há 4 meses

    Excelente artigo Salgado. Totalmente de acordo.

  2. marcos - há 4 meses

    Excelente! disse tudo. Os caminhos que a WWE toma não escondem entre outros o racismo, a homofia, o sexismo, que fingem combater. Este segmento Lana/Rusev/Enzo foi de dar nojo!

  3. Matheus - há 4 meses

    Sério mesmo esse papinho de politicamente correto ? Sexismo? Machismo? Homofobia? Marxismo você está até aqui? Que nojo…. tirando isso, a parte do Rusev faz todo sentido, afinal como odia-lo como um heel ?

    • Wesley - há 4 meses

      Só porque alguém reclama contra o preconceito é Marxista agora? Não precisa ser de esquerda para luta contra o sexismo, racismo e homofobia.

    • BRUNOju. - há 4 meses

      Nojo de gente como você. Isso sim.

      • Matheus - há 4 meses

        Por causa de pessoas como vocês que o wrestling está do jeito que está, uma chatice total, as indys ainda conseguem se salvar, por exemplo a PWG, ou vão me dizer que a rivalidade Adam Cole vs Candice LeRae foi uma merda? “Candice Suck My Dick” foi incrível… enfim não sei se vão me compreender, mas tudo bem …

      • BRUNOju. - há 4 meses

        Os homens não precisam mandar as mulheres mamarem seus pintos pra algo ser bom. Isso é o sexismo. Homens e mulheres podem interagir sem precisar apelar para isso. Obrigado, espero que tenha aprendido algo.

      • KILL OWENS KILL - há 4 meses

        Quando o sexismo é usado para avançar uma história e construir mais ainda o personagem de filho da puta do Adam Cole aí é plausível e bem foda. Agora em que ajuda o Enzo, Lana e o Rusev esses segmentos de nudez?

    • Tunes9 - há 4 meses

      Podes não concordar com o conteúdo do artigo e aí tens bom remédio, não lês ou então lês e ignoras, mas o mínimo que podes e deves fazer é respeitar quem escreveu, onde está o nojo em dar a sua opinião e o seu ponto de vista, não faltou ao respeito a ninguém, muito menos disse algo sem sentido, eu concordo com o texto, há quem não concorde, mas é uma visão tão credível e aceitável como outra, mais respeito! Quem quer respeito, dá-se ao respeito.

  4. The Boss - há 4 meses

    Excelente, disse tudo e mais um pouco.
    👏👏👏👏

  5. KILL OWENS KILL - há 4 meses

    Outro grande artigo.

    As vezes acho que a WWE pensa ainda estar na década de 90 pra fazer esses segmentos idiotas. Eu vi o pessoal rindo disso no post dessa Raw e só conseguia pensar: sério mesmo? Enfim…

    Até que sou a favor de usar o sexismo para avançar uma história, como foi o caso de AJ Lee em 2012 com o Punk e o Bryan (ok que meses depois já não havia por que continuar com isso, mas essa é a WWE), porém quando há esse sexismo gratuito, eu tenho vontade de cagar na minha mão e jogar na tela… Ainda, além de não ajudar em nada o produto, só vai enterrando mais e mais o Rusev e a Lana.

    Quero falar um pouquinho só da Lana aqui. Mais uma vez a WWE (NXT) tem uma ideia de personagem brilhante e algum tempo depois no MR, essa personagem é sabotada pela própria empresa que a criou. A Lana em 2014 estava a se tornar tão over que os fãs já comentavam que ela poderia acabar por ter mais sucesso que a pessoa que estava a ajudar. Era uma baita personagem, interpretada de forma magistral, porém como é uma mulher bonita (e muito sexy, importante dizer isso) alguém teve a brilhante ideia de deixar de lado aquela Gimmick anti-america, apenas para se tornar motivo de chacota nas rivalidades do seu marido. Isso sim que é saber como cagar uma personagem por completo. Parabéns a WWE e mais parabéns ainda aos que aplaudem e riem disso :)

  6. Y2Jean - há 4 meses

    Espero que Lana esteja esperando o momento certo para pegar o microfone e fazer igual ao CM Punk ou AJ lee

  7. Awesome One - há 4 meses

    Se as personagens da Lana e do Rusev estão a ser extremamente mal retratadas? Estão sem duvida alguma. Mas daí a dizer que o papel que o The Rock vem fazendo durante anos e que o tornou numa das estrelas mais populares de sempre nao é correto? Ele faz tudo o que faz porque é o the rock e the rock pode fazer tudo o que bem entender. Afinal foram as receções que recebeu do publico por fazer isso constantemente que o fizeram chegar a onde chegou. E o objetivo era esse mesmo.

  8. the boogeyman - há 4 meses

    cara, foi um segmento nada de mais,o mundo passa por um complexo de tudo é machismo, o tal do politicamente correto é um perigo, as pessoas querem viver no mundo dos arco-íris, foi td uma grande piada, deixem de ser chatos e ficarem nessa onda por favor

  9. Tunes9 - há 4 meses

    Excelente artigo, como sempre. Concordo a 100% contigo Salgado. Confesso que não estava à espera daquele segmento e achei estranho mas ri, admito, mas vendo as coisas de forma realista, acho que já está desactualizado este tipo de conteúdo e a WWE pode fazer bem melhor indo por outros caminhos.

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