Opinião Feminina #317 – It’s over (for now)

Em 2009, os fãs da WWE tiveram a oportunidade de assistir a mais uma iteração da rivalidade entre John Cena e Randy Orton. Os dois enfrentaram-se ao longo de vários eventos consecutivos. A série de combates foi marcada pelas estipulações escolhidas e pelo facto do título mudar de mãos quase todos os meses.

Uma das estipulações em que os dois lutaram foi “Iron Man”, onde Randy Orton passou cerca de cinquenta segundos, do último minuto do combate, à mercê da manobra de submissão de John Cena. Orton, na altura estava empatado com John Cena, desistiu a míseros segundos do combate terminar. Se tivesse esperado mais alguns segundos antes de desistir, Orton teria tido a oportunidade de vencer o combate na fase de morte súbita. Na altura, o desfecho deste combate irritou-me por várias razões. Apesar de se compreender que, em rivalidades acesas entre talentos especiais, os lutadores sejam capazes de resistir aos efeitos das manobras de submissão ou das manobras finais dos seus adversários, tal é algo que não pode ser banalizado e, infelizmente, foi exatamente isso que aconteceu.

Agora, é raro o combate principal da WWE que não tenha os adversários a aplicar as suas manobras mais perigosas várias vezes, sem qualquer efeito. Já não acontece apenas em situações especiais, com talentos especiais e em histórias que o exijam. Agora tornou-se uma tradição quase mensal, dessensibilizando por completo a audiência.

No que toca a manobras de submissão, acredito firmemente que as pessoas que as sofrem não podem mostrar imunidade demasiadas vezes. Certamente não pode acontecer todos os meses ou em todas as grandes rivalidades. No mundo de imitação da realidade que a WWE apresenta, é imperativo que as manobras de submissão, assim como tudo o resto, sejam minimamente realistas. Na realidade, as pessoas não aguentam muito tempo numa manobra de submissão verdadeira sem desistir ou perder os sentidos. Não é, uma situação onde se fica muito tempo. Perde todo o drama e emoção quando isso acontece. Quanto mais tempo uma pessoa fica numa manobra de submissão sem desistir ou perder os mais sentidos, mais perco o interesse, porque não é credível. Pior do que aguentar muito tempo numa manobra é desistir poucos segundos antes do combate terminar, especialmente numa situação na WWE onde por todo o lado estão monitores com o relógio. Não é realista, o que por sua vez acaba por ser desmotivante para os fãs.

No evento mais recente que a WWE realizou, Roadblock, a WWE apresentou uma situação quase idêntica no combate de Sasha Banks e Charlotte. Não faz, de todo, sentido que Sasha Banks desista poucos segundos antes do fim, depois de aguentar tanto tempo na manobra. É aceitável que desmaie, pouco depois da manobra começar,  mas não é aceitável que, com tantos monitores a mostrar o tempo, Banks desista a poucos segundos de assegurar a vitória.

Não só não é realista, como não é justo para os seus fãs que, em 2016, assistiram a três reinados de Banks – todos duraram poucas semanas, todos começaram em edições do Raw e, em nenhum deles, Banks conseguiu defender o título com sucesso. Banks não beneficiou desta rivalidade. Esta não foi uma rivalidade entre as duas melhores da divisão no auge da sua carreira, onde faria sentido que trocassem as vitórias à vez porque estão tão bem equiparadas. Não foi. É assim que foi promovido e, no futuro, é assim de que esta rivalidade será falada, mas não é a realidade.

Charlotte está no seu melhor, está no auge da sua carreira, mas tal não é o caso de Banks que tem uma enorme desvantagem, em relação à sua adversária.

A transição de Banks do NXT para o plantel principal da WWE foi complicada. Sasha era, claramente, a preferida das três lutadoras que subiram na altura e era frequente os fãs chamarem por ela durante os combates de outras pessoas. Os fãs estavam apenas a reconhecer o facto desta ter feito o melhor trabalho da sua carreira como vilã no NXT. Esta é uma das questões que a WWE precisa de estudar mais cuidadosamente, visto que o NXT tornou-se cada vez mais conhecido e, apesar de não ter o alcance dos vários milhões de telespetadores que assistem na USA Network, as pessoas têm uma melhor noção do que lá se passa.

Graças ao apoio fervoroso dos fãs, Banks continuou como heroína, uma faceta que, não só não lhe assenta tão bem, como não parece merecida. Talentos que singram como vilões podem ser heróis com sucesso, mas apenas depois de atingirem o seu auge – ou perto disso. É preciso que impressionem primeiro com o seu papel como vilões para conquistar o afeto e reconhecimento que os irá ajudar durante a sua temporada como heróis. Lembro-me sempre da ovação ensurdecedora que Triple H recebeu quando voltou de lesão em 2002. Teria a ovação sido tão fantástica se, anos antes, os fãs não tivessem gritado “asshole” a uma só voz?

Apesar do seu trabalho no NXT ser conhecido, as ovações que Banks recebia eram apenas uma fração do que esta tinha o potencial de receber. E, por isso, esta entrou na rivalidade com Charlotte, alguém que já tinha evoluído por completo e estava em completa sintonia com a sua personagem, com uma personagem mal justificada e sem evolução coerente.

O significado histórico que a WWE quer impor a esta rivalidade apenas fraqueja por causa deste aspeto. A qualidade dos combates e até a qualidade da história são aspetos que, quando o talento dos envolvidos é significante, podem ser ignorados. Mas não se pode ignorar a falta de consistência de Banks. Não se pode ignorar que falta ali qualquer coisa e que essa é uma das razões para a rivalidade não ter produzido faíscas. Como se não bastasse Banks não ter uma personagem que lhe assente bem e que consiga defender com talento, a WWE colocou-a numa situação ainda mais complicada devido à forma como a retratou.

Ao longo desta rivalidade, Banks foi campeã três vezes. Os reinados duraram um total de setenta e quatro dias. Banks nunca defendeu o título com sucesso e venceu-o sempre em edições do Raw. Charlotte, por sua vez, não só saiu da WrestleMania 32 como a grande vitoriosa, como teve as oportunidades de vencer no SummerSlam, Hell in a Cell e Roadblock. Para além dos seus rápidos reinados e falta de defesas, Banks ausentou-se durante algumas semanas, supostamente devido a lesão, e foi rapidamente eliminada no combate feminino de Survivor Series.

Não sei se é porque Vince está obcecado com a ideia de Charlotte ser invencível em eventos especiais, no que toca a defender o título, mas a verdade é que, especialmente para uma heroína, Sasha foi retratada como uma derrotada bastante fraca. Não sinto que, graças à falta de desenvolvimento da personagem e destas derrotas cruciais, Sasha Banks seja uma participante equivalente nesta rivalidade “histórica”. Sinto que Banks é apenas uma figura dispensável que está acompanhar Charlotte enquanto esta faz história. Sinto que, no fim do dia, podia ser qualquer outra pessoa no lugar de Banks que não faria diferença. Banks não deixou a sua marca na rivalidade, não fez a diferença e não foi retratada como alguém que está ao nível de Charlotte.

Acho que, apesar de ser complicado, ainda é possível salvar a credibilidade de Sasha. Basta usar todos estes falhanços como motivo para esta se transformar na vilã que deliciou todos no NXT e fez crianças chorar. Mas, para Sasha ter esse efeito, esta precisa de aterrorizar uma heroína bastante adorada, algo que acho que a divisão feminina do Raw ainda não tem. Bayley seria perfeita para esse papel, mas esta obviamente ainda não chegou a esse nível e não tenho qualquer fé que a WWE o irá conseguir.

Tudo isto pode fazer parte de um plano genial da WWE de tornar Banks numa vilã, como pode ser apenas a WWE a fazer os seus habituais disparates criativos. Também podemos ter a sorte de, acidentalmente, a WWE conseguir tropeçar na situação certa, apenas para passar as próximas décadas a fingir que foi cuidadosamente planeado ao maior detalhe.

A verdade é que, neste momento, Banks precisa desesperadamente de voltar às suas raízes e de se manter firmemente afastada de Charlotte durante os próximos meses. As duas enfrentaram-se uma quantidade assustadora de vezes quando se tem em conta que estão apenas no início das suas carreiras. Para comparação, em seis anos, Trish Stratus e Lita apenas se enfrentaram 75 vezes e Lita nem foi a pessoa com quem Trish lutou mais vezes. Já Charlotte e Sasha, em metade desse tempo, contam com quase o dobro dos combates.

Além disso, devido à falta de subtileza da WWE, parece que a companhia queria, à força toda, que as duas tivessem tivessem vários combates históricos já. Esse também foi um dos aspetos que prejudicou a rivalidade – a WWE queria forçar algo que não pode ser forçado. Não se consegue forçar o sentimento de história a ser feita, não se consegue forçar a ideia de um combate ser ou não um clássico. Simplesmente é.  Quando história é feita ou quando um combate é um clássico, ninguém precisa do apontar e, muito menos, repeti-lo até à exaustão. Simplesmente sente-se.

Todavia, a companhia, na sua vontade de ganhar crédito por mudanças que na realidade não aconteceram (basta ver com atenção a mensagem que a rivalidade de Enzo e Lana está a mandar), tenta convencer os fãs à força toda que estão a assistir a feitos históricos. E, tecnicamente estão. Assistimos ao primeiro evento em que as senhoras lutaram no combate principal. Assistimos ao primeiro Hell in a Cell feminino. Para todos os efeitos, é histórico, mas não é emocional, não é natural ou orgânico. Acima de tudo, não é completamente merecido.

Como se tudo isso não bastasse, existe a mania idiótica que persiste há décadas na WWE de dar a derrota ao talento que é oriundo da cidade onde o evento está a acontecer. Não existe uma única razão lógica que justifique Sasha Banks perder em Boston e Charlotte perder em Charlotte. Não existe. Os fãs adoram ouvir a cidade onde nasceram ser mencionada nas introduções e adoram quando um dos “seus” vence, especialmente se estavam lá a assistir. Dá-lhes vontade de voltar sempre que há mais eventos na zona.

O próprio The Miz, um dos mais odiados da WWE, referiu numa entrevista que acha sempre engraçado como, quando estão em Cleveland, Ohio, os fãs ficam todos contentes quando ouvem o nome da cidade ser anunciado, mas de imediato começam a vaiar assim que o apresentador passa ao nome de Miz. Segundo Miz, a única altura em que este é apoiado na sua cidade-natal é quando o nome das mesma é mencionada na sua introdução.

Derrotar, sem qualquer razão lógica para tal, um talento na sua cidade ou país-natal não faz sentido nenhum. Nunca fez sentido nenhum. Apenas desmotiva os fãs que estão presentes. Eu sei que a desculpa histórica para tal atitude é que, desta forma, os fãs odeiam mais fervorosamente a pessoa que derrotou o seu nativo.

A questão é que, como tudo, isso funciona quando é feito ocasionalmente e deliberadamente, não quando é feito como regra máxima porque, por alguma razão, o chefe da WWE gosta de se portar como uma criança petulante que só quer arruinar a alegria dos outros. Quando passa a ser regra, algo que a maioria da audiência da WWE já sabe, os fãs ficam desmotivados e sem uma razão para irem ver o evento quando passa pela sua zona.

Além disso, a desculpa de tal apenas fazer as pessoas odiar mais a pessoa que venceu não é válida nos tempos de hoje. Hoje em dia, as pessoas sabem como funciona o Wrestling e, quando acontece algo que não gostam, têm tendência a culpar a companhia em vez dos lutadores. O heat raramente vai para os lutadores. É uma estratégia estúpida, sem sentido e que nunca resulta em algo de bom.

Apesar de tudo isto que referi, e muito mais, fico feliz por elas terem tido esta oportunidade. Porque apesar de todos os disparates que a WWE cometeu a nível criativo, a WWE fez história. Foi da forma mais anticlimática e forçada possível, mas aconteceu. Apesar de ser a passos pequenos e apenas para melhorar a sua imagem, a WWE está a mudar a forma como os talentos femininos são retratadas. Ninguém espera ver amanhã um combate em roupa interior ou de almofadas no Raw. É mais provável vermos as senhoras no combate principal do Raw do que num combate de almofadas. Quando colocamos em perspetiva toda a história da WWE com a divisão, reconhecemos que as coisas melhoraram. Não foi genuíno, com as melhores intenções ou da melhor forma criativa, mas melhoraram. E, por vezes, isso tem de bastar.

Deixo aqui os meus votos de boas festas a todos. Até à próxima semana.

Sobre o Autor

- Administradora. Publico parte das notícias, faço a gestão da League, dos Passatempos e ainda sou escritora do artigo “Opinião Feminina”.

3 Comentários

  1. Gonçalo" the best" - há 3 meses

    Excelente artigo Salgado! Boas Festas!

  2. Rui Ribeiro - há 3 meses

    Excelente! Boas Festas!

  3. WCW - há 3 meses

    Grande artigo, Salgado. Concordo com 70% de tudo que dissestes.

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