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Pensamentos #115 – William Regal: “Walking a Golden Mile” – 2º Capítulo (1)

Existem incontáveis obras literárias sobre wrestling. Uns são biografias, outros são sobre histórias da estrada, bastidores, carreiras, etc. Existem livros bons, existem livros maus e existem aqueles que se isolam no topo das obras literárias e que se destacam dos demais. E depois existe a auto-biografia de Darren Kenneth Matthews, mais conhecido por todos nós como William Regal. Ao longo de 283 páginas, William conta-nos a história da sua vida. Mas este livro é muito mais que uma simples que as típicas auto-biografias onde tudo é rosas, arco-íris e outras tretas. Este livro é uma verdadeira lição de vida de um homem que nos relata como alcançou o sucesso e os sacrifícios que teve de fazer para o alcançar. Além disso, Regal aborda os capítulos mais negros da sua vida, sejam eles drogas, álcool ou problemas de bastidores. Uma obra verdadeiramente completa que alguém que sabe o que diz.

Wrestling in Wonderland

Antes de eu ir para Blackpool, trabalhei durante seis semanas para juntar algum dinheiro. Fiz alguns trabalhos para o meu pai, mas a maioria do tempo trabalhei para o meu tio Bill, irmão mais velho do meu pai e um das pessoas mais engraçadas com quem eu me dei. A vida é sempre melhor quando andamos com pessoas divertidas. Antes de partir para Blackpool fui visitar o meu avô, que estava muito orgulhoso por eu me ir tornar um wrestler. O meu pai deixou-me ir mas nunca acreditou que eu iria durar muito sozinho no mundo lá fora. Eu queria provar-lhe, e a mim mesmo, que eu conseguia ter sucesso por mim próprio. Ele era um “self-made men” e eu também o queria ser, mas no meu próprio campo.

Eu não queria nada dele e nunca quis. Não era uma situação de “pobre para rico”, era até mais de rico para pobre. Passei de viver numa bela casa, a do meu pai, para andar quase a dormir na rua em Blackpool. E no entanto, quando tinha 16 anos e trabalhava na Blackpool Pleasure Beach, isso era tudo o que eu queria fazer na vida. Eu não queria ir mais além e teria sido feliz se lá tivesse ficado até ao dia da minha morte. Ganhava 5 libras por trabalho. Vivia na Belmont Avenue, numa casa do Steve Peacock, um dos wrestlers, onde ele vivia com a sua família.

Rapidamente eu estava a trabalhar a sério, mas a fazer muito pouco dinheiro. Bobby Baron mandava no wrestling na Pleasure Beach e ainda fazia alguns shows na área circundante com a sua malta. A malta era o Steve Peacock, o meu amigo Peter Thompson e outro tipo chamado Dave Duran. Eu tinha sido aceite como aprendiz, portanto eu tinha de fazer qualquer tipo de trabalho necessário. Eu montava o ringue com o Michael Jessop, que monta ringues há 40 anos mas continua a não saber fazê-lo. Mas todos gostávamos e cuidávamos dele.

Íamos a todo o lado com o nosso ringue. Eu levava as malas, fazia chá, o que fosse preciso. Ás vezes lutava. Outras fazia de árbitro. No fim, desmontava o ringue, metia-me na carrinha e seguíamos para o show seguinte. Fazíamos dois ou três shows por dia bastantes vezes. De manhã estávamos na Pleasure Beach e à tarde podíamos estar noutro sitio qualquer.

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O Peter foi uma grande ajuda para mim naqueles dias. Ele era 10 anos mais velho que eu e deu-me abrigo, ao mesmo tempo que me enriquecia em inteligência. Ele dizia-me o que fazer e o que devia evitar. Quando me lembro de algumas coisas que ele fazia, nem sei como ainda somos amigos. Quando lutávamos, o ring announcer tinha sempre um papel com os nomes para nos apresentar. Os lutadores tinham sempre grande prazer em inventar os nomes mais estúpidos para mim: Bertie Bassett de Littlehampton, Phil Hiscock de Cockermouth, qualquer coisa. E o Peter achava aquilo hilariante.

Só havia um problema na minha vida feliz: eu era um wrestler absolutamente podre. Eu apercebi-me disto na minha primeira semana no trabalho. Fomos a Pontin’s, onde eu ia ser árbitro. Os fãs não se apercebem disto, mas ser árbitro é muito complicado. Bons árbitros são parte vital da nossa indústria. Um bom árbitro consegue fazer um combate mau parecer bom e vice-versa. Eles têm de estar no sitio certo a fazer a coisa certa na altura certa.

Mas nessa noite eu nem sequer ia aprender a ser árbitro porque um amigo meu, George Burguess disse: “Não, eu vou ser árbitro, tu vais lutar”. Fiquei logo em pânico. Eu só tinha feito coisas no ringue na Pleasure Beach e agora ia para a frente de 1000 pessoas no Morecambe. Para o meu primeiro dia, isto era bastante assustador. Mas eu fui posto lá e disseram para ma desenrascar.

Lutei contra um wrestler de Manchester chamado Tiger Tompkins. Eu não sabia fazer grandes coisas. O meu adversário podia atirar-me por cima das cordas e eu fazer uma cambalhota ou uma queda. Assim, quando ele me atirou pelas cordas, eu fiz uma cambalhota que correu mal e mandei de trombas no chão. O público reagiu de imediato e começou a rir-se. Senti que tinha morrido mil vezes. Conseguimos terminar o combate, mas eu sempre me lembrarei da vergonha.

Obviamente que havia muito para aprender dentro do ringue. Mas rapidamente aprendi que também havia muito a aprender fora dele. Haviam poucas posições no card, éramos muito poucos, o que significa que quem tinha lugar, guardava-o muito bem. A maioria deles foi sempre simpático mas sempre me fizeram passar um mau bocado – queria que eu merecesse o meu lugar e isso era justo.

Steve Peacock sempre me tratou bem, mas o Dave Duran passou os dois anos seguintes a dar-me tareias de quase morte. Ele magoava-me o mais que podia. Ele tinha a mania de me pedir dinheiro e nunca devolver. Eu não me importava e sinceramente, eu tinha medo dele. Ele era grande e pesado nos seus 20 e tal anos que gostava de me dar porrada. Ficava inconsciente de todas as vezes. Rapidamente tudo me doía. Estava muito mal das costas. Ia para as casas de banho e tossia sangue. Ele estava determinado em magoar-me e fez um belo trabalho.

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Todos esperavam ser mal tratados quando começavam mas ele estava a abusar. Não me estou a queixar, pois deu-me muito respeito pelo que fazemos. Eu penso que quando aprendemos o negócio, devemos ser dobrados ao máximo e todas as manobras devem ser aplicadas com força para incutir respeito e dureza. Mas as tareias ensinaram-me uma coisa: não estar preocupado em arranjar porrada com alguém. O pior que pode acontecer é levares uma tareia e eu tive que chegue. Eu não me considero muito duro e tareias acontecem muito pouco hoje em dia.

Mas aconteceu naquele tempo. O Dave estava a fazer o seu melhor para me assustar e para que eu não voltasse. Eu pensava diferente: eu estava determinado que ele não ia conseguir. Durante todo aquele Verão, o meu primeiro, foi dia após dia. Mas eu continuava. Dave Durant não ia conseguir tirar partido de mim.

Mas o Bullying não foi a única actividade fora do ringue que eu aprendi. Qualquer bom livro tem de ter uma história de sexo. Bom para as vendas, dizem. Bom, aqui fica a minha.

Eu era pequeno e nunca tinha tido uma namorada. Trabalhava no queria, mas levava bem por fazê-lo. Uma noite de Setembro, fizemos alguns combates e estávamos à espera para os seguintes enquanto havia um concurso de qualquer coisa.
Quando me apercebo, uma rapariga veio ter comigo. Começamos a conversar. Fiquei a saber que ela era de Liverpool e tinha 16 anos. Então, seco como areia, ela disse: “Vais levar-me lá para fora ou quê?”. O meu queixo caiu, mas consegui dizer “Está bem”. Então levei-a para a parte detrás de uma carrinha. Ela levantou a saia, eu baixei os calções e comecei a tentar o meu melhor para lhe dar os melhores cinco segundo da vida dela.

Eu não fazia ideia do que estava a fazer, mas enquanto estávamos naquilo, apercebi-me que na parte da frente da carrinha estavam o Steve, o Peter e basicamente toda a gente que participava no show, a ver e a rir. Ela começou a rir-se também. E ali estava eu, a morrer de vergonha e a desejar que todos me deixassem em paz. Então a música do ringue começou e eu apercebi-me que tinha de ser o árbitro do combate. E como árbitro, tinha de ser o primeiro no ringue.

Deixei a rapariga na carrinha, puxei os calções e corri para o ringue. Passei por lama, pelo stage, pelas cortinas, para o ringue, a suar e a pensar “Isto não me está a acontecer”. Um por um, os wrestlers vieram para o ringue. Estava preparado para o combate quando o Steve virou-se para o público e diz: “Senhoras e Senhores, não podemos lutar com um árbitro que está erecto”.

Mas era verdade. Eu não sabia onde me esconder. Perdi a virgindade numa carrinha. É seguro dizer que a minha vida tem toda a ver com wrestling, de uma maneira ou de outra.

Eu era feliz a lutar mas não estava a fazer dinheiro nenhum. 5 libras por combate era normal, mas era impossível viver com aquilo. O Steve conhecia os donos de um restaurante Indiano e consegui-me um trabalho lá a lavar pratos. Eu terminava o que tinha relacionado com o wrestling e ia para lá ás 10 da noite para lavar, levantar as mesas ou o que fosse. Eles costumavam fechar ás 2 da manhã por isso só chegava a casa ás 3:30. Por isto, eu ganhava o principesco salário de 1 libra por hora.

Trabalhar lá não era só estrelas. Para ter a certeza que tinha algo para comer, eu pegava em frango, enrolava-o e colocava-o em cima de uma parede nas traseiras. Numa das vezes que fui buscá-lo, dei de caras com um cão e um gato á luta pelo meu frango. Passei fome no dia seguinte.

As coisas foram duras no Inverno. Sem dinheiro, tive de me inscrever num centro de emprego, algo que não queria. Na Páscoa, havia wrestling, mas depois havia períodos mortos até ao Verão. Nesse período, pela primeira vez, tive de ceder e arranjar um emprego a sério. Havia uma fabrica de engenharia em Blackpool que oferecia 40 libras por semana. Até ao começo do Verão, aquilo ia servir. Fui lá e fui colocado numa máquina. Ao fim de quatro horas, não aguentava mais. Fui-me embora. O único trabalho normal que tive durou quatro horas. Depois comecei a trabalhar num bar.

Rapidamente era Verão novamente, o que significava outra temporada com o Dave Duran. No começo da temporada ele disse-me:

“Nós podemos ter este Verão fácil ou difícil. Ou me dás algum do teu salário e eu não te dou tareias ou não me dás e eu dou-te porrada”

“O tanas” foi a minha resposta. “Vais ter de me dar porrada, então”

(continua…)

See you next week, here on WPT

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “Pensamentos”.

5 Comentários

  1. zackryderfan - há 2 anos

    continua queremos mais

  2. Galloway - há 2 anos

    Aguardo ansioso o próximo “transcrito” :)

  3. Bill Rods - há 2 anos

    A história deste homem fica cada vez mais interessante… Continua! Um muito obrigado, RicardinhoO, por te dares ao trabalho!

  4. Cláudio Duarte - há 2 anos

    Tou á espera do próximo capítulo :)

  5. danielLP21 - há 2 anos

    A parte do sexo é horrível… As coisas que este homem sofreu! Foi mesmo a primeira vez dele? A gaja era uma cabra…

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