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The People’s Elbow #31 – A Era Dourada

Bons dias a todos, cá estou eu para vos apresentar um novo artigo em mais uma Terça-Feira! Para quebrar a rotina, vou hoje recuar umas décadas para vos fazer uma síntese do que foi a Golden Era da luta livre, que durou todo o período dos anos 80 e acabou no principio dos 90 e que é conhecida pelo estoiro mundial deste desporto, no qual a ascensão da Hulkamania teve um envolvimento fundamental.

Para além desse esquema, poderão contar com a minha opinião sobre as maiores caras desse período, os momentos marcantes que deixou e as diferenças para com as épocas seguintes, quer no modo de combate quer na questão do entretenimento. Sem mais conversas, aproveitem esta viagem!

A Golden Era, referida também como a explosão de popularidade do Pro-Wrestling, ocorreu nos anos 80, devido à expansão da TV por cabo e dos PPV e do esforço empreendido por promotores como Vince McMahon, que retirou a modalidade dum sistema controlado por numerosas companhias regionais para um dominado por duas multinacionais: a sua WWF e a WCW de Ted Turner. Essa década vislumbrou ainda um declínio considerável do poder da NWA (National Wrestling Alliance), que até então dominava a paisagem das lutas profissionais e sustentava a crença na verosimilhança desse estilo de competição.

Logo no inicio desta história percebemos que o dono da WWF, Vince McMahon, foi o responsável pela chegada do Pro-Wrestling ao mainstream. O idoso a quem hoje apontamos o dedo era então um adulto tomado pela lucidez e ambição, a que o seu pai não teve escolha se não encarregá-lo do controlo das operações. Esta divergência de ideias no clã O’Mac e a prevalência da vontade do futuro proprietário da empresa serão discutidas na continuidade desta edição.

Em Março de 1979, por questões de marketing, a World Wide Wrestling Federation foi renomeada, agora sem “Wide”. Nesse ano, Vincent Kennedy McMahon fundou a Titan Sports, que incorporou à WWF a 21 de Fevereiro de 1980, ganhando terreno ao seu pai e a associados como Gorilla Monsoon e, contra os desejos do seu progenitor, iniciou um processo de expansão que alteraria a promoção. O mais velho dos McMahon era conservador quanto ao negócio, estabelecendo a NWA e reconhecendo que o Pro-Wrestling era mais entretenimento do que desporto. A visão do seu filho Vince McMahon tornou-se possível com apenas um passo: assinar com a superstar da American Wrestling Association, Hulk Hogan, que tinha alcançado notoriedade pela sua aparição nos filmes “Rocky”.

Vince McMahon assinou com Roddy Piper para ser o seu rival e, pouco depois, com Jesse Ventura (apesar do seu trabalho em ringue ser limitado por uma falha do pulmão, que causou a sua retirada). Outros wrestlers que fizeram parte do plantel foram André the Giant, Jimmy Snuka, Don Muraco, Junkyard Dog, Greg Valentine, Ricky Steamboat e o Iron Sheik. Durante esta era, os jobbers tiveram papel importante, sendo o mais popular deste período Steve Lombardi. Em 1984, Hulk Hogan foi puxado ao main event quando foi anunciado como Number One Contender ao campeonato do Iron Sheik, derrotando-o no Madison Square Garden e envolvendo-se numa das mais reconhecidas feuds dos Sports Entertainment.

Com toda esta revolução sendo feita, Vince estava capacitado a segurar acordos televisivos, com a WWF sendo exibida ao longo dos EUA e os eventos sendo gravados e vendidos fora da área de distribuição tradicional, quebrando a lei em que a indústria havia sido baseada. Tal facto enfureceu os demais promotores e causou erupção nas fronteiras estabelecidas entre as diferentes promoções de wrestling, forçando-as a competir directamente com a WWF. O acréscimo de vitalidade gerado por isto tudo foi usado para desviar talento dos promotores rivais, assinando com Ted Dibiase, Ultimate Warrior, Randy Savage, Brutus Beefcake, Tito Santana, Jake Roberts, The Honky Tonk Man, The British Bulldogs e The Hart Foundation.

Vince McMahon destacou no documentário “The Unreal Story of Professional Wrestling” que nunca pensou que o seu pai alguma vez lhe venderia a companhia se soubesse o que ele planeava fazer: viajar numa tour nacional, o que requeria investimento de capital, que poderia vergar a WWF ao colapso financeiro. Para ele, a WWF só se tornaria uma promoção nacional se percorresse os EUA numa tour, impossível à data. Então, descobriu uma maneira para obter o capital necessário numa jogada arriscada de tudo ou nada, em que o futuro de toda a indústria caminharia para o sucesso ou fiasco do seu conceito inovador: WrestleMania, em 1985, seria um PPV de sucesso, identificado como o Super Bowl do Wrestling Profissional!

Vista num circuito fechado de televisão, não foi o primeiro “supercard”, dado que a NWA tinha transmitido o Starcade, contudo, a visão de Vince era fazer da indústria mainstream, explorando o lado de entretenimento, tornando o produto acessível a quem não via wrestling. Com a WM inaugural, iniciou-se uma ligação à MTV, no que foi chamado Rock and Wrestling Connection. A atenção da media sobre celebridades levou-o a convidar algumas, incluindo Muhamad Ali, Mr T e Cindy Lauper, a participar no evento, o que ajudou a integrar o wrestling na cultura popular até aos dias presentes, tendo sido renovada com os apresentadores convidados da Raw em 2009-2010. Com o sucesso da WM, o mercado expandiu-se significativamente pelos próximos anos, com esse PPV a tornar-se um fenómeno anual e Vince a criar mais PPV’s com tradições e estipulações únicas, como o SummerSlam, Survivor Series e o Royal Rumble.

O foco no entretenimento em vez de no desporto (política que se tornaria os Sports Entertainment) levou a um grande sucesso financeiro, carregado por Vince e Hulk Hogan. Para além da Hulkamania e do emergir da WM, outro legado do patrão dos desportos de entretenimento foi a destruição do sistema de território regional, ainda que muitos fãs tenham ficado desapontados pelo colapso das suas promoções locais e, em muitas dessas áreas, os shows da WWF não tenham sido bem sucedidos economicamente. Por outro lado, graças a isso, a WWF pôde assinar com o melhor talento individual das outras promoções e fazer crescer a Tag Team Division, que incluiu os Rockers, British Bulldogs, Hart Foundation, Demolition etc…

Na metade dos anos 80, a WWF continuaria num sucesso sem precedentes, precipitado pela conexão Rock and Wrestling, período de cooperação entre a WWF e elementos do mundo da música. A ideia foi formada quando o manager Lou Albano conheceu a cantora Cindy Lauper e a sua aparição no video do single “Girls Just Want To Have Fun”. Entretanto, Vince McMahon bookou a artista para segmentos e esta, em contrapartida, contou com a presença de wrestlers nos vídeos para as canções “She Bop” e “Time After Time”. Os lutadores começavam a expandir-se fora dos ringues e Vince McMahon quis aproveitar essa popularidade para um nível mais elevado, pegando em Hulk Hogan, que se tornara uma celebridade pelo seu papel em “Rocky”. Com isso em mente, estreou, a 14 de Setembro de 1985, uma série animada chamada Hulk Hogan’s Rock and Wrestling, estrelando as personagens da companhia, expandindo a sua base de fãs infantil.

Em 1987, realizava-se a terceira WM, que alcançou o maior recorde de audiência para um desporto à porta fechada na América. No main event, Hulk Hogan aplicou o Body Slam (ou Scoop Slam) mais famoso de sempre, “the body slam heard around the world”, e derrotou o seu inimigo André the Giant, aquele com quem travara a primeira grande rivalidade dentro deste desporto. Geralmente, a sexta WM, de 1 de Abril de 1990, é considerada como o ponto final no boom do wrestling, em que se viu a última aparição do gigante francês, que mal se movia no ringue por causa da sua condição de saúde. O main event colocou as duas maiores faces daquele tempo um contra o outro, entendendo-se como uma passagem da tocha de Hogan para Ultimate Warrior, considerado o seu sucessor. O pin no Real American (limpo, diga-se de passagem!) assinalou o final duma era, contudo, Ultimate Warrior não correspondeu às expectativas e o “Brother” ganharia os títulos mais três vezes! Mas isso do descrédito duns para aposta contínua sempre na mesma pessoa já não acontece, pois não?!

Em 1992, alegações de abuso de esteróides anabolizantes e conteúdo sexual alarmaram a imagem de programa familiar da promoção, e os miúdos dos anos 80 tornavam-se adolescentes nos 90, aborrecendo-se com o estilo de luta à la “Banda Desenhada”, virando as atenções dos seus favoritos da infância como Hogan e Jimmy Snuka a favor dos novos Undertaker, HBK, Curt Hennig, Razor Ramon e Bret Hart.

Feito o resumo possível sobre estes anos dourados, constato que tudo começou com uma rebelião, quase como que uma afronta dum filho a um pai na gestão dum negócio. Enquanto Vince sénior não achava necessidade em mudar nada, o júnior desafiou a autoridade parental e foi-se chegando à frente com o seu olhar perspicaz de que teria ali uma mina de ouro que só faltava a senha secreta para que fosse aberta. Essa palavra-passe estava na posse dum homem detestado nos dias que correm, mas que na posição de super herói e exemplo de cidadão americano adicionou o Wresling no mapa dos desportos típicos daquele continente.

Vince daria continuidade à sua noção de “bem contra o mal” (razão que justificasse a marcação de combates e disputas entre os lutadores) com a contratação de “vilões” que se pusessem no caminho do herói loiro. O plantel ficou recheado com as maiores promessas que havia para oferecer e que pusessem o Hulkster a brilhar, cada qual com uma gimnick, factor desenvolvido igualmente pelo Boss Vince McMahon. Muitas dessas personagens surgiam motivadas pelo panorama social e político da altura (Guerra do Golfo, União Soviética) ou de tempos antecedentes (Guerra Fria). O cérebro do dono da empresa e dos seus ajudantes teve a agilidade de com pouco fazer muito: desde personagens assentes em profissões a milionários extravagantes, de reflexos culturais a imitações de cariz cinematográfico, de criadores de cobras a patriotas nacionalistas, tudo servia para moldar aqueles indivíduos em máquinas de fazer dinheiro. As roupas, as falas e os movimentos em ringue constituíam o segredo para os colocar no “ponto rebuçado”.

A construção de combates e a performance em ringue não é igual à das gerações vindouras, tendo muito mais teatralidade (falsidade, para quem quiser…) e recorrendo a um cartel de movimentos menos vasto, com aqueles ataques que mais tarde teriam modificações e variantes e golpes finais não tão esplendorosos e credíveis (Leg Drop, Bionic Elbow etc). Não é por isso que se deve deixar de destacar estes enormes atletas, afinal, estava tudo a consolidar-se, não tivemos um Cristiano Ronaldo antes dum Eusébio ou uns Arcade Fire antes duns Creedence. Se estas lutas são mais chatas que as duma Atitude ou Ruthless Agression Era? Depende de quem nelas participa. Tivemos muitos nabos nesta era dourada, empregados por terem corpanzil e serem fisicamente atrozes, mas também tivemos a técnica oriental do dragão Steamboat (qual Bruce Lee), um espectáculo de actor e lutador como Macho Man, um inventor de manobras como Jake Roberts e um ídolo por natureza Ric Flair. Os spots não são tão perigosos e originais quanto tempos depois, não há saltos a toda a hora para cima do adversário, o modo de acabar o combate pode não ser muito diversificado, mas não é por isso que não se passam uns bons minutos a ver isto. É preciso é saber escolher, tal como agora, e não partir à descoberta com a pulga atrás da orelha…

Vince arrasou totalmente a concorrência e saltou por cima de obstáculos que foram surgindo duma maneira destemida, corajosa e despreocupada. O provincianismo e pequenez de acções da NWA foi derrubada pelo monopólio televisivo e pela atracção dos lutadores em se juntar à companhia. Quando foi preciso comprar comprou, quando tinha de calar calou, tudo para afastar os opositores à sua forma de fazer lucro. Sem escrúpulos e com as ideias estabelecidas, assim se consagrou uma das mentes mais brilhantes desta área do desporto e, como se veria até ao inicio do século XX, o único a conseguir levar a sua avante sem falir.

A WM foi, porventura, o seu grande projecto, o que meteu o nome da empresa como líder do ramo e que permitiu concretizar todos os seus sonhos previamente traçados. Arriscou e fê-lo bem! Não tendo sido o pioneiro, foi quem meticulosamente chamou o público a assistir luta livre, inclusive o não regular, com os convites às estrelas fabricadas pelo cinema e pela MTV, numa troca de favores. Tirou proveito das suas maiores vedetas, que se notabilizavam para além da carreira desportiva, construindo um império comercial que abrangia mais do que simples desempenho em ringue.

Muitos desses performers e entertainers foram perdendo destaque e protagonismo para as novas gerações, não resultando em eras mais recentes por culpa das tais personagens fantasiosas (não é, Lord Tensai?) e move set desequilibrado. Os que continuaram até à PG Era ou próximo dela tornaram-se parte do low card ou interferiram em storylines de consolidação e projecção de novas superstars, como na altura do “Assassino de Lendas”. Maioritariamente, faziam-no a tempo parcial, sob um contrato de lenda ou em simultâneo com funções nos bastidores. A função agora era elevar malta jovem e dar o gosto de os revermos no palco que os eternizou. A própria conjuntura e preparação dum show deste calibre era distinto nos seus tempos áureos e o público estava quase em cima do acontecimento, separado dos astros por gradeamento, num ambiente mais próximo da situação mas igualmente inseguro caso alguma coisa desse para o torto ou corresse mal.

Antes de terminar, quero expressar a minha satisfação com o tema desta semana! Deu-me um gozo enorme pesquisar, aprender, lembrar um período que só visionei com poucos anos de vida na RTP! Espero que tenham gostado tanto como eu e que comentem o artigo e tudo o que ele contém. Fiquem bem, até à próxima!

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “The People’s Elbow”. Nascido a 25/2/90 na margem Sul, fã desta modalidade desde 2009.

4 Comentários

  1. rodrigomcb99 - há 3 anos

    Mais um bom People’s Elbow como sempre, mas que desta vez deu para no meu caso aprender mais sobre os primórdios da grande empresa que é a WWE e sobre o seu fundador. Eu por exemplo não sou muito apreciador do wrestling mais antigo pela razão de que o acho um bocado para o parado sem aqueles movimentos rápidos e dinâmicos como me habituei a ver. Por exemplo acho incrível como é que um lutador ganha um combate com um simples Leg Drop como é o caso do Hogan, não é que hoje em dia não seja usado com finisher como é o caso do Fandango mas este faz a Leg Drop a partir da corda superior e só daí é mais «emocionante» de se ver e parece que é mais eficaz do que aplicar o movimento a partir do chão. Mas isto é a minha opinião e de certeza que há muita gente a preferir ver o wrestling de outros tempos por outras razões. Mais uma vez um bom artigo e que continuem o bom trabalho.

  2. MR Perfection André Santos - há 3 anos

    De louvar este artigo sobre a golden era!!!! Parabéns!

  3. RuiFerreira222 - há 3 anos

    Muito bom artigo! :D

  4. danielLP21 - há 3 anos

    Excelente. Impecável. Muitos parabéns…

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