The People’s Elbow #36 – Perdidos, Não Esquecidos

Bons dias! Na ressaca duma semana em que foi a enterrar o maior ícone do Benfica e do futebol em Portugal e a comoção que isso gerou, venho hoje apresentar alguns atletas que nos foram deixando durante estas décadas. Eddie Guerrero e Chris Benoit (aqueles que saltam à vista quando pensamos em quem perdemos no mundo dos desportos de entretenimento) não serão referidos, pois terão direito a artigos individuais sobre as suas vidas e carreiras noutra ocasião.

Quando se fala em perdas neste ramo das lutas profissionais, muitos ficam para trás à medida que vamos mencionando nomes, ora porque não tiveram tanta relevância quanto outros, ora porque não partilhámos o mesmo tempo. Quero, com este artigo, dedicar uma palavra de apreço a todos eles, que ajudaram a moldar a modalidade que tanto apreciamos. Com o longo historial de mortes existente, esta edição dividir-se-à em várias partes, que serão publicadas com certo espaçamento para que outros temas surjam semanalmente!

George Raymond Wagner (24 de Março de 1915 – 26 de Dezembro de 1963), mais conhecido como Gorgeous George, ganhou popularidade e tornou-se uma das maiores estrelas entre o período 1940-1950, tomando a atenção da media pelo seu carácter carismático. Foi induzido no Corredor da Fama do Pro-Wrestling em 2002 e no da WWE a 27 de Março de 2010. O seu debut ocorreu em 1932 e a sua retirada foi a 7 de Novembro de 1962.

Não sendo particularmente dotado de imponência física, depressa desenvolveu a reputação de lutador com quem era fácil trabalhar em ringue e demonstrou potencial para o entretenimento. Estreou a sua personagem (conhecida como “orquídea humana”) em 1941, com um comportamento exageradamente efeminado e com o cabelo longo. Foi o primeiro a usar uma música de entrada até ao ringue, ao som de Pomp and Circunstance. Vestindo um elegante robe e andando sobre um tapete vermelho, era acompanhada pela sua valet, que transportava um espelho e espalhava pétalas de rosa aos seus pés. Antes do combate começar, o ringue era desinfectado com borrifadelas vindas dum frasco de perfume.

Com o combate iniciado, ele haveria de fazer batota de todas as formas possíveis, sendo o primeiro vilão cobarde da indústria. O seu lema era “Win if you can, lose if you must, but always cheat!”. A sua habilidade como homem do espectáculo e a sua imagem foram tão bem sucedidas que o tornaram o lutador mais famoso da sua época, mudando o curso dos Sports Entertainment para sempre.

A sua grandiosidade teatral levou a que o considerassem apenas um actor, quando na verdade ele era muito competente em ringue, começando a aprender o desporto no Wrestling amador em adolescente, chegando a ser o mais bem pago do mundo. A 12 de Março de 1959, tivemos o primeiro combate em que o perdedor perderia o seu cabelo, o que para alguém como George era ultrajante, perdendo o seu cabelo outra vez a 7 de Novembro de 1962, no seu último combate.

Em 1962, foi diagnosticado com um problema muito sério no fígado, motivo da sua reforma, e sofreu um ataque cardíaco a 24 de Dezembro do ano seguinte, morrendo dois dias depois. Não nos sendo uma figura familiar, foi, como aqui representado, muito importante na abertura aos modos de entretenimento e na promoção da caracterização nos lutadores. Essa afirmação como personagem trouxe também estipulações aos seus combates, tendo a sua imagem de marca desfeita por duas vezes. Como imaginam, um homem de cabelo grande não era propriamente defendido em praça pública há 50 anos atrás, e ele pegou nisso, teve a inteligência de beneficiar os heróis que lhe rapavam o cabelo e o humilhavam com tal atitude.

O requinte, a batotice, a superioridade moral, entre outras coisas, serviriam para moldar futuras estrelas que a nós nos dizem mais, mas foi Gorgeous George que lhes desviou os panos para que pudessem passar. Uma curiosidade da sua vida pessoal não deixa margem para dúvida quanto ao seu amor à causa: Casou duas vezes, a primeira das quais em 1939 dentro dum ringue!

Frank Donald Goodish, nascido a 18 de Junho de 1946 em Detroit-Michigan e morto a 17 de Julho de 1988 em Puerto Rico, ganhou grande fama sob o nome Bruiser Brody. Jogador de futebol e basquetebol no liceu, teve a sua estreia no wrestling nos anos 70, ajudando a inovar o estilo “brawling”.

Competiu como freelancer numa série de companhias, incluindo a National Wrestling Alliance, Central States Wrestling, World Wide Wrestling Federation, Texas All Star Wrestling, World Wrestling Council, Deep South Wrestling e World Class Championship Wrestling, tendo numerosas feuds contra Kamala e Abdulah the Butcher. No Japão, esteve numa Tag Team com Stan Hansen.

Tinha a reputação de recusar executar jobs para outros wrestlers. Em 1987, começou a lutar principalmente em Puerto Rico, onde continuou a sua feud com Abdulah, assim como iniciaria uma com Carlos Colon. Em Janeiro desse ano, esteve numa luta de jaula com Lex Luger, na Flórida. A meio do combate, deixou de seguir o que havia sido ensaiado e combinado, não respondendo às tentativas de Luger e do árbitro de falar com ele para que retomasse o acordado. Não tendo resultado, tanto Luger como o árbitro decidiram esquecer o final planeado.

No final do desafio, Luger perguntou-lhe se tinha feito algo mal que o tivesse chateado ao que ele respondeu que o combate simplesmente não estava a funcionar. Com uma resposta pouco clara, soube-se que, antes do confronto, Brody estava aborrecido que Luger não iria vender as suas manobras. Outro cenário era o de que estivesse transtornado com os promotores e decidira embaraçá-los. Todavia, como não há forma de provar esta teoria, é possível que seja só uma lenda urbana, apesar do jornalista Dave Meltzer reclamar que Luger recusara perder e sairia do território, pelo que o promotor Hiro Matsuda ordenou ao seu oponente que o fizesse ficar mal.

Foi casado duas vezes, contudo, o primeiro foi breve e acabou em divórcio a 12 de Outubro de 1970. A sua segunda mulher ficou com ele até à sua morte e tiveram um filho juntos, nascido a 7 de Novembro de 1980. A 16 de Julho de 1988, estava no balneário antes do seu combate quando José Huertas Gonzalez, seu colega, lhe pediu que fosse até aos chuveiros para discutir negócios. Minutos depois, Tony Atlas corria em seu auxílio, vendo-o caído e agarrado ao estômago. Então, olhou para cima e viu Gonzalez com a faca.

As suas últimas palavras foram “Tell my little son I love him and tell my wife I love her too”. Gonzalez, que sempre manteve a sua inocência, foi inicialmente acusado de homicídio em primeiro grau, mais tarde reduzido para homicídio involuntário. Alguns wrestlers apanharam um susto de morte e não prestaram declarações à polícia na altura do evento. Em Janeiro de 1989, o acusado citou autodefesa e Carlos Colon testemunhou contra a vitima do crime durante o julgamento.

Este acontecimento arrepiante não o torna num gigante do ringue, pois vimos acima que não era alguém disposto a cooperar com os seus companheiros, porém, algo deste género cria uma base de seguidores, nem que seja pela maneira como a sua vida lhe foi tirada. Ainda assim, um evento em sua memória (Bruiser Brody Memorial Cup) foi produzido pela World Wrestling Council de 2005 a 2006.

As suas atitudes precipitadas e a desconfiança para com outros elementos dos plantéis não lhe possibilitaram ascender muito mais nos seus 42 anos de vida. O seu finishing move era o Top Rope Jumping Knee Drop e alguns signature moves eram o Atomic Drop, Diving Overhead Chop, Body Slam e Piledriver, tendo como música de entrada “Imigrant Song”, dos Led Zeppelin.

Keith Frank (12 de Setembro de 1954 – 4 de Julho de 1988), mais conhecido pelo seu ring name Adorable Adrian Adónis, debutou em 1974, lutando sob o seu nome verdadeiro. Seria no final da década de 70 que adoptaria o nome e a personagem de Adónis, quando formou uma Tag Team com Jesse Ventura, em 1979.

O World Tag Team Championship da American Wrestling Association pertencer-lhes-ia de 20 de Julho de 1980 a 14 de Junho de 1981, ano em que entrariam na World Wrestling Federation, onde Adónis seria um candidato frequente ao título maioritário de Bob Backlund e pelo Intercontinental de Pedro Morales, durante o ano de 1982. Em 1985, a sua gimnick começaria a mudar com Jimmy Hart como seu manager.

Ele tornar-se-ia o efeminado Adorable Adrian Adónis, com o seu cabelo loiro descolorado, maquilhagem rosa e vestido com roupas de mulher, feudando extensivamente com JYD e George Steele, para além de desafiar Hogan pelo seu título múltiplas vezes.

Em Maio de 1986, estreou o seu talk show “The Flower Shop”. Em Agosto, obteve os serviços do guarda-costas de Piper – Cowboy Bob Orton – ateando uma feud com o escocês, acordando uma Hair vs Hair Match para a terceira WrestleMania, com o Hot Rod a manter a sua farta cabeleira.

Durante 1987, retornou à AWA, mantendo a sua caracterização, agora com o cabelo rapado. Em 1988, tentou um regresso à empresa de Vince, porém, a 4 de Julho, foi morto, quando o condutor da carrinha em que seguia evitou atropelar um alce e, ofuscado pelo pôr do Sol, inadvertidamente caiu num lago, ficando Adónis decapitado, aos 33 anos.

A ânsia pelo alcance da perfeição da beleza elaborou aqui mais uma cópia das mil que apareceram sobre este conceito. No pouco tempo de vida e dadas as limitações que tinha em ser levado a sério, ter interagido com Hogan e Piper não pode ser inferiorizado.

A sua morte estúpida foi uma tragédia, perdeu-se um ser-humano que, noutras condições, podia ter dado mais, até porque teve como managers Bobby Heenan, Freddie Blassie, Jimmy Hart e Paul Heyman. Os seus finishing moves eram um DDT e um Sleeper Hold, sendo os signatures um Knee Drop e um Diving Shoulder Block. Foi distinguido como o lutador que mais evoluiu em 1981, o mais subestimado de 1982, o mais embaraçoso de 1986 e a pior gimnick desse ano e 1987.

Fanene Leifi Pita Maivia (6 de Abril de 1937 – 12 de Junho de 1982) foi um lutador samoano, mais conhecido pelo seu ring name “High Chief” Peter Maivia. Integrante da famosa família Anoai, é o avô materno de The Rock, que podia não ter nascido devido à não aprovação do relacionamento da filha com o wrestler Rocky Johnson.

Promotor nas federações da National Wrestling Alliance no Havai desde 1962, treinou wrestlers como Afa Anoai, o genro e Superstar Billy Graham. Conhecido como o “havaiano voador”, cobriu o abdómen e as pernas com tatuagens tribais, símbolo do status que obtivera como “High Chief”, personagem despoletada pelos seus traços de índio.

Era considerado um irmão de sangue para Amituanai Anoa’i, pai dos “Wild Samoans”, que o tomava como uma extensão do clã Anoa’i. Esse sentimento de tribo muito contribuiu para alimentar a sua personagem.

Foi induzido postumamente no Corredor da Fama da WWE, em 2008, pelo seu neto Dwayne Johnson. Com 1,75 metros e 129 quilos, pode ser declarado um dos primeiros high flyers do Pro-Wrestling, sabendo da evolução que tal arte e técnica receberiam daí para a frente.

Com uma gimnick e visual que remetem para outro dos pioneiros do alto risco e manobras aéreas – Jimmy Snuka – foi um produto da pequena ilha da Samoa, que tem a particularidade de brotar rebentos muito úteis à prática desportiva que nós aqui acompanhamos.

Não sendo fácil tecer muitos comentários à sua carreira, podemos vê-lo no quinto filme da saga 007 – Só se Vive Duas vezes – onde foi, igualmente, o coordenador de luta do filme.

Em 1981, foi diagnosticado com cancro e morreu a 12 de Junho de 1982, aos 45 anos. Os seus finishing e signature moves foram o Inverted Boston Crab e o Samoan Drop, tendo tido como manager Freddie Blassie.

Com estes 4 exemplos de astros que abrilhantam o céu fica dado o mote para futuras edições que conterão personalidades que vos serão mais próximas por terem morrido mais recentemente. Como a luta livre não foi criada ontem, quis vos trazer individualidades dum passado distante e, com o artigo encurtado a pedido de várias famílias, tenho espaço para vos fazer algumas perguntas às quais poderão responder:

Qual a tua relação ou sabedoria acerca destes quatro lutadores mortos?

Qual a história de vida aqui contada te impressionou mais?

Do que leste e conheces, qual ou quais achas que poderiam ter assumido cargos maiores na luta profissional se lhes tivesse sido dado mais tempo de vida?

Qual o motivo para estes quatro não serem tão referenciados entre os amantes da modalidade?

Para a semana estarei de volta com novo assunto, cá vos espero desse lado!

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “The People’s Elbow”. Nascido a 25/2/90 na margem Sul, fã desta modalidade desde 2009.

4 Comentários

  1. simba - há 3 anos

    boa iniciativa gostei bastante

  2. akujy - há 3 anos

    Excelente artigo Miguel. Um belo tema, que é bastante original, e que recorda a história de 4 grandes nomes do wrestling. Pessoalmente já os conhecia, bem como às suas histórias, mas nem todos já ouviram falar nestas personalidades e deste-as a conhecer de forma excelente. Um grande trabalho. Parabéns.

  3. danielLP21 - há 3 anos

    Artigo fabuloso. Ia tudo muito bem, até que li “quis vos trazer”. “Vos trazer”?! Come on dude! “Quis trazer-vos” seria o correcto.

    Peço desculpa pelo aparte. Voltando ao que importa, adorei o tema. Desta vez, não escreveste um artigo extenso e cansativo, o que fez subir sobremaneira a qualidade do mesmo.

    – “Qual a tua relação ou sabedoria acerca destes quatro lutadores mortos?”

    Conhecia apenas o Peter Maivia, por ser o avô do The Rock e uma das razões pelas quais o primeiro nome do “Great One” na WWF ter sido “Rocky Maivia”.

    – “Qual a história de vida aqui contada te impressionou mais?”

    Neste caso, história de morte… Não fazia ideia que tinha havido um lutador assassinado em pleno balneário. A história do Bruiser Brody foi a que mais me impressionou, apesar da morte verdadeiramente estúpida do Adorable Adrian Adólis.

    – “Do que leste e conheces, qual ou quais achas que poderiam ter assumido cargos maiores na luta profissional se lhes tivesse sido dado mais tempo de vida?”

    É muito difícil opinar sobre isso tendo por base apenas este artigo, por melhor que este tenha sido (e foi). Só quem viveu estes anos de Wrestling pode responder a esta questão.

    – “Qual o motivo para estes quatro não serem tão referenciados entre os amantes da modalidade?”

    A meu ver, a distância temporal. É muito difícil, hoje em dia, alguém conhecer estes lutadores sem fazer uma pesquisa exaustiva sobre a história do Wrestling. Se em pleno 2014 temos fãs que nem alguns lutadores da Attitude Era e da Ruthless Agression Era conhecem, quanto mais lutadores das décadas de 50, 60, 70 e 80? E isto será cada vez mais uma realidade.

    Excelente trabalho Miguel. Fico à espera do próximo artigo sobre este tema.

  4. MR Perfection André Santos - há 3 anos

    Sempre um orgulho ver alguém escrever acerca do passado, não porque vivemos em “prol” disso, mas porque é bom recordar todos, que ajudaram e contribuíram para o crescimento do wrestling.

    Qual a tua relação ou sabedoria acerca destes quatro lutadores mortos?
    Todos eles fazem parte de uma fases do wrestling, em que, a TV começou lentamente a tele-visionar os combates, portanto são pioneiros no tempo deles, em relação ao mediatismo que começou a formar no wrestling, devido aos media.

    Qual a história de vida aqui contada te impressionou mais?
    Adonis, sem duvida.

    Do que leste e conheces, qual ou quais achas que poderiam ter assumido cargos maiores na luta profissional se lhes tivesse sido dado mais tempo de vida?
    Talvez Adonis, talvez por ser dos exemplos o mais equilibrado a nivél mental….

    Qual o motivo para estes quatro não serem tão referenciados entre os amantes da modalidade?
    Como mencionei anteriormente, a TV ainda não estava a explorar o wrestling, aparecendo só nos grandes eventos, e raramente em shows semanais, talvez Adonis seja o caso mais relevante, pois lutava algumas vezes no Prime Time Wrestling ou Wrestling Challenge

    Excelente Artigo!

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