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The People’s Elbow #4 – You got stuck in a moment

Ora boas, visitantes do Universo! Cá estou eu com mais uma edição do vosso artigo People’s Elbow, em mais uma Terça-feira! Desta feita, vou falar da dura decisão dum lutador profissional de luta livre se retirar dos ringues.

Sabemos que há quem o faça por achar que é o tempo correcto, a altura certa para se desviar do caminho dos jovens, outros porque já alcançaram tudo o que havia para alcançar, uns por quererem descansar e estar perto da família e outros simplesmente porque o corpo não é o mesmo de há 20 anos atrás e tomam consciência que a sua saúde depende da aposentadoria. Em qualquer destes casos, a atitude tomada é de se aplaudir, por muito que nos custe. O tempo passa e novas promessas começam a despontar.

É preciso, então, abrir espaço para que elas mais facilmente possam brilhar. Contudo, há certos indivíduos neste ramo que estão presos no tempo e querem continuar a viver do que fizeram há 10, 20, 40 anos atrás e ainda esperam que a plateia os receba e ovacione como se o espectáculo por eles apresentado em ringue fosse de alguma forma igual ao que proporcionavam quando eram realmente relevantes para a indústria.

Tem andado pelas nossas televisões a notícia do aumento da idade da reforma para os 67 anos.

As pessoas mais velhas que conseguem exercer a sua profissão, seja ela médico, advogado ou arquitecto, vão continuando a trabalhar e a viver com o rendimento que daí retiram, enquanto os mais jovens que estão a entrar no mercado de trabalho esperam a sua vez. Se aqui há, havia ou devia haver espaço para todos, em profissões mais exigentes a nível físico e competitivo, as coisas não serão assim. Não temos mais Rosa Mota e Carlos Lopes nas nossas pistas de atletismo nem Rui Costa, Figo e Pauleta com as quinas ao peito, e todos eles não chegaram ainda a uma idade avançada.

O desporto é, portanto, uma actividade de curta duração, no que a níveis profissionais diz respeito, e é preciso aproveitar desde cedo. Se Rooney aos 16 anos pisava os relvados pelo Everton, Jeff Hardy combatia pela primeira vez com elevados índices de exigência. O pior não é saber começar, é saber parar.

A carreira dum wrestler de sucesso pauta-se por várias fases: a formação num centro de treinos ou academia, a inserção no seio duma companhia, a consolidação e, nos últimos anos, a elevação de jovens talentos. Até aqui parece-me tudo bem, o pior é quando, chegada aquela que seria a última fase até ao abandono, o atleta em questão não quer deixar alguma das fases anteriores para aceitar a nova etapa que o espera.

Formam-se egos enormes no wrestling e à medida que se vai subindo os degraus da idade, vai-se recusando a adaptação às suas reais capacidades do momento.

Ninguém que chega ao topo quer vir parar cá abaixo.

A solução é valorizar cada tarefa com que o lutador se vá deparando. Se para Chris Jericho elevar jovens é motivo de orgulho e se ele mesmo aceita isso como o seu destino daqui para a frente na WWE, mais ninguém se devia sentir envergonhado com tal missão. Afinal, estamos a falar dum dos melhores do mundo. Como nem toda a gente tem a personalidade deste senhor, há quem continue debaixo dos holofotes em busca de protagonismo e relevância.

Há quem continue a desvalorizar quem e o que se faz agora, apontando o dedo a si próprio quando se fala do melhor que o wrestling já ofereceu, e não devia ser assim.

Um apaixonado por wrestling que esteja por dentro, devia se orgulhar com os produtos da nova geração que estão a começar a aparecer e não tentar ofuscá-los remetendo os fãs para o passado. Há lutadores do passado que podem fazer parte do presente? Há. Mas o futuro não será construído à volta deles, por isso é necessário aprender a sair de cena.

Isso não inclui logo um corte total, mas ir habituando o público a uma menor exposição, para que quando se dê o “exílio” este não entre tanto em choque e para que, entretanto, se tenham habituado a outras caras. Lembro que The Rock e SCSA, quando saíram oficialmente em 2004, fizeram-no com muito menos atenção porque desde 2002 que vinham preparando para essa eventualidade. Foi seguramente uma separação muito menos abrupta que a de Edge, a frio e pelas razões que conhecemos.

Quando retornam para outras funções ou aparições especiais, é difícil que ao saudosismo não se una um grito de “one more match”. Mas homenzinhos como JBL, Mick Foley e Booker T não cederam, pois isso seria apenas por revivalismo e não por poderem acrescentar mais alguma coisa ao que se tem hoje. Muitas bandas se juntam para uma reunião ou concertos de celebração, mas quando essas datas passam, o que fica?

Compreendo que deva ser difícil largar algo de que se gosta e que se conserva há anos ou décadas, mas como referi, há hipóteses que se podem ter em conta.

Quando um jogador de futebol termina a carreira, pode virar treinador ou comentador desportivo.

Um wrestler não tem de deixar o desporto que tanto gosta, pode sempre investir numa carreira como manager, comentador ou trabalhar na preparação e organização dos shows.

Quantas boas surpresas não vim eu a descobrir que ainda trabalham para a WWE, só que com foco diferente de antigamente. Isso só me fez gostar mais delas e orgulhar-me mais.

Afinal, estão a dar o contributo que já não conseguiam dar da maneira que certamente gostavam.

Só que nada dura para sempre e é preciso moldarmo-nos às circunstâncias. Aplaudo mais isso do que gente de 60 ou 70 anos continuar à porrada num recinto de wrestling, como se tivessem algo a provar ou se desapontassem alguém se parassem de fazer aquilo. É que alguns nem reflectem no que estão a fazer.

Jerry Lawler quer voltar a lutar depois de quase nos ter agraciado com uma morte em directo. Ric Flair anda a ver se a WWE lhe arranja um combatezito. Vou pegar nestes dois nomes por uns instantes. Jerry Lawler teve o seu tempo e aproveitou-o como pôde ou como o deixaram e como heel gosto bastante dele, apesar de o ter apanhado mais na mesa de comentadores do que a lutar a tempo inteiro. De repente, de há uns tempos para cá, era vê-lo a castigar a frontalidade de Brian Kendrick, a roubar lugar em Battle Royals e Royal Rumbles e, imagine-se, a ser candidato a títulos! Ric Flair, aí entre 2006-2007, metia dó no ringue.

Um homem calvo, barrigudo e de cuecas, a sangrar da cabeça aos pés, a mandar chops a torto e a direito e a terminar as lutas com o figure 4 era o que tínhamos. Muitos anos levei eu a difamar a prestação do senhor nos ringues. Até que certo dia vi os combates que teve com Ricky Steamboat. Mudei completamente de opinião. A diferença entre épocas era abismal.

Aí compreendi a importância de Ric Flair que não percebera nos anos mais recentes. O homem afinal sabia lutar!

Para quê, posto isto, querer continuar a fingir ser o mesmo que era antes? Se não dá para mais, temos o youtube para rever tudo o que fez outrora. But now get out of my ring!

Quiseram fazer passar, em 2010, que Bret Hart voltaria a competir. Um homem que teve um AVC ia para 10 anos!

Tornaram-no GM, muito bem, foi um gosto revê-lo.

Mas depois fizeram-no ganhar o título USA ao Miz para na semana a seguir o colocar à disposição. What the fuck?

Aqui entra o que fazer com as lendas, principalmente aquelas que se retiraram por motivos de saúde e que sabemos perfeitamente que nunca mais poderão voltar a lutar.

Fazer crer que Bret Hart ia voltar à acção, marcando Bret Hart vs Undertaker numa Raw, quando já se sabia que ia ser interrompido pelos Nexus (ou pelos The Corre, não me lembro bem), não considero de todo a melhor ideia, e pior ainda quando se acaba com reinados para dar por um dia o cinturão a uma lenda aposentada. Eu gosto de rever os grandes nomes da modalidade, até não me importo quando fazem equipa com os gajos cómicos (Santino, Brodus, Zack Ryder) para derrotar jobbers sem credenciais nenhumas. O que eu já não apoio assim tanto é quando lutam individualmente com os main eventers.

A história que leva ao combate (que não dura mais de 1 minuto ou 2) é a de que fulano tal no ano tal foi muito bom e está lá para dar uma lição a beltrano que é agora superstar da WWE.

Na luta, o actual lutador vence com uma signature move, nem costuma usar o finisher, que é para não aleijar o reformado.

Se com isto querem promover o lutador do roster actual, não podiam falhar mais. Vencer um velho não dignifica ninguém (falo dos combates esporádicos, não do assassino de lendas Randy Orton, que esteve deslumbrante a despachar glórias da WWE).

Não creio que alguém saia projectado porque ganhou a homens de 60 anos, por isso, a sua utilização podia servir somente para storylines em que possam de alguma maneira intervir em promos ou segmentos. Contacto físico remeteria apenas para a execução do finisher a algum superstar que se estivesse a armar em engraçado e a meter-se com a dita lenda, ou em finais de combates de lutadores do plantel.

Pelo menos eu gosto sempre de ver o Sgt Slaughter aplicar o cobra clutch (adoro essa submissão) e o Steve Austin a despachar tudo com stunners. Cumprem o seu dever, dão o gosto da sua presença ao público, aplicam finishers que não vemos sempre e está o trabalho feito, siga adiante.

Ocupar tempo de programa com idiotices envolvendo lendas é que é completamente dispensável. Tenho falado duma média de idades a variar entre os 60-70 anos, mas o mais usual é pedirmos a reforma a quem está nos 40-50. Neste âmbito, existe aqueles que começam mesmo a pensar em retirar-se e os que por lá ficam. Outros, porém, organizam as suas próprias Tours, convidam uns quantos amigos da velha guarda e vão-se apresentar a fãs que pagam para os ver.

Isto é diferente, o público sabe ao que vai e disponibiliza o dinheiro para aquilo. É basicamente como um jogo Amigos do Figo vs Amigos do Ronaldo fenómeno, em que não vamos para ver futebol de alta qualidade mas para comentar sobre a barriga deste e a careca daquele e ter o privilégio de ver ídolos de novo onde se notabilizaram. Existe ainda a possibilidade de recorrerem aos circuitos independentes, onde são pagos para fazer aparições e lutas, chamando muita gente ao evento, como em Portugal temos a WSW. Serve para não enferrujar, continuar activo e receber dinheiro, bem como dinamizar e promover as indies.

Nem todos aceitam sair duma WWE para se fazer à estrada sem audiência e dinheiro certo, e aqui entra muito o ego e o excesso de bazófia que cada um possui.

Se muitos jogadores de futebol deixam, aos 33 ou 34 anos, de competir ao mais alto nível ou perdem espaço dentro das suas equipas, preferem pendurar as botas a encontrar clube de outra dimensão ou divisão. Se uma banda que enchia estádios passa a só conseguir concertos em bares, auditórios ou salas pequenas, decide acabar. É tudo uma questão de vontade.
Se não sirvo para aqui, sirvo para ali.

Quando se chega a uma certa idade, devia-se pensar na diversão, até porque nos anos em que levaram o desporto a sério, lhes deve ter faltado muito disso. Portanto, um jogador poderia perfeitamente treinar à noite e jogar aos fins-de-semana nas distritais, chamaria público e permitia receitas ao clube.

Uma banda pode procurar forma de continuar a actuar, não precisa parar. No wrestling, há alternativas para quem quer continuar por mais um bocado, até decidir que chegou a hora definitiva. Não nos queiram é dar o que não podem mais.
Ninguém será capaz de vos crucificar se quiserem ir embora.

Não conseguindo demonstrar mais o mesmo valor, não se martirizem por isso e deixem na lembrança apenas os bons momentos e não os arrastos e deficiências, porque isso pode manchar uma carreira até aí memorável.

Estiquei-me um pouco no tamanho do texto, agradeço a quem leu tudo e despeço-me com uma pergunta a vós leitores:
Quem pensas que está “preso no tempo” no que ao wrestling diz respeito?

E mais uma: Que lutador crês que devia deixar de lutar? (Big Show não vale como resposta lol)brigado a todos e até para a semana!

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “The People’s Elbow”. Nascido a 25/2/90 na margem Sul, fã desta modalidade desde 2009.

2 Comentários

  1. Duarte_WWE - há 4 anos

    Não posso concordar mais com o que escreveste, tudo o que começa acaba e no wrestling não é excepçao, um lutador tem de saber retirar-se na altura certa e sair por cima pois caso contrario pode manchar a sua carreira e perder muita da admiracao que por ele era reconhecida, por isso ha que saber retirar-se e nao é por isso que deixara de fazer parte do meio que tanto ama pois podera estar sempre ligado pelas razoes que disseste, e é por isso que temos senhores como steve austin e mick foley e depois temos ric flair’s, hogan’s e afins… quanto ás perguntas a primeira é quem esteja preso no tempo atualmente ou do passado? Quanto há segunda nunca escreveria big show xD grande paul wight! Sinceramente não te sei responder a essa pergunta, desde que nao seja o yoshi tatsu xD

  2. rocha - há 4 anos

    obrigado por teres lido e comentado, Duarte! Com preso no tempo eu quero dizer uma superstar que não tenha mudado nada na sua personagem ou moveset que o tenha tornado famoso décadas atrás mas que agora não se adequa mais aos tempos actuais e que precisa duma actualização. O primeiro nome que me vem à cabeça é RVD

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