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Top Ten #114 – Quando os Heels têm razão

Sejam bem-vindos a um novo Top Ten que vos trago nesta semana. Sim, isto sai logo no dia a seguir ao SummerSlam e acredito que não se fale de outra coisa por esta altura. Mas como na altura em que escrevo isto ainda nada sei sobre o SummerSlam e ainda estou repleto dos medos e receios do que lá possa acontecer, tenho que abordar outro assunto. Espero que capte a atenção por ter um tema diferente.

No passado Raw, Seth Rollins continuou a vender a feud com John Cena e deu uma promo… Muito aplaudida. Muitas das coisas que ele disse são coisas que uma larga fatia dos fãs sentem. Assim é complicado ser-se Heel quando se tem razão e as pessoas concordam. É nisso mesmo que me foco, porque isto acontece muitas vezes. Quando alguém é Heel e faz sentido ou cuja Heel Turn é justificável.

Acompanhem para esclarecer qualquer dúvida:

10 – Don’t be a bully, be a star!

Até abro com um caso diferente. Não é bem o Heel ter razão neste cenário, porque é passivo. É mais o Heel ser a vítima e os Faces envolvidos serem uns autênticos imbecis. E neste caso eram John Cena e Jerry Lawler. Já sabemos que Vickie Guerrero era uma Heel brilhante e conseguia heat como ninguém. Acredito que muitos a vaiassem a sério, mas havia também uma porção de respeito e diversão em apupá-la, por ser daquelas que um gajo adorava detestar. Mas colocá-la nestes cenários é um abuso. Recorrer à imagem dela para conseguir umas risadas é triste, quer fosse numa altura em que ela estava claramente a ter cuidados com a linha e com a imagem ou não fosse. E fazer uma sessão de piadas sobre a sua gordura à frente dos milhares que assistem e dos milhões em casa é um comportamento exemplar para todos os miúdos que idolatram e seguem Cena. Podiam logo a seguir cortar para um dos segmentos da velha campanha “B.A. Star” que se opunha ao bullying. Melhor que isso, só se realmente dessem os segmentos seguidos. Bem jogado!

9 – Má fortuna!

Eventualmente viraram Face e, no final, já eram uma encarnação completamente diferente da inicial. Mas quando começaram como Fourtune, eram uma stable Heel que nem sempre eram descabidos na sua revolta. Formaram-se de forma simples, com um Flair a Heel a orientar um AJ Styles recentemente tornado Heel. Já aí está um cenário difícil. Mas o pior viria na sua primeira feud a sério. Recentemente a TNA tinha sido invadida por originais da ECW porque sim e foi-lhes cedido o Hardcore Justice como PPV de reunião. Acontece que os membros dos Fourtune não gostaram muito da ideia e atacaram-nos. Os seus motivos: para além de acharem que era destaque dado a muitos velhos que já não se aguentavam em ringue, era destaque dado a veteranos a representar outra companhia enquanto deixava talentos jovens e originais da TNA como o próprio Styles e outros parceiros seus, frustrados com essa ofuscação. Mas afinal… O que está errado nisso? É que ainda por cima disso, o grupo denominado por EV 2.0 veio representar, com orgulho, a ECW, à quais eram fiéis e que era notável por colocar sempre o seu talento original à frente de forasteiros de outras bandas. Olhando para o que eles foram fazer à TNA, para além de não virem muito bons em ringue, também vieram péssimos em compreensão de ironia. A coisa piorou quando Dixie ofereceu contratos aos invasores para poderem combater os frustrados com razão. E pronto, para além da ideia “Vamos fazer as pessoas não ter respeito pelo Ric Flair e detestar o AJ Styles” que se espera que seja sugerida a gozar, em execução, tínhamos os Fourtune ali a ser vilões com a sua razão. Mas é claro que os Faces eram os EV porque a malta gosta sempre de veteranos e o factor “nostalgia da ECW” tem que continuar a ser espremido até à última gota que, pensava eu, já tinha sido há muito tempo.

8 – Your time is up, Cena

A do passado Raw. Seth Rollins lá deitou para fora algumas coisas que tinha a fazer-lhe confusão. Relacionadas com o seu rival e adversário do SummerSlam, John Cena. Na sua promo tocou em vários assuntos mas o principal foco foi sobre a “doença” que Cena tem sido para o desenvolvimento de futuros talentos nestes anos que passaram. Cena foi sempre o principal impasse do desenvolvimento de muitos jovens que não conseguem passar por ele, cujo “time” é sempre “now” e não parece haver qualquer foco no futuro. Seth Rollins autodenomina-se o futuro. E também se nomeia como a cura para a doença que é Cena. Palavras duras que incomodam qualquer fã do ex-Campeão Mundial já por 15 vezes. Mas não todos. Muita gente concorda com Rollins e tal promo parece uma transcrição do que já muitos desses fãs disseram. A reacção na arena às palavras de Rollins não eram as ideais para alguém que deve ser o vilão de topo. Um Top Heel de uma companhia não pode funcionar como porta-voz de uma larga porção dos fãs, como se fosse ele um “voice of the voiceless” como os outros eram antes. Principalmente quando há verdade no que ele diz. Também sabemos que a culpa não pode ser atribuída a Cena mas é ele que está lá a executar as ideias, é a personagem dele o alvo das críticas. E se reconhecem esse problema… Porquê dá-lo ao vilão para o expor, se tantos concordarão?

O curioso: quem diz o Rollins agora, diz outro qualquer nos últimos anos. O Cena ultimamente tem sido à volta disso.

7 – “That’s why he kicked the leg out of his leg…”

Claro que esta promo será mais recordada pelo botch de Owen Hart que se emaranhou nas palavras e meteu… pernas pelas pernas. Mas até para esse acto de “kick the leg out of his leg” que fez ao seu irmão Bret, no Royal Rumble, há uma justificação aceitável. Ele mesmo o diz na infame promo e acusa-o de ser egoísta. Contextualizando, os irmãos Hart tinham acabado de perder contra os Quebecers por uma oportunidade pelos títulos de Tag Team. Owen culpava Bret. E porquê exactamente? Talvez porque Bret se tinha lesionado na perna durante o combate e precisava de fazer o tag para sair, dar a vez a Owen, repousar e dar uma oportunidade de vencer já que ele estava incapacitado. Mas em vez disso, para mostrar determinação e heroísmo – casmurrice e egoísmo se me perguntam a mim e ao Owen – volta-se e tenta ganhar o combate por si, mesmo que coxo. Claro que ficou mal e perdeu – não fez “tap out” nem sofreu pin, o árbitro simplesmente parou o combate do absoluto nada porque Bret não conseguia aplicar o Sharpshooter, porque assim ele não fica tão mal visto e porque os bookings da WWF no início da década de 90 estavam uma lástima – e Owen não gostou nada. E com razão. As suas acções ao atacar Bret valeu-lhe uma Heel Turn. Mas a burrice, teimosia e, lá está, egoísmo de Bret não. “Kick the leg out of his leg” era a coisa certa a fazer!

6 – Screwed Christian

Este ainda está fresco na memória de muitos pelo sabor amargo que deixou até ainda hoje. Hoje podemos realmente dizer que Christian é um ex-Campeão Mundial. O que cai bem até nos lembrarmos dos seus reinados. Ainda nem tinha o povo acabado de celebrar o seu primeiro e tão ansiado reinado quando é interrompido pelo recém-chegado ao Smackdown Randy Orton. E já estávamos a ver o caldo a entornar. Uma chance ao título foi cedida a Orton, ainda nem Christian era Campeão há uma semana, basicamente porque sim. Porque ele estava lá. Tudo o que ele disse, toda a sua promo podia ser reduzida a “Vá, agora eu ’tou aqui, já sabes o que isso quer dizer”. E já cheirava a esturro para muita boa gente. Assim que ele realmente ganha o título e Christian fica com aquele reinado, podia muito bem ter tido uma Heel Turn ali no momento, dada a fria recepção da parte dos fãs. E com razão. O que Orton fez para merecer aquela oportunidade pelo título foi… Ser transferido para o Smackdown e chegar lá e dizer que é o Randy Orton. Christian aguentou e a sua Heel Turn só se deu mais à frente. E apenas resultou por simples motivos: Christian é um Heel brilhante; mudou a sua atitude para um daqueles Heels demasiado manhosos que até conseguiu ganhar o título outra vez, por desqualificação; os combates entre eles eram suficientemente fantásticos para nos distrair. Mas lá ficámos nós a aceitar Christian como um Heel, sem considerar algum momento em que ele tivesse sido realmente uma vítima. “One more match”, indeed!

5 – Ciúmes de Guerrero

O jovem “mark” mais ingénuo em mim também se virou contra ele na altura. Com o tempo, comecei a dar-lhe razão. Foi em 2006 que Rey Mysterio teve o seu grande momento como World Heavyweight Champion, tudo dedicado a Eddie Guerrero, que era aqui vendido como um anjo-da-guarda que estava ao lado de Mysterio nas suas disputas como um verdadeiro underdog. Ou como muitos fãs se lembram, a fase de exploração ao falecido Eddie Guerrero, com o nome dele a ser atirado para aqui e para ali para dar um push a um performer bastante adorado pelos fãs para o conseguir por si próprio. No momento em que Chavo manda uma cadeira à cabeça de Mysterio, está uma Heel Turn feita. E uma significativa quantia de fãs a pensar “justifica-se”. As razões dadas por Chavo eram mais baseadas no ciúme e no facto de ele ser realmente um Guerrero e não Mysterio para ter todo aquele misticismo à volta da sua ligação com Eddie. O que também não deixa de fazer sentido, ainda para mais quando olhamos para o backstage, para além da quarta parede, fora do kayfabe e conhecemos a história de que o push a Mysterio era inicialmente planeado para Chavo, apenas foi alterado por… Segurança? Foram pelo caminho mais fácil de alguém que já estava over em vez de resgatar o Kerwin White directamente do low card para o main event. Ainda era exploração, mas sempre se homenageava o nome Guerrero. Mas assim foi, por muito que se gostasse de Mysterio, por muito bom underdog que fosse, há que ceder aqui às motivações de Chavo Guerrero.

4 – Scott Steiner vs Língua Inglesa & Liberalismo

Pronto, que a linguagem e a mera construção de frases são os maiores rivais da carreira de Scott Steiner, isso já todos nós sabemos. O que talvez seja preciso lembrar é que isso já foi usado para seu pretendido benefício! Numa altura bastante sensível em que descolava uma infame guerra no Iraque, Vince McMahon, um bem conhecido Republicano conservador, teve que abordar a história. Mas à sua maneira, que não queria dizer que fosse a maneira de todos os fãs. Para isso trouxe o agora esquecido Christopher Nowinski, Liberal graduado em Harvard. Muito bom orador e que defendia, com toda a razão, o disparate que era a guerra no Iraque. Com certeza que muitos fãs se identificariam com ele. Mas ele era o vilão. Como seu antagonista tinha que vir alguém do lado conservador a defender a pátria lutadora. Recorrer a um bom orador conservador como um Kurt Angle ou um Shawn Michaels? Nada disso. Tragam o Scott Steiner! A ideia era a de que Nowinski era um snob com a mania e Steiner, o redneck, era tal como os fãs que se identificavam. E não consigo pensar em melhor representação que um redneck com os velhos ideais do “good ol’ US of A” que mal sabe falar. Isto chegou a um debate! Em que Steiner começa muito bem com a frase “I’ve wrestled a lotta countries!”. Porque nós bem sabemos que Scott Steiner contra a Argentina ou a Croácia são combates históricos. E mesmo que a intenção desta feud fosse satírica… A ideia ainda era de colocar Nowinski como o parvo no meio disto tudo!

3 – “Straight Edge means I’m better than you!”

Não, não é com essa ideia que ele tem razão, até era por aí que ele desempenhava muito bem o Heel. Pessoalmente, como um gajo que bebe e fuma tanto como ele, todos esses arrogantes e armados em superiores são chatos. Mas houve um momento em que, fora a sua atitude, CM Punk até nem era um gajo assim tão descabido. E refiro-me à rivalidade com Jeff Hardy, que era mesmo movimentada pela colisão entre um straight edge e alguém que tinha um conhecido passado com drogas. Lá está, tudo bem que é errado estar a julgar outros por erros mas nem sempre se jogou a carta do “ele não é perfeito” ou do “ele redimiu-se” porque teve uma queda bem grande depois disto, ao encrencar-se e meter-se no momento mais embaraçoso e humilhante da sua carreira, já na TNA. Por demasiadas vezes que a defesa de Hardy era puramente ser um indivíduo que gostava de viver no momento e toda a malvadez de Punk residia no mero facto de estar livre de substâncias tóxicas e/ou recreativas. Numa altura em que a Wellness Policy já era levada mais a sério e a classificação já era PG, com conteúdo voltado para famílias e fãs mais juvenis… Punk era assim tão tolo?

2 – NATION!

Claro que eram uma versão exagerada e muito mais extremista dos seus ideais. Mas o que os movia pode ser algo que colocasse fãs do seu lado. Especialmente fãs de raça negra. Faarooq, D’Lo Brown, Kama Mustafa e The Rock eram lutadores frustrados com o fraco tratamento a competidores Afro-Americanos – e lá qual seja a mixórdia que é o The Rock – e lutavam pelos seus direitos. É claro que o problema estava na forma como o faziam e na forma como hiperbolizavam as suas acusações. Porque de resto… Há algo de errado na defesa de tais ideais? Racismo nunca foi um problema? Alguém deve ser condenado por tocar em assuntos tabu? É que ainda por cima este assunto sensível é algo que já veio à baila na WWE há muito tempo e com muitos fãs a acreditar que realmente Vince McMahon tem problemas em beneficiar alguém de outra raça – algo com que eu não concordo, ele pode ser muito amigo do Donald Trump mas não vai tão longe – e não é difícil arranjar quem os defenda. Mas, lá está, o problema sempre foi a forma como o fizeram: afinal de contas um dos seus primeiros rivais foi Ahmed Johnson! Outras questões também se levantam como o segmento dos D-Generation X com a polémica e infame “black face” ou o facto de Owen Hart tornar-se co-líder do grupo. Mas isso já é complicar muito as coisas.

1 – É tudo uma cambada de terroristas!

É um dos grandes Heels do seu tempo. Muhammad Hassan. Muito subvalorizado, viu um enorme push como Heel de topo ser-lhe abortado e retirado devido à polémica que rodeava essa sua personagem Heel. Essa personagem era a de um Americano Muçulmano discriminado pelo mero facto de ser Muçulmano, associando tudo o que esteja relacionado com a religião ou com a raça oriental a algo mau, a terrorismo, ao pavor e paranóia pós-11 de Setembro. Ora então, é caso para simpatizar. Seria se com isso não fosse um dos mais detestados Heels. Até por outros Heels, como se deve notar na sua participação na Royal Rumble. Este é um tipo de gimmick complexa que podia ser Face com os mesmo ideais – bastava algum Heel a atiçá-lo pelas suas vestimentas e apoio de outros Faces que vêem alguma verdade no que ele diz e lutam contra tal. Em vez disso tornam-no um radicalista contraditório, dos que têm mais heat e que chega a comprovar o contrário daquilo que defende – quase a insinuar que esteve sempre errado – com actos como o extremismo Anti-Americano ou o ataque “terrorista” a Undertaker que lhe custou o emprego devido a timing infeliz. E assim se deita por terra um digno assunto de debate numa só personagem: Muçulmanos são discriminados e demasiado associados ao terrorismo, ao Islamismo radicalista, etc.? Sim, sem dúvida. Podemos apoiar Muhammad Hassan nessa sua cruzada? Não. Mais depressa vemos que ele também é do piorio e que é verdade que são todos assim. Complicado.

Com estes dez peculiares casos concluo este Top Ten com um tema que até considero diferente e que espero que tenha sido do agrado. E que tenha conseguido alguma atenção agora nesta altura com um SummerSlam ainda muito fresco, mesmo que eu ainda não saiba o que tenha acontecido, espero que tenha sido bom e com muitos grandes momentos. Mesmo com isso em conta, convido-vos a comentar estes casos. Não só porque o faço sempre mas porque acho que isto até puxa conversa. E como isto é coisa que acontece muito e que até dê para fazer um Top muito maior, também vos encorajo a acrescentar situações em que se recordem de ouvir a motivação de algum vilão e pensar “este gajo tem razão, porque raio me vou virar contra ele?”

Na próxima semana planeio voltar com um novo tema, não sei se será mais simples ou se também será um diferente. Estejam lá para saber. Até lá portem-se bem, aproveitem o Verão que já se aproxima da sua recta final e, malta jovem, começa já quase a cheirar a estudos outra vez. Os anúncios de TV já aí estão! Até à próxima e fiquem bem.

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “Top Ten”.

5 Comentários

  1. MicaelDuarte - há 1 ano

    Bom trabalho.

  2. you cant see me - há 1 ano

    Excelente artigo

  3. Reigns one versus all - há 1 ano

    Otimo top ten,boa escolha de tema.

  4. RFBM - há 1 ano

    Bom artigo. Lembrei agora de um casa parecido, em 2006, a tag do Carlito e do Chris Masters acabou porque o Carlito estava sempre a traiu o seu tag partner, mas o mais peculiar e que na feud entre os dois, o Carlito era o face e o Masters era o heel, isto mostra bem o que o público pensava do Masters na altura.

  5. danielLP21 - há 1 ano

    “(…) algo com que eu não concordo, ele pode ser muito amigo do Donald Trump mas não vai tão longe”. WIN. E concordo contigo, também não vejo o Vince McMahon como sendo racista. O que eu não sabia é que ele é republicano… Já não gosto tanto dele :P

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