Top Ten #122 – Realidade escreve as Storylines

Sejam bem-vindos a um novo Top Ten que eu volto a esperar que seja um tema a gosto. Este é dos que eu acho que possa ter interesse. Dos que eu acho que me levaria a abrir sem ter propriamente o nome de alguma Diva em particular. E vem mesmo a calhar até em relação à edição da semana anterior. Fui atrás daquela brincadeira da Summer Rae pedir o Rusev em casamento que me deu para falar em bodas em ringue. Nisto destroem tudo e vêm anunciar o noivado verdadeiro da Lana e do Rusev para o incorporar na história e estragar tudo.

“Estragar tudo”. Não dá para estragar muito uma coisa que já esteja estragada. Mas eles quiseram trazer a história real a TV porque é difícil não o fazer nos dias de hoje. Não sei como incorporarão isso na história mas para agora, já serviu para um angle. Acrescenta sempre algum interesse quando escrevem história a partir de eventos reais. Dá mais realismo a uma modalidade já muito gozada pela sua exagerada teatralidade e aproveita, às vezes, para mexer em alguns podres. Recordemos alguns momentos:

10 – O noivado de Lana e Rusev

Para abrir, o caso actual. De uma história que deu demasiadas voltas e nunca saiu da cepa torta. Envolveu atletas bem talentosos em bons combates cujo propósito os manchava. Tudo começou com Lana a separar-se de Rusev, o que já se esperava, devido ao seu crescimento como babyface. Isso deu origem a um joguinho de ciúmes entre os dois, com Lana a enrolar-se com Dolph Ziggler e Rusev a aproveitar para brincar com Summer Rae. Deu em momentos algo embaraçosos, sapatos de salto alto a voar e um Rusev muito diferente do Rusev que habitualmente conhecemos – mesmo que por vezes hilariante, ainda era ele que salvava isto de vez em quando, fora as ocasiões em que a líbido masculina se manifestava por outras razões diferentes. As coisas descontrolaram-se quando Lana se lesionou e teve que sair de TV. Teve uma estranha viragem com o tal pedido de casamento de Summer Rae que até parecia encaminhar para alguma coisa – Rusev queria ouro à volta da cintura primeiro, logo dava-lhe uma caça a um título. Nisto vem a TMZ e anuncia o noivado de Lana e Rusev e ficamos todos “E agora?”. Também eles devem ter ficado. Após um job rápido para Ryback, Rusev levou um valente estalo de Summer Rae e o tal noivado ficou por explicar. Será incorporado na história mais profundamente? É que pode trabalhar-se aqui uma história de conspiração de Rusev e Lana com o Búlgaro a aliar-se a mais alguém com o intuito de se aproveitar para tentar conseguir algum proveito. Ziggler seria o que ele já era de qualquer forma: um peão, uma distracção. Tudo podia ser mais uma crítica ao povo Americano e à sua obsessão com mexeriquices fúteis. Mas o que pode mesmo acontecer? Enterrar Rusev e varrer tudo para debaixo do tapete como se nada se tivesse passado. É muito deles.

9 – Humilhação a JR

Consta-se que não seja um caso de ser mesmo a vida real a escrever toda a humilhação que é feita ao lendário Jim Ross em TV. Tal como William Regal, apesar dos seus frequentes embaraços em TV, diz-se que eles até são bastante respeitados lá dentro por Vince McMahon e restantes, sempre mantidos numa posição alta. Mas nada impediu Vince de descer bem baixo para nos proporcionar um dos segmentos de mais fraco gosto de que possa haver memória recente. Numa história que colocaria Stone Cold contra os McMahons pela milésima vez em 2005 – abortado pelo abandono abrupto de Steve Austin – vimos JR pagar pelos pecados do Rattlesnake e a ser despedido e agredido por… Linda McMahon. A sua retirada de TV devia-se a um problema sério de saúde que requeria uma cirurgia ao cólon. Pronto, todos temos um miúdo de 9 anos bem desperto dentro de nós. Acontece que Vince McMahon, todo ele é um miúdo de 9 anos e teve que aproveitar para gozar com a sua intervenção cirúrgica num segmento repleto de humor muito maduro, trocadilhos, ruídos de sanita, etc. Vince pegou num sério evento real e escreveu um segmento para se entreter a ele mesmo.

8 – Vida straight edge

Já é bem conhecido o estilo de vida de CM Punk fora dos ringues e que ele leva aos ringues – total abstenção de álcool, tabaco e drogas. É de louvar e até eu sigo o mesmo. Não leva o estilo de vida tão longe ao ponto de recusar qualquer tipo de promiscuidade, qualquer típico de químico no corpo ou regime alimentar, dada a sua impressionante colecção de namoradas, as vezes que ele pintou o cabelo de loiro nas independentes e o abandono do vegetarianismo forçado pela constante vida na estrada. Mas o básico e essencial está lá e por mais que uma vez que foi incorporado em histórias suas na WWE. Um caso mais antigo é com Jeff Hardy e aqui escreve dois casos pessoais na história. Coloca o vilão limpo a criticar o estilo de vida do herói com problemas com drogas. Papéis confusos mas resultaram. Mais tarde, outro caso já o viu no lado dos bons com Chris Jericho a fazer-lhe a vida negra com a mais pessoal das vantagens: o alcoolismo do pai. Algo que já foi confirmado como legítimo e que constará como uma das várias razões para CM Punk escolher esse estilo de vida. Curiosamente nem foi a primeira vez, com Raven a ter já utilizado esse tipo de tormenta numa histórica rivalidade na Ring of Honor – que culminou em Raven a forçar uma cerveja em Punk. Crueldade!

7 – Flair/Foley Saga

Um notável combate na edição de 2006 do SummerSlam viu Ric Flair e Mick Foley num bem violento “I Quit”. Já ambos sangravam a alma – mesmo que o Flair já sangrasse em três de cada dois combates – e já se tinha recorrido a mimos e carícias como pionés e arame farpado. Teve que intervir Melina a defender Foley para Flair ser um cavalheiro e ameaçá-la a ela com o taco de baseball repleto de arame farpado, para que Foley desistisse em sua protecção. Talvez se veja a coisa com outros olhos ao saber-se que os dois Hall of Famers não se gramavam. Diz-se que já fizeram as pazes mas estes dois não se davam nem podiam um com o outro. As coisas começaram a azedar através de livros biográficos. O de Foley acusava Flair de ser “tão mau nos bookings como era bom no wrestling” com Flair a responder no seu livro que Foley não passava de um “stuntman glorificado” que também se aproveitou de amizades internas para subir na carreira. Mesmo que se conste que já se tenham reconciliado e bem, aproveitaram que eram dois gajos meios tolos que a malta vai sempre gostando de ver e levaram a rivalidade para o ringue. Mesmo envolvendo os livros e tudo. Até foi aí que se pôde entender o quão pessoal e intensa era a rivalidade. O derradeiro golpe. Quando Flair solta uma “elbow drop” no livro de Foley. Aí sabíamos que as coisas estavam feias!

6 – Homewrecker Jarrett

Até foi uma storyline apelativa e repleta de bons combates. Que pode pecar pelo exagero e por se ter estendido demais. Mas também é um conhecido caso de uma séria história a partir das vidas pessoais dos integrantes para o ecrã. Ao que parece, o casamento de Kurt Angle e Karen Angle não era dos mais felizes e esta foi procurar vários tipos de consolo no bom e velho Double J. Caiu a notícia em Dixie Carter e o emprego de Jarrett ficou em risco. Até se lembrarem que estas brincadeiras às vezes dão dinheiro e passaram a rivalidade entre o casal Jarrett e Kurt Angle. Uma história realista que tem sempre o seu apelo e que deu em grandes combates. Depois realmente a coisa começou a esticar-se e já começou a meter custódias de filhos em jogo. E sabemos que as coisas dão voltas muito esquisitas quando a Chyna compete no meio desta história! Jeff e Karen permanecem bem casados e a tomar conta da Global Force Wrestling enquanto Angle também já encontrou felicidade numa nova esposa. É caso para dizer que já avançaram e acredito que, mesmo que não gostem propriamente um do outro, já se devem respeitar em termos profissionais. Os combates que deram juntos devem servir para qualquer coisinha nisso…

5 – Montreal Screwjob

Já ouviram falar desta história? É que sinto que é um capítulo escondido na história do wrestling e que não falam disto o suficiente. Querem que resuma a história? Não é preciso? Pronto então. Já esclareço que tenho a noção de que aqui não foi nenhum angle escrito e que se baseou em real heat ligeiro entre Vince e Bret. O heat desenvolveu-se a sério depois disto. Foi realmente um medo real que forçou este storytelling mas aqui é um caso de histórias que se escrevem posteriormente. Através deste polémico momento, vimos desvanecer aquele Vince McMahon comentador – WHAT A MANEUVER! – e nasceu o maléfico Mr. McMahon que todos passaram a adorar odiar. A seguinte entrevista do infame “Bret screwed Bret” aproveitou bem para capitalizar este momento. E ficou um marco histórico que serviu para tanta coisa no futuro: fantásticas promos Heel de Shawn Michaels em Montreal; rivalidade entre Bret Hart e Vince McMahon a culminar na Wrestlemania, anos depois; qualquer recriação que se tenha tentado reproduzir dali em frente; aquele momento na TNA em que o Ric Flair confessa ter sido ele a pagar a Earl Hebner para fazer o que fez. Mas esse aí não conta, não aconteceu. Um caso de algo que escreveu história e escreveu histórias.

4 – Eddie is dead…

Um caso mais desconfortável. Ao envolver uma morte legítima e de alguém tão adorado. Acontece mencionar-se mortes como passagens em algum angle e ainda existe o exclusivo caso da simulação de uma morte que foi interrompida por uma verdadeira morte que abalou a companhia para sempre. Mas o caso de Eddie Guerrero entrou por lados bizarros. Parecia ser falada demais. E explorada. Às custas da desgraça vinha um push a Chavo Guerrero, em quem nunca acreditaram e continuaram a não acreditar quando passaram a ideia para Rey Mysterio porque eram muito amigos. Eddie era omnipresente. Rey vencia e lá estava Eddie a olhar por ele. Mysterio vence a Royal Rumble com um desempenho excelente e lá dá ele os louvores a Eddie. Vence o World Heavyweight Championship na Wrestlemania com a força de Eddie. Segue-se um reinado em que nem sabemos se o Campeão é o eterno underdog ou o falecido. Um tipo de exploração que não caiu bem a muitos, mesmo que tantos outros tenham apoiado imenso Mysterio. Mas as constantes menções, chegando mesmo aos mais doentios como Randy Orton a exclamar-lhe que Eddie estava no Inferno. Forte. E deixa alguém a pensar se Mysterio teria tido aquele push, aquele reinado, uma rivalidade tão intensa com Chavo – que até foi boa mesmo que fosse daqueles casos em que se torna difícil não sentir simpatia pelo Heel – se Eddie fosse vivo.

3 – ECW vs TNN

Visto que a TNN se extinguiu com esse nome e passou a ser, mais tarde, a Spike TV, já se pode falar de um historial de relações cortadas com companhias de wrestling. Ainda como TNN fez muito sucesso de culto ao transmitir o mítico ECW Hardcore TV. Mas fizeram-no com pouca promoção e queriam uma concorrência ao Raw e ao Nitro com um orçamento baixíssimo. E começaram as tensões entre o canal e Paul Heyman. Como “Heyman” e “discreto” não costumam estar na mesma frase, é claro que ele tinha que armar estrilho. Chegou a um ponto que ele até já desafiava o canal a tirá-lo do ar. E tinha que aproveitar tudo. Daí que tirou partido imediato da situação e preparou uma história que o colocava em rivalidade com uma stable Heel denominada “The Network” constituída por vários lutadores que criticavam o conteúdo violento da ECW como justificação de uma retirada do ar. Exemplos de lutadores que constituíam o grupo eram Rhino, Steve Corino, Tajiri, Lance Storm, Justin Credible, Francine, Dawn Marie, entre outros. A sua história teve o desenvolvimento normal de uma história envolvendo stables Heel mas esta distinguia-se pelo facto de ser um bom saco de porrada para Heyman descarregar o que queria dizer à verdadeira Network. Aos “The Network”. A ideia estava lá e nem era implícita.

2 – Invasão!

Isto é como o Montreal Screwjob, é um assunto novo. Nunca ninguém ouviu falar das Monday Night Wars, eles não ligam patavina ao assunto e acho que devia fornecer-vos aqui um documento detalhado do conceito desta tal guerra. Ou então também já não sabem o que inventar para falar das ditas cujas sem dizer o que já foi dito tantas vezes. Mas ultimamente o monopólio da WWE é muito grande e confortável. Antigamente houve aquele bom tempo de muitas escolhas e competição, com várias companhias grandes em guerra de audiências. Nesta altura não existiam torrents ou vídeos na Internet com os programas inteiros, chegava àquela hora e vias uma coisa ou outra, compreendendo-se algum saltinho entre canais para ver o que se vai passando. Até às eventuais quedas dessas companhias, a WWF/E tinha na WCW e na ECW boa concorrência, bons rivais, boas alternativas. A rivalidade era real e só faltava capitalizar nisso. Mas com companhias rivais não se ia conseguir esse acordo, muito menos bookings justos e com aprovação unânime de todos os partidos envolvidos. Arranjou-se a solução: a WWE compra as empresas rivais e passa a rivalidade das audiências para o ringue: a WCW e a ECW invadem a WWF! Que grande história que tinham aqui em mãos. Que tremendo desperdício que daqui saiu também. Chegou mesmo a perder-se e a separar-se da parte da realidade que inspirou a história ao dar-nos mais uma storyline entre McMahons.

1 – Triângulo Edge/Lita/Hardy

Uma rivalidade entre companhias que deu origem a uma história de invasão que marcou a viragem de uma página para uma nova era no wrestling? Porque é que tal não fica com a primeira posição? Porque para além de ter sido um desperdício de potencial, há algo no tema de realidade a escrever as storylines que nos traz algo à cabeça de imediato. Quando se fala em alguma polémica de backstage, alguma barraca que deu cartas em ringue, vem logo um exemplo à cabeça. É sempre o primeiro e é o que representa tudo isto. O triângulo amoroso com Lita, Edge e Matt Hardy. História com muitos pormenores questionáveis. Como por exemplo, ser Lita a trair Matt Hardy com Edge, bom amigo seu… E ser Hardy despedido. Foi muito vocal para os gostos deles. Armou peixaria, tornou o caso público… Tudo justificável pela situação. O público também não deixava passar um assunto destes. Logo a WWE teve que emendar/aproveitar. Chamaram Hardy de volta e contrataram-no para levar a história aos ringues. Fora ali o reflexo que foi a rivalidade entre Kurt Angle e Jeff Jarrett, temos que considerar esta a feud mais pessoal dos nossos tempos. E temos que estar gratos por termos dois performers profissionais capazes de nos dar isto sem fazer estragos. Mas que eles souberam aproveitar as estipulações violentas dos combates, lá isso souberam…

E por aqui ficam estes conflitos pessoais que se tornaram rentáveis. A maioria da contagem foi feita por memória e com certeza que existe mais algum caso e encorajo-vos a acrescentar algo que se lembrem. É que até estou com a chata sensação de me esquecer algum exemplo importante. Acontece-me muito. Fica então agora o Top Ten a pertencer-vos e espero que tenham gostado e que se sintam com vontade para comentar o assunto e até dizer o que acham desta medida de aproveitar casos reais para criar histórias. Fica a vosso critério e eu cá me retiro até à próxima semana, assim o espero. Fiquem bem e nada de se meter em encrencas como estes se metiam porque duvido que haja alguém capaz de tornar isso rentável. Portem-se bem, até à próxima e um bom Hell in a Cell a todos!

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “Top Ten”.

5 Comentários

  1. MicaelDuarte - há 1 ano

    Excelente, Chris.

  2. Reigns one versus all - há 1 ano

    Bom top ten.

  3. Rocky Maivia - há 1 ano

    ok but Jeff Hardy > CM Punk, com todo o respeito q tenho por Punk

  4. you cant see me - há 1 ano

    Excelente top ten.

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