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Eu sou fã de Wrestling.

Descobri a AEW durante a pandemia, e foi a primeira vez que voltei a ver Wrestling enquanto adulto. Comecei a ver Wrestling em 2005, mas com o tempo fiquei cansado de personagens superficiais e histórias desinteressantes, muitas delas que acabavam sem um verdadeiro final. O Wrestling é subjectivo, mas ainda assim uma história precisa de estrutura. O que via na televisão deixou de me inspirar, e passei a ser um fã esporádico. Este tempo que todos passámos fechado em casa foi uma altura de reflexão para mim, e aquilo que eu descobri ao voltar ao mundo do Wrestling foi que apesar de ainda adorar ver o que se passa dentro do ringue, aquilo que agora me interessa mais são as histórias das pessoas por detrás das personagens…

Enquanto adulto, há coisas às quais presto atenção que não prestava antes. Ter dinheiro é importante, sim, mas não é tudo, nem para mim nem para muitos outros – há coisas tão ou mais importantes na vida. Coisas como boas condições de trabalho e benefícios, satisfação pessoal e profissional e um bom ambiente de trabalho que promova a saúde mental. Por isso, quando o CM Punk voltou ao Wrestling e disse “I was never gonna get healthy – physically, mentally, spiritually or emotionally – staying in the same place that got me sick in the first place” (algo como “nunca iria ficar saudável – fisicamente, mentalmente, espiritualmente ou emocionalmente – ao continuar no mesmo sítio que me pôs doente”), isso tocou-me de uma maneira muito pessoal. Sim, estava feliz por vê-lo de volta, mas o mais importante para mim foi vê-lo feliz. Nessa altura, eu estava a passar uma fase bastante negativa no meu trabalho, e essas palavras fizeram-me dar passos no sentido de deixar o meu trabalho e encontrar algo mais saudável. Algo que me fizesse mais feliz, onde sentisse que sou ouvido e valorizado como funcionário e como ser humano, um lugar estruturado e com valores. Um lugar onde não fosse sobrecarregado, sub-utilizado, envergonhado e pisado, onde os caprichos de uma pessoa louca, egoísta, falsa e instável não dominassem todos os aspectos da minha vida. Um lugar onde eu pudesse falar livre e honestamente com o meu chefe (e, se necessário, espirrar à frente dele) e realmente sentir que sou ouvido. Esse lugar, para o CM Punk e para tantos outros, é a All Elite Wrestling.

A AEW fez-me apaixonar pelo Wrestling novamente. Fez-me apaixonar por personagens que não conhecia, como Darby Allin, Eddie Kingston, Kenny Omega, Jungle Boy e MJF, mas também me deixou fascinado por pessoas maravilhosas como Darby Allin, Edward Moore, Tyson Smith, Jack Perry e Maxw… (bem, se calhar passamos esse à frente!). É claro que muitas contratações que se seguiram já eram bem conhecidas de outro universo, mas usar isso como argumento anti-AEW é supérfluo e falha em ver a realidade de uma empresa que contrata com base no talento, em comparação com uma corporação com lucros astronómicos que despede com base em cortes orçamentais. Britt Baker, Sammy Guevara, Young Bucks, Thunder Rosa, Adam Page, Proud & Powerful, Ricky Starks, Jade Cargill, Wheeler Yuta, Daniel Garcia, Lee Moriarty, DANTE F*CKING MARTIN, é uma lista quase interminável de pessoas das quais eu nunca tinha ouvido falar e que capturaram a minha atenção e admiração. Além disso, acho fantástico que estas pessoas, algumas das quais estão a dar os primeiros passos nas suas carreiras, possam partilhar as luzes da ribalta com lendas como CM Punk, Tully Blanchard, Christian Cage, Jake Roberts e qualquer que seja a versão do Chris Jericho em que vamos agora. Já para nem falar na “forbidden door” e nas possibilidades infinitas que vão passar por essa porta. Vou dizer apenas que a mentalidade de trabalhar COM outras pessoas e outras empresas para benefício mútuo é algo que deve ser elogiado, valorizado e devia sem dúvida ser estudado e adotado em outras áreas profissionais.

Isto não quer dizer que a AEW faz tudo da melhor maneira. Acho que todos temos o direito e o dever de responsabilizar a AEW e o Tony Khan por coisas que não gostamos, nós somos os consumidores, a empresa está lá para nós. A diferença com esta empresa é que, na maioria das vezes, sinto que estamos a ser ouvidos. Isso não tem preço. Claro, a AEW já falhou várias vezes no passado e deixem que vos diga, vai voltar a falhar no futuro! Isso faz parte da vida, todos cometemos erros, mas os melhores de nós aprendem com eles e evitam repeti-los. Sim, a divisão feminina precisa, no mínimo, de algum cuidado e dedicação, não há desculpas. Na minha opinião, combates como Baker vs Rosa, Shida vs Deeb, TayJay vs Penelope Ford & The Bunny provaram ser momentos marcantes, e o trabalho destas e de outras mulheres, como Jade Cargill ou Kris Statlander, tem sido exemplar e incomparável. E estes combates incríveis aconteceram APESAR da falta de desenvolvimento, profundidade e tempo dado à divisão feminina como um todo. Eu perco sono à noite ao pensar nos combates que não vimos de mulheres que ainda não tiveram estas oportunidades, e isso tem que mudar.

A AEW comete erros, e nem é preciso falar sobre a estreia da Dark Order, ou sobre a Nightmare Collective, ou sobre os Hardy Family Office, ou sobre alguns spots perigosos e desnecessários que vimos no passado e continuamos a ver (estou a olhar para ti, Sammy, ganha juízo!). Recentemente, o Dynamite teve uma dos combates mais constrangedores de sempre entre a Marina Shafir e a Skye Blue (o que raio foi aquilo?!), bem como um ângulo horrível depois do combate entre o Samoa Joe e o Minoru Suzuki. As luzes apagaram-se e eu esperava tudo menos um gigante que ninguém conhece com a **** de um head vice – isso foi o que mais me enervou, o head vice é um dos piores moves que eu já vi, fica mal e é pouco convincente. Foi mau. Na verdade, foi péssimo. Mas isso veio depois de um festival de chapada entre SAMOA JOE e MINORU SUZUKI!!

O que eu estou a tentar dizer é isto: não olhem para a AEW como um dado adquirido. Os pontos positivos superam (e muito!) os negativos. Esta empresa foi uma dádiva não apenas para nós fãs, mas principalmente para os lutadores! Estou farto de ouvir a expressão “love the business”, “respect the business”, como se o business fosse algo concreto que andasse pelas ruas a fazer coisas. O business são as pessoas! São seres humanos. É isso que é o business. São os wrestlers, e os promoters, e os camera men, e os produtores, e os trabalhadores da manutenção, e das concessões, e dos estádios… E os fãs. Amem as pessoas. Respeitem as pessoas. Só assim é que vão respeitar o “business”. O Tony Khan parece entender isto. E claro, é inevitável que algumas pessoas sintam que não pertencem na AEW, algumas vão sentir que são pouco utilizadas, porque não há tempo suficiente para todos, ou vão sentir que não estão a ser bem representadas na televisão. Algumas até vão dizer que nunca na vida trabalhariam para outra empresa e depois despedem-se para ir viver um sonho americano de se tornarem o campeão mundial universal da galáxia, ou lá o que é. Estamos todos aqui em tempo emprestado. Somos todos efémeros. Somos todos “pó das estrelas”. Cada um de nós tem que fazer aquilo que tem que fazer para ser feliz. Se alguém não se sente bem na AEW, desejo-lhes a maior sorte do mundo e espero que a AEW se mostre preocupada e consiga corrigir quaisquer problemas que as pessoas tenham, e vai haver sempre problemas a corrigir. Mas a maioria das pessoas parece estar realmente feliz na AEW. A maioria das pessoas parece genuinamente valorizada e ouvida. Basta olhar para a cara do CM Punk cada vez que tem um combate ou que faz uma promo. Ou se querem um exemplo mais concreto, olhem para a emoção mal escondida na cara do Ricky Starks quando ele saiu para o seu combate de tag team no Dynamite contra o Swerve Scott e o Keith Lee. Aquela emoção parva estampada na cara, aquela alegria pura de combater na frente do público da sua cidade, aquele brilho nos olhos, isso aqueceu-me o coração… É por isso que sou fã.

Por isso, vamos responsabilizá-los! Vamos mantê-los fiéis aos seus valores, e aos nossos valores. Vamos dizer-lhes o que queremos ver, porque eles estão a ouvir. Esta empresa existe tanto para a realização pessoal e profissional dos wrestlers, como para o nosso prazer e entretenimento. Mais que isso, vamos apoiá-los! Cada um à sua maneira. Vão a shows, subscrevam os canais da AEW, sigam as redes sociais, façam like nos vídeos, inscrevam-se na FITE TV, assistam ao Dark e ao Dark Elevation, comprem merchandise, apoiem os projetos dos vossos lutadores favoritos, comprem os PPVs, apoiem a ROH, e apoiem também o Impact e a New Japan e a Stardom e a NWA e a Control Yo… (não, essa se calhar não! Ups…)

A AEW está longe de ser perfeita, mas vamos continuar a moldá-la juntos. Vamos moldar uma empresa que ouve seus clientes, respeita e valoriza os seus funcionários, eleva o talento dos seus profissionais e continua a dar-nos dream match após dream match após dream match. Posso pedir um CM Punk vs Kenta? Vamos todos fazer a nossa parte, porque nada é garantido e não sabemos quanto tempo é que isto vai durar, e eu ainda quero ver o Miro lutar pelo seu Deus, e o Ibushi lutar pelo Omega.

O Wrestling é subjectivo, as condições de trabalho não. A AEW faz-me voltar a dizer, alto e bom som:
Eu sou um fã de Wrestling. E do Hook.

7 Comentários

  1. ??3 semanas

    Incrivel texto, belissimo, simplesmente belissimo, concordo com tudo, e meus sinceros parabens pelo belo texto!

  2. Taty Castellanos3 semanas

    Que belo texto, vamos acompanhar impact,nwa njpw stardom, apoiar as outras empresas

  3. Excelente texto! Me vi neste texto quando disses que voltou a ver Wrestling por conta da AEW quando adulto e eu estou mentalmente de acordo com isso, pois depois que parei de ver a WWE e comecei a ver a AEW minha paixão pelo Wrestling retornou. Texto irretocável e belo!

  4. Victor Silva3 semanas

    Excelente artigo, há muitas coisas para se identificar aí

  5. Kick_Ass3 semanas

    Texto muito bom!! Espetacular mesmo… Parabéns!

    Não me identifico com o tipo de produto atual da WWE, a única empresa que assistia até conhecer a AEW. A AEW pode não ser perfeita e cometer erros de longe a longe mas é sem dúvida alguma a empresa que melhor produto de pro-wrestling tem atualmente. Ao ver os shows sinto aquela vibe que sentia quando comecei a ver WWE em 2005/2006, transmite competitividade e está recheada de personagens interessantes…. podemos nos maravilhar ao ver em ringue um Omega, Bryan Danielson, Adam Cole… ou seguir personagens com personalidades marcantes como o Darby Allin, MJF, Hangman, Eddie Kingston, Moxley, Jericho, CM Punk… e ainda ver jovens com um potencial brutal como o Hook, Wardlow, Dante Martin, Starks, Jungle Boy, Sammy Guevara, Daniel Garcia…. “clubismos” à parte a AEW é a empresa para quem gosta mesmo de pro-wresling.

  6. Kurt Angel3 semanas

    Excelente texto, conseguiu exprimir o que sinto em relação ao wrestling e á AEW, domingo vou experimentar ver outra promotora, wrestling português em Queluz! Todos deveriam assistir e darmos uma força aos nossos, abraço.

  7. Incrivel! Parabens pelo texto 🙂