Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Na última década, a promotora com o maior e melhor wrestling do mundo foi a NJPW. Com um booking a longo termo, que valorizava estrelas e histórias e, acima de tudo, momentos, que, não sendo constantes, conferiam uma sensação de especialidade quando se davam, assim como fizeram sempre parte de uma história, e não isolados apenas com o intuito de um pop fácil do público, sem grande substância ou sustentabilidade, ao qual sempre se juntou uma qualidade de wrestling in-ring de excelência, com que ninguém nos anos 2010’s conseguiu ter, ou sequer sonhar ter. A juntar a isto, tínhamos um roster que, para além de ser exímio na entrega dos combates, era constituído por lutadores com enorme personalidade e carisma, que facilmente arrancavam apoio fácil do público e interesse no seu trabalho, no que estavam envolvidos: Hiroshi Tanahashi, Kazuchika Okada, AJ Styles, Tetsuya Naito, Kenny Omega, Tomohiro Ishii, Minoru Suzuki, Jay White, entre muitos outros, todos eles muito diferentes, mas todos com enorme capacidade de prender qualquer fã de wrestling.

Por estas razões, a NJPW foi o lugar de muitos fãs de wrestling que se viram desiludidos com o produto americano e, mesmo aqueles que continuaram a gostar de determinados produtos, como o NXT, nunca dispensaram de ver ou sequer tiveram dificuldade de admitir que a promotora com o melhor produto e conteúdo era a NJPW. Contudo, na opinião de muitos fãs, recentemente ou, se quisermos recuar uns dois anos com a saída da Elite, o produto da NJPW não tem o mesmo interesse que outrora teve, coisa que concordo em parte, porque há realmente coisas que tornaram o produto menos atrativo e outras decisões que, recentemente, têm sido incompreensíveis, pelo menos para mim. Mas acho que o que muitos fãs deixaram de ver na NJPW pode ser resumido em palavras, pelo que gostaria de tentar explorar esses vários pontos, ainda antes de chegar a algumas decisões recentes.

No entanto, gostaria de frisar desde já que não quero entrar em alarmismos acerca do eventual declínio a NJPW nos últimos tempos, porque me parece exagerado. É sim uma fase menos boa do produto, mas que pode muito bem vir a ser ultrapassada, ou então servir de ponto para um novo recomeço, tal como foi a história de ascensão do Tanahashi, a rivalidade Tanahashi vs. Okada, a feud Omega vs. Okada e a ascensão de Naito para vencer o título no main-event do Wrestle Kingdom, tudo histórias que não nasceram de um momento para o outro, que tomaram o seu tempo, e que foram sinónimo do que a última excelente década teve para oferecer. Por isso, se me perguntam, o que a NJPW precisa realmente neste momento é de criar uma nova história, uma nova fase tão ou mais interessante que as que acabei de elencar. Wrestling de qualidade, trocas de título, mini-rivalidades não é nada se não houver um objetivo como pano de fundo, se quisermos compararar, é isso que aconteceu e tem sido persistente na WWE nos últimos, e é esse o perigo que a NJPW corre neste momento, de não conseguir essa história, esse marco que faça os fãs ter uma razão para ir às arenas, coisa que a NJPW decididamente não tem desde que a história do Naito terminou o ano passado.

Mas há vários outros fatores, nem que seja o cansaço e saturação que apanham qualquer fã de wrestling que assista a eventos da mesma promotora por muito tempo. Por outro lado, há um envelhecimento natural do conteúdo e, com ele, dos próprios lutadores, nem tanto a sua idade a nível físico, mas a sua imagem aos olhos dos fãs. A NJPW sempre teve os seus top guys: Kazuchika Okada, Hiroshi Tanahashi, Shinsuke Nakamura e AJ Styles; Kazuchika Okada, Hiroshi Tanahashi, Kenny Omega e Tetsuya Naito; Kazuchika Okada, Hiroshi Tanahashi, Tetsuya Naito e Jay White; e, atualmente, Kazuchika Okada, Tetsuya Naito, Kota Ibushi, Jay White e Will Ospreay. Ora, lutadores que davam uma imagem de americanização do produto como o AJ Styles e Kenny Omega seguiram outras paragens, e se num primeiro momento os lutadores de top estavam restritos a poucos elementos, hoje em dia vêm-se claramente mais que 5, e, principalmente, lutadores como o Tanahashi e o Okada, na situação atual em questão, encontram-se desgastados.

Principalmente numa altura em que os fãs de wrestling são cada vez menos pacientes, e perdem o interesse muito rapidamente, pela quantidade e facilidade de ter wrestling à sua disposição, e bom wrestling, começam a ter uma perceção de que algo é velho demasiado cedo. Atualmente, Ric Flair seria velho em 3 anos, quando no seu tempo durou 25 anos no mais alto nível. No caso do Okada, vejo alguns fãs a dizer que já fez tudo o que tinha para fazer e não há nada mais para ele fazer na NJPW. Eu não posso, de todo, concordar com esta afirmação, lutadores como o Okada têm sempre algo para fazer. Se neste momento a personagem parece um pouco gasta? Sim. Se neste momento beneficiaria de uns meses em descanso? Sem dúvida. Mas tentem ser mais pacientes, pensem na quantidade de adversários que o Okada ainda pode enfrentar, nas histórias em que pode vir a estar envolvido, no jeito que ele dá sempre a valorizar quem enfrenta, e do quão popular ele continua a ser no Japão. Por outro lado, custa aos fãs ver lutadores como o Tanahashi perder mais vezes, mas ele não podia ficar para sempre no topo, ele tem que utilizar a credibilidade enorme que tem para fazer o máximo de lutadores credíveis. Isso não é prova nenhuma que o produto está a cair de velho, é prova que há que renovar o máximo possível a geração que está à frente da NJPW neste momento.

E claro que a personagem do Naito se encontra sem rumo depois de ter vencido o título no main-event do Tokyo Dome o ano passado, é normal que se encontre algo perdido neste momento, até porque o natural, num lutador como ele, que é sempre melhor a ir atrás do grande prémio do que a mantê-lo, se encontre agora a fazer outras menos interessantes, porque dificilmente nos primeiros tempos, em comparação, ele iria fazer algo tão cativante como a sua história anterior. O problema disto é que coincidiu numa altura menos boa da NJPW, essencialmente numa altura de mudança de uma era que será carinhosa e lendariamente recordada nas próximas décadas. Há que ter paciência, esperar por aquela storyline, aquele história e objetivo de fundo, que permita enquadrar toda a empresa à volta dela.

E é claro que a saída da Elite em 2019 provocou naturalmente um decréscimo dos fãs, fãs que apenas viam NJPW exatamente para ver lutadores como o Kenny Omega e os Young Bucks, e que eram parte fundamental da expansão da NJPW para território americano. Ora, um lutador como o Kenny Omega, com uma capacidade incrível de procurar fazer coisas novas faz falta a cada promotora, mas ainda mais à NJPW da altura e, essencialmente de hoje, que ficou com os mesmos de sempre, na qual as caras novas nunca geraram grande interesse de main-event ou main-stream. Como disse, são mais fatores que contribuem para o momento que a NJPW atravessa neste momento do que recentes decisões, nenhum problema de declínio ou mudança ocorre de um dia para outro, não é conjuntural, massempre estrutural.

Pessoalmente, sempre defendi a vitória do EVIL na New Japan Cup o ano passado nos moldes em que ocorreu, bem como a vitória dos títulos. Mais importante do que dar combates porque sim ao Naito, com fillers atrás de fillers, acho que a NJPW tomou uma opção correta em criar o antagonista possível no EVIL, um lutador que sempre gostei, embora não amasse, mas que sempre me pareceu muito competente, e o mesmo provou-o o ano passado e este, tornando-se num ótimo heel, capaz de gerar apoio do público no lutador que enfrenta. Matches com YOSHI-HASHI e Zack Sabre Jr. no G1 Clímax, Naito no Power Struggle, SANADA no Wrestle Kindgom e Okada no Castle Attack são a prova disso. No entanto, o que eu não posso concordar é com o booking que o EVIL tem tido neste momento. A vitória que teve à 1 ano atrás já se encontra completamente esquecida por parte dos fãs, a sustentabilidade e o pensamento para o futuro que o booking daquele título e de quem o possuía na última década desapareceu no seu caso. Tem levado com derrota atrás de derrota, e como se já não bastasse estar tapado pelo melhor heel da atualidade, o Jay White, também é tratado como lutador de segundo nível, quando é quase tão capaz de ser o antagonista que muitas histórias tanto precisam como éo Jay White.

Outras críticas que se têm feito sentir é ao KOPW2020, um troféu que é disputado em combates com estipulações determinadas para cada match em específico. A NJPW tentou criar aqui realmente algo fora da caixa, e algo minimamente interessante, especialmente para quem é fã de puroresu mais cómico. No entanto, e apesar de gostar do Toru Yano, acho que tê-lo como primeiro campeão foi um erro. Vamos lá ver, se o objetivo era tornar aquele troféu num prémio cómico, fizeram um bom trabalho, no entanto, o que acontecerá quando o Toru Yano o perder, visto que não há sem ser ele grandes personagens de comédia na NJPW? O estilo daquele prémio vai ser determinado pelo seu campeão? Então já não será um prémio de comédia, então já tinha que nascer com um pouco de credibilidade acima disso para criar algum interesse, então o Toru Yano não devia ter sido o primeiro campeã…E sinto que recentemente a quantidade de combates a acabar em DQ também aumentou, ou matches com interferências e outras coisas do género e até coisas que nunca aconteceram como o vencedor do G1 perder a oportunidade no WK, para depois tê-la de borla. É verdade que quase sempre há uma justificação para isso acontecer, mas isso são coisas tão pouco NJPW, que me faz alguma confusão a NJPW estar a ir por aí.

E finalmente, mais recentemente, tivemos a unificação dos títulos mais valiosos da última década para o campeão responsável pela sua unificação perder o título no primeiro match após a unificação. Eu não tenho qualquer problema em o Ospreay ser campeão da NJPW, mas nenhum mesmo, apesar de não ser o seu maior fã, revejo ali um grande talento, alguém que se encontra cada vez mais à vontade, que a pouco e pouco se vai tornando num bom antagonista (adorei combate com o Okada e com o David Finaly este ano). Mais tarde ou mais cedo ele seria aposta, e eu acho que a NJPW faz bem em apostar nele. Agora, vencer o título nestas condições parece-me errado. Sim, é verdade que lhe dá heat por tirar o título a um babyface adorado como o Ibushi que perde assim a sua oportunidade de ter o seu “lugar ao sol”, mas isso foi exatamente a mesma história que contaram o ano passado com o Naito e o EVIL. Mais uma vez, não há objetivo de fundo, é tudo feito para o momento. Isto fez até que mais uma vez o IWGP title tivesse um novo campeão, quando era conhecido por ser um título ao qual poucos chegavam na última década, regra que parece cada vez menos se aplicar.

A NJPW encontra-se realmente num momento curioso. É certo que continua a ser, de longo, a maior promotora do Japão, mas há números curiosos que se têm verificado ultimamente. É certo que comparar números em pandemia é perigoso e errático, mas não deixam de ser números, aos quais se deve estar atento. Notem que a NJPW teve menos público no Nippon Budokan que a NOAH e a Stardom, e que até tem perdido para várias promotoras nos seus shows no Korakuen Hall. É certo que a NJPW realiza lá shows secundários e as promotoras mais pequenas realizam lá a grande maioria dos seus big shows, no entanto, isto não era prática comum antes da pandemia, e não acho que deve ser desvalorizado.

Mas tudo dependerá da NJPW para sair deste momento menos bom, e pode fazê-lo de duas vias: tenta construir uma história, uma ideia e um objetivo de fundo que guie o seu produto; ou não o faz e podemos estar a assistir aqui ao seu declínio, ao fim da sua era dourada que foram os anos 2010’s. No entanto, acho que nos devemos conter com passagem de certidões de óbito, nos exageros e críticas a certas decisões que porventura, mesmo não sendo excelentes, continuam a ser justificadas e a ter um propósito, acho que devemos ter calma, ser pacientes e julgar os próximos tempos. E não é como se não continuássemos a ter excelentes combates e excelentes lutadores. Porventura a imagem de muitos deles está um pouco gasta, mas há outros que estão na melhor fase da sua carreira, como é o caso do Shingo Takagi e do Jay White, que alicerçados no push a wrestlers que tiveram menos destaque até aqui como o Taichi e o Zack Sabre Jr., por exemplo, podem ser os capitalizadores para a NJPW sair deste “marasmo”, deste “imobilismo” em que acaba por se encontrar.

Por fim, queria ainda deixar uma nota quanto à estrutura dos shows e ao tempo que se tem deixado para os combates. A NJPW tem seguido um alinhamento com apenas seis matches no card, com um intervalo entre ambos, parecendo uma ótima estrutura para assistir aos shows em tempos de pandemia, em que não há barulho do público, no entanto, peca exatamente por causa do tempo que dá a cada combate. Os main-events e restantes title matches têm sido enormes, e muitas vezes têm-no sido de forma desnecessária, mas mesmos os tag team matches preliminares do undercard parecem enormes, muitos deles chegam aos 13/15 minutos, e depois ainda temos os combates mais importantes. Muitas vezes torna-se bastante entediante assistir aos shows da NJPW, apesar de o wrestling continuar a ser excelente. Penso que é algo que também podem repensar. Apesar de ser um detalhe, é um detalhe importante.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

7 Comentários

  1. Et billu.3 semanas

    Bom artigo. Estou de acordo com os pontos que você levantou.

  2. Sandrojr3 semanas

    Que bom que você trouxe um artigo sobre a melhor promotora de wrestling do mundo. Não tinha parado pra pensar nesse ponto, acho que o problema da falta de interesse está relacionado a pandemia, as pessoas estão se preocupando com outras coisas, e deixam o wrestling em si em 3° ou 4° plano. Acho que a NJPW está se restruturando para uma nova fase, e que quando acabar a pandemia eles colocarão esse plano em prática. Ótimo artigo.

  3. Bea Ospreay3 semanas

    Sei que a pergunta não tem nada haver com o artigo, mas por vc conhecer bastante sobre wrestling japones talvez saiba me responder. Na decada de 90s a AJPW foi a grande promotora do japão com nomes como Misawa, Kobashi, Kawada e etc, na ultima decada foi a NJPW com Tanahashi, Okada, Omega e etc, agora, e na decada de 2000s? Qual foi a grande promotora do wrestling japones nessa decada, e seus lutadores com mais destaque aclamação?

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      Olá. tudo bem, não há problema nenhum, não me importo de responder, sempre que quiseres pode fazer uma pergunta.
      Nos anos 2000’s a melhor promotora japonesa era a NOAH. É lá que vão parar nomes como o Misawa (fundador) e o Kobashi depois de saírem da AJPW, e onde se concentram outros lutadores enormes do Japão como o Yoshihiro Takayama, Jun Akiyama, Kensuke Sasaki, entre muitos outros, como encontras presença de lutadores de outras feds, como por exemplo o Yuji Nagata. Além disso, são os anos em que os jovens Naomichi Marufuji e KENTA explodem para o wrestling, bem como ainda nomes como Go Shiozaki e Takashi Sugiura.
      Numa década em que a AJPW perdeu muito interesse pelos lutadores que perdeu e em que a NJPW andava presa no estilo do Antonio Inoki, foi na NOAH que no início do século se concentram os melhores lutadores, as melhores histórias e o melhor wrestling..
      Nota que contas ainda com a participação de muitos gaijins, como Bryan Danielson (Daniel Bryan) e Samoa Joe.

    • Bea Ospreay3 semanas

      Obrigada por responder, ja tinha ouvido falar dessa NOAH, agora entendi o pq, parece que fizeram bastante coisa nesses anos.