Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Em quase 100 edições, nenhumas foram as vezes em que analisei algum show ou falei sobre a situação corrente de uma das históricas promotoras do Japão, a AJPW. Várias menções rápidas lhe foram feitas ao longo da vida do Brain Buster, mas nunca num artigo completamente dedicado àquela que é, para mim, a melhor fed de sempre. Para os mais distraídos, a AJPW é a promotora japonesa que nos anos 90 dominou o wrestling japonês com o seu estilo King’s Road, cujos maiores pilares foram lutadores enormíssimos como Jumbo Tsuruta, Genichiro Tenryu, Mitsuharu Misawa, Toshiaka Kawada, Akira Taue e Kenta Kobashi, e ainda gaijins que até hoje são carinhosamente recordados no Japão, como Stan Hansen, Terry Gordy e “Dr. Death” Steve Williams. Se não conhecem este período da história da AJPW e do puroresu, aconselho vivamente a que tentem conhecer, nem que seja pela facilidade em encontrar conteúdo desta época, ou até pela existência de inúmeros sites que vos ajudarão a compreender os combates, as suas histórias e as principais rivalidades desta era dourada.

Mas isto não é, porém, um artigo sobre essa fase da história, será sim um artigo no qual procurarei analisar a situação atual da AJPW, que nunca chegou a uma fase negra como a NOAH, mas que em muitos momentos chegou a ter várias dificuldades em afirmar o seu produto e em apresentar realmente algo que passasse do bom para o muito bom, e do muito bom para o lendário, e é essa a diferença que conta nesta modalidade. Na verdade, nestes últimos anos, a AJPW sempre contou com um undercard bem interessante e, por inúmeros momentos, bem divertido. Os title matches sempre foram bem conseguidos e as principais rivalidades também interessaram e tiveram o seu lugar no momento certo. Contudo, aquele it factor, aquele momento necessário em que se dá o “next step” parecia demorar a acontecer.

Esta análise muda bastante de perspetiva se formos olhar para o trajeto que o jovem Ace Kento Miyahara tem feito na AJPW. Este tremendo lutador tem-se afirmado aos olhos dos fãs da AJPW e de todo o puroresu como a principal estrela desta fed, bem como entrando facilmente na discussão pelos melhores lutadores do Japão e do mundo. A sua personalidade forte, a forma como cativa os fãs, como consegue o seu apoio quando é dominado e como se coloca como o principal alvo de quem quer fazer o seu nome na AJPW, tornam-no não num simples main-eventer da AJPW, mas no main-event da AJPW. Desde 2016 para cá que vem contando com inúmeros reinados, e bem longos, com o Triple Crown title (principal título da promotora), e em todos os reinados algo ficou para os fãs recordarem mais tarde. Destaco as rivalidades com Suwama, Shuji Ishikawa, Zeus (com quem o ano passo deu um excelente combate na final do Champion Carnival, o torneio da AJPW equivalente ao G1 Clímax), entre excelentes combates com lutadores em ascensão e ainda em afirmação, como é o caso do Jake Lee, do Nomura e do Yuma Aoyagi, sendo que o melhor trabalho de todos eles foi conseguido em matches com o Kento.

A AJPW conseguiu, porventura, aquilo que será mais difícil de conseguir: transformar um jovem lutador na sua principal estrela, no nome mais adorado pelo público e capaz de carregar a fed às costas por todo o puroresu, que seja o topo da promotora, e que transforme quem o vença imediatamente em alguém credível, bem como, mesmo não o vencendo, jovens lutadores que se aguentem num match com ele e lhe consigam dar competição, ficarão over com o público no imediato. A AJPW pode ter alguns problemas de orientação para resolver atualmente, mas saber quem é o seu Ace, ter um nome a partir do qual se pode continuar a construir, quanto a isso estamos conversados, e bem conversados.

Na minha opinião, o maior problema atual da AJPW é mesmo a falta de capacidade para bookar o que anda à volta do Kento, pois quando este anda uns tempos afastado do main-event e do Triple Crown belt, tendem a acontecer alguns cenários confusos, muitas vezes pensados de forma aleatória, e que pouco ou nada dizem aos fãs. Por outro lado, sinto que vários lutadores que impressionaram quando estavam em feud com o Kento, uns tempos depois de essa feud terminar, encontravam-se em posições no card, ora irrelevantes, ora descredibilizadoras depois de terem prestações espetaculares com o Ace. Das duas uma, ou essas posições estavam realmente uns furos abaixo daquilo que seria de exigir depois de estes lutadores impressionarem nas suas prestações com o Kento, ou aquilo que o Kento faz com eles era realmente algo de espetacular, que dificilmente seria comparável com o que fizessem depois. Bem, acho que podemos dizer que era um bocadinho dos dois

Se repararmos, o Shuji Ishikawa depois daquela rivalidade que nos deu excelentes combates com o Kento em 2017, ficou relegado à divisão de equipas e nunca mais foi ameaça séria ao Triple Crown title. O Zeus, depois de vencer o título em 2018, voltou a perdê-lo para o Kento  e desde aí que também andou afastado do Triple Crown até o ano passado. O Jake Lee nunca mais impressionou, o Aoyagi parece não ser nome para alçar voos tão altos e o Nomura acabou por se lesionar. Apenas o Suwama, como estrela da AJPW que já há muitíssimos anos, se manteve relevante e a impressionar próximo do main-event. O Kento já não é só a base da AJPW e aquilo que os fãs menos atentos conhecem da AJPW, o Kento já é a base e o resto da estrutura.

Olhemos para o booking da AJPW desde que o Kento perdeu o Triple Crown depois de um reinado com quase 2 anos em março do ano passado. Perdeu o título para o Suwama, que depois defendeu o título contra o Shotaro Ashino, um belíssimo lutador que era a cara da Wrestle-1, e que vinha com a pujança toda, numa arena sem público. Qual foi a pressa de o lançar aos leões tão cedo quase sem impacto por não haver público e qual foi a pressa de lhe dar uma primeira derrota tão prematura? Defendeu depois o título contra o seu parceiro de equipa, o Shuji Ishikawa, num excelente combate de wrestling, mas que se destinou apenas a ser um filler e a ocupar o campeão antes do Champion Carnival. O Zeus venceu o torneio e desafiou o Suwama quase na semana a seguir, quando estava bastante quente e over depois de uma final espetacular com o Kento, mas acabou por perder e dias a seguir já estava a conversa dos All Asia Tag Team titles, que são os segundos títulos de equipas da AJPW e os menos importantes, de onde lá não saiu e fazendo com que o momentum criado com aquela vitória no torneio se desvanece-se rápido.

Já em 2021, defendeu o título contra o Aoyagi, numa história que valeu muito a pena pela forma como o público apoiou o nº1 contender e pelas excelentes prestações deste, tendo sido este, a meu ver (juntamente com o tag match entre o Violent Giants e o Kento e o Aoyagi no dia anterior), a melhor história que vi da AJPW nos últimos tempos. Posteriormente, defendeu o título outra vez com o Shotaro Ashino, com a história do “vamos fazê-lo outra vez, desta vez com público”. Bem, se a história é sinceramente fraquinha, mais fraco foi o booking que deu nova derrota ao Ashino em combates pelo Triple Crown. Mais recentemente, defendeu  belt contra um outsider, o Kohei Sato e o próximo desafiante será o Yoshitatsu, que é, hoje em dia, praticamente uma personagem de comédia pouco credível para estas andanças. É tudo muito confuso, tudo aleatório, não há um rumo, não há um plano (a não ser que o plano seja manter o Suwama ocupado só porque sim). Teria feito imenso sentido, a meu ver, o Zeus ter vencido o Triple Crown enquanto estava tremendamente over depois daquela final, conseguindo-se manter a história do Aoyagi na mesma, evitando-se combates repetidos sem uma razão para tal e combates com outsideres e lutadores do mid-card sem necessidade.

Mas pegando num aspeto deste booking da cena do Triple Crown, pior ainda tem sido o booking do Shotaro Ashino e da sua stable criada o ano passado, os Enfants Terribles, que quando foram criados prometiam muito, mas que se têm mostrado, desde então, uma enorme deceção, não por culpa dos mesmos, vistos que a sua capacidade de mostrar dominância e serem os antagonistas em todas as histórias em que estavam envolvidos estava lá, mas por culpa do booking que não os legitimou quase o era preciso fazer. No seu pouco tempo de existência, venciam todos os multi-man tags no undercard com bastante domínio, venceram até inúmeras vezes a equipa em que o Kento estava inserido, mas sempre que tinham title matches (Triple Crown title, Tag Team titles e All Asia Tag Team titles), perdiam sempre.

Recentemente, o grupo traiu o seu líder, Shotaro Ashino, que completou assim o babyface-turn, dado que, mesmo sendo líder de uma stable non grata pelo público, quando era lançado ao Triple Crown nunca foi enquanto líder dessa stable, mas sempre a título individual de superação ou competição. O novo líder dos Enfants Terribles parece ser o Jake Lee. Se é certo que acabou por fazer sentido o booking em que os membros do grupo expulsaram o seu líder, culpando-o da sua falta de afirmação, considero, no entanto, que tudo foi feito demasiado cedo. Não só não se aproveitou ao máximo (nem sequer perto disso), esta run do Ashino com os Entants Terribles, como não se construiu decentemente, e com o tempo necessário para colocar os fãs a salivar por esta mudança de ares do Ashino. Tudo feito à pressa, sem build e dado de mão beijada.

Perversamente, considero que isto foi a melhor coisa que podia acontecer ao Jake Lee. Confesso que não sou fã dele, pelo menos com o rumo que a sua personagem estava a tomar. É um lutador bom no ringue, mas fraco nas expressões faciais, com carisma quase nulo e com fraca capacidade de vender o domínio sobre si. Tudo o que de bom vi dele veio com o Kento, e isso já deixei bem claro que não é muito difícil de conseguir. Talvez, quem sabe, como persona non grata, como alguém que traiu a confiança do público, com uma personagem mais agressiva e menos melancólica, seja capaz de passar de dar o próximo passo.

E por falar em coisas boas do último ano, há que falar da divisão de juniores. Esta sua divisão não tem muita gente, nem sequer tem lutadores super talentoso, mas o rácio entre os ovos que têm e as omeletes que conseguem fazer, é muito animador. As principais estrelas desta divisão são o Koji Iwamoto, o Hikaru Sato, o TAJIRI, o Izanagi e o Franceso Akira. Como podem ver, é uma divisão muito pequena, e prova disso é que desde que o belt voltou depois do seu campeão, Atsushi Aoki ter falecido tragicamente em 2019, que os seus campões foram Yokosuka Susumu (da Dragon Gate), o Koji Iwamoto e o CIMA (que é um free-agente). Como podem ver, o reinado do Iwamoto deu-se entre dois reinados de outsiders.

Contudo, os combates desta divisão são sempre interessantes, porque tiram sempre o máximo possível de cada situação. O Yokosuka Susumu permitiu à divisão ter alguns clássicos no início do ano, nomeadamente aquele excelente combate com o Hiraku Sato. Pelo contrário, o Koji Iwamoto tem um estilo que não é muito dado a clássicos. Por ter um estilo bastante simples, e muito centrado nos seus golpes de judo, quanto mais simples e curtos forem os combates, melhor ele irá parecer, e foi exatamente esse o caminho pelo qual a AJPW tomou quanto a esta divisão. Claro que um investimento maior nesta divisão, quer ao nível da qualidade, quer ao nível da quantidade ajudariam imenso, mas se tal não for possível, não vejo problema algum neste booking. O atual campeão, CIMA, ajudará a promover o título fora da AJPW e será um alvo que todos quererão tentar, elevando o título e a sua credibilidade.

Relativamente à divisão de equipas, só tenho a dizer maravilhas. Uma fed com dois títulos de Tag Team que tem conseguido tornar interessante a cena à volta dos dois interessante, merece que lhe tirem o chapéu. Violent Giants, Kento e Aoyagi, as várias combinações dos Purple Haze, as várias cominações dos Enfants Terribles, entre outras, deixam a divisão bem entregue, bem como, quando preciso e quando assim a história for interessante, podem estar perfeitamente na posição do main-event.

Por fim, recentemente, com a conquista do Jun Kasai do GAORA TV title, temos assistido a combates fora do comum que a AJPW costuma oferecer: TLC matches, Hardcore matches e Death matches não são, nem nunca vão ser o pilar desta histórica promotora nipónica, e a opção que passa por eles acontecerem com o Jun Kasai é meramente conjuntural, talvez com o objetivo de chamar mais fãs que gostam de combates do género, e procurar um pouco de diversidade. Quando a mim, e já devem estar acostumados, não vou muito à bola com combates em desqualificações e, principalmente, quando são feitos a torto e a direito.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

6 Comentários

  1. Sandrojr9 meses

    Obrigado por atender a meu pedido de fazer um artigo sobre a All Japan, concordo com o fato de que quem deveria ganhar o título depois do carnival era o Zeus, ele estava a todo o vapor ali, Kento é um Ace maravilhoso, carrega a empresa nas costas, e a nova geração da empresa deve ter um belo futuro para a restruturação da AJPW, ótimo artigo, já que o próximo é o de número 100 eu espero que seja algo especial, estou ansioso para a próxima semana.

  2. Willian Dos Santos9 meses

    Bom artigo e excelente assunto para a semana !

    Concordo com tudo com o que tu dissestes sobre o Booking atual.
    Ao meu ver desde a saída do Akiyama, a All Japan deu uma caida considerável de qualidade, NÃO apenas com as construção de novas Estrelas, mas também no desenvolvimento de Histórias e até mesmo na qualidade das Lutas.
    Eu acompanho a All Japan há mais ou menos 3 anos e pra mim o ultimo ano foi o pior desde que eu passei a seguir a empresa.
    Desde 2019 que eles tem tentado construir o Lee e o Aoyagi e ao meu ver, eles estão falhando devido a falta de oportunidades e vitorias importantes.
    NÃO percebo o Pq todos tem que terem essa história de derrotas contra o Kento, ainda mais quando elas são contadas de forma que quase simultâneas.
    O Heel turn do Jake ESTÁ atrasado há pelo menos 1 ano.
    Quanto ao Aoyagi, acho que ele deve ficar mais longe possivelpossível do Kento, pois enquanto andar com ele, vai andar sempre a sobra do mesmo.
    Pra mim ambos tem potencial para serem protagonistas ao lado do Kento.
    Enquanto o Aoyagi é supercarismatico o Lee tem a agressividade necessaria para ser um heel agressivo ou até mesmo um face dominante. E digo isso pois vejo características muito semelhantes do Takayama no Lee e acho que esse Heel turn pode ser muito bom para o mesmo.
    Quanto aos Enfants Terribles, sinto que a All Japan tem cometido os mesmo erros que a Noah comete com os Wrestlers vindos da Wrestle-1.
    Não sei dizer bem o que é, mas as vezes parece que eles tem certo receio em dar certo destaque a alguém que vem de fora e isso é péssimo.
    Gosto muito do Ashino e apesar de não acha-lo um wrestler para fazer parte dos wrestlers com potencial para fazer parte do Main Event, acho que o mesmo tem sido queimado pelas péssimas decisões do Ishikawa.
    NÃO percebo o pq de darem duas titles shots, para faze-lo perder em ambas, ainda mais da forma que foi derrotado.
    Quanto as tags, acho que apesar de terem poucas tags, eles estão bem.
    Mas uma coisa que me incomoda muito, é terem dois titulos de tags, aonde os mesmos wrestlers disputam os titulos,sinto que as vezes um meio que tira a relevância do outro e isso ao meu ver é mau.
    Em ralação jr. Eu gosto de tudo principalmente do Iwamoto e do Sato.
    Iwamoto é daqueles wrestlers que faz parte da minha lista de 5 melhores lutadores Jr. E pra mim é um otimo modelo de lutador Jr.
    Gostei do reinado dele e apesar de achar que ele perdeu o titulo cedo, concordo que dar a vitoria ao Cima foi uma otima decisão.
    Quanto ao Sato, considero um lutador NÃO apenas necessario mas competente naquilo que faz. Como um aluno do Misu-san,ele não decepciona de forma alguma, pelo contrário ele trás a credibilidade e a legitimidade que uma Divisão precisa.
    A Única coisa que eu NÃO gosto da Divisão Jr. É a falta de wrestlers. Acho que eles necessitam buscar nomes não apenas para refrescar a divisão como também dar mais importância a mesma.
    Alguns nomes que eu gostaria de ver na All Japan eram:
    Lindaman
    Fuminori Abe
    Takuya Nomura
    Hayato Fujita Jr.

    Bom acho que me alonguei muito e Peço sinceras desculpas.
    Adoro ver sua opinião a respeito de Puroresu.
    Muito obrigado pelo artigo e Parabéns pelo otimo trabalho.

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      Obrigado pelo excelente e cativante comentário, reparo que sempre que escrevo sobre puroresu deixas sempre comentários bastante interessados, e isso sabe bem para quem traz este tipo de temas acredita. Nesses nomes tens três dos melhores Jr. no mundo, são excelentes valores para qualquer promotora do mundo, seja ela qual for!

  3. 13 cm9 meses

    Artigo integro e de respeito.