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Opinião Feminina #336 – How do you solve a problem like Becky?

No passado Summerslam, após perder o combate pelo título feminino do SmackDown, Becky Lynch revoltou-se e atacou a vencedora do combate que, coincidentemente, é a sua amiga mais próxima, Charlotte. O ataque foi recebido com aplausos e apoio por parte dos fãs, trazendo mais uma vez à baila a tão afamada discussão sobre a definição de heel.

Não que a discussão alguma vez tenha morrido. Muito pelo contrário, este parece ser um dos maiores pontos de contenção entre a WWE e a sua legião de fãs. Será heel aquele que se comporta como tal, através de ações maldosas, ataques à traição e desonestidade ou aquele que é apupado? Ou seja, avalia-se o caráter das ações das pessoas ou não passa tudo de um concurso de popularidade? Infelizmente, não se pode escolher uma das opções, porque ambas são dependentes. Afinal, por muito popular que uma pessoa pareça ser quando entra numa arena, é sabido que babyfaces costumam ter melhores vendas de merchandise. Aliás, foi um dos pontos que CM Punk teve em conta quando decidiu mudar de posição em 2012.

E agora Becky Lynch encontra-se no centro de uma questão que nunca irá ser consensual, seja apenas entre fãs ou entre os fãs e a companhia. Porque, no fim do dia, a companhia irá apostar e investir naqueles que julga serem os mais indicados para liderar e representar e esses irão ser, na maioria do tempo, retratados como babyfaces. E, pelo caminho, várias estrelas poderão ser mal representadas, causando uma enorme frustração aos fãs que se investem emocionalmente nas personagens que estão a ver.

Existem vários prismas através dos quais se pode analisar esta situação. Independentemente da opinião dos fãs presentes, Becky Lynch é uma vilã porque está a descarregar as suas frustrações numa amiga por não conseguir vencer o título feminino do SmackDown. Lynch pode defender que Charlotte foi introduzida no combate do título à má-fé, mas a verdade é que Charlotte derrotou a campeã para merecer a oportunidade e a indústria é extremamente competitiva. Lynch sempre soube disto à partida. As regras não mudaram a meio do jogo, ela simplesmente não foi boa o suficiente para o vencer. A sua derrota é unicamente culpa sua.

Esta é uma forma de ver as coisas e parece-me ser a forma que a WWE, inicialmente, visualizou que isto iria acontecer.

Por outro lado, estamos a falar de Becky Lynch. Estamos a falar de alguém que, na sua primeira verdadeira oportunidade por um título, mesmo perdendo, foi a grande estrela da noite, ganhando uma enorme empatia e carinho junto dos fãs. Estamos a falar de alguém que, embora já tenha sido campeã, raramente é uma das estrelas principais do programa onde se encontra. Estamos a falar de alguém que a WWE toma como garantido e não leva verdadeiramente a sério, e isto nota-se na forma como é retratada. Lynch raramente é o destaque, o centro das atenções. O que, por si só, é algo que nunca fez muito sentido, sendo ela uma das melhores lutadoras do plantel e uma das mais carismáticas. Lynch é, consistentemente, uma das mais populares e, ao mesmo tempo, uma das que menos destaque recebe.

Lynch parece existir apenas para fazer os outros brilhar. Raramente é usada consistentemente. Lynch não passa de uma luz de presença da programação do SmackDown – sabemos que está lá, mas não tem muita substância. Há fases onde a companhia decide apostar nela temporariamente, apenas para se esquecer dela pouco tempo depois. Estamos a falar de séries de derrotas que depois se transformam em qualificações para Money in the Bank, sem qualquer naturalidade ou explicação.

E apesar disto tudo – apesar da falta de interesse e motivação da companhia, apesar da sua inconsistência – Lynch continua a ser das mais populares.

A sua popularidade justifica-se da mesma forma que se justifica a popularidade de Daniel Bryan. Estamos a falar de pessoas genuínas e talentosas que têm uma paixão óbvia pelo que fazem. Isto são aspetos que conseguem criar empatia junto de qualquer fã com facilidade. Lynch tem o tipo de naturalidade, à vontade e bom humor que a tornam fácil de apoiar, independentemente do que está a fazer em televisão.

Isto deveria bastar para encerrar o assunto, mas só para o caso de não bastar, vamos falar um bocadinho sobre Charlotte.

Logicamente, se vamos tentar apresentar Becky Lynch, uma personagem bondosa e natural, como vilã, então a sua oposição terá que ter o dobro do trabalho, portanto convém que seja ainda melhor que Lynch a desempenhar o papel de heroína. Esse não é o caso de Charlotte.

Desde o início da sua carreira na WWE que Charlotte é das estrelas que mais destaque recebe. Charlotte é uma das principais representantes da WWE. Aliás, juntamente com Alexa Bliss e, mais recentemente, Ronda Rousey, as três formam a tripla de ouro da companhia. E atenção, isto não é, necessariamente, uma crítica. Não sinto que Charlotte não mereça o destaque que recebe. No entanto, quando temos alguém, como Becky Lynch, que tinha os fãs todos desesperados por, finalmente, vê-la a ter o seu momento ao sol, pois sabemos que são raros, não podemos opô-la a personagens como Charlotte e esperar que os fãs queiram ver a vitória de Charlotte. A carreira de Charlotte foi, na sua íntegra, passada ao sol. Existe uma diferença de destaque e importância entre as duas absolutamente abismal. Tentar retratar Lynch como uma má perdedora poderia funcionar se Charlotte não fosse a oposição.

Não é uma história natural para contar. Não quando Charlotte, para além de ser um dos aspetos mais destacados da divisão desde o início, desempenha muito melhor o papel de vilã que o papel de heroína. Quando esta venceu, no Summerslam, a audiência inteira revirou os olhos, porque não é uma novidade, não é uma surpresa, nem sequer é uma fuga à rotina. É a normalidade. Charlotte como campeã é o que é normal.

Apenas na WWE se agarra numa pessoa que é uma natural heroína e noutra que é uma natural vilã e se troca os papéis porque sim.

Mesmo que Lynch seja uma má perdedora, mesmo que Charlotte tenha merecido combater no Summerslam porque derrotou Carmella – se bem que derrotar campeões em combates sem o título em jogo é um dos piores hábitos criativos da WWE e nunca fez qualquer sentido – quando Lynch grita que merece o seu lugar ao sol, que merece oportunidades, porque sempre se esfalfou a trabalhar para as ter, sem qualquer recompensa, não há como os fãs não sentirem que ela tem razão. Porque é a realidade! Basta assistir à programação! Não é uma coisa que simplesmente aconteceu nos últimos meses ou semanas. Tem sido uma realidade ao longo da sua carreira.

Portanto, é óbvio que os fãs irão dar-lhe o seu apoio e ficar frustrados quando Charlotte, a antítese de Becky Lynch, ganha mais um título, quando as divisões foram construídas em torno dela.

É nestes momentos que sinto que a WWE não assiste à sua própria programação. Este é mais um clássico exemplo de como a WWE não sabe contar histórias de forma a suscitar as reações que pretende, portanto o que acaba por acontecer é que os fãs apoiam aqueles que mais gostam e a WWE investe naqueles que mais gosta, inventando a história que for preciso para o explicar, mesmo que não faça sentido ou se adapte às circunstâncias ou personagens em jogo.

No fim do dia, a WWE não é boa a contar histórias.

Nas redes sociais, ambas se têm comportado como faz mais sentido – Becky Lynch como heroína e Charlotte como vilã. Em televisão, as coisas têm sido diferentes. Tanto em Nova Iorque, como em Toronto, e nos live events que a WWE teve pelo meio, Lynch tem sido fortemente apoiada. Tal poderá atenuar ao longo das próximas semanas, à medida que a WWE regressa às cidades com menos afluência de fãs aguerridos e maior presença de fãs casuais. Poderá fazer a diferença. Sinceramente, não sei se fará, porque Lynch sempre foi apoiada de forma consistente. Além disso, as suas exclamações em como merece uma oportunidade vão sempre, sempre, soar verdadeiras.

Rumores dizem que a WWE vai deixar de apresentar Lynch como heel e irá apresentar as duas como pessoas que têm motivos válidos nesta luta, apenas perspetivas diferentes. É uma possível solução, se de facto se concretizar, mas acho que aos olhos dos fãs, Charlotte será sempre apupada nesta luta. E sendo ela tão boa a fazer de heel, porque não ir prego a fundo com as duas em papéis bem definidos em vez de recorrer a uma solução tão ambígua? Qual é o problema de Charlotte ser vilã outra vez? Será que é porque estamos muito perto do Evolution e estamos a contar com ela para ser um dos principais focos, a nível promocional? Será que é porque o combate que ela irá ter no Evolution exige que seja uma heroína e a WWE receia que depois não terá tempo suficiente para a tornar favorita dos fãs novamente?

Nenhuma destas possibilidades me parece razão suficiente, mas quem sabe? Talvez, daqui a uns meses, me arrependa e chegue à conclusão que estava errada. Não seria a primeira vez. No entanto, duvido muito que alguma vez ache que estava errada quando defendi que Becky Lynch merecia mais. Obrigada e até daqui a duas semanas.

8 Comentários

  1. BRUNOju. há 3 meses

    Acho que a WWE sempre soube quais seriam as reações da platéia nessa rivalidade, não podem ser tão burros assim. A rivalidade está ótima, espero que tenham um combate na jaula no HIAC.

  2. Tobias há 3 meses

    O texo poderia ser resumido apenas nesse parágrafo:

    “Este é mais um clássico exemplo de como a WWE não sabe contar histórias de forma a suscitar as reações que pretende, portanto o que acaba por acontecer é que os fãs apoiam aqueles que mais gostam e a WWE investe naqueles que mais gosta, inventando a história que for preciso para o explicar, mesmo que não faça sentido ou se adapte às circunstâncias ou personagens em jogo.”

    É a mais pura verdade.

  3. Leleco há 3 meses

    Não vejo problema nenhum na Becky ter turnado heel. Ela tem motivos coerentes para Isso. Também, não vejo problema nenhum em um heel ter o apoio do público. Não é a primeira vez que um heel tem o apoio do público, e não vai ser a última. A rivalidade só está no começo e já é a melhor rivalidade feminina desde Sasha vs. Bayley, no NXT. Muitas coisas podem acontecer. Eu acho que a WWE não seja tão inocente assim, eles sabem muito bem do apelo que a Becky tem com público. Talvez eles só queriam dar uma renovada no personagem da Becky, que mesmo tento apoio do público já estava desgastado. A Charlotte é uma ótima wretler, mas o público já está fadado de sempre vê-la com o título. Talvez, em breve, poderemos ter uma troca de papéis, onde a Charlotte turnê heel e Becky volte a ser face.

  4. Júnior 007 há 3 meses

    Se a WWE souber fazer a coisa certa pode se tornar a melhor rivalidade depois de lita e Trish esse combate precisa acontecer no heel in the Cell match e com toda a liberdade que elas merecem.

  5. Fillipe há 3 meses

    A real é que a se a WWE quer que a Becky seja heel elas vai nos enfiar ela heel goela a baixo, vide o que fez com Roman

    Podemos esperar a Becky jogando sujo direto até os fãs começarem a vaia-la pq é assim que funciona na WWE

    • wesley há 3 meses

      O Roman não é heel porque não faz sentido torna-lo heel, ele vende muito bem e =e popular com as mulheres e crianças.

  6. Saika há 3 meses

    Quando a Alexa disse: “One Hit Wonder”, estava prevendo o futuro da Lass Kicker.

  7. Becky, a injustiçada!

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