Top Ten #197 – Quando misturam a realidade…

Bem-vindos ao Top Ten, de volta ao activo. Anda um clima desconfortável pela WWE. Como quando vão a casa de um amigo e ele começa a discutir com os pais de forma acesa e ficas ali sem saber o que fazer e para onde olhar. Também andam a fazer muito disso ali para os lados do Monday Night Raw. Só que nos sabemos bem para onde olhar e o que queremos é mais confusão.

É o John Cena e o Roman Reigns quase a ler mensagens de fóruns de wrestling um ao outro, é o Enzo Amore a ser humilhado em praça pública. Anda a recorrer-se muito à realidade. Aos termos inside. Sem ser uma “shoot”, apenas ali a roçar e a largar alguma informação “interna” para causar o choque do espectador. Espreitemos lá dez casos disso, em que se vai buscar umas coisinhas menos “kayfabe” para o velho bate-boca do “sou melhor que tu” do nosso wrestling…

10 – Ele sabe do que fala, Enzo…

Para abrir, já aqui um caso actual, familiar e que vai estando bem activo nas nossas televisões. Enzo Amore é gajo de fazer asneiras. Já olharam bem para ele? Vá, não vamos por aí. Mas o que acontece é que leva na boca. E no pêlo. É um castigo pouco ortodoxo, em que o tratam mal em TV e o despromovem. Mas é mal tratado em segmentos de destaque e é candidato a um título, que é como quem diz “Nós até de despedíamos, mas tu vendes muitas t-shirts.”

Levou com a humilhação em praça pública – com pouco espaço de manobra para as suas próprias bocas – pelo Campeão Intercontinental The Miz, que nunca teve assuntos com ele sequer. Mas que foi o seleccionado para o colocar na linha e dizer-lhe algumas coisas que não são propriamente para se andar por aí a dizer, como o seu afastamento nos bastidores e “expulsão” do balneário, para além de questionar as suas habilidades em ringue, em comparação aos colegas. Que não é só uma característica de uma personagem “loudmouth”, é mesmo uma situação real.

E porquê Miz a tratar disto? Primeiro, porque era preciso alguém que dominasse aquele microfone e que fosse capaz de fazer mais barulho que Enzo e, de preferência, mais coerente. Felizmente, Miz é um bom orador e bem falado. E também… Porque ele compreende bem essa posição e conhece a estrada de redenção disso mesmo. Ele já esteve nessa mesma posição e sabe bem aquilo por que Enzo está a passar. Não lhe chamam o “tratamento Miz” porque mais tarde ganha o direito de engravidar a Maryse, não…

9 – Num Rap sai tudo

Até está na moda as “diss tracks” no rap, ao ponto de chegarem à Taylor Swift e fazer torcer cabeças. Acontece. E o que podia ser qualquer promo antiga do John Cena, foi uma coisa mais aperaltada. E que segmento. Mais uma vez recorrendo à memória recente, este faz parte da ainda corrente rivalidade entre os New Day e os Usos, que não nos tem dado apenas grandes combates. E estamos bem servidos nisso. Também tivemos grandes segmentos.

Uma “rap battle” orientada pelo famoso rapper Wale, colocou os New Day e os Usos a trocar rimas. Não propriamente conhecidos como rappers, esperaram-se momentos baixos e um segmento pobre. Mas o único que foi baixo foram as bocas e o segmento foi tremendo. O Wale até se ajoelhava.

Referências a um certo escândalo internauta, no qual Xavier Woods ficou um pouco mais “Rated R” – amigos, não foi bem propriamente “R” ali… – referências à participação de Jimmy Uso no Total Divas e ainda pior, a associação familiar dos gémeos, mencionando carregar sacos para um certo primo, que desfruta de mais sucesso. Algumas bocas que pareciam genuínas, menções de certas coisas imencionáveis. Nada pessoal, nem a rivalidade o era. Era apenas uma disputa pelos cintos. Mas certamente nos capturaram as atenções, brincando ali na corda bamba e sem ter que romper quartas paredes…

8 – Colisão de estilos de vida

Dois grandes Superstars, favoritos dos fãs, com estilos em ringue peculiares. Títulos à baila. Não chegava. Colidiam mais coisas. CM Punk, straight edge na vida real, abstém-se de todo o consumo de álcool e drogas recreativas. Jeff Hardy, o espírito livre e com historial de problemas com vícios e substâncias. Aí está a verdadeira colisão.

Mesmo sendo uma feud televisiva e com ambos os lutadores mantendo o respeito, na TV, atiravam-se coisas pessoais para personalizar a coisa. E aqui, na procura do herói e do vilão, Punk não fazia do bom exemplo, mas sim do preconceituoso, tornando Hardy o favorito. Punk nunca colocou travões nas acusações a Jeff e falava-se muito abertamente dos problemas que Jeff tivera, das suas violações da Wellness Policy, das suas perdas de emprego, de problemas com a lei. Tudo em praça pública. Por acaso era para obter simpatia por Jeff, senão era uma tremenda humilhação.

Mas esse estilo de vida, no caso de CM Punk, nem foi abordado uma única vez. Para além de originar toda uma gimmick, já muita coisa pessoal foi abordada numa rivalidade com Chris Jericho, em que este falava no alcoolismo do pai de Punk para o atiçar. Muito real também. Mas na rivalidade entre Punk e Hardy, as coisas tinham que dar uma volta mais bizarra. Aparentemente intoxicado, e com o irmão Matt aparentemente mais interessado em comer, Jeff criou um vídeo, por si, em que manda todas as bocas a Punk, mais pessoais. Vídeo do YouTube. Nada para TV. Feito por ele e deixando as pessoas a pensar no seu estado, na veracidade daquele momento e no que o futuro ditaria.

7 – Demitir-se com atitude!

A primeira que aqui aparece realmente tratada como uma shoot. Joey Styles é um histórico comentador e com um estilo peculiar. Chegou à WWE mas não foi lá que o desenvolveu. Depois de lá trabalhar, formatado, e com o estilo deles já impingido, parece que o homem fartou-se. E demitiu-se em praça pública, de microfone na mão, a abrir um orifício novo aos patrões.

Não foi uma promo leve, recorreu ao seu descontentamento pela obrigação e proibição do uso de certos termos. A preferência por “sports entertainment” em vez de “wrestling” ou o escandaloso “Superstars” em vez de “wrestlers”. Tocou numa ferida e soavam a palavras de um comentador frustrado, sempre com um patrão psicopata a gritar-lhe ao ouvido, genuinamente à procura de um lugar de conforto, onde pudesse trabalhar à vontade.

Foi o seu angle de saída para a ECW. Mas não foi propriamente para a ECW. Foi para a WWECW, lá não ia obter o mesmo. E acabou por se cobrir de hipocrisia. Realmente já não tinha que chamar “Superstars” aos wrestlers. Pior ainda, houve aquele curto período em que tinha que lhes chamar “Extremers”. Tira um bom pedaço de significado àquela promo emocional, não tira?

6 – Várias vezes in a lifetime

Ah, Cena e Rock. Tanto povo a adorá-los e eles a não gostar muito um do outro. O que até dava jeito, porque o povo a adorá-los queria era vê-los à bulha um com o outro. E tivemos esse acontecimento “Once in a Lifetime” por duas vezes. E não ia ser uma troca de carinhos de “Eu respeito-te tanto e quero-te passar a tocha” e “Eu também e recebo a tua tocha de bom grado” e trocam um beijo quente no meio do ringue. Não, é logo à boca suja.

The Rock é o veterano, o mais velho nisto. Mas foi ele que começou, ainda nem era assunto e ele já lhe andava a mandar bocas. Eram para a brincadeira. Foi quando se encontraram frente-a-frente, que começaram a sair as coisas mais a sério e a mexer em certos assuntos. Cena funcionava como uma espécie de porta-voz de todo o balneário que tinha medo de dizer que não gostava do virar de costas de Dwayne à WWE, direccionado a Hollywood. The Rock… Não gostava do Cena, pronto. E da forma como ele se direccionava à criançada.

Cada um defendia o seu território e muito bem. Mas a coisa aquecia mais quando corria o burburinho de que os temas das promos lhes saíam do coração e que eles realmente não gostavam muito um do outro. O que só acrescenta mais faísca ainda ao que diziam. Na hora de combater, todo o respeito e abraços no backstage, são bons homens. Sim, acho que não me lembro de murros/estalos que fizessem tanto barulho, mas adiante. Havia mesmo ali um conflito de ideias. E a culminar no momento mais shoot: quando Cena embaraçou Rock, ao mencionar as cábulas no braço!

5 – Talking “Smack” indeed

Com um nome desses, dava a entender que era um programa só disso, de bate-bocas, de roupa suja. E quase. Era um bom programa, isso era. Portanto teve que acabar. É assim. We can’t have nice things. Apresentado por Renee Young e com a visão especialista de quem orientava o programa de Daniel Bryan, sempre com convidados bem acesos, era boa TV ali na WWE Network.

Mas podia ser TV brilhante, se dessem o microfone a alguém que o dominasse e que tivesse alguns assuntos de grande dimensão com alguém de igual proporção. The Miz. Andava pouco amigo de Daniel Bryan e os seus principais métodos eram a mera ofensa, o insulto, o plágio, a desonra. E Bryan nada podia fazer, os seus dias de ripostar a soco já lá vão. Então como seria quando estivessem presente numa plataforma cujo objectivo fosse mesmo só falar e, de preferência, mal?

Uma tremenda promo, aclamada e recordadíssima, em que Miz soube como deixar os fãs a questionar a sua veracidade. A faíscar de escárnio, defendeu o seu estilo de luta mais seguro e sem lesões e chamou Bryan de covarde por não ir para as independentes para prosseguir o seu sonho. Algo que todos os dias ainda lhe partirá o coração. Com Bryan a recorrer à citação de Miz para dizer que foi algo que ele mesmo já chamou a si próprio, ficámos todos a pensar o quanto Bryan estava a contar com aquelas palavras de Miz.

4 – Aprender a dar uma promo

E chegamos à malta que mais tem agitado o público do Raw nestes últimos tempos. John Cena. A ensinar umas coisas a Roman Reigns. Não digo que o intuito seja mesmo ele aprender a dar uma promo. Aprender só. A lição que Cena lhe vai dando. Numa feud de sonho, que eles próprios denominam de calibre de Wrestlemania, Cena e Reigns realmente querem levar a coisa bem lá para o alto. O povo compara-os muito. E eles parecem não se suportar por isso mesmo.

Feud mais pessoal actualmente. E ao que fazem aparentar, a mais pessoal lá dentro também. Apenas perturbando aqueles que não gostam do excesso de uso de termos internos – insiro-me ligeiramente – têm puxado as cordas todas para garantir que o público está a ouvi-los e o que têm a dizer não é agradável. Infelizmente não sobra bom material para o Roman Reigns e, para além dos comentários referentes à “pá-de-ouro” e aos “enterros”, o resto do seu discurso reduz-se a infantilidades e só lhe falta ripostar com “É a tua mãe” ou “Quem diz é quem é.”

É de Cena, o que mais domina aquele instrumento, que vem as maiores bocas, as referências a promos e à falta de dotes nelas, à quarta parede, a Heel Turns, ao fabrico de Reigns como um próximo Cena e indo mesmo ali para o cantinho pessoal: falhas de testes da Wellness Policy. Se em ringue desatarem ao estalo com a mesma pica com que trocam bocas, pouco sobrará para o Brock Lesnar e Braun Strowman destruir!

3 – Cala-te e ouve, Vince

Paul Heyman, um lorde ali daquele microfone. Mandavam-nos dar uma promo sobre os benefícios da água para a saúde e ele deixava tudo a ouvir e matava. E neste tempo ele não era propriamente apenas um “advocate” de alguém. A sua agenda era outra. Ainda era patrão muito recente de uma das mais inovadoras companhias da glorificação da violência e das últimas coisas que tinha feito? Um shoot contra a estação televisiva, a desfiá-los a retirá-lo do ar. É, era um gajo com este sangue na guelra com quem estávamos a lidar e o povo sabia.

Mas até andava mansinho e não estava na WWE a fazer estragos. Era comentador, logo o que partilhava era sabedoria, acompanhado por JR, outro a quem isso também não lhe falta. Mas era apenas uma bomba à espera para rebentar no momento certo. E Vince McMahon ia ter que ouvir algumas coisas de alguém que já fora seu concorrente. E que era muito bem falado. Aconteceu e o mundo ouviu e calou. O Tio Vince, especialmente que tinha que engolir tudinho.

O homem que afirmava que tinha criado a Attitude Era antes da Attitude Era, ali fazia Vince ouvir de tudo e não estava com paninhos quentes. Mexeu em tudo e até mesmo o pai, Vince McMahon Sr. veio à baila, perguntando-lhe o que ele pensaria do monopólio da companhia, da compra da concorrência, ao contrário da colaboração e globalização na qual o seu pai tanto investia. Uma das muitas coisas que deixaram Vince a olhar para o chão e a nós a perguntar se ele estava mesmo completamente preparado para ouvir aquelas coisas.

2 – E assim fica “Broken”

Já falei do assunto antes. Há muitas justificações, ao longo da carreira de Matt Hardy, para este pifar e acabar por ficar “Broken”. Até acho que, no geral, ele lidou muito bem com tudo. Um dos principais momentos é esta história. E sim, toda ela é real. O ódio era legítimo, a novela vinha dos bastidores e aquela malta é que aproveitou e viu como fazer dinheiro a partir disso. Profissionalismo de outro mundo, o dos envolvidos.

Matt Hardy e Lita, um casal aparentemente perfeito. Edge, grande amigo de Matt, pelo meio. O pior acontece. Hardy chateia-se e acaba ele despedido, como qualquer lógica determinaria. Chateia-se, tenta invadir o Raw. É contratado de volta e siga à bulha com Edge, agora para o espectáculo e que se controle para não o esganar mesmo e deixá-lo ali estendido. Essa é a parte real, que todos conhecemos, das storylines mais pessoais e polémicas que tenha existido na história.

Especial atenção a esta promo. Podia ter acontecido num “Talking Smack”, dado o seu formato e dada a confusão verbal que lá se dá. Nós conhecemos a história, sabemos a sua veracidade e compreendemos perfeitamente o pobre Matt. É suposto acreditarmos mesmo que as coisas que foram ditas foram cuidadosamente estudadas de um guião escrito por alguém? Ou somos assim tamanhas “OBSOLUTE MULES”?

1 – Hey, Colt Cabana!

Já deviam ter a primeira posição em mente. Tanto aqueles que chegaram no dia seguinte à Internet e viram que história tinha sido escrita na noite anterior como aqueles que assistiam no momento e acreditavam que as coisas tinham fugido de controlo e CM Punk estava completamente destravado a tomar conta do Raw e a dizer o que lhe apetecia.

Hoje já sabemos que apenas foi mais ou menos assim. Na altura não pensámos muito no assunto. Ainda demoraram muito tempo a cortar-lhe o microfone porque estava delineado e planeado que ele fosse lá dizer umas coisas que já não estavam a roçar a linha. Já estavam bem para lá, além da linha. Mas ninguém o escreveu para ele. Punk foi instruído a dizer o que lhe ia na alma e apenas lhe cortariam o microfone, para acrescentar ao drama do momento, quando ele realmente tomasse algum caminho pior. Foi ao quase sugerir um Vince McMahon morto – isso não se faz sem envolver limusines e cá está a referência a esse momento outra vez! – que o silenciaram.

Antes disso, Punk libertou as suas frustrações perante a supremacia de Cena – pois claro – mencionou outras companhias quando ainda não tinham o mesmo à-vontade para o fazer, cumprimentou o amigo Colt Cabana, rompeu e mencionou a quarta parede, falou de erros de gerência. De tudo um pouco. E saiu daí um histórico angle, a culminar num excelente combate, com um fantástico seguimento, que desenrolou numa péssima história. Não se pode ter tudo. Mas história foi feita: grande momento porque nos fizeram acreditar.

Dez momentos de guiões escritos pela alma. Quando já estão fartos de saber que bater com o pé no chão não torna um soco mais forte mas ainda tentam colocar algum realismo na brincadeira para nos fazer acreditar um bocadinho, de vez em quando. Não vos pergunto se acreditaram nos momentos todos, mas peço-vos para comentá-los, os que se lembram. E claro, acrescentar algum caso que se lembrem que caibam nestes parâmetros.

Fico por aqui em relação ao paleio, já chega. Que seja vosso agora. Pretendo cá voltar na próxima semana. Há-de vir novo tema se eu não desmoralizar com algo que vocês me digam nos comentários que se assemelha ao que esta boa gente já disse. Até à próxima então e boas aulas para quem a elas há pouco regressou!

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “Top Ten”.

3 Comentários

  1. 13cm - há 1 mês

    Acrescento o da AJ Lee sobre as divas.

  2. Rui Ribeiro - há 1 mês

    Bom artigo. Aquela promo do Punk foi sem dúvida lendária. Pena que depois tenham estragado completamente o “Summer Of Punk”. Começou com uma das melhores promos de sempre, o build up para o MITB foi excelente, o combate foi 5 estrelas… e no fim tudo isto acabou com Triple H vs Kevin Nash. Enfim.

    • KILL OWENS KILL - há 1 mês

      Geralmente é assim mesmo. Tem um início incrível e acabam não fazendo jus ao que construíram, no caso, o que o Punk construiu.

      Ah e excelente Top Ten, by the way.

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