Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Na semana passada, a WWE realizou o seu primeiro PPV pós-WrestleMania, que, na melhor das hipóteses, será também um dos últimos PPVs que a WWE realizou sem poder contar com o seu público. Repristinando um pouco as velhas questões que já coloquei várias vezes aqui no Brain Buster, relativas à quantidade absurda de eventos e PPVs que a WWE realiza por ano, nota-se que isso é ainda mais visível este mês, quando os fãs ainda estão a assentar as ideias depois da WrestleMania. O próprio card e histórias deste PPV mostrou isso, porque ou tivemos combates que mereciam uma construção muito melhor e maior, ou então tivemos combates que serviram apenas de “fillers” para outros que se pretende realizar mais à frente.

O nome do PPV também não me pareceu o mais indicado, nem sequer o mais inteligente. Acho que todos concordamos que o nome “Backlash” é excelente para designar um PPV. Mas não se trata apenas da inutilidade de acrescer “WrestleMania Backlash”, trata-se também de criar uma moleta para criar algum remoto interesse nos fãs por poderem ver um evento que ainda vem na sequência da WrestleMania, retirando a aura de especialidade que o maior evento do ano tem e, mais uma vez, usar e abusar de uma coisa sua, atirando-a à cara dos fãs, enfiando-a pela sua garganta, até que os próprios fãs já não sejam atraídos por tal. É mais uma vez a WWE a ser “mark” de si própria, sem ideias novas, olhando apenas à forma e não ao conteúdo. Em suma, o habitual da WWE nos últimos anos.

Foi um PPV a que assisti, não na sua integralidade, mas que teve vários combates que me deixaram contente, e até surpreendido e outros pelos quais eu já estava à espera de ver wrestling do bom e do melhor. No entanto, e como já vem sendo hábito da WWE, por muitas coisas boas que um show seu tenha, tem sempre de haver aspetos menos positivos e outros tremendamente negativos que ofuscam os positivos. Aviso desde já que não vi o Lumberjack match entre o Miz e o Damian Priest que envolveu aquela porcaria (a expressão inicial não era bem esta) com os zombies, porque tenho genuinamente amor aos meus olhos. Isto dito, decidi pegar no card deste evento e analisar combate a combate, coisa que já não faço à algum tempo para um show. Penso que no seu geral tem aspetos interessantes para abordar, por isso vamos lá a isso!

WWE RAW Women’s Title Triple Threat match: Rhea Ripley vs. Asuka vs. Charlotte Flair

Recordam-se de eu, logo no primeiro parágrafo, dizer que este PPV tem combates que serviram apenas para ser o set up ou a ponte para outro? O PPV começou logo com um, e porventura com aquele que, na minha opinião, é o profundamente mais desinteressante, isto é, com um multi-man ou multi-women match apenas para não queimar um singles match e para servir de desculpa para um lutador que não tenha estava envolvido na decisão do combate possa vir reclamá-lo no RAW a seguir. Eu não tenho nada contra a WWE fazer isto de vez em quando, afinal, um 3-way construído com o interesse devido e suportado pelas interações dos lutadores ou lutadoras de acordo com a relação que tenham naquele momento ou rivalidade pode ser interessante, mas também especial, por quebrar a rotina dos singles matches, que deve ser sempre a regra, e nunca, mas nunca a exceção, o que a WWE parece ter deixado de perceber. Isto não foi o caso, foi até um caso que se notou claramente o que ia acontecer e um caso em que os fãs se aperceberam, a partir do momento em que o combate foi anunciado, de qual seria o resultado e o porquê de o terem planeado. Quando um produto é delineado da forma que a WWE é, com uma roleta russa constante que atira à parede a ver se cola semana a semana, é normal isto acontecer, e é normal os fãs perderem o interesse.

Quanto ao match em si, os melhores momentos, na minha opinião, foram aqueles em que a Charlotte tentou vencer as duas adversárias ao mesmo tempo, até porque foi essa a história transmitida no package antes do match, de que a Charlotte estava tão confiante ao ponto de proferir tais palavras. No entanto, foram como que uma gota no oceano que foi este match. O problema dos 3-ways é são montados apenas com ideias em moves e spots combinados, o que retira grande parte do storytelling, que é o que aprecio mais nos matches. Seja como for, para o que tinha de ser, cumpriu, e espero que finalmente a Rhea e a Charlotte entram numa rivalidade daqui para a frente e nos deem o rematch que por tanto tempo esperamos, daquele excelente combate que tiveram na WrestleMania do ano passado.

WWE SmackDown Tag Team Title match: The Dirty Dawgs vs. Dominik Mysterio & Rey Mysterio

E se o PPV começou meio morno ou, porque não, bastante frio, com um combate composto por 3 elementos muito interessantes, mas que pouco ou nada podiam fazer com aquilo que lhes havia sido dano, a meu ver, tudo começou a aquecer com este Tag Team match que pessoalmente apreciei bastante. Ignorando que o spot em que alguém é atacado no backstage é feito todas as semanas, gostei bastante da história do Rey decidir tentar ganhar os títulos sozinho porque o seu filho Dominik estava lesionado, mas ainda assim arriscou, porque tinha algo a ganhar em fazê-lo. Ainda não tinha visto muito do Ziggler e do Roode como equipa, pelo menos não com uma gimmick muito razoável como têm agora e que me pareceu fazer deles uns excelentes heels.

Os primeiros minutos vêm o Rey a ser completamente dominado pelos heels, sendo que o Rey é dos melhores lutadores para ser colocado nesta posição, não só pela sua história enquanto underdog que consegue tirar um coelho da cartola nas situações menos favoráveis, como por ser dos lutadores que consegue vender muito bem o domínio dos adversários, consegue fazê-lo de uma forma nada entediante. O Rey vai tentando retaliar até que o Domink decide vir ajudar, ambos fazem o comeback e temos um momento que sabe sempre bem de uma conquista de pai e filho. Nada a dizer relativamente ao combate e em relação ao seu conteúdo e nada a dizer em relação à prestação dos quatro elementos. O que eu quero perguntar é porque isto não aconteceu na WrestleMania com público? Eram mais importantes a Gauntlet feminina, a estreia do Omos ou até o Tag Team title match feminino? E isto só para dizer alguns…

WWE SmackDown Women’s Title match: Bianca Belair vs. Bayley

E eis um combate que me surpreendeu enormemente pela positiva. Gostei imenso do wrestling aqui apresentado, das interações à volta do cabelo do Bianca e da transição que ambos fizeram de move para move. Contudo, o que mais há aqui a realçar é o trabalho da Bayley que tem vindo sempre a melhorar na minha opinião. À medida que o tempo passa, ela mostra-se cada vez mais à vontade enquanto heel, cada vez mais se sentindo ela e não uma personagem que está e tem de interpretar. Passou de irritante forçada para uma wrestler irritante mais confiante. Fez-me torcer pela Bianca como nunca alguém tinha conseguido até hoje e, como grande final, transportaram as interações à volta do cabelo da Bianca para com a sua ajuda a mesma conseguir vencer a Bayley, numa verdadeira justiça poética para com uma muito boa heel.

Tenho pena que a história tenha sido muito genérica, mas foi a Bayley foi mesmo a melhor lutadora para a Bianca enfrentar neste momento em que se afirma como babyface, não só por ser uma excelente heel, mas também uma heel credível que vem de um reinado muito longo como campeã e que com isso pode colocar a Bianca ainda mais over como babyface e credível enquanto campeã. Não sei se isto ficou por aqui ou se temos uma Bayley mais desesperada agora com a derrota a ser mais séria e agressiva e, com o tempo, mais psicopata, caminho que pessoalmente gostaria que tomassem. Fiquei com vontade de ver mais no futuro destas duas.

WWE Title Triple Threat match: Bobby Lashley vs. Drew McIntyre vs. Braun Strowman

Mais um 3-way match, mais um combate que serve de ponte para um outro ou uma rivalidade futura, ou então que se destina meramente a manter o campeão ocupado até um novo desafio surgir. Mais uma vez, os fãs notavam isto a milhas, era tudo mais que previsível. E se já tinha todas as agravantes que eu referi aquando do Triple Threat match feminino que foi o opener do show, este ainda teve a agravante de ser nada mais nada menos do que moves que os lutadores fazem entre eles, sem nenhuma correlação, nem uma transição que disfarçasse isso. Pior do que isso, temos três lutadores com um tamanho incrível, três bestas com talento que já não se encontram muito hoje em dia, pelo menos com este tamanho, e nos primeiros minutos temos o Brawn a dar uma cambalhota da appron para o show e a aterrar quase em cima do seu próprio pescoço e temos o Drew a fazer Cross Bodys… Não era propriamente com isto em mente que eu queria ver o combate, embora já estando de pé atrás com a previsibilidade do resultado.

E pior que isso é o Lashley ir contra aquela zona de entrada e rebentar explosivos, ficar uns minutos fora do match e regressar no fim como se nada fosse, sem marcas no corpo. E pelo meio ainda temos o Braun a mandar o Drew pela mesa dos comentadores a dentro, que é o spot que os fãs de WWE já viram umas 2x a cada semana. E com tudo isto a acontecer, o match termina com um simples spear. Eu passo de pensar “o que é que vai ser preciso para vencer um lutador hoje em dia” para “o quê? Afinal é só isto”? Do que vi, pior combate do show, que nem ao nível de decente chega. É daqueles combates que a meu ver consistem na definição de zero, nada ou niqueles.

WWE Universal Title match: Roman Reigns vs. Cesaro

E finalmente chegamos ao main-event, ao combate que pessoalmente mais aguardava e queria ver desde o momento em que foi anunciado. Sou fã de ambos os lutadores, da qualidade in-ring do Cesaro que é tremenda, e principalmente deste Roman Reigns, que é um dos melhores heels que se pode ter no wrestling atual, ao mesmo tempo que tem dado este ano combates que têm sido dos melhores de 2021, estejamos a falar só da WWE e NXT, estejamos a falar do wrestling nos EUA ou estejamos a falar do wrestling em todo o globo. Os combates com o Daniel Bryan e este com o Cesaro foram absolutamente fenomenais. O Roman tornou-se no lutador a ver em 2021 e a fazer de tudo à sua volta também o melhor do wrestling este ano.

Mas para isso também tem tido o contributo de lutadores que sabem o que estão a fazer. E se o Daniel Bryan é um dos melhores a alguma vez calçar aum par de botas de wrestling, o Cesaro vem logo a seguir. Em termos de interação durante o combate, é dos melhores babyfaces que a WWE tem na minha opinião, e é pena ser bastante fraco nas promos e até na demonstração de uma personalidade forte que seja fácil aos fãs gostar. Talvez não seja um lutador de nível de main-event, mas para andar sempre a alternar pelo destaque no mid-card e ir ao main-event de vez em quando é um lutador perfeito.

Gostei bastante do Cesaro ter vendido sempre o braço, aliás, a presença de histórias do género, em que se trabalham partes do corpo não costuma ser muito usual na WWE, mas os combates do Roman Reigns têm tido muito disso, o que é um aspeto bastante positivo para quem gosta claro, o que é o meu caso. Talvez a única coisa que tivesse mudado teria sido o facto do Cesaro ter sido prendido na Guilhotine choke e por nenhuma vez ter conseguido levantar o Reigns e obrigá-lo a colocar mais pressão até que eventualmente desmaiasse.

Ao contrário de um PPV em que as coisas más ofuscaram as boas, neste combate foi absolutamente o contrário. Era realmente um main-event match que necessitaria de uma maior construção por parte do Cesaro para nós sequer acreditarmos que seria possível o mesmo vencer o campeão invencível, e não lhe dar um booking irrelevante e depois fazê-lo ganhar uns combates ao Rollins para o atirar de imediato aos leões. No entanto, acredito que um bom combate pode fazer esquecer um mau booking e este foi este o caso, um caso raro na WWE hoje em dia em que o bom ofusca o que de mau poderia ter sido feito. E imaginem que os fãs estavam no dia a seguir a falar da prestação do Cesaro em vez de falarem de zombies? Quase que parece que estou a falar numa hipotética realidade alternativa impossível, não é? Enfim.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

4 Comentários

  1. Sandrojr3 semanas

    Essa parte dos zumbis foi patética, afasta qualquer um do produto da WWE, ótimo artigo.

  2. Et Billu3 semanas

    Bom artigo, Roman tem feito um excelente trabalho como heel, esta como um personagem bem mais interessante e com varias boas matchs no percurso, ele luta menos vezes, mas faz com que suas lutas sejam o grande destaque da maioria dos PPV’s, fazendo uma boa mescla de qualidade in ring com história, só tenho a reclamar do numero excessivo de interferências as vezes, mas pelo menos ele conseguiu algumas vitórias limpas no ultimo mês.

    Outro fato a se destacar é que o Roman, esta tendo o primeiro reinado realmente bom da história do Universal Title, e pensar que já vai fazer 5 anos da criação de titulo.

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      Muito obrigado pelo comentário. Por acaso até acho que os combates dele ainda deviam ter mais interferências ahahahah. Bom ponto, aquele título realmente nunca teve um reinado interessante, este é sem dúvida o primeiro.