Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Já no fim da semana passada, saíram várias notícias relativas a uma possível parceria entre a WWE e a NJPW, sendo notificado que ao longo das últimas semanas tiveram lugar várias conversas acerca dos termos em que tal parceria poderia concretizar-se, mais precisamente, tal acordo poderia, por exemplo, consistir numa troca de talento, tendo-se frisado que seriam alguns dos lutadores de topo de ambas as promotoras. Mais tarde, outras fontes reportaram que os oficiais tinham-se apenas reunido, possivelmente, para conversar acerca dos termos em que o Daniel Bryan, cujo contrato com a WWE acabou, e que não se sente motivado a ter uma carreira na WWE igual à dos últimos anos, tendo a vontade de fazer mais com os últimos anos que lhe restam na carreira, nomeadamente, marcar presença em grande eventos no Japão e até no México, sendo que se a WWE quiser manter o Bryan, um dos grandes nomes que ainda tem sobre a sua alçada, terá de abrir um qualquer regime especial ou de exceção, dando uma certa liberdade para o mesmo lutar noutros sítios que não a WWE, mas sítios nos quais a WWE não sinta o seu domínio sobre o wrestling americano e mundial sequer beliscado.

Conhecendo como os fãs conhecem o Daniel Bryan e até muitos lutadores ou pessoas envolvidas no mundo do wrestling que trabalharam com ele ou que dele são próximas que poderão facilmente confirmar isto, não é de admirar que o Bryan queira mais do que lutar apenas uma vez no SmackDown por semana, muitas vezes em histórias e combates menos importantes e, principalmente, menos interessantes, em que também não possa mostrar muito do seu estilo, que nunca foi muito a praia da WWE. Bryan Danielson ou Daniel Bryan gosta do que faz como poucas coisas na vida e apenas pode ter sido essa a razão que o levou a trabalhar tanto para poder voltar a lutar depois das lesões terem acabado com a sua carreira em 2016. É este amor ao wrestling que também lhe dá vontade de fazer o máximo de coisas que ainda tenha por fazer na modalidade a nível mundial, numa altura em que, muito provavelmente, tudo ou praticamente tudo o que podia fazer na WWE já foi feito.

Uma oportunidade destas para o Bryan, mas também para o mundo do wrestling era excelente. Dar-nos-ia combates pelos quais nem sequer pensamos ao longo dos anos, refrescava o interesse à volta do Bryan e colocaria todos os olhos na modalidade que ficaria bastante quente com essa realidade, caso se concretizasse. Confesso que, pessoalmente, a existir uma parceira entre a WWE e a NJPW será sempre à volta do Bryan ou muito pouco para além disso, pois, apesar de ver muitas vantagens para essa parceria em termos mais abrangentes, essas vantagens destinam-se apenas aos fãs. E não, isso não é mau, e seria algo pelo qual eu torceria e aplaudiria e, se algum dia tal se concretizar, eu seria um dos seus primeiros apoiantes e defensores. No entanto, tenho alguma dificuldade em ver no que, quer a WWE, quer a NJPW, teriam a lucrar com tal relação de trabalho.

É exatamente este o plano de trabalhos para o artigo desta semana, ver e procurar o máximo de ilações e considerações a tirar desta possível relação, tentando ver os prós e os contras para ambas as promotoras, assim como para os fãs. Não obstante, não esperem qualquer tipo de verdade absoluta, caminho inegável ou dogma inquestionável quanto a esta questão. Isso não existe neste tema, e, sinceramente, arriscar esta parceria parece-me mais um tiro no escruto. Porque digo tal? Porque tanto pode beneficiar ambos lados, como apenas um ou até nenhum e continuarem as duas empresas a seguir o seu caminho normal. Tudo o que direi, então, aqui hoje, são apenas pequenos pensamentos que, enquanto fã, tenho sobre esta possibilidade.

A primeira consideração que quero fazer desde logo é que, para estas coisas, a WWE não é confiável. E sim, acabaram de ler aquilo que acham que acabaram de ler, não há nenhuma promotora, mas nenhuma promotora na história que tenha negociado com a WWE, entrado numa parceria com a mesma e disso tenha saído beneficiada ou sequer pelo menos não fosse prejudicada. Aliás, quando Vince McMahon tomou conta da WWF na altura, o seu plano de expansão nacional consistiu, numa primeira fase, em fazer vários acordos com os territórios, mas acordos que deixaram a WWF e os seus lutadores entrarem naquela que não era a sua área de atuação, celebrizando os seus lutadores como mega personalidades nacionais, muitas vezes acima dos lutadores dos respetivos territórios e, com isso, vários territórios perderam força, perderam interesse e, com isso perderam público. No fim, foram adquiridos pela WWF ou extinguiram-se.

É isso que a NJPW deve ter em mente nos dias de hoje. Se é certo em cerca de 80 anos nenhuma promotora americana conseguiu vingar em solo nipónico, solo que foi sempre e ainda é a 100% e com a máxima força das promotoras japonesas, e por isso dificilmente a WWE conseguiria, através da colocação dos seus lutadores em shows da NJPW torna-los, agora não em estrelas nacionais, mas mundiais ou, pelo menos, com forte presente e força no Japão, a verdade é que a WWE não é confiável, e é mais do que sabido que depois da expansão e completo domínio nacional, o próximo objetivo, que demorará décadas de tentativas e falhanços, mas que ainda assim é uma porta que não se fecha, é o objetivo da expansão e domínio mundial. E se é verdade que a WWE tem forte presença já em todo o mundo, mesmo em domínio que tradicionalmente tinha o seu wrestling, como o Canadá e a Europa, há dois lugares em que a WWE teve sempre dificuldade e dificilmente não continuará a ter para vingar nesses territórios para lá das promotoras nacionais, que são o Japão e o México.

Não obstante, se no México esse caminho se fará naturalmente, pela forte presença hispânica-latina que tem crescido nos EUA, e até pelos efeitos normais da globalização que começam logo entre países mais próximos e entre continentes, sendo o México um país também mais aberto, no Japão, as coisas passam-se de forma bastante diferente. São uma sociedade mais fechada, com tendência para gostar dos seus e dos seus principalmente, com uma cultura muito própria e com dificuldade de adaptação à cultura dos outros. Os fãs de wrestling no Japão são, antes de mais, fãs de wrestling japonês e não de americano, e não é como se não tivessem tido, ao longo de décadas, a experiência em primeira mão do que era o wrestling americano ao mais alto nível, não tivessem tido a oportunidade de ver lutadores como Hulk Hogan, David Shultz, David Von Erich, Ric Flair, entre muitos outros. Se o interesse dos japoneses não despertou com esses populares lutadores, não vejo porque despertaria com os lutadores americanos de hoje em dia, menos populares, fora e dentro do seu continente.

No entanto, os tempos mudam, os efeitos externos também, e se tal mudança pode levar décadas, não vejo porque, do lado da WWE, não começar a preparar esse futuro. Não é segredo nenhum que a WWE tem o sonho, praticamente remoto, de criar um NXT Japan, para competir no mercado japonês com as restantes feds nipónicas, o que é missão quase impossível, e sinceramente, ainda bem que assim é. Mas tal só será possível se a WWE comprar uma das bases que lhe permita ter essa presença, por exemplo, adquirindo ou podendo influenciar de forma decisiva uma grande promotora nipónica. Ora, com a NJPW a ver o seu produto e números caírem bastante, poderá estar a Bushiroad disponível a desistir do projeto a que tanto deu de si e que teve resultados tão positivos apenas porque terá uns tempos de menos intense e cativação no público que é sempre normal após uma era de grande interesse? Penso que não, e pessoalmente espero que não.

E isto para dizer o quê? Para dizer que esta parceria não interessa, pelo menos direta e imediatamente, nem à WWE, nem à NJPW. Os prós que se retiram desta hipotética relação seriam apenas resultados positivos quanto ao interesse do produto, com caras novas dos dois lados, com mais star-power dos dois lados, com a possibilidade de realizar Dream matches dos dois lados. Eu, como enorme fã de wrestling, penso na possibilidade de um John Cena vs. Hiroshi Tanahashi ou de um Kazuchika Okada vs. Randy Orton e quase que o meu coração bate mais depressa.

E se à NJPW entrar nisto é perigoso pelas razões indicadas supra, também não sei até que ponto a WWE tem assim tanto a ganhar com a presença de lutadores da NJPW no seu produto, muitos até se sentiriam como um peixe na água na sua promotora pelo enorme talento e estilo que até combina bastante, como é o caso do Jay White, mas depois teriam dificuldades em contar com eles para histórias mais consistentes e que exigissem mais tempo. Ora, se desde que Vince McMahon tomou conta da WWE que a regra é que as principais estrelas estão em regime de exclusividade com a promotora, não vejo porque agora deixaria isso de ser assim. Não estou a ver a WWE e o Vince a deixarem-se ficar dependentes da NJPW, isto porque sempre que os japoneses negoceiam este tipo de acordos, são bastante duros e nada flexíveis em alguns pontos, e isso para mim é uma vantagem enorme, face, por exemplo, à PROGRESS, EVOLVE ou wXw, que negoceiam com a WWE claramente em desvantagem na força que têm para determinar as condições dos acordos.

Todavia, não digo que não haja vantagens claras também com esta troca de talento. Como? Ora, a WWE podia recuperar vários fãs que compõem a base hardcore que estão descontentes com o produto, mas que poderiam reganhar esse interesse porque, normalmente, tendem a conhecer estes lutadores. Quanto à NJPW, apesar de não fazer grande coisa no mercado interno, pois o mercado japonês é largamente dominado por ela, poder-se-ia trazer apenas os fãs mais casuais que teriam a curiosidade de ver estes lutadores que ouvem falar serem grandes estrelas nos EUA, mas as vantagens são sobretudo no mercado americano, para o qual a NJPW se quer estender há já vários anos. Neste aspeto, tem tanto dificuldade em vingar nos EUA, como a NJPW no Japão, pelo que, mais uma vez, o interesse que ambas as promotoras possam ter nesta parceira é reduzido, e é, acima de tudo, um enorme tiro no escuro, porque não se conhecem as tendências dos fãs de ambos os países no futuro curto, médio ou longo. Não obstante, há sempre referências do passado, e a última foi quando Chris Jericho marcou presença no Tokyo Dome, e foi inegável que tal deu um reforço enorme na presença da NJPW em solo americano.

Por fim, diria que é uma tentativa da WWE resfriar um pouco a presença e crescimento da AEW no Japão. A AEW tem inúmeras parcerias, quer nos EUA, com o Impact e NWA, quer no Japão, com a DDT ou a TJPW. Mas um dos objetivos sempre foi manter o máximo de contacto possível, o contacto que tem aumentado com a NJPW. É verdade que o produto da NJPW tem decrescido um pouco, mas continua a ter o melhor roster disponível em solo nipónico, como até me arrisco a dizer que apenas a WWE pode contar com um roster melhor. Ora, a WWE, ao estabelecer ligações com a NJPW, quererá com certeza que essas ligações deixem de parte a AEW, é natural que assim o faça. Nos anos 90, era a WCW que tinha fortes relações com a NJPW, e é verdade que isso não fez verdadeira mossa à WWF na altura, mas a verdade é que os tempos mudam e os fãs também, os seus gostos, as suas preferências, etc. É inegável que na última década o interesse no wrestling japonês tem crescido, e há boas razões para isso.

Em suma, penso que o acordo inicial, se alguma vez existir, será acerca de possíveis datas e presenças do Daniel Bryan, e a partir daí tanto pode evoluir para relações mais ou menos amplas ou mais ou menos restritas. No entanto, como fã, seria algo que eu gostaria muito de ver acontecer, desde que a NJPW tomasse cuidado consigo e mantivesse a WWE no seu lugar, pois, como disse, a mesma não é confiável nestes assuntos. A quantidade de combates e interações entre rosters é absurda e colocaria mais interesse no mundo do wrestling, o que é sempre bem-vindo.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

6 Comentários

  1. Sandrojr2 semanas

    Essa parceria não ocorrerá, pelo simples motivo de que qualquer uma das duas empresas não vão querer sair por baixo, a WWE vai querer dominar a NJPW mostrando a força de seu roster perante a empresa nipônica, e a NJPW não vai querer ver suas estrelas indo prós EUA perder, por isso acho que o mais provável seja a NJPW contínua com sua parceira com a AEW, essa mostra mais respeito pela empresa japonesa, ótimo artigo.

  2. Anónimo2 semanas

    Gostava de ver essa parceria, iam sair bons combates, mas não vejo isso acontecer. Bom artigo.

  3. Et Billu2 semanas

    bom artigo