Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Faz exatamente por esta altura um ano desde que não falo aqui no meu espaço semanal do Impact Wrestling. E a razão para isso até é bastante simples, é que durante este tempo deixei de ver qualquer conteúdo relacionado com esta promotora, pois se entre 2018 e 2019 a mesma apresentava um produto extremamente divertido e dos melhores que tínhamos nos EUA, em 2020, com a pandemia e a perda de vários lutadores, mas especialmente pelos programas vazios e histórias sem grande conteúdo e várias decisões questionáveis, deixei de ter razões para continuar a ver esta fed. Igualmente as contratações realizadas imediatamente a seguir e o que ia ouvindo falar e lendo não me traziam grande vontade de recomeçar a acompanhar.

No entanto, com o regresso do público e com um card bem apelativo, decidi ver um dos seus maiores eventos do ano, o Slammiversary, exatamente o mesmo evento a seguir ao qual decidi dar uma pausa no que que diz respeito a ver o Impact, e tenho a dizer que não fiquei nem um pouco arrependido ou achei que estava a perder tempo a ver este PPV. Foi um belíssimo evento, que até me fez lembrar os bons anos passados que já referi, sentimento que não seria possível voltar a ter, primeiro, sem a presença do bom público que esteve presente, mesmo que em número reduzido, e, segundo, pelos bons combates a que assistimos.

É claro que continuam a existir erros a que já estamos habituados quando falamos do Impact, nomeadamente as falhas de produção e, infelizmente, a presença de inúmeros lutadores ex-WWE que, apesar do seu talento e bom trabalho, viram a sua credibilidade queimada pela forma como foram tratados em TV nacional e numa plataforma que abrange todo o mundo. Por outro lado, também sofre vícios que continuo a apontar a muito do wrestling moderno e que poderiam ser facilmente corrigidos. Porém, em termos de diversão e surpresa foi um dos eventos que mais gostei em 2021, e há boas razões para achar que o Impact pode melhorar bastante daqui para a frente, nomeadamente pelo enorme potencial que tem no roster que começou a reunir.

Por outro lado, é uma promotora que assume cada vez mais uma identidade, a de ser uma promotora que junta lutadores de todos os cantos do globo, em que tudo se encontra em presença e em confronto. Desde lutadores do México, Japão, etc., parceiras com a AAA, NJPW, AEW e com presença de várias caras da NWA, mas isto não apenas no aspeto formal, pois mesmo o estilo in-ring do Impact consiste exatamente numa mistura de quase todos os estilos de wrestling que há, como o estilo high-flyer da X-Division, o wrestling tradicional no seu melhor apresentado na NWA, contando aí com nomes como a Deonna Purazzo, o Strong-Style, devido à presença de vários lutadores japoneses ou ligados ao puroresu na sua programação, como o Satoshi Kojima e o Joe Doering, podendo contar também com inúmeros big guys como o Morrissey, Moose, Jake Something, entre muitos outros, sendo que o facto de já não ser uma das big leagues, mas também não ser propriamente uma indy permiti-lhe ter um estilo hardcore mais acérrimo e ainda lutadores que, pela história a ser contada, são capazes de grandes prestações em angles mais arrojados, como o Matt Cardona e até o Brian Myers.

Pessoalmente, não vejo outra maneira de manter o Impact interessante e como uma fed que, apesar de nunca voltar a poder ter os números e o reconhecimento que teve no seu passado, se poderá manter de forma sustentável no mundo do wrestling, apelando a um público mais hardcore que conhece todas estas promotoras, todos estes nomes, todos estes estilos e que quer sempre ver algo novo e não uma programação mais ou menos repetitiva. É por isso que o Impact em muitos aspetos vai ainda mais longe que a AEW, pois não tem como competir nas big leagues e opta por falar para estes fãs que quererão ver sempre este tipo de produto. A meu ver, fá-lo de uma forma inteligente e onde todos saem a ganhar, visto que o Impact se mantém minimamente relevante, os lutadores têm mais com o que trabalhar e onde trabalhar e as restantes promotoras em parceria com o Impact ganham mais uma plataforma de destaque para promoverem o seu produto.

À semelhança do ano passado, foi também um evento de inúmeras surpresas, estreias e regressos, o que chamou muito a atenção de qualquer fã. Ora, poderíamos pensar que o Impact poderia guardar algumas destas surpresas para a sua programação semanal e tentar ter mais views semanalmente, mas o Impact não tem bem essa possibilidade, dado que mesmo com a presença do Kenny Omega em vários programas semanis, as views não chegam, nem de longe nem de perto às audiências mínimas do Dynamite, só a título de exemplo, pelo que está mais que visto que não é no seu programa semanal que o Impact terá mais gente a ver. Assim, guardar todas estas surpresas e toda esta atenção gerada à volta do Impact numa só noite é bastante inteligente, pois ajuda a vender o PPV. Ora, se pensarmos bem, os fãs de wrestling comuns já têm inúmeras coisas para ver hoje em dia, desde os programas infinitos da WWE e da AEW aos combates mais espetaculares que podem ver do Japão. Por isso, porque razão iriam ver o Impact Wrestling semanalmente? Mas se o Impact lhe der um evento recheado de wrestling, lhes der um compacto do que é numas 3 horas, os fãs já terão bem mais curiosidade e não se importarão de dispensar algum do seu tempo a ver esse PPV e, quem sabe, alguns deles até ganham ou reganham interesse pelo produto. Foi por isso bastante inteligente fazer todas estas surpresas num só PPV e não guardar quase nenhumas para os programas semanais.

Gostaria agora de ver alguns dos combates do PPV, olhando para os seus aspetos positivos e negativos e ver onde o Impact pode tirar o pé do acelerador, ver onde deve apostar mais e ver onde esteve na perfeição, pois tudo um pouco aconteceu neste PPV.

Impact X-Division Title Ultimate X Match: Josh Alexander (c) vs. Petey Williams vs. Trey Miguel vs. Rohit Raju vs. Ace Austin vs. Chris Bey

O opener do PPV foi um combate com uma das estipulações mais míticas da história da TNA/Impact Wrestling, um Ultimate X match, na qual a X-Division também fez muita sua história. Realmente poucos combates serviriam tão bem para começar o show de aniversário como este. Apesar disso, antes de assistir ao PPV, quando fui conferir o respetivo card pareceu-me uma má jogada por parte do Impact não colocar o X-Division champion Josh Alexander num tradicional singles match, visto que é o seu ponto mais forte e onde ele sobressai. Por isso, numa noite em que muitos olhos voltariam a estar postos no Impact, e sendo o Josh uma das apostas principais para o futuro, parecia o caminho mais óbvio. No entanto, não foi essa a decisão do Impact e provou um pouco do meu pensamento, pois o Josh, apesar de ganhar e reter o título num combate em que estava em desvantagem, acabou por não ser o tópico mais falado do match, mas os inúmeros spots que o combate teve. A meu ver, o Josh deveria ser construído como main-eventer daqui para a frente e o facto de o andarem a referenciar como a “face of impact” vai nesse sentido. Vou mais longe e ainda digo que deveria ser ele a vencer o Omega daqui a uns tempos pelo título. Nesse sentido, este match não foi a melhor opção, mas também esteve longe de ser a pior possível, sendo que ainda há bastante tempo para colocar o Josh nesse patamar daqui para a frente.

Quanto ao match em si, foi o esperado, um combate cheio de spots malucos. Mas este até foi mais do que isso, pois muitos dos lutadores que ali estavam tiveram várias interações ou ações para além disso, de destacar a prestação do Rohit Raju que por ser pequeno e não chegar às cordas tentava sempre chegar ao título de outras formas mais inventivas, o que tornou o combate bem mais divertido. Por outro lado, muitos dos spots foram espetaculares e alguns até feitos de maneira que não deixava antever qualquer espécie de colaboração entre os participantes, o que muitas vezes é o problema destes matches. Porém, outros spots acabaram por sofrer disso e puxaram, a meu ver, o match para baixo. Mas não me posso esquecer do que disse no início deste artigo, é que o Impact procura apelar ao fã mais hardcore que quer sempre ver algo novo para além dos inúmeros combates que vê no seu dia-a-dia. Nesse sentido, conseguiu agarrar esses fãs. O que eu gostava que fosse dado mais atenção é ao selling após esses spots. Porque um lutador que sofre um move incrível não é logo levado para o backstage para ser tratado e fica umas semanas sem aparecer? Dando um exemplo, como é que o Chris Bey sofre um Canadian Destroyer do Petey Williams a partir dos ombros do Josh e o Ace Austin um Cutter a partir das cordas que seguram o belt e ainda têm ações no combate mais à frente? Isso sim, a meu ver, poderia ser repensado. Para terminar, os minutos finais são bastante intensos, cheios de emoção e drama até ao minuto final.

Mixed Tag Team Match: Brian Myers & Tenille Dashwood vs. Chelsea Green & Matt Cardona

O combate que se seguiu foi Mixed Tag cheio de história entre os participantes e o culminar do que me pareceu um bom angle. O Myers com inveja do seu antigo parceiro a aliar-se à sua ex-namorada, a Tenille, onde poderia haver ressentimentos e o Matt Cardona a querer seguir em frente na sua carreira e a não conseguir, e, por isso, a olhar para o futuro acaba por ser ajudado pela sua companheira atual, a Chelsea Green. Como disse no início, a única coisa que puxa todos estes intervenientes para trás foi terem sido queimados durante tanto tempo pela WWE e estarem a demorar a retomar alguma credibilidade para si, mas o que podem vir a conseguir brevemente. Foi um combate muito bem conseguido e com o tempo certo num PPV que teria vários combates, sendo que tivemos tudo o que era pedido, desde a rixa entre as lutadoras, ao ataque do Matt sobre o Myers, a uns minutos em que os heels dominavam os babyfaces para logo a seguir ao hot tag o match terminar com a sua vitória. Verdadeiramente, não mudaria mesmo nada neste combate, nem mesmo o Canadian Destroyer da Chelsea ao Myers, afinal estávamos no culimar da feud e era preciso dar uma grande retribuição ao heel e colocar os babyfaces over, ao mesmo tempo que se procurava o grande pop da crowd.

Impact Knockouts Title Match: Deonna Purrazzo (c) vs. Thunder Rosa

O co-main event foi o meu match preferido da noite. Mesmo quando ainda acompanhava o Impact o ano passado a sua divisão feminina era a parte do show que gostava mais, pois o Impact tem, sem dúvida, um roster invejável de wrestlers femininas e no topo está uma das melhores do mundo, a Deonna Purrazzo. Depois de derrotar todo o roster, eis que chegou a altura de lhe dar em desafio uma outsider, a Thunder Rosa, ligada contratualmente à NWA, mas marcando presença também na AEW, sendo esta uma surpresa guardada até ao último momento pelo Impact. Confesso que não poderia pedir muitas melhores adversárias para a Deonna, dado que a Rosa é uma das melhores atualmente em todos os sentidos e o público reagiu como nunca à sua presença. Que grande combate de wrestling que nos esperava. E tudo aquilo que no papel prometia, elas nos deram. Estas duas senhoras do wrestling deram o melhor combate de wrestling do PPV, com a Deonna a atacar o braço da Rosa para a qualquer momento conseguir prender o Fijuwara armbar e a Rosa como boa babyface sempre a lutar de baixo para cima perante uma heel mais fisicamente imponente. No final, a heel consegue apanhar a babyface no seu finisher de surpresa e vence o combate. Bons minutos de pura magia destas duas e de quem gostaria de ver mais no futuro.

No final do combate, assistimos ao retorno da Mickie James, não só uma ex-Knockouts champion, como uma das lutadoras de topo do wrestling feminino americano nos últimos 20 anos. Veio com o intuito de convidar a Deonna para fazer parte do PPV feminino que a NWA realizará no próximo mês e perante uma campeã heel que fez pouco dela e a empurrou não exitou em a atacar. Talvez no PPV feminino da NWA tenhamos mesmo um combate entre as duas pelo Knockouts title, algo que pessoalmente adoraria assistir.

Impact World Title No Disqualification Match: Kenny Omega (c) vs. Sami Callihan

Finalmente, no main-event tivemos um No DQ match, sendo que este foi um melhoramento do Impact até face aos bons anos de 2018 e 2019, dado que nessa altura os PPVs tinham muitos, se não mesmo demasiados No DQ matchs, apesar de para quase todos os combates que tinham essa estipulação, a mesma se justificasse. Ora, aqui, ao existir apenas um combate sem desqualificações fez este main-event parecer especial e toda a brutalidade a que assistimos pareceu ainda mais brutal e espetacular por não termos assistido a nada parecido anteriormente. Nos primeiros minutos, confesso que estava a adorar a história do Sami ser um lutador fora daqueles a que o Omega está habituado a lidar, pois ainda é pior que o Moxley, foi essa a história vendida.

No entanto, o tempo foi passando e só vi spot atrás de spot, move atrás de move, e pior, vi o Omega, enquanto heel que deveria ser detestado, a safar-se de inúmeros big moves que o babyface lhe ia conseguindo aplicar. O seu manager estava na mesa dos comentadores sem nada fazer e os Good Brothers apareceram quase no final e foram imediatamente neutralizados. Por outro lado, apesar de venderem sempre o que faziam, fizeram a meu ver demais a um ponto em que chegou a ser violência por violência, sem realmente qualquer história que estavam a contar para isso. O Omega recebeu vários Piledrivers e nunca parou nada que estava a fazer por causa das dores, e um deles até foi da appron para uma mesa…. Apenas no final, e com batota, o campeão lá acabou por reter. Suponho que muitos fãs de wrestling hardcore hoje em dia gostem de combates assim muito mais do que eu e que estejam muito mais presos ao produto desta forma, mas pessoalmente acho que poderiam e deveriam ser melhorados e estabelecer-se alguns limites em que toda a gente saísse a ganhar. No entanto, não parece ser esse o caminho, bem pelo contrário.

Por fim, e é sempre nisto que o Impact falha e que a maldição da TNA parece nunca acabar. O Jay White faz a sua estreia e com o seu NEVER Openweight title confronta o Omega, e quando alguém vem do backstage a correr a imagem corta e o PPV acaba. Infelizmente estes são os erros que afastaram os fãs durante anos e anos e que continuam a acontecer. Depois de um belíssimo PPV, acabar desta forma foi completamente contrário ao sentimento positivo que qualquer fã estava em sentir em relação ao evento. Seja como for, esperam-se respostas nas próximas semanas e estou muito interessado para ver que papel o Jay White ocupará daqui para frente, e se lá para quarta até aparece no Dynamite. No entanto, é de referir que a NJPW irá realizar um evento nos EUA e a presença de lutadores como o Jay servirão para vender o evento, já que o único match marcado para o mesmo até agora é exatamente uma defesa do título do Jay contra o David Finlay.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

4 Comentários

  1. Fernando Nogueira2 semanas

    Otimo artigo. Parabéns!

    Nao acho que houve falha no final do evento.

    Eles fizeram de propósito pra gerar curiosidade. O narrador em espanhol ja eatava preparado pro corte e encerrou com a mesma frase do americano.

  2. Sandrojr2 semanas

    Melhor combate da noite foi o do TNA/Impact world, foi uma luta brutal, o White se for enfrentar o Kenny Omega provavelmente será em outubro no BFG, ótimo artigo.

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      Obrigado. Discordo que esse tenha sido o melhor combate e que o Omega venha a enfrentar o Jay brevemente, visto que são ambos heels e não sei como combate seria montado. Seja como for, tudo é possível e adoraria ver esse combate.