Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Para quem gosta de uma modalidade competitiva que junta desporto, arte e entretenimento, onde os resultados são pré-determinados e as palavras, discursos e combates são cada vez mais pensados e planeados antes de acontecerem, a meu ver, como já referi várias vezes, mal, diria que é bastante curioso e interessante pensar que os fãs de wrestling têm uma atração enorme pela realidade, isto é, interessam-se e investem-se por tudo aquilo que é real, em que podem realmente acreditar e não no que têm de fazer um esforço para perder a sua descrença.

Ora, por muito que gostem cada vez mais de comparar o wrestling a uma modalidade artística e não a uma modalidade desportiva, o que é certo é que ao contrário dos fãs de teatro ou cinema, por exemplo, que acima de tudo são fãs da arte propriamente dita, admirando a capacidade de representação, os gráficos cinematográficos, a história contada e a capacidade de se investirem na mesma, os fãs de wrestling vão para além disso, não admirando apenas o wrestling por aquilo que o mesmo é, mas também, e cada vez mais, por aquilo que anda à sua volta, pelas histórias de backstage, pelas tragédias reais e a reação às mesmas, pelos episódios insólitos de muitos combates, etc. Diria até que esta variante tem-se tornando bastante predominante principalmente nos últimos anos, bastando até ver o interesse cada vez maior com documentários e séries temáticas sobre o wrestling ou a vida dos wrestlers.

Assim, se no início do wrestling as pessoas conseguiam acreditar no mesmo enquanto uma modalidade credível e legítima, com o tempo passaram a acreditar nas pessoas envolvidas no mesmo, a acreditar na sua personalidade para além de um lutador acerca do qual já tinham noção de que o mesmo praticava uma luta com um resultado pré-determinado. E para isso contribuíram muitas histórias que vieram a público sobre os mesmos, visto que o wrestling está recheado de pessoas com personalidades fortes e até difíceis de acreditar. Hoje em dia, no entanto, esse tipo de pessoas tende cada vez mais a não existir no wrestling, pelo menos não as que vemos no ringue e na nossa TV ou computador. E é por isso que hoje os fãs, continuando desesperados à procura de algo em que possam acreditar para além da modalidade, viram-se para aquilo que lhes sobra, como a luta pelas audiências, o ódio ou amor a pessoas da vida real e não a personagens dos respetivos programas.

De facto, ao contrário do passado, em que as pessoas viam os wrestlers como personalidades nas quais podiam acreditar e por isso continuavam a torcer por elas ou a detestá-las, apesar de terem noção de que o wrestling era pré-determinado, hoje em dia sentem os lutadores como meras personagens televisivas, completamente equiparáveis a atores de novelas, a atrizes de teatro ou a estrelas de cinema, pessoas que não são aquilo que dizem ser e que estão apenas a representar um papel. Coisas como as redes sociais em que lutadores constantemente quebram o kayfabe, seja com palavras, seja com imagens, como representantes de promotoras a referir-se ao seu produto como planeado, utilizando palavras como “personagens” ou “performance” levaram a esta situação atual que parece nunca mais retroceder.

Então o que sobrou aos fãs poder acreditar em algo real e não planeado e confessado como tal? Resta-lhes o ódio a uma promotora ou o amor a outra por acharem que têm um produto mau e bom, respetivamente. Resta-lhes o ódio a uma promotora por não pushar o seu lutador preferido. Resta-lhes as histórias de backstage acerca de verdadeiro heat entre lutadores e entre lutadores e responsáveis da promotora. Resta-lhes as notícias de possíveis planos para o booking ou aqueles que tinham sido os anteriores e não se verificaram. Resta-lhes matarem-se em discussões sem grande sentido acerca das audiências nas redes sociais. Acima de tudo, resta-lhes tudo aquilo que não tenha a ver com o que verdadeiramente interessa, o wrestling em si, a capacidade de acreditar nas histórias a ser contadas no conteúdo de uma promotora.

Basta ver quais os principais momentos de pico do wrestling atualmente. Tem mais reação a vitória final do babyface sobre um heel ou um regresso de um lutador de lesão? Tem mais reação um ataque violentíssimo de um heel a um babyface ou a estreia de um lutador numa fed? Naturalmente que os fãs de wrestling reagem muito mais facilmente aquilo que sabem que é real do que aquilo que lhes tentam contar que é real. E isto é algo que nunca aconteceria num filme de cinema ou numa peça de teatro, porque em nenhum dos dois a barreira entre a realidade e a ficção é tão ténue e nenhum dos dois tem fãs com características sequer parecidas com os fãs de wrestling. O wrestling é uma modalidade, arte ou desporto (como lhe queiram chamar) sem igual, é uma coisa única, sempre o foi e sempre o será.

Mas o caminho que o wrestling traçou nos últimos anos, de forma cada vez mais intensa nas últimas duas décadas e meia, traz problemas reais a si mesmo, desde logo ao nível da capacidade em criar uma estrela e a conseguir que os fãs tenham ódio ou simpatia por ela. E isto porque hoje em dia toda a gente é uma estrela, com maior ou menor dimensão, mas com certeza muito menor dimensão do que as estrelas do passado, pois se antes os fãs acreditavam que o The Rock e o Stone Cold eram estrelas porque eram apresentados como tal, hoje em dia acreditam que o seu lutador preferido, por mais mal tratado que seja pela promotora ao nível de vitórias e derrotas, devia ser uma estrela. Atualmente, e de forma verdadeira, toda a gente é uma estrela, porque toda a gente tem o seu nicho de fãs, seja ele maior ou menor. Por isso, os fãs chateiam-se quando não vêm o seu lutador no topo, não com o heel que in kayfabe o impediu disso, mas com a promotora que o bookou dessa forma. E mesmo quando ele seja bookado como os fãs queriam, vai haver sempre lutadores que ele vai vencer que não agradaram a outros fãs, aos fãs dos lutadores vencidos, impedindo que o próprio lutador que se está a tentar pushar nunca se torne numa estrela ao nível de uma do passado ou sequer perto disso, porque vai haver sempre vários nichos que querem um lutador diferente, e que por isso não o aceitam porque no seu lugar deveria estar outro.

Por outro lado, quase nunca existe qualquer de heat entre lutadores, ou melhor, não existe qualquer heat verdadeiro ou que pelo menos seja fácil de acreditar. Ora, se não existe problemas reais entre lutadores que façam os fãs torcerem claramente por um e odiarem o outro, se não existe um deles que os fãs queiram mesmo ver perder e outro que queiram mesmo ver ganhar pela história a ser contada, claro que o investimento na rivalidade e storyline vai ser menor ou mesmo quase nulo. Os fãs já não odeiam verdadeiramente ninguém e os que odeiam resultam de duas variantes reais e em que acreditam: ou são alguém sobre o qual surgem rumores ou histórias que o liguem a um passado criminal ou de contrariedade aos valores sociais hoje em vigor, ou são lutadores que os fãs acham que não têm talento ou qualidade que se equipare ao seu lutador preferido ou que sequer chegue para praticar a modalidade. Mais uma vez, é a realidade que dita o produto e que dita os gostos e tendências dos fãs.

No entanto, não se enganem, o ódio e ou amor à grande escala coletiva também continua a existir no wrestling, só que ele não é dirigido àqueles a quem costuma ser, isto é, aos lutadores. Ele é dirigido agora às promotoras. A WWE transformou-se no principal heel do wrestling ao ponto de qualquer lutador que deixa sair receber grande pop quando aparece na AEW ou outra fed, por mais que a mesma tenha feito um excelente trabalho a estragar a sua credibilidade. E a AEW transformou-se no principal babyface do wrestling atual, com um produto que supostamente ouve os fãs, que não os antagoniza e que pensa da mesma maneira que eles.

Não tenham dúvidas que muita coisa boa feita na AEW iria ser recebida de forma má se fosse feita na WWE, e que muita coisa má na WWE iria ser recebida de forma boa na AEW. Isto porque os fãs já perderam o critério de qualidade ou falta dela, dado que agora o mesmo é dado, não por os fãs se conseguirem investir em algo porque a história em questão é muito boa, mas pela maior ou menor confiança na fed e de quem está a cargo do booking.  “Então eu iria gostar do Roman Reigns só porque o velho assim o decidiu?”, “ok que o Hangman Page perder aqui desta forma pareceu afetar um pouco a sua credibilidade e até a eficácia de uma história já longa que vinha a ser contada, mas é a AEW e eu confio no booking do Tony Khan”. Este é o tipo de frases que ouvimos muito regularmente hoje em dia e que mostram bem que há um certo culto de personalidade, não em relação à esmagadora maioria dos lutadores e personalidades do programa em questão, mas em relação às pessoas que o gerem e são responsáveis pelo respetivo booking.

E ainda o facto de com o tempo os fãs deixarem de cantar o nome dos lutadores ou de fazer barulho para os mesmos e passarem a cantar “ECW! ECW! ECW!”, “NXT! NXT! NXT” ou “AEW! AEW! AEW!” é mais uma prova desta mesma ideia, porque os mesmos já não acreditam na seriedade do produto, nas palavras dos lutadores, nas suas ações, já não acreditam em quase nada do que era suposto acreditarem e que era a fundação do wrestling a vários níveis.

E quando não cantam isso, cantam algo do género “This is awesome! This is awesome”, “Fight forever! Fight forever!”, “5-star match! 5-star match!” ou “Match of the year! Match of the year!”, o que é mais que prova que não querem saber da história que levou àquele combate e ao suposto heat entre o babyface e o heel que os levasse a apoiar a um e a vaiar outro. Querem é apenas ver um combate espetacular, com muito tempo para que possam ver a exaustão física dos lutadores (para poderem acreditar que o que estão a ver custa mesmo a fazer) e com milhentos moves, mesmo que no dia a seguir não se lembrem de absolutamente nada do match, mesmo que do ponto de vista do sell nada importe e tudo o que fora feito signifique 0, mesmo até que o combate e a forma como é executado não faça sentido nenhum. Querem é ver algo absurdo, fora deste mundo, porque se a premissa de no passado os lutadores fazerem o menos possível era suportada pela crença na história a ser contada e no heat entre os lutadores, hoje em dia, quando ele não é acreditável, leva que se os lutadores fizerem um pouco menos os fãs já confundam isso mesmo com um mau combate.

Porque lutadores com um estilo high-flyer tão fora da caixa como o Fénix, que não é nada para além dos seus moves, são cada vez mais valorizados? E porque lutadores com um estilo mais contido como Nick Aldis, que tentam ficar over principalmente como personalidade e não pelo que fazem no ringue, são muitas vezes desprezados por grande parte dos fãs atuais? Ora bem, penso que já respondi em parte a estas questões, mas não fico por aqui, porque algo que penso que tem levado a este pensamento é outra coisa tirada da realidade, que é o costume de atribuir estrelas a combates de wrestling, algo que foi popularizado pelo famoso jornalista Dave Meltzer, mas cujo valor das suas opiniões e ratings foi mudando bastante.

Se no passado os lutadores e as promotoras se estavam nas tintas para tal (perdoem-me o calão), valorizando a ideia de que menos é mais e que o que é importante é os lutadores ficarem over pela sua personalidade e não apenas pelo que fazem no ringue, tendo em mente principalmente contar uma história em que os fãs acreditassem e tentando ser os heróis mais acarinhados ou os vilões mais detestáveis, muitos dos lutadores atuais metem na cabeça que toda a gente tem que dar o seu máximo dos máximos de forma a ter o maior número possível de estrelas em cada combate seu, como se os combates devessem ser sempre o mais espetaculares possível, o que não entendo como tal.

Há combates mais baixos no card e mais altos no card por alguma razão, há combates com uma história mais importante do que outros, isto é, os combates são diferentes e têm razões diferentes para existir, desde a sua posição no card como opener, como ser um regular TV match, como ser um job de 5 minutos para colocar alguém over, entre muitas outras razões. Afinal, se todos os combates fossem os chamados “5-star match”, nenhum combate era verdadeiramente um “5-star match”, porque nenhum combate sobressaía tanto, pois não teria a aura de especialidade por ser diferente de todos os outros. Eu não tenho nada contra tentar fazer o impossível e arranjar um sistema mais ou menos credível, embora sempre falível, de classificar combates de wrestling, mas fazer disso um assunto com relevância já me parece algo meio duvidoso.

Neste sentido, já quase não há Grudge matches em que os lutadores estão realmente chateados uns com os outros e tentam-se vingar um do outro. A título de exemplo, Rollins vs. Edge do SummerSlam tem uma história à volta da lesão do Edge e do facto do Rollins pretender atacar o pescoço do adversário mesmo sabendo que lhe pode acabar a carreira e do Edge fazer tudo o possível para que isso não aconteça, inclusive, procurar dentro de si uma personalidade mais forte, vingativa e violenta. E depois como executaram o combate? Foi mais um combate técnico, espetacular, com imensos moves e com muito tempo, mas em que 90% do mesmo não é usado para o Rollins tentar atacar o pescoço do Edge nem para o Edge mostrar que está ali para se vingar das palavras do oponente. Toda a gente tem de fazer as suas rotinas habituais, as suas combinações e as suas sequências de moves, quase não há rixas dentro dos próprios combates, toda a gente trabalha para o workrate e não para a história.

Por fim, dizer que a atração dos fãs de wrestling à realidade, que sempre existirá, numa altura em que ninguém acredita verdadeiramente nas histórias a ser contadas, leva a que os fãs queiram ver coisas no ringue tão espetaculares que quase descurem a perigosidade das mesmas. Umas vezes apreciam combates em que lutadores têm quedas absurdas e perigosas, sendo que os fãs acham que são perigosas e acreditam que são perigosas porquê? Porque são verdadeiramente perigosas! Outras vezes, adoram combates violentíssimos sem regras e com imensos objetos externos ao ringue em que lutadores muitas vezes fazem coisas para as quais não existe proteção possível, mas gostam porque já não conseguem suspender a sua descrença e necessitam sempre de ver algo que lhes pareça o mais real possível.

Pessoalmente, acredito que se dois lutadores estiverem verdadeiramente over podem dar um combate em que deixem ainda muito por fazer e os fãs vão adorar na mesma. Em 2016, o Shinsuke Nakamura e o AJ Styles eram dois dos lutadores que os fãs conhecedores dos mesmos na NJPW adoravam a todos os níveis. Tiveram um combate no Wrestle Kingdom 10 muito recordado até hoje como um excelente combate. Até acho que é um combate que pode ter ficado aquém do que os dois até conseguiam na altura, mas como estavam tão over e os fãs queriam tanto gostar daquilo e já tinham o combate como muito bom ainda antes dele começar, não era necessário fazerem mais, apenas se protegeram a si e às suas carreiras. Por outro lado, porque fariam mais se estavam no mesmo card que um main-event que precisa de juntar o máximo de atenção possível por ser o principal capítulo da rivalidade entre o Tanahashi e o Okada? O combate é excelente, serve um propósito e obteve a reação esperada sem fazer tudo e mais alguma coisa para tal. Esse, para mim, é o segredo do wrestling.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura,

4 Comentários

  1. SandroJr2 meses

    Esse com certeza foi um dos melhores artigos escritos por você, muito bem escrito, parabéns.

  2. Coutinho2 meses

    Mais uma grande artigo para sua conta.

    Sou do time que não confia no booking do Vince, e que adora os combates de inúmeros moves e muitas acrobacias.