Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

O pro-wrestling, mais do que na qualidade de modalidade desportiva ou de competição física, é, acima de tudo, uma experiência vivenciada por cada fã à sua maneira, de forma completamente distinta face a todos os outros fãs. Neste sentido, pode ser, e assim é cada vez mais considerado, uma arte, dado que por detrás dos moves e spots, das promos e segmentos, dos títulos e dos torneios, está, acima de tudo, uma história, e, com ela, uma mensagem que os lutadores ou os envolvidos no combate ou segmento em concreto estão a tentar passar. E se é verdade que os peritos e entendidos em cada atividade cultural se servem de critérios objetivos para avaliar o bem e o mau, o belo e o feito, todas as restantes pessoas servem-se apenas das suas experiências e gostos pessoais para terem opiniões próprias e diferenciadas umas das outras. De facto, à sua volta, tudo anda à volta do subjetivo, e no que alguns fãs vêm algo brilhante, para outros já é sentido de forma completamente indiferente, e no que alguns vêm algo como ridículo, muitos acham apenas divertido.

Todo o trabalho realizado no wrestling, desde o planeamento dos resultados dos combates, à forma como os lutadores tentam manipular as reações dos fãs durante os mesmos, às palavras escolhidas por cada lutador, aos vídeos de promoção de lutadores, combates ou segmentos, tudo, mas realmente tudo, é feito com o objetivo de sacar o máximo de emoções possíveis aos apreciadores da modalidade. Paixão, amor, ódio, alegria, tristeza e divertimento, assim como todo o tipo de emoções possíveis e presentes na vida humana, é o que o wrestling procura que as pessoas sintam. Contudo, como não há duas pessoas iguais, como não há duas comunidades iguais, como não há duas regiões iguais, assim como também não há dois países ou dois continentes iguais, cada fã vivenciará de forma diferente o que vê. E se neste artigo falarei essencialmente sobre os fãs, não devo deixar de referir também que os próprios sábios e experientes apreciadores de wrestling, como ex-lutadores e ex-promotores, também eles são “vítimas” de uma modalidade que apesar da tentativa de a tornar controlável e manipulável, é absolutamente incontrolável.

Isto porque à semelhança dos desportos e competições legítimas e das restantes atividades culturais como o cinema ou o teatro, o wrestling evoluiu, mas ao contrário das mesmas, evoluiu de uma forma completamente diferente e, quiçá, demasiado rápida, sendo totalmente diferente de lugar para lugar, e contendo dentro de si uma diversidade de estilos imensos a que dedicaria apenas um artigo se os tivesse de indicar e analisar. Como tal, e sabendo-se que não existem verdades absolutas no pro-wrestling, o que hoje se poderia aproximar da “verdade”, ou seja, do mais correto, amanhã já se encontra completamente afastado desse nível, e o que ontem era considerado “mau”, ou “feito”, até hoje evoluiu de tal forma que não deu sequer tempo aos fãs de acompanhar ao detalho que levou a tal mudança da sua perceção.

Como tal, se no futebol os adeptos mudam de opiniões quanto a treinadores, jogadores ou estilos de jogo, se no cinema os apreciadores mudam de opiniões conforme a evolução dos gráficos e restante tecnologia, no wrestling, esse tipo de mudanças de perspetiva e perceção são ainda muitas mais, talvez porque juntam qualquer tipo de mudança que em potência possa acontecer em qualquer desporto ou arte. No wrestling, os seus protagonistas mudam constantemente, ao nível físico e psicológico, ao contrário dos jogadores e treinadores, que demoram anos a consolidar o seu trabalho e a termos uma perspetiva de fundo sobre os mesmos. E também no wrestling, o estilo de manipulação, em storyline ou em logística, tal como o cinema, é uma das suas principais características, que se foi consolidando nos últimos 30 ao ponto de os fãs já não conhecerem wrestling sem a incorporação de tecnologia, esteja ela presente em que parte do show estiver.

E isto tudo para dizer o quê? Bem, para dizer que ao longo da sua vida enquanto fã de wrestling, todo e qualquer tipo de apreciador mudará constantemente a sua visão acerca da modalidade. Porquê? Porque é inevitável. Principalmente os fãs que compõe a base fiel ao pro-wrestling, que nunca tiveram sequer um primeiro contacto com o mesmo, terão as suas opiniões dependentes de fatores pessoais e do contexto em que se inserem em cada momento da sua vida enquanto fãs. Se nem mesmo os ex-lutadores e/ou ex-promotores conseguem dar uma definição do que o pro-wrestling é, ou pelo menos do que deveria ser (sem nunca esquecer que tal como toda a gente tem as suas ideias e gostos pessoais, porventura, muito mais justificados do que nós por conhecerem e terem trabalho no wrestling), então também os fãs nunca terão um discurso totalmente coerente ao longo dos anos, acerca do que gostam ou não gostam. Exatamente porque o que gostam ou não gostam é influenciado pelos fatores pessoais e contextos externos que presidiram àquele determinado momento enquanto fãs da modalidade.

Vejamos algumas situações a título exemplificativo, que permitam concretizar esta ideia. Em primeiro lugar, considero que os fãs de wrestling são tentados a gostar de algo quando esse algo é algo diferente do que habitualmente vêm. Aliás, não é por acaso que um dos segredos para os lutadores terem o máximo de longevidade possível é, precisamente, a sua capacidade de se reinventarem e de manterem o interesse dos fãs através da frescura do seu aspeto, palavras e combates. Ora, um fã que toda a vida tenha visto WWE e os seus combates mais simples e comerciais, se for fã do Daniel Bryan, AJ Styles, Cesaro ou Samoa Joe, se experimentar ver uma promotora que dê mais importância ao wrestling, como a ROH ou a NJPW, o mesmo tenderá a gostar. Já por outro lado, aqueles fãs de WWE que são fãs essencialmente das estrelas, terão como o seu produto predileto apenas a WWE, e tentarão ver mais do conteúdo do passado da mesma. Ora, aquilo que vão passar é por uma fase em que terão vontade de ver mais de ROH e NJPW, por um lado, e mais de WWE old-school por outro e, a partir desse momento, tentarão que o produto original que vêm, a WWE atual, se aproxime o máximo quanto possível do wrestling que estão a descobrir e a apreciar naquele momento.

Mas esta é a ideia que parte de fãs diferentes, com gostos diferentes, pois há efetivamente fãs que gostam absolutamente de tudo, e querem apenas ver algo que os entretenha. Muitas vezes nem tem de ser algo com sentido, pois este tipo de fã é cativado apenas pela espetacularidade da ação e pelo divertimento das palavras ou interações corporais. Por exemplo, haverão fãs que tanto adoram a simplicidade do wrestling apresentado por John Cena, como adorarão um spotfest entre os Young Bucks e os Luchs Bros. Esses fãs, que conhecem e gostam de tudo, querem ver sempre algo novo, ver o que nunca viram antes e querem algo espetacular. E na maior parte dos casos, pouco se lhes importa o sentido dos combates, o realismo das palavras, a perigosidade dos spots e até as consequências que aquilo terá para o futuro. E digo mais, um fã deste tipo poderá completamente, depois de dias seguidos a ver spotfestes ou Death Matches, voltar ao wrestling mais tradicional, e continuar a adorar, e nesse momento disfrutando ainda muito mais desses combates. E tal mentalidade envolve apelidarem algo de bom ou mau consoante algo seja tradicional ou inovador, mas principalmente, pela quantidade de coisas inseridas no mesmo estilo que viram recentemente.

Há depois os fãs que vão descobrindo novos estilos e novas promotoras e passam-se a apaixonar pelos mesmos, e aquilo que criticavam antes num produto passam a adorar no novo, bem como aquilo que adoravam no produto anterior, passa a ser completamente indiferente quando vêm o novo produto. Tentando traçando um perfil em concreto: um fã começa pela WWE e, durante esse tempo, elogia as personalidades fortes e histórias, pouco se importando com os combates; depois passa a ver ROH e NJPW e passa a ser mais apreciador de wrestling puro, criticando a partir daí a WWE por não se dedicar tanto ao wrestling propriamente dito; depois conhece a PWG e adora o facto de os combates irem sempre muito mais além do que o esperado e adora quando a ROH e NJPW seguem o mesmo exemplo, mas fica desiludido quando não o fazem; descobre depois a DDT e é tomado pelo divertimento e a alegria daquele produto e acha que a ROH e a NJPW se levam demasiado a sério, e que afinal as tentativas de humor da WWE já não eram assim tão más; conhece depois a AEW, um produto onde existe de tudo um pouco e tem a vantagem de ser um produto novo; descobre também old-school southern heavyweight wrestling e acha que se calhar seria melhor abrandar um pouco hoje em dia, respeitar mais as regras do selling e que mais importante que moves, combates e segmentos, é a identidade da fed que conta; por fim, conhece ainda Stardom, TJPW ou outra empresa de joshi, e se antes queria apenas ver lutadores grandes a ter uma competição de força entre si, passa agora a apreciar também lutadores franzinas e pequenas, mas que têm enorme carisma.

Enquanto um fã não conhece o máximo de promotoras ou estilo de wrestling diferentes, esse fã, a meu ver, nunca tem uma opinião totalmente formada acerca do que é o wrestling na sua totalidade. Tem, como disse, um gosto conjuntural, influenciado pelo fator novidade, mesmo apesar de certos gostos que se mantêm sempre ao longo da sua jornada como fã. E isto ainda pensando noutro aspetos que também influenciarão a perceção do que vê, é que os lutadores podem sempre melhorar e um lutador que a certa altura os fãs detestem, torna-se depois tolerável ou mesmo um dos seus preferidos. É que os lutadores mudam muitas vezes para não entrarem em rotinas desgastantes, e a cada mudança há quem goste do chant, gimmick ou move, e quem não goste, há histórias que começam com o pé esquerdo e acabam em algo lendário, e há histórias e combates que são tão promissoras no papel, mas que depois desiludem ao longo dos vários momentos em que estão a ser postos em prática.

Posto isto, haverá mais alguma coisa entre os fãs de pro-wrestling que seja tão natural, tão normal e tão comum como as mudanças de opinião? A meu ver, não. Se já é próprio do ser humano ser hipócrita e tendencioso, beneficiando, elogiando e perdoando algo em comparação com outra coisa exatamente nas mesmas condições, sendo bastante tendencioso, também certo é que essa ideia alheada a tudo o que já disse leva a que a que cada um de nós, até fora do pro-wrestling, vá mudando a sua opinião, de forma progressiva ou abrupta. E isto não tem nada de mal, porque é uma normalidade à qual o ser humano não consegue fugir. Pessoalmente, porém, vou ainda mais além, e confesso ser adepto da expressão “só é burro quem não muda de opinião”. Em todos os aspetos da vida, todos nós sabemos invariavelmente muito mais hoje do que à 5, 10 ou 15 anos atrás. Ganhamos experiência e adquirimos conhecimento, e se continuamos a pensar o mesmo que pensávamos há imenso tempo atrás, é porque realmente algo está mal connosco. Se continuamos a insistir no erro, mesmo quando já temos experiência ou conhecimento para saber que tal é um erro, ou se defendemos uma certa ideia já em posição defensiva e sem querer ouvir os outros, não há realmente grande discussão que se possa ter. Quando alguém parte para uma discussão tem sempre de estar preparado para mudar a sua opinião perante os dados, informação e forma de explicação da parte contrária. Se sou adepto da ideia de que não existem verdades absolutas em nada em tudo o que faço, sou ainda muito mais adepto disso quanto ao wrestling.

Quando discuto com alguém sobre determinado combate ou storyline, tento absorver a posição contrária, tento perceber porque a pessoa chegou àquele resultado e àquela ideia e perceber os prós e os contras da mesma para retorquir aonde poder. É inútil mimetizarmos uma parede e sermos insensíveis e intolerantes a qualquer argumento, e já mudei imensas vezes de opinião desta forma. Aliás, já mudei imensas vezes de opinião ao longo dos 10 anos que levo como fã de pro-wrestling ativo e interessado. E sim, se procurarem artigos meus antigos provavelmente terei dito algo que hoje em dia não diria e transmitido ideias com as quais concordava na altura que hoje não fazem, nem de perto, parte dos meus gostos pessoas desta belíssima modalidade. Fui adquirindo conhecimento ao ver mais, em aprender mais e ao ouvir mais pessoas, todas elas com opiniões diferentes. Mudei, mudo e mudarei sempre de opinião quando ache que deva. Não há condição mais humana do que a mudança de opinião, e não há modalidade física ou cultural que mais seja propícia a essa mudança que o pro-wrestling.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

4 Comentários

  1. SandroJr1 mês

    Ótimo artigo

  2. Mr Catra1 mês

    Mais um artigo de qualidade.