Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Escolhi para esta 15ª edição do Brain Buster um tema que foge à regra do que tenho feito. Embora até este artigo sempre me tenha batido em temas que correspondem às principais promotoras de wrestling, esta semana, o Brain Buster irá discutir a actual situação de uma empresa menos conhecida, pelo menos actualmente, ou, certamente, uma das menos vistas, a Pro Wrestling NOAH, que, no início do século, era a nº1 no Japão, mas que na última década perdeu muito terreno para a NJPW.

Irei analisar a actual situação do seu booking, lutadores, títulos e perceber porque de há uns anos para cá, a NOAH não consegue avançar e adoptar decisões mais condizentes com a realidade, estagnando no tempo e na concorrência, muitas vezes até perdendo terreno para promotoras mais pequenas que a NJPW neste momento, como a DRAGON GATE e a AJPW, em termos de assistência dos seus eventos e até mesmo pelo interesse despertado nos fãs não japoneses.

Durante os últimos 9 meses, assistimos também a uma espécie de transformação desta promotora. Apostou-se num campeão jovem, que assinala-se a passagem para uma nova era e mudou-se o logótipo e o aspeto do ringue. Assinale-se que, no último mês, esta empresa teve bastante sucesso, nos vários shows que fez e, especialmente, nos bilhetes que conseguiu vender.

Nem de propósito, a semana em que decidi escrever sobre a NOAH, é anunciada uma parceria sua com a MLW, que pode ser benéfica para ambas, mas que ainda cumpre ver no que vai resultar.

Porém, considero que há dois problemas quanto à credibilidade desta tentativa de ressurgimento da NOAH: desde logo, há cerca de 2/3 anos tinham começado um projecto intitulado “NOAH, the Reborn”, que acabou por ser um autêntico falhanço, nada mudou no booking, nos títulos, lutadores ou combates. Assim, por que razão, nós fãs, havemos de pensar que desta vez será diferente? Por outro lado, dois dos aspectos em que, para já, esta mudança ocorreu, foram decisões irrelevantes, desnecessárias, ou, até mesmo, sem sentido.

Uma mudança do logótipo em nada diz aos fãs. Já a mudança no aspecto do ringue traz diversidade aos eventos, sem dúvida, mas no caso da NOAH, tirou-lhe um dos aspectos que a diferenciava das restantes companhias que utilizam ora um ringue preto, ora um ringue branco (tal como a NJPW se diferencia pelo seu ringue azul). O ringue verde da NOAH simbolizava as suas origens e o lutador responsável pela sua criação, Mitsuharu Misawa.

Por fim, uma palavra em relação ao novo campeão e, pelos vistos, a nova cara da NOAH, merece ser dada. Depois de vencer a Global League 2018 (o torneio da NOAH equivalente ao G1 da NJPW), Kaito Kiyomiya derrotou Takashi Sugiura para vencer o GHC Heavyweight title, num combate que claramente pareceu como o simbolizar de uma nova era.

Foi uma forma perfeita de o fazer mas o reinado, deste então não tem superado as expectativas. Kaito tem tido combates muito bons, como não podia deixar de ser numa empresa cujo principal aspecto sempre foi esse, mas as rivalidades que tem tido, essas, deixam muito a desejar. Baseiam-se em simples defesas do título e, não apresentam nada de diferente em relação às outras. Mesmo a sua defesa conta o Naomichi Marufuji (o maior nome da NOAH nos últimos anos), contou algo que já havia sido contado, a “viragem da era”, embora tenha feito sentido referenciar isso nesta rivalidade dado a história que se quer contar com o Kaito.

Estes são os principais pontos a falar actualmente da NOAH, mas muitos outros vêm de há tempos atrás e persistem em continuar, muitos deles afectando o avanço desta promotora para algo novo, pontos esses que penso serem os seguintes:

Apego excessivo a Mitsuharu Misawa

Este lutador é, muitas vezes (demasiadas), mencionado em promos dos lutadores, pelos comentadores e, até mesmo em vários shows, incluindo os Memorial Shows que vai tendo.

Este apego justifica-se pela sua história. Considerado por muitos o melhor lutador da história do wrestling, foi o lutador que, até esta fase recente da NJPW, tinha adquirido mais 5-star matches do Dave Meltzer pelos seus fantásticos combates nos anos 90 enquanto parte da AJPW. No início do século fundou a NOAH no qual foi também o seu principal lutador. No entanto, tragicamente acabou por falecer em 2009, em pleno show depois de sofrer um Saito Suplex.

Com esta história, é difícil para uma promotora como a NOAH não ter no Misawa a sua alma e coração, nem eu estou a pedir que o deixe de o ter, mas uma demarcação deste nome, muitas vezes referenciado, para uma política de foco nos lutadores atuais seria uma decisão que penso que beneficiaria muito a NOAH neste momento.

Aliás, foi algo que começou a ser mais recorrente nos últimos anos. Pode ser algo que também ajude a vender bilhetes para os shows, mas que impede os lutadores de criarem o seu próprio legado, por ficarem sempre na sombra do Misawa.

Oferta constante do mesmo produto

Já acompanho a NOAH há uns anos e, não me lembro de um squash tradicional, nem em relação aos lutadores mais jovens, nem em title matches ou combates importantes entre lutadores numa rivalidade. Não me lembro de um combate mais técnico, nem de um combate ente high-flyers.

É marca da NOAH os combates longos em que impera o Strong Style e, apesar de ser a minha forma preferida de fazer wrestling, como já disse aqui no Brain Buster, nenhuma promotora consegue avançar sempre com os mesmos combates e sempre com o mesmo estilo.

Por outro lado, o aspecto dos títulos é, praticamente, o mesmo desde a fundação da NOAH. O principal problema do mesmo é que não há diversidade nenhuma entre eles. Quem acompanha ou já acompanhou esta promotora, sabe que os títulos são muito parecidos, sendo impossível distinguir qual o principal ou de Tag Team, o dos Juniores, etc. Todos têm, praticamente o mesmo formato. Para alguém que comece a acompanhar esta promotora, terá sempre a dificuldade de ultrapassar esta confusão inicial, algo que já poderia ter mudado.

Por fim, relativamente ainda a este aspeto está a falta de aquisição de caras novas. Marufuji, Nakajima, Go Shiozaki, Takashi Sugiura, Ogawa, Daisuke Harada, Masa Kitamiya, são os nomes que já se encontram na NOAH há muitos anos e os mesmos que acabam por ter quase sempre o mesmo destaque. O reinado do Eddie Edwards, do Kenoh e agora do Kaito, apesar de nada de especial, trouxeram uma sensação de ar fresco que a NOAH precisava e ainda precisa.

Booking horrível na Heavyweight Tag Team division

Se forem ver os títulos dos lutadores mais conhecidos da NOAH vêm que os mesmos venceram os títulos de Tag Team várias vezes e com diferentes parceiros. De um ano para o outro, os vencedores da Global Tag League são sempre diferentes e os seus participantes também. Se num ano o Marufuji vence com o Yano, no seguinte já vence com o Taniguchi, se num ano o Go Shiozaki vence com o Kaito, no ano seguinte participa com o Nakajima, se num ano o Sugiura participa com o Kenoh, no seguinte vence com o Kazma Sakamoto, entre muitos outros exemplos. É esta a lógica que impera nesta divisão, onde nem as histórias que juntam estes lutadores fazem grande sentido.

Isto era algo que acontecia muito no wrestling japonês até ao virar do século, mas que está cada vez mais em desuso. A NJPW cada vez mais aposta em verdadeiras Tag Teams e não em lutadores singulares que decidiram, num momento, fazer equipa, algo que já vem sendo trabalhado também na AJPW, a título de exemplo.

Dificuldade em construir stables

Se há coisa que no Japão é tradição no wrestling são as stables, mas a NOAH raramente conseguiu ter stables dominadoras criadas por si. Em 2015/2016, foi invadida pelos Suzuki-gun, no que penso terem sido os melhores anos recentes da NOAH, mas o que é verdade é que este grupo não foi lá criado, nem lá que fez o seu nome.

Numa altura em que as stables dominam a NJPW e a DRAGON GATE e em que a AJPW booka bastante bem a stable EVOLUTION que faz parte dos seus quadros, penso que a NOAH sairia beneficiada com uma aposta mais firme neste tipo de booking. A grande vantagem está na simplificação da enorme quantidade de Tag Team matches pela qual o wrestling japonês se pauta, não ficando os fãs à nora porque num momento determinado lutador se junta a outro, quando no mês passado tinha feito parceria com o seu rival.

Mas um braço a torcer deve ser dado à NOAH neste ponto. De facto, com a criação dos “Sugiura-gun” e da nova stable liderada por Kenoh, este promotora finalmente percebeu as vantagens para o seu estilo de construir stables fortes e credíveis.

Pequenez da sua Jr. Heavyweight division

Quanto aos Juniores, penso que o problema não estará tanto no booking apresentando, porque o mesmo é no mínimo decente/razoável, mas no destaque dado aos lutadores. Raramente um dos títulos desta divisão é disputado no main-event de um show e mesmo a final da Global Jr. Tag League nem sempre ocorre no main-event da tour em que foi disputada.

Por outro lado, temos veteranos que continuam a ter demasiado destaque na divisão como o Ogawa, assim como lutadores que vêm de fora conseguem, muitas vezes, vencer os torneios desta divisão, como aconteceu com o Kotaro Suzuki, o que não contribui para a credibilidade daqueles que, realmente, pertencem à Pro Wrestling NOAH.

Estes são assim os pontos negativos da actual NOAH, mas que penso que podem ser modificados, atribuindo-se à NOAH um melhor produto daqui para a frente. É uma histórica promotora e uma crónica marca do wrestling japonês, pelo que se poderá reerguer facilmente numa época em que assistir wrestling japonês começa a ser moda em todo o mundo.

E então? Já viste alguma coisa da NOAH? O que achas da sua situação actual?

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

9 Comentários

  1. 3 anos

    Parabéns pelo 15° artigo. Eu não aprecio este logótipo, prefiro o antigo.

  2. Ryu3 anos

    Tenho muita pena da NOAH já não ter o estatuto que em tempos teve, mas tal como referiste tal deve-se muito devido ás decisões tomadas pela própria empresa. Apesar disso, acredito que os próximos tempos sejam realmente melhores, acho que tal já se começou a ver neste ultimo ano, e esta pareceria com a MLW também me faz acreditar que será algo benéfico para ambas as promotoras.
    Acho que o que a NOAH precisa mesmo neste momento é criar novas estrelas e/ou tentar trazer algum nome de peso, de forma a atrair mais gente ao produto, embora isso já seja mais difícil, tendo em conta que no japão existe o factor NJPW…

    Gostei bastante do artigo, e como sugestão, gostava de ver mais artigos deste género, ou seja de assuntos mais “Underground” tendo em conta que actualmente a maioria dos artigos abordam ou a WWE ou a AEW e acho que seria também benéfico para o site apresentar uma maior variedade de conteúdos.

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      Obrigado pelo comentário e pela sugestão. Já tento trazer artigos sobre empresas que não estão no topo como o Impact, a ROH e a NJPW, mas vou tentar ainda mais falar de empresas mais pequenas como fiz neste artigos 😉

  3. vince3 anos

    Excelente artigo , costumo acompanhar e concordo com tudo, uma das coisas que acho errado é esta tendência de afastar o Nakajima do título principal quando para mim foi o melhor campeão pos Misawa , espero que percebam isso e o recoloquem a dar excelentes combates pelo título principal

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      Obrigado pelo comentário. É muito satisfatório ver que há ainda algum pessoal que acompanha NOAH.
      Acabo por concordar, o Nakajima teve um reinado muito bom e gostaria que voltasse a vencer o título.

  4. Sandrojr3 anos

    Otiml artigo, só aue eu não acompanho a noah pois não sei onde assisti, já procurei e não achei.