Brain Buster #20 – Um problema de quantidade (Parte II)

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Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Depois da boa reacção ao meu último artigo, em termos de um bom número de comentários, mas também em relação à sua concordância/discordância com a minha opinião e, ainda, à agradável surpresa que, muitos deles tenham referido, a vontade de ler o artigo desta semana, onde irei continuar e finalizar o tema que comecei no último Brain Buster: a obsessão pela quantidade que a WWE parece ter em todos os aspectos em que trabalha.

Num artigo mais importante e especial por ser já o 20º, tentarei que o mesmo tenha o suficiente para não desfraldar as expectativas dos meus caríssimos leitores.

Contratações sem regra

No último aspecto de análise do artigo ulterior, falei que o excesso de programação semanal é uma consequência de outro problema que assola a WWE: a quantidade de lutadores que tem sob seu contrato. Isto não nos diria nada se só contássemos com a quantidade, o que deixaria a WWE sem razão para alargar a sua programação semanal, mas a verdade é que esta tem, não só o maior roster de sempre, como também o mais talentoso. Na realidade, é difícil, hoje, encontrar algum lutador da WWE que não tenha o talento necessário para vingar nesta empresa, independentemente do seu ponto forte enquanto lutador seja a sua qualidade in-ring, as suas belíssimas mic skills ou a sua capacidade para ser um bom entertainer.

Penso que todos nós, ou pelo menos a maioria, concorda que a qualidade deve sempre sobrepor-se à quantidade, por isso, mesmo que se aposte sempre na qualidade chegará a um ponto em que a mesma acabará por se transformar em quantidade. Mais, uma quantidade desnecessária, que não acrescenta nada de novo e que se poderá transformar em frustração no caso da WWE.

Corroboro o último parágrafo com o facto de, hoje, os lutadores despedidos/que se demitiram da WWE não serem mais os lutadores indesejados pelos fãs, nem os que a WWE via como jobbers. São sim, os lutadores que apesar da sua qualidade e aceitação por parte dos fãs, não conseguiram vingar na maior companhia de wrestling do mundo, devido à lotação de tempo e de destaque que existe sempre e que não é alargável a todos.

Isto resulta de uma política de contratações que é executada sem qualquer regra. O número de lutadores do wrestling independente e das maiores empresas que não a WWE contratados por esta nos últimos anos tem sido enorme. Todos os anos há novos lutadores que eram o “hottest free agente in sports enterteinment”. Um problema desde logo se encontra: que lutador passa a ter realmente essa posição? Digo isto porque, no meio de tantos de lutadores na sua posição, algum deles acaba por ter uma aura mesmo especial, que seja maior que os outros? Infelizmente, penso que o destaque de muitos ofusca a aura especial que só alguns têm.

A WWE contrata igualmente atletas de outros desportos, iniciando estes a sua carreira no pro-wrestling no Performance Center da WWE. É algo que tem resultado bastante bem na divisão feminina, mas que está a milhas de distância da masculina. Desafio qualquer um dos meus leitores a encontrar mais de 3 nomes que saíram do PC da WWE sem qualquer experiência no wrestling fora da WWE que tiveram relativo sucesso. Mas seja como for, acabam sempre por fazer parte de uma lista, a juntar ao já elevado número de lutadores sob contrato da WWE.

Proponho uma política de contratações baseada em duas palavras: necessidade e especialidade. A primeira porque considero que seria melhor contratar quando necessário e não por capricho do “porque não?” Ou para impedir que a concorrência tenha sucesso. De facto, tal poderá ajudar a isso, mas também traz consequências para o booking da WWE. A segunda pois quando nomes como KUSHIDA estão em cima da mesa, a sua aura tão especial não pode ser ignorada. É uma oportunidade demasiado boa para se perder.

Utilização excessiva de lendas e part-timers

Com as várias críticas que já aqui deixei à utilização de lendas do passado por parte da WWE, não será difícil os meus leitores definharem a minha opinião acerca deste ponto. Contudo, gostaria de fazer uma ressalva. Eu não sou contra a utilização deste tipo de lutadores. Sou sim contra a sua utilização em excesso e, principalmente quando tal implica retirar destaque aos lutadores do presente e às estrelas do futuro.

Utilizar uma lenda significa trazer star power e nostalgia, mas também deve significar mais duas coisas, dream matchs e viragem de eras. Utilizando o exemplo de Goldberg, um part-timer e com algum estatuto de lenda, voltou à WWE em 2017 para uma mão cheia de combates. Olhando agora para quem enfrentou desde então, temos: Brock Lesnar (2 vezes), Kevin Owens (para um squash match em que venceu o seu titulo), Undertaker e Dolph Ziggler (numa humilhação que um empregado dedicado como o Ziggler não merecia, independentemente se o mesmo merecia ou não ter chegado ao estatuto de main-eventer).

É o exemplo mais paradigmático da minha crítica. Em nenhum dos combates, Goldberg perdeu para uma jovem estrela, nem em nenhum dos combates algum lutador da nova era saiu valorizado. O único Dream match que trouxe resultou no pior combate que a WWE produziu este ano e foi com uma lenda maior que Goldberg.

Mais casos poderia aqui analisar, mas que vão ao encontro desta posição. Casos de Undertaker, Brock Lesnar e, até mesmo, The Rock e Batista são quase similares ao de Goldberg.

Ressalvo, no entanto, a utilização de Trish Stratus no SummerSlam deste ano como uma utilização de alguém do passado da melhor forma possível. Trouxe nostalgia e star power, deu-nos um Dream match e valorizou a lutadora do presente e futuro quase como a passagem da tocha. Apesar de o combate ter durado mais tempo do que o que deveria, na minha opinião, foi um exemplo perfeito com o qual a WWE poderia aprender, não fosse a mesma ter sido capaz de o produzir, pelo que não entendo porque também não o faz nos restantes casos.

Por outro lado, quando muitas lendas fazem parte do card, o que acontece? Esta pergunta, quase retórica, tem uma resposta óbvia: menos tempo para os restantes lutadores e, talvez, um aumento do tempo do PPV.

Dificuldade em terminar algo sem ser forçada a fazê-lo

Uma crítica que também costumo apontar ao booking e à forma de trabalhar da WWE e que ninguém parece notar é que, quando Vince McMahon vê que algo resulta (rivalidade, feud, lutador, uma gimmick, etc.), extrai tudo o que conseguir dela e termina-a quando o desinteresse dos fãs é tão grande que o obriga a fazê-lo ou quando a capacidade dos lutadores para executar o que lhes é pedido já não é a mesma.

Algo deve terminar como terminou a carreira de Shawn Michaels em 2010 (ignorando o seu combate na Arábia Saudita o ano passado): este lutador, já lendário mesmo no activo terminou a carreira em grande, finalizando provavelmente a melhor storyline e feud da sua carreira e enquanto estava no topo, a nível físico e do carinho e adoração dos fãs.

Deixar lendas arrastar as suas carreiras nunca é bom, pelo menos eu assim considero. Deixar Undertaker e Kurt Angle lutar nas suas condições, deixar Goldberg ter combates curtos só para o proteger a nível físico são, para mim, simples formas de prolongar algo que, em tempos resultou, mas que hoje já deram o que tinham a dar.

Recuando agora uns anos, alguém se lembra de James Ellsworth? Hoje em dia cada vez mais é difícil fazê-lo, mas em 2016, o mesmo fez parte da rivalidade entre AJ Styles e Dean Ambrose pelo título da WWE. Se começou por algo que resultou? Sem dúvida. O seu aspecto físico que os fãs conheceram num squash match com Braun Strowman colocou curiosidade acerca de si nos fãs, até a própria WWE o reconhecer e o trazer para um programa cómico no SmackDown desse ano. Se teve piada Dean Ambrose infernizar a vida de AJ Styles com a sua presença nas primeiras semanas? Sim teve. Mas tal deveria ter ficado por aí.

Mesmo que com ajuda, Ellsworth venceu Styles por pinfall, quando Ambrose ainda não o tinha feito nessa feud e os excelentes e subvalorizados combates entre os dois foram relegados para segundo plano quando Ellsworth se envolvia em tudo. Em especial, no TLC match, ver um combate tão brutal a nível físico e excelente do ponto de vista da capacidade de AJ e Ambrose para contar uma história, acabar com um heel-turn de Ellsworth, quando se deveria ter tido um vencedor decisivo foi, para mim, bastante penoso.

Enfim, estamos a falar de aspectos que são sempre subjectivos e os quais podem trazer consigo muita discordância, mas que, na minha opinião são o que impede a WWE de hoje de ser ainda melhor, contando com o roster tão talentoso como tem.

Tudo na WWE parece demais, tudo é abundante e tudo é exagerado. Ironicamente também refiro também que o número de anos que Vince McMahon controla a WWE também é demais e exagerado. Pensando nesta última frase, parece ainda mais difícil, para mim, desmentir que tudo na WWE é um problema de quantidade.

E então? O que achaste desta Parte II deste tema? Concordas? Ou tens uma opinião completamente contrária?

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

14 Comentários

  1. Showstealer3 meses

    Mais um bom artigo em torno desta temática, parabéns!
    Concordo com o texto na sua íntegra, pois vê-se que a WWE não parece ter noção do principal problema que atravessa derivar de um excesso indevido de opções.

  2. Parabéns pelo 20° artigo. Espero que este artigo seja tão ou mais comentado que o artigo anterior.

  3. Rocky marciano3 meses

    Excelente artigo, pontua muito bem a má administração que a WWE está tendo , parabéns pela a matéria

  4. PedrKo3 meses

    Tal como na semana passada também concordo com a continuação do artigo.
    A WWE parece o único miúdo que leva a bola para o recreio, se um lutador é minimamente conhecido no circuito independente tentam logo contrata-lo para asfixiar a concorrência, mas parece que a AEW também tem uma bola e isso só pode ser bom, aliás já se vem notando melhorias.

  5. Sandrojr3 meses

    Otimo artigo RF, a wwe faz muita coisa horrivel hj em dia. Parabéns pelo 20° artigo, eu acompanho desde o primeiro, e sempre estou comentando.

  6. duzonraven3 meses

    Desta vez concordo com tudo, principalmente porque a utilização dos part-timers da forma como vem sendo usados além de tirar espaço de um roster já bastante cheio tira os holofotes também das futuras estrelas da companhia, pois talento não falta na wwe e já podíamos ter superstars mais estabilizados no main event

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