Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Já lá vão mais de dez artigos em que tenho falado das principais companhias de wrestling do mundo, fosse sobre a WWE, a NJPW ou a AEW. Porém, decidi hoje falar de uma promotora muito menos conhecida, sendo que o é, talvez não tanto pelo seu nome, mas sobretudo pelo seu estilo, shows, combates e principais lutadores. Estou a falar, claro está tendo em conta a imagem de destaque desta 26ª edição do Brain Buster, da Dragon Gate.

Irei falar-vos um bocadinho do estilo da Dragon Gate, um pouquinho da sua história e dar-vos imensas razões para verem o seu produto. É uma companhia que, no entanto, e como explicarei, não agradará aos fãs mais conservadores de wrestling, seja o mais tradicional americano, seja o puroresu puro do Japão.

A Dragon Gate (inicialmente designada Toryumon Japan) é uma companhia japonesa fundada a 5 de julho de 2004 por Último Dragón, sendo que a maioria dos seus lutadores foram discípulos desta enorme lenda que fez histórica em qualquer lugar por onde passou. Tal situação modificou-se um bocadinho, todavia, quando Último Dragón saiu da Dragon Gate para voltar somente este ano e de onde parece já não mais sair.

Esta promotora foi fundada à imagem do seu criador, baseada num estilo Jr. Heavyweight, misturado com Lucha Libre, contando não só com a sua vertente high-flyer, como também do seu estilo de submissões, estilo esse também presente pela história e tradição japonesa de nunca abdicar de um estilo, quer mais técnico, quer mais duro, ao mesmo tempo que o respeito pela credibilidade dos lutadores, pela comparação quase imediata com o MMA japonês, entre outras artes marciais praticadas no extremo-oriente.

Concretização disto mesmo são as inúmeras stables que a Dragon Gate possui. É quase impossível um lutador seu não estar aliado a uma fação. Não assumem características mais tradicionais no wrestling como as da NJPW, mas sim quase como verdadeiras equipas de MMA, em que não há apenas uma grande líder, mas sim vários lutadores capazes, iguais no plano da credibilidade e onde cabe somente o bem da equipa.

Não fosse já a Dragon Gate apresentar um estilo bastante diferente do que o mundo se acostumou a ver, as suas parcerias com várias empresas americanas e britânicas e os seus vários shows realizados em terras americanas (Dragon Gate USA) e de sua majestade (Dragon Gate UK) acrescentaram-lhe novos estilos e maneiras de pensar e fazer wrestling. Desde logo, começaram a assumir, por vezes, um estilo mais cómico e de entretenimento como o que acontece bastante nos Estados Unidos, assim como o estilo predominantemente técnico britânico consolidou a preferência de vários dos seus lutadores por esse mesmo estilo.

Estamos então a falar de uma companhia que mais do que híbrida, ou até um misto de dois ou três estilos, se apresenta diferenciada de tudo o que acontece nos Estados Unidos, mas que também se demarca do que é apresentado no seu país.

O modelo, em todo o mundo, que se apresenta mais próximo da Dragon Gate é somente aquilo que a TNA/Impact Wrestling apresenta com a X-Division. Uma divisão que, não apresentando somente Jr. Heavyweights, não deixam, no entanto, de ser estes a sua parte predominante e em que, apesar de não haver classes de peso, somente alguns Heavyweights fizeram parte da sua história. Imaginem então, para os conhecedores de TNA/Impact Wrestling, o que seria uma empresa que apresentasse em todos os seus eventos, shows e combates o estilo da X- Division. Ora, essa empresa terá de ser a Dragon Gate.

Mas no meio de tantos estilos combinados, haverá algo que a Dragon Gate não faça? Sem dúvida. Os únicos lutadores com os quais a Dragon Gate nunca contou muito foram os lutadores bastante grandes ou enormes, musculados até ao ponto em que nem se sabia que aquela parte do corpo humano tinha músculo, que se apresentam como powerhouses. O seu lutador que me lembro que mais se aproximou disso foi mesmo PAC (Neville na WWE), mas que como os meus estimados leitores conseguirão logo reparar pela sua passagem na WWE, o mesmo é tudo menos grande, quando comparado com outros na WWE, e mesmo na AEW, na ROH e no Impact.

Desta forma, se gostas destes lutadores e do que apresentam, a Dragon Gate não será uma empresa na qual terás muito interesse, daí que compreendo que para os fãs mais conservadores do wrestling dos anos 70, 80 e início da década de 90 seja difícil gostar da Dragon Gate.

Mas por outro lado, também o estilo japonês mais tradicional, o puroresu ou o king`s road também não tem implementação imediata nesta promotora nipónica. Ao contrário da NJPW, da AJPW e da Pro Wrestling NOAH, não verás combates com múltiplos chops e brain busters. Verás sim isso de uma forma que permita combiná-los com as manobras high-flyers, devido também à estrutura física da maioria dos lutadores da Dragon Gate.

Não agradando assim aos dois extremos: ao wrestling tradicional americano e japonês; agradará, contudo, a nós. E o que me refiro quando digo este “nós”? Aos fãs, que não deixando de gostar desses estilos no seu estado mais puro, continuam, porém, a gostar de coisas novas, do diferente, que não querem ver quase sempre a mesma coisa e que procuram e estimulam a inovação. De tal forma, se pensas assim recomendo vivamente conheceres a Dragon Gate.

Agora, falando de estilos à parte, há outras razões que me fazem ter na maior das considerações esta promotora nipónica e que a sua visualização se torna necessária. Sabem onde fez nome Akira Tozowa (da WWE), Shingo Takagi (da NJPW), CIMA (da AEW), BANDIDO (da ROH), FLAMITA (que luta em várias marcas conhecidas), DEZMOND XAVIER e ZACHARY WENTZ (do Impact Wrestling)? Mais, sabem onde PAC fez nome antes e depois da WWE? Sabem que casa o Ricochet considera como a sua? A resposta a todas estas questões é: “na Dragon Gate!”

De facto, esta promotora tem sido o berço de lutadores que hoje idolatramos, que hoje queremos como as grandes estrelas das principais empresas e marcas de wrestling do mundo. Tem sido igualmente um lugar de reinvenção de alguns lutadores que por vezes não tiveram sucesso em palcos maiores: PAC deu continuação à personagem heel que já tinha iniciado na WWE com uma atitude ainda mais agressiva e desprezível como só um heel perfeito como ele consegue; Akira Tozawa, depois de ser a estrela dos eventos da Dragon Gate USA, não conseguiu afirmar-se completamente na PWG e nos EUA nunca foi muito (ou fortemente) utilizado, retornando à Dragon Gate tendo depois sucesso na WWE; ainda hoje FLAMITA e DAGA têm, na minha opinião, o seu melhor trabalho atual nesta empresa; por fim, não tanto de reinvenção, mas num processo de renascimento e de trabalho está Jason Lee, que participou no Cruiserweight Classic na WWE, mas nunca teve uma oportunidade.

Mesmo no Japão, lutadores que não têm espaço na AJPW e NOAH, por exemplo, encontram-no na Dragon Gate. É o caso do KAI e até de Kazma Sakamoto.

Por todos estes nomes e por aquilo que se tornaram ou se podem vir a tornar, a Dragon Gate surge como um produto necessário ver, que nos permitirá ver as estrelas do amanhã na sua fase mais embrionária ao mesmo tempo que ótimo wrestling nunca faltará. Esse é até um tópico indiscutível quando falamos da Dragon Gate.

Não obstante os seus lutadores já históricos, esta empresa terá também de ter um lugar na história que penso que nunca lhe terá sido reconhecido. Numa altura em que a NJPW somente começava a reerguer-se depois de um início fraco no século XXI, terá sido a Dragon Gate a dar o salto de tentar criar concorrência japonesa em solo americano.

À semelhança do que acontece hoje com a NJPW que realiza vários shows nos Estados Unidos e que também acabou por se “americanizar” um pouco – realiza No Disqualification matches; tem inúmeros lutadores americanos; e chegou a produzir um Ladder match em 2016 -, a Dragon Gate fê-lo em 2009, numa altura em que a WWE dominava tudo o que se relacionasse com wrestling e em que os fãs americanos iriam sempre preferir a ROH ou a TNA em vez de qualquer empresa japonesa.

Podemos concluir facilmente que poderá ter sido um passo maior que a perna. É verdade que a Dragon Gate USA e a Dragon Gate UK não mais existem e que tal poderá ter resultado de terem sido criadas uma década cedo demais. Mas não deixa de ser um momento histórico que, a meu ver, tem de ser reconhecido como os primórdios do wrestling japonês ser mais visto abundantemente hoje em dia nos Estados Unidos e em todo o mundo, e não só no Japão.

Já pouco ou nada mais vos quero dizer em relação à Dragon Gate. Poderá ainda ser comparada como uma espécie de “indy japonesa” que apresenta um produto alternativo às grandes marcas – como por exemplo, faz a PWG à WWE.

É uma promotora que sigo quase que religiosamente e da qual não abdico de ver. Os seus combates são ótimos e os seus eventos muito consistentes. Seja por que razão for, pelos seus combates, pelos seus shows, pelos seus lutadores, considero ter apresentado aqui aos meus caros leitores uma ótima sugestão.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

12 Comentários

  1. Sandrojr3 anos

    Dragon gate é ouro, revelou para o mundo pac e ricochet, dois dos melhores wrestles do mundo. Otimo artigo.

  2. Artigo muito bom e rico, muito bem escrito. Obrigado pelo trabalho

  3. 3 anos

    Como sempre um bom artigo. Realmente a Dragon Gate é rica em equipas e isso pode ser uma vantagem. Sabias que o Luke Harper, Akira Tozawa, CIMA, e o Ricochet pertenceram á mesma stable? A stable chamava-se “Blood Warriors”.

  4. duzonraven3 anos

    Interessante, fiquei com vontade de conhecer, darei uma chance!

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      Obrigado pelo comentário. Se este artigo tiver servido para pelo menos uma pessoa ver Dragon Gate já fico mais do que satisfeito.

  5. José do Japão3 anos

    Ótimo artigo como sempre. Eu tenho muita vontade de assistir os shows da Dragon Gate, principalmente depois que eu vi, a match do PAC e Kzy que foi espetacular, agora só falta tempo. E, outra empresa “indy” que tenho vontade de assistir e a Big japan wrestling principalmente por causa da suas deathmatchs.

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      Obrigado pelo comentário.
      BJW é algo totalmente diferente e até assustador ahahah, que até hoje somente a CZW lhe foi equiparável.
      Nunca vi nenhum show seu, apenas alguns momentos. Como não sou grande fã de death matchs a mim não me diz assim muito.

  6. MC3 anos

    Como posso assistir aos shows da dragon gate ? Tenho procurado algum tempo e não arranjo forma .
    Bom artigo