Brain Buster #29 – NXT vs Dynamite

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Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Já um mês se passou desde a estreia do programa semanal da AEW, o Dynamite, programa esse que entrou indiretamente em concorrência com o NXT, uma das três brands da WWE, mas indiscutivelmente a menos mediática. E digo indiretamente por duas ordens de razões.

Primeiro, porque o objetivo central da AEW é ser concorrência para o RAW e SmackDown, que toda a gente entende ter um muito pior booking e eventos menores comparados com o NXT, ou seja, quando Chris Jericho ou Cody falam da “other company”, falam diretamente das brands controladas por Vince McMahon e não por Triple H.

Segundo, porque considero que hoje é muito difícil recriar o conceito do que foram as Monday Night Wars. Ao contrário do que ocorreu no final do século XX e início do século XXI, os fãs têm hoje imensas plataformas que lhes permitem ver os dois shows, seja na hora, seja no dia seguinte. Em 1998, no auge da guerra entre o RAW e o Nitro, os fãs tinham apenas uma opção, isto é, ou viam o RAW ou o Nitro e não tinham como ver o programa que tinham preterido ver à segunda à noite.

Considero, por isso, que quando os fãs escolhem ver o Dynamite à quarta à noite, podem-no fazer porque sabem que podem ver o NXT no dia a seguir e vice-versa, pelo que quando se noticia que o Dynamite venceu o NXT nas audiências, apesar de um dado importante, não o é determinante, no sentido em que nenhum dos programas ganha muito com isso, à exceção das habituais trocas de picardias entre os representantes de cada show, em que mais uma vez por parte da AEW elas se dirigem à companhia de Vince McMahon e não ao NXT.

Posto isto e apesar do conceito que se quer aplicar às quartas-feiras atuais de wrestling de “Wednesday Night Wars” ou de “Wedneyday Warfare”, como já lhes vi chamar, há sim uma guerra entre o wrestling (e não o show), entre dois dos três melhores programas semanais da atualidade (a contar com o Impact Wrestling). O wrestling que nos é apresentado às quartas à noite é bom em abundância, mas também em qualidade. Se na USA Network temos Adam Cole e Matt Riddle a deixar Full Sail fora de si, na TNT temos os Young Bucks e os Private Party a fazerem duas estrelas nestes últimos; se de um lado temos Roderick Strong, Dijakovi e Keth Lee a contar uma belíssima história no ringue, do outro temos Kenny Omega e Joey Janella a brilhar como os dois não conseguem deixar de o fazer.

Mas como nem só de wrestling se faz o NXT e, principalmente a AEW e o seu programa semanal, cumpre assinalar as suas diferenças, os pontos positivos e negativos de ambos os programas, interrogar-mo-nos se ambos são verdadeiramente competição um para o outro, enfim, cumpre conhecer mais acerca deste ótimo momento que vive o mundo da nossa modalidade e arte preferida.

Começando exatamente por este último ponto, será o Dynamite verdadeira competição para o NXT? E será o NXT competição para o programa semanal da AEW? Esta pergunta pode assumir duas respostas consoante o conceito de concorrência e o sentido que atribuímos a esta palavra, aplicando-o posteriormente à realidade.

Num sentido amplo ou lato, não temos mais que aplicar o conceito de concorrência a estes dois programas. Tratam-se, ambos, primeiramente, de dois programas de wrestling, que são transmitidos em momentos praticamente coincidentes.

Mas num sentido mais estrito ou restrito, somos obrigados a ter um pensamento mais elaborado. Se no início disse que a concorrência que se fazia era indireta considerando que o Dynamite tem como finalidade última ser competição ao RAW e SmackDown e não ao NXT, isso faz com que o Dynamite e o NXT sejam programas diferentes em tudo o que não tenha que ver com o wrestling: histórias, segmentos, star power, etc.

Isto é, se no NXT se preza essencialmente os combates mais simples, assim como as histórias menos complexas possível, que faz com que as intervenções dos seus lutadores também não sejam nada de mais, no Dynamite assistimos ao aposto. Os combates misturam a qualidade dos mais simples com a brutalidade dos combates mais hardcore que a WWE há muito tempo não apresenta. As suas histórias, apesar de pouco complexas quando comparadas com as do RAW e SmackDown, são mais elaboradas do que as do NXT. E, por fim, o estilo das intervenções é completamente diferente. A linguagem mais agressiva e a verosimilhança que encontramos nas palavras dos seus lutadores com a realidade é muito mais do que encontramos no NXT.

Assim, não sendo o Dynamite parecido com o RAW ou SmackDown, também fica claro que não é parecido com o NXT. Até considero que está mais próximo dos primeiros dois do que deste. Basta pensarmos também no star power dos seus lutadores. Com Chris Jericho, Cody, Kenny Omega, Jon Moxley, a AEW tem um roster mais que suficiente para competir com Roman Reigns, Seth Rollins, The Fiend, lutadores com mais mediatismo que Adam Cole, Johnny Gargano, Tommaso Ciampa e agora Finn Bálor, dado que até hoje, à exceção destes último, os outros mantiveram-se no NXT, não tendo uma plataforma tão vasta para crescerem de importância aos olhos dos fãs como todos os lutadores que fui enunciando.

Posto isto, quando Chris Jericho diz que o NXT não é competição para a AEW, ou quando todas as semanas nos é noticiado que o Dynamite venceu o NXT nas audiências, para mim, não passa tudo, de algo normal e pacífico. Utilizando até termos económicos quanto ao funcionamento do mercado, não são produtos substitutos (como as lentes de contacto e os óculos) mas independentes (como uma bola de futebol e uma camisola), o seu mercado não se alterará muito pela existência um do outro.

Afinal, o NXT e o Dynamite são programas de wrestling mais diferentes do que muitas pessoas podiam à primeira vista julgar, pelo que será normal que um tenha os seus fãs e o outro os seus, diferentes também entre si: enquanto uns preferem o estilo da AEW, mais hardcore na linguagem e wrestling; outros, como eu, preferem um programa mais simples que apresente bom wrestling e tudo o resto seja um acessório.

Fazendo desta última observação uma ponte para os pontos positivos e negativos de cada programa, o NXT, ao centrar-se no wrestling e ao deixar tudo o resto mais normal e simples possível, faz com que quando um segmento ou promo não seja um simples acessório, seja brilhante. E nos últimos tempos é o que não tem faltado, desde William Regal a anunciar o War Games feminino, Tommaso Cimpa a referir-se ao “goldie” dizendo que “daddy´s home” e o mais brilhante terá mesmo sido o heel-turn protagonizado por Finn Bálor, que não poderia ter surpreendido mais do que surpreendeu. Aliás, a sua primeira promo enquanto heel na WWE foi uma delícia e deixa antever uma personagem muito próxima com o que o Prince Devitt fazia nos seus melhores tempos de NJPW, e de Bullet Club.

Quem sabe, estes segmentos e formas de falar, mais frequentes no NXT de hoje, não são uma forma de o mesmo não ignorar que o Dynamite existe e que merece consideração, aproximando-se um pouco dos seus fãs e querendo competir com a AEW, mesmo que pouco.

Como mais fã de NXT do que da AEW, considero que o wrestling é melhor no NXT. Sim, como já disse, são estilos diferentes e em nenhum dos dois nos podemos queixar da qualidade in-ring, mas sem dúvida que pessoalmente o NXT me enche mais as medidas. É do início ao fim de cada edição à quarta à noite, enquanto a AEW tem momentos para tudo, desde combates mais simples como têm sido os femininos, aos mais rápidos como acontece na divisão de equipas, aos mais sérios e hardcore como os combates envolvendo os “top guys”.

Não obstante, a AEW vence em quase tudo o resto. As suas promos são muito mais interessantes, embora o facto de deixarem muitas farpas à WWE me comece a desgostar, não porque não ache que têm razão em muitas das críticas, mas porque não é o seu papel dizê-lo. Já aqui tinha dito que queria que a AEW se focasse mais em si do que na WWE, e foi algo que CM Punk também disse esta semana.

Mas também as personagens e histórias são muito melhores que no NXT. Desde logo, Chris Jericho (como não podia deixar de ser) consegue, como sempre conseguiu, fazer algo novos todas as semanas, chamar a atenção para si e para a sua história, terá muito verdadeiramente a melhor personagem heel da sua carreira neste momento, que também ultrapassará o período de 2008 a 2010 na WWE, período esse que estava recordado por nós como a melhor fase da sua carreira enquanto heel e no geral.

Kenny Omega, Jon Moxley, Cody, os próprios Young Bucks e quase todo o roster da AEW tem uma personalidade, uma maneira de ser e agir, alguém que os fãs facilmente reconhecem e em que ninguém é igual a ninguém. Nesse sentido está a anos-luz do NXT, em que a maioria das promos, principalmente do mid-card para baixo, não são nada realistas e as suas personagens heels e faces são muitos iguais entre si. É aliás, um problema não só do NXT, como de toda a WWE. Os heels agem todos da mesma maneira, assim como os faces atuam todos de forma semelhante. Na AEW, Kenny Omega é um face diferente de Darby Allin, Chris Jericho é um heel diferenciado de PAC, enfim, a diversidade é muito melhor.

Deste modo, podemos ver que os pontos fortes e fracos do NXT são como que um espelho ao contrário quando os comparamos com a AEW, o primeiro vencendo no wrestling, e o segundo vencendo nas histórias, personagens e segmentos.

Acredito que o NXT se manterá o seu núcleo essencial, mesmo que venha a mudar algo, mas não tenho dúvida que se deva centrar nos seus fãs, o que mais acreditam em si e não no que se venha a tornar por força da existência do Dynamite.

Mas o Dynamite, esse, parece-me um programa para crescer. Embora seja cedo para avaliar o seu booking, o que é certo é que tem ainda de evoluir. Na minha opinião não é melhor que o do NXT, pelo contrário, mas é já melhor e mais certo que o do RAW e o SmackDown. A sua transmissão às quartas à noite parece-me puramente instrumental. Será neste dia enquanto a AEW não sentir que pode realmente competir, primeiro à sexta com o SmackDown, e depois à segunda, com o RAW.

É ainda cedo para pensar em mudar o dia do Dynamite, mas não tenho dúvidas que assim que a marca da AEW crescer e tenha mais fãs, o primeiro movimento será a mudança para sexta e se o crescimento continuar, talvez para segunda…, embora como referi no início desta edição do Brain Buster, o conceito de guerra de audiências não cola com o wrestling em 2019.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

4 Comentários

  1. Bom artigo. Concordo com tudo.

  2. Sandrojr7 dias

    Tanto AEW quanto o NXT são melhores que o main roster da WWE. Alias otimo artigo

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