Frank casino

Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

No fim-de-semana do TakeOver: XXX e do SummerSlam, assistimos em cada um dos shows ao primeiro combate de duas individualidades que, não sendo, para já, parte do roster efectivo da WWE podem, muito bem, vir a sê-lo no futuro. Estou a falar, claro está, de Pat McAfee e de Dominik Mysterio.

Ambos foram elogiados pela sua performance em cada um dos seus combates pois, realmente, para uma primeira prestação sua, estiveram bem acima das expectativas. No Brain Buster desta semana, no entanto, irei explorar e comparar estas duas situações e ver que, ao contrário do que muitas vezes acontece com a WWE hoje em dia, a situação do estreante do RAW trouxe muitos mais benefícios aos lutadores com eles envolvidos do que o do NXT. Mas antes de chegarmos a essa conclusão, convém dissecar um pouco o caminho até aos respectivos combates e tirar ilações de cada uma das situações para podermos compará-las.

Começando pela estreia de Pat McAfee, notar que este é um ex-jogador de futebol americano e, actualmente, tem um meio onde entrevista pessoas. Uma delas foi o ex-NXT champion com o maior reinado e a cara do NXT no último ano, Adam Cole, que, durante a entrevista foi acusado de só ter alcançado tal feito devido à constante presença dos seus companheiros dos Undisputed Era, e foi gozado por ser um lutador de baixa estatura.

Ou seja, tínhamos um lutador que até aí não tinha dado quaisquer sinais de um babyface turn a ser insultado da mesma forma que muitos dos seus oponentes o fizeram no passado. O que se acrescentou mais foi mesmo o facto de ter sido apelidado de “baixinho”. Isto foi uma característica desta feud, isto é, de se ter demorado várias semanas a entender quem era o face e quem era o heel (relembro que McAfee pediu desculpas no seguimento da entrevista). Ao mesmo tempo, Adam Cole e os Undisputed Era continuavam o seu trabalho no NXT enquanto heels atacando vários lutadores, sem aparente razão, e sem que lhes interessasse se o mesmos eram faces ou heels, o que, com certeza, não é de personagens às quais quer criar algum carinho nos fãs.

Somente quando McAfee foi convidado para fazer parte da mesa de comentadores do NXT durante um dos combates dos UE, e voltou a insultar Adam Cole, desta vez sem razão aparente, atacando depois um Adam Cole agarrado pelos árbitros e seguranças é que se percebeu que o ex-jogador de futebol americano seria o heel desta história pois, com este acontecimento, não se podia ter optado por qualquer alternativa.

O que eu acho é que o NXT não se apercebeu que, tornar o McAfee o heel desta história e rivalidade, exigia tornar o Adam Cole face, sendo que na semana a seguir, ele e os UE voltaram a agir como heels e atacaram dois lutadores durante o seu combate para, no seu seguimento, Adam Cole cortar uma das melhores babyface promos que vi nos últimos tempos na WWE. Que confusão! Na semana a seguir McAfee tirou uma promo muito boa, e tornou-se instantaneamente um dos melhores heels da brand amarela, seguindo-se de uma resposta também muito boa por parte de Adam Cole e o match estava encaminhado.

Quanto ao combate, foi um óptimo embate e, para o tempo de treino que McAfee teve, superou a expectativa de toda a gente, não só pela capacidade atlética do Pat, mas porque contou realmente uma história, em que o face e o heel estavam claramente definidos. No entanto, a meu ver, tal oportunidade dada ao Pat, que dominou o Adam Cole durante alguns minutos, de vir de outro desporto e ser colocado numa posição em que luta de igual para igual com a cara do NXT durante o último ano, só se justifica se o objectivo final for o McAfee vir a fazer parte do roster da brand de amarela pois, se não o for, a WWE estará a dar a ideia de que qualquer pessoa pode fazer wrestling, ombrear com os melhores nomes da brand, sair over por cima e depois decidir que não quer mais fazer aquilo. Isso contará a quem está de fora do mundo do pro-wrestling e dar-lhes-à a impressão que toda a gente consegue fazer o que Pat McFeee fez, pelo que não há nada de especial no wrestling.

Merece também duas palavras a utilização de jogadores de futebol americano por parte de promotores de wrestling e, especialmente, pela WWE. Eu acredito que, há umas largas décadas fosse algo que funcionasse, pois era algo novo e o respeito pelo kayfabe era outro. No entanto, hoje em dia, conhecendo os fãs o trabalho necessário para um lutador chegar ao nível da WWE, independentemente de o mesmo ser heel ou face, só mesmo os super-fãs de futebol americano é que querem ver histórias do género.

Deste modo, querendo a WWE expandir o seu produto para todos os países possíveis, não pode ter histórias que só aos americanos, ou ao número baixo de adeptos de futebol americano fora dos EUA, interessam. Para além disso, é algo que afecta o produto, e que no curto, médio ou longo-prazo vai retirando a credibilidade e legitimidade aquilo que os lutadores fazem. Um jogador de futebol americano não devia lutar no TakeOver ou na WrestleMania, como um wrestler não devia jogar na NFL e disputar o Super Bowl. Não é por um atleta ser bom no seu desporto que o é, inevitavelmente, em todos os desportos, e pensar de forma diferente, é pensar de forma irracional, e sem ligar a qualquer mínimo de lógica.

Contudo, tenho de elogiar o trabalho do Pat McAfee nas últimas semanas. Fez um belo trabalho como heel, é alguém fácil de odiar e no qual se consegue heat facilmente. Para além de agir como idiota, tem uma cara em que toda a gente quer bater. Mostrou, igualmente, mais capacidade ao nível das promos do que muitos lutadores hoje em dia desejavam poder ter. Tudo no seu trabalho leva a que o mesmo venha a fazer novos combates no futuro. Só que se não for esse o destino, a oportunidade que ele teve, nunca lhe deveria ter sido dada.

Por outro lado, gostei imenso da estreia do Dominik Mysterio e de toda a história por de trás da mesma, à qual não tenho mesmo nada a apontar. Confesso que, no entanto, após o Extreme-Rules, me afastei da programação semanal da WWE, pois não consegui, de todo, conseguir gostar ou apreciar um produto que produz PPV´s como aquele. Vi, porém, o SummerSlam e gostei deste evento no geral (tirando o main-event), mas um dos combates que me chamou mais a atenção foi mesmo este do Dominik contra o Seth Rollins.

Desta forma, não acompanhei o build up do Extreme-Rules para o SummerSlam, por isso falarei apenas do combate. Tratou-se da estreia de um lutador, que conseguiu fazer aquilo que muitos têm dificuldade em fazer nos primeiros anos da carreira, que é contar uma história. O normal é que os lutadores se estreiem com combates simples, onde tentam, a todo o custo, que todas as manobras saiam bem, e é com isso que estão preocupados. O Dominik, no entanto, foi introduzido numa blood feud, em que contava mais a história do que a qualidade dos combates propriamente dita, e foi obrigado a atuar com tais condições. Mais do que superar esse teste, o Dominick superou-o com uma nota muito boa.

Mas porque adorei tanto este combate do SummerSlam? Bem, é uma questão nada difícil de responder. Foi um combate que contou uma história condizente com o build up, em que as expressões faciais de todos os envolvidos estiveram lá. As palavras de preocupação do Rey e a cara de medo da sua esposa, a cara de maníaco do Seth Rollins e o sorriso na cara do seu discípulo Murphy. Quanto ao Dominik, fez aquilo que tinha de fazer, esteve no chão durante grande parte do combate e procurava aberturas para quando pudesse atacar. Mais do que isso, mostrou coragem e bravura na hora de enfrentar o desafio. Este tipo de combates foi o forte da WWE durante anos e anos, e é pena que a mesma já não invista neste estilo, pois muito do seu sucesso passado passou por ele.

Foi uma excelente prestação de todos os envolvidos, sem excepção, e em que todos saíram igualmente valorizados do combate. Seth Rollins sai como heel imperdoável e que os fãs odeiam ainda mais, para além de sair over porque venceu. Dominick sai como um face que ganhou mais com esta derrota, do que qualquer vitória na sua estreia, e que os fãs facilmente ganharam carinho e afecto para o futuro. Este lutador, continuando o seu treino e melhorando a cada dia que passa, será certamente um dos nomes de futuro da WWE e, finalmente, uma oportunidade para a WWE voltar a dinamizar o seu mercado no México, com uma super-estrela latina, como foi o caso do seu pai, Rey Mysterio, durante décadas.

Isto contrasta com a situação do Adam Cole e do Pat McAfee. No dia a seguir a esse combate, os fãs estavam a falar do quão impressionante este último tinha sido, pelo que foi o heel e, mais do que isso, o outsider a sair over. Já o Cole não ganhou quase nada com o combate, ficando na mesma posição que tinha antes, tendo perdido o protagonismo para o McAfee, quando devia ter sido ele o mais beneficiado do combate. Posto isto, ao contrário do que tem sido hábito nos largos anos, a meu ver, nesta situação, o main-roster sai claramente por cima no melhor programa apresentado.

Contudo, não deixa de ser curioso que, as duas estreias que mais se falaram nos últimos anos (para além da estreia da Rounda Rosey) não tenham saído do Performance Center. Nos últimos anos, os únicos nomes com sucesso no NXT e que foram alçados como estrelas ao RAW e SmackDown, foram quase sempre os indy darlings e poucos nomes do PC. Pat McAfee treinou com Rip Rogers, actual treinador principal da OVW, e que no passado já tinha treinado estrelas como Batista, Randy Orton, Brock Lesnar e John Cena, pelo que a WWE tendo um sistema como o PC em que todos são treinados da mesma forma, habituados a pensar da mesma maneira, a terem looks muito parecidos, a falar da mesma forma, pode não ser a melhor opção. Dominik Mysterio foi treinado na cultura da lucha libre e por uma família história da mesma, e também por Lance Storm, o que faz com que também pense de forma de diferente, e introduza elementos novos no seu estilo e no wrestling que pratica com os outros.

São ideias acerca quais a WWE devia reflectir mais e repensar o conceito do PC. Um sistema de territórios como o da NWA dos anos 60 e 70 é impossível, e também não peço por um modelo como o dos Young Lions da NJPW que, antes de serem apresentados como estrelas, fazem inúmeras excursões pelo mundo para aprenderem wrestling de várias culturas (lucha libre na CMLL, britânico na RevPro e americano na ROH). Peço sim um sistema que procure a diversidade, coisa que no Performance Center não parece existir.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

6 Comentários

  1. Sandrojr4 semanas

    Ótimo artigo, a estreia dos dois foram muito boas, principalmente a do filho do Mysterio, ele tem futuro.

  2. O Dominik promete! E o Pat deixou uma ótima impressão também.

  3. Leleco4 semanas

    Artigo íntegro e de respeito.

    Discordo da parte que oportunidades com a do Pat não devam ser dadas, a oportunidade do Pat foi feita na medida certa, com seguimentos e promos bem estruturados e um combate sólido, sem atrapalhar em nada o produto do NXT. Mesmo se ele só lutar uma vez, não vai prejudicar ninguém .

    Para mim, se uma celebridade vai ser usada tem ser da forma correta, usando com inteligência as capacidades dela, criando seguimentos inteligentes como o do Mike Tyson e o Stone Cold, e caso a celebridade tiver alguma capacidade no Ring, pode ser usada como o Pat no NXT e o Stephen Amell no All in.

    O que não pode ser feito é usar as celebridades em funções que elas não tem capacidade ou lógica de exercer, colocar pessoas sem nenhuma capacidade no ring e ainda fazer eles vencerem os Wrestlers treinados, dar títulos para eles.

    Coisas como colocar um ator como WCW Champion, Snooki, luta de sumo na WMs que prejudicam o produto e tiram a credibilidade.

    • Facebook Profile photo

      Obrigado! Como deves ter percebido pelo artigo, discordo dessa ideia. Acho que não há razão para envolver uma celebridade no produto e, mais ainda, de o pôr a fazer coisas que muitos lutadores demoram anos a conseguir.