Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Há umas semanas atrás, quando redigi um artigo acerca das escolhas do booking da AEW, em que considerei que certos lutadores estavam desfasados daquilo que devia ser a sua posição natural no card, fui alvo de várias críticas. Excluindo os comentários jocosos, não sérios e desconcertantes, houve alguns que me fizeram pensar acerca de poder ou não estar a transmitir uma imagem errada acerca da forma como eu vejo wrestling.

Vários comentários ou críticas seguiram no sentido de que a AEW é um produto diferente, com lutadores diferentes e que eu, ou não estava a entender o produto em si, ou não gostava do que a AEW tem por objetivo oferecer, e que por isso não devia ver. O que é verdade, porém, é que eu entendo perfeitamente o produto da AEW e o objetivo de wrestling que esta tem, mas tenho toda a legitimidade de, enquanto fã, e defensor de um determinado conjunto amplo de tipos de wrestling (no qual o estilo da AEW até se encaixa), dizer que certas coisas não devem ser feitas em wrestling de TV nacional sem eu considerar como erro.

O que pretendo fazer no Brain Buster de hoje é um apanhado do meu wrestling, isto é, aquilo que eu mais gosto de ver nesta modalidade, aquilo que ponho dentro desse conjunto de estilos de apresentar este produto, e aquilo que coloco de fora. Porquê? Porque assim poderão entender qualquer tipo de crítica que fiz para trás, ou qualquer tipo de crítica que farei para a frente em determinado combate, rivalidade ou promotora. O que é certo, e parece que muitos fãs parecem não entender, é que o wrestling é um produto de gosto, nem tudo é mau ou bom per si, algo será mau ou bom nesta modalidade dependerá sempre do ponto de partida ou da perspetiva com que o vejas, do teu gosto pessoal por um determinado estilo ou tipo. No fundo, todos os fãs têm legitimidade para considerar um sem número daquilo que gostam de ver no wrestling, e considerar isso wrestling, ou pelo menos na sua perspetiva fã, porque são os consumidores finais.

O que não invalida, contudo, de eu achar que nem tudo é relativo ou está dependente do gosto subjetivo de cada fã. Vejamos, terá sempre de existir uma noção objetiva, ou melhor, uma noção mínima daquilo que será o wrestling. Por exemplo, pessoalmente considero que nessa noção mínima caberão dois estilos que definirão o wrestling na esfera de gosto de qualquer tipo de fã, que é o chão ou denominador comum que nos liga a todos: o wrestling de emoções e de história capaz de transmitir isso para cada combate, no qual caberá o estilo da WWE por exemplo; e o wrestling de competição, que se baseia num combate completamente simples e sem grande história à mistura, no qual caberá o estilo da NJPW e, em parte o da AEW.

Porquê em parte no caso da AEW? Porque na AEW podemos fazer três divisões e não apenas duas: contará sempre com o estilo da história e emoções, não quisesse ela ser concorrência para a WWE, tem o estilo de competição sem grande história por trás, pois recebeu inúmeras influências da Lucha Libre e do Puroresu, mas tem também, porém, um estilo à parte destes dois, um que parte deste último tipo competitivo, mas que o leva para o exagero em muitos combates e momentos, e para isso basta pensar nos combates com inúmeros spots inimagináveis e sem sentido e dos riscos constantemente corridos com a sua realização. Ora, este último estilo que poderemos atribuir à AEW já não será um produto daqueles dois tipos que atribuí à noção objetiva ou mínima de wrestling. Já é algo para lá deles, e já dependerá, quanto à sua aceitação, de cada fã de wrestling que veja, pois será a opinião de cada um deles que, só tendo efeito vinculativo para si mesmo (e não para mais ninguém!) que determinará que se o estilo que a AEW apresenta será ou não wrestling.

E esta ideia é algo que se pode transpor também para cada um dos lutadores que vejam nos vossos ecrãs, estejam eles a aparecer na WWE, AEW, Impact, MLW, GCW, NJPW, DDT, etc. Se o wresting no seu conteúdo mínimo e objetivo tinha como regra protagonistas bem parecidos, altos, bem constituídos fisicamente, carismáticos e com boa capacidade de mobilização pela palavra, que fizessem os fãs acreditar no seu trabalho e a exceção nos lutadores pequenos, com corpos pouco “acreditáveis” para determinada luta e com um estilo que fosse cada vez mais acrobático e pouco se nada do que fizessem ficasse na memória dos fãs ou fosse capaz de contar uma história, então é esse o modelo mínimo ou objetivo.

Se o wrestling é para todos? É, principalmente agora com a universalização da modalidade, dos mais pobres aos mais ricos, dos mais pequenos aos maiores, etc., algo que vejo com bons muitos bons olhos. Não se deixa, contudo, de se estar a ir para lá da definição inicial de lutador e dos protagonistas tradicionais do wrestling. O trabalho daqueles lutadores que saiam fora dessa noção poderá sempre ser considerado como wrestling, mas, mais uma vez, ficarão sempre à espera da vinculação individual de cada fã, pois com certeza estão fora do mínimo essencial e, como tal, não dirão o mesmo a todos os fãs, nem pelos fãs serão considerados da mesma forma.

Por isso, quando eu exalto lutadores como Jon Moxley, Kenny Omega ou PAC, em deterioramento de lutadores como Joey Janella, Kip Sabian ou Darby Allin, não se trata de desrespeitar o trabalho destes últimos, trata-se de exaltar o tipo de wrestling e de lutadores que eu gosto de ver, que eu penso que servem melhor a personagem de alguém que está convictamente a medir forças com outro lutador, e não só a limitar-se a fazer moves acrobáticos, a ter um físico que não faz ninguém acreditar em si e que acaba por tornar esta modalidade numa piada, ou melhor, numa comédia, sem ser esse realmente o objetivo.

Lembrar-se-ão dos argumentos que apresentei aqui no Brain Buster quando vos falei da DDT Pro-Wrestling e do gosto pessoal que eu tenho por essa promotora nipónica. Tudo se tratava de vender exatamente aquilo que se diz que vende. À DDT nunca foi exigido shows com 100% de wrestling propriamente dito, pois nunca foi isso que a mesma vendeu, ou sequer quis e disse que venderia. Agora empresas como a AEW, que dizem que vendem wrestling, e estando em TV nacional, não se podem dar ao luxo de agradar a bases de nichos de fãs, elas devem procurar um produto capaz de prender a atenção do espetador menos assíduo, não só do fã de wrestling casual, mas dos não fãs ou ainda potenciais fãs que possam descobrir o produto.

Isso nunca se fará se um não fã de wrestling ou potencial fã ligar a TV na TNT às quartas à noite e ver um combate entre o Joey Janella e o Kip Sabian, dois lutadores que não têm físico acreditável, que muito raramente nos darão um combate com história e que seja mais do que moves e spots constantemente trocados e em que não haja qualquer tipo de carisma ou mobilização pela palavra. Por isso percebem agora quando eu digo que algo não é wrestling, pelo menos para mim, pois se não é capaz de prender a atenção dos fãs que ainda não vêm e está a fugir completamente aos padrões que tornaram o wrestling famoso. Mas voltando agora à DDT, como sabem, eu não tenho problema algum em dizer que aqueles combates de comédia, muitas das vezes completamente disparatados não são wrestling, pois não se encaixam na sua noção objetiva ou mínima, nem sequer andam lá perto. O que me leva a ver e a entender aquilo como parte do meu wrestling é o meu gosto pessoal, uma preferência que me vincula a mim e só a mim.

Por outro lado, quando eu falo em wrestling de TV nacional e do estilo ou requisitos que eu acho que devem estar preenchidos para algum lutador ter uma oportunidade de fazer parte dele, o que eu quererei eu realmente dizer? Realmente foi algo que eu já usei aqui no Brain Buster inúmeras vezes, mas nunca sem dar uma concretização concreta deste conceito. Bem, eu considero o wrestling em TV o último patamar, o último nível, isto é, o objetivo de qualquer carreira de lutador, um sítio onde apenas os melhores (e só o melhores) devem estar, aqueles lutadores que preencham todas as qualidades para serem considerados os melhores da modalidade e que sejam capazes, mais um vez, de prender a atenção dos fãs, dos potenciais fãs e dos não fãs.

Para mim é, e será sempre difícil compreender que lutadores com um físico horrível façam parte de wrestling desse nível. Porquê? Bem, basta só pensar nos grandes lutadores da nossa indústria: Hulk Hogan, Ric Flair, Stone Cold Steve Austin, The Rock, John Cena, entre muitos outros. Todos eles eram bem parecidos, todos eles tinham um físico de invejar, todos eles fizeram que com que fãs se apaixonassem pelo seu trabalho, porque todos eles eram uma estrela, tinham aquilo que se perde cada vez mais no wrestling atual, o fator “larger than life”. Atenção, não estou com isto a defender corpos totalmente músculados como a WWE chegou a certa altura a ter. Não exijo que nenhum lutador tenha um tipo de físico específico, exijo é que o seu corpo não parece simples “nada, e nada mais que nada”.

Além disso, tinham um carisma especial, eram ótimos oradores e nos combates sempre conseguiram fazer aquilo que se exige a cada lutador: ser capaz de proporcionar emoções e de contar uma história em cada combate; e ser capaz de ter combates competitivos, realistas e com um enorme sentido técnico (claro que mais uns do que outros, dependendo sempre da promotora em questão). O objetivo do wrestling era e sempre foi criar estrelas desta magnitude, e parece que hoje em dia é um objetivo completamente botado para canto, privilegiando-se combates sem qualquer história, que não sacam qualquer tipo de emoção, nem que consigam fazer sentido quando aos moves e spots utilizados.

E atenção, não me interpretem mal, porque isto não é exclusivo da AEW, é algo que o wrestling americano atravessa, em que não há realmente ninguém capaz de ser especial. Todos são colocados à mesma escala, todos são colocados em combates competitivos, todos são estrelas à sua dimensão, mas essa é uma dimensão tão pequena, que é totalmente irrelevante para o mundo extra-wrestling. Se em 1999, The Rock e Steve Austin eram estrelas e, mais do que isso, as estrelas, hoje em dia parece que toda a gente está no mesmo patamar, hoje em dia todos são uma estrela e, pior do que isso, é que parece que é um paradigma que dificilmente irá mudar.

Posto isto, eu vejo AEW porque gosto muito do seu produto, mas nem tudo é perfeito, e naquilo que eu acho errado, ou então quanto à aquilo que eu não gostei, terei toda a legitimidade de, perante o meu gosto e aquilo que considero ser wrestling e bom wrestling, criticar o que eu acho que se devia ou não fazer. Eu nunca fui de ver ou fazer coisas que não gostasse, e isso não é menos verdade na minha relação com o wrestling. Fico inúmeros meses sem ver nada da WWE às vezes porque não gosto do produto ou me ofende intelectualmente. Se eu achasse o mesmo da AEW acreditem que eu não veria o produto. A WWE ofende-me mais como fã de wrestling do que a AEW, mas isso não faz a AEW um produto perfeito, pelo menos na minha conceção pois, dentro do meu wrestling, eu verei as coisas de forma diferente que muitos de vocês, e vocês verão as coisas de forma diferente do que eu.

Por exemplo, eu não concebo que todos os combates comecem com um ataque inicial, não concebo como é que os lutadores sofrem inúmeros moves ou combinações e dão kickout a todos eles, quando na maioria das vezes chegaria um desses moves ou combinações para esse lutador ser derrotado, não concebo que os combates decorram a uma velocidade tal que me levem a não me lembrar de nada no dia a seguir por mais espetacular que seja. São coisas que eu acho que não preenchem o meu wrestling, e que fragilizam a modalidade, que a descredibilizam a ela e a todos os seus praticantes. Não estou a dizer que nomes como Joey Janella, Kip Sabian e muitos outros ditos high-flyers não pertencem ao wrestling, mas não pertencem ao meu wrestling, aquilo que eu gosto e pretendo ver e que acho que não deve passar em TV, pois aquilo transmite uma ideia errada acerda do que esta modalidade que eu tanto adoro é.

Agora pegando agora na WWE, tenho a dizer que a sua situação é muito pior, pois há realmente poucas coisas no seu produto que encaixam no conjunto de tipos e estilos que eu gosto de atribuir ao meu wrestling. Desde logo, o grande estilo que sempre nos prendeu a ver WWE, era o primeiro daqueles a que atribui à noção mínima ou objetiva de wrestling, aqueles combates com enormes emoções, que contavam uma história brutal no ringue são cada vez menos a regra na WWE e mais a exceção. Combates como Domick Mysterio vs Seth Rollins no SummerSlam e Roman Reigns vs. Jey Uso são exemplos disso. Combates como estes eram o paradigma da WWE e hoje ocorrem de forma tão esporádica que até nos lembra que estamos a falar da WWE.

Por outro lado, nunca foi a sua capacidade ou o objetivo produzir combates competitivos (à exceção do NXT, que atravessa, como referi a semana passada, uma má fase). Mas o que mais me impede de ter interesse e sequer de considerar a WWE como parte constante e coerente do meu wrestling são os combates cinematográficos e, aparentemente, as capacidades sobrenaturais de alguns dos seus lutadores. Para quem gosta de wrestling propriamente dito, no seu estado mais puro, realista, acreditável, que se aproxime o mais possível do respeito pelo kayfabe, isso é algo com o qual não posso gostar e considerar wrestling, quanto mais wrestling do bom e do melhor.

Se calhar o problema é mesmo esse. Se calhar o problema é meu porque continuo a ter uma visão old school, conservadora, de respeito por algo que já morreu, o kayfabe. Se calhar o paradigma de futuro será mesmo o desrespeito total pela regra primordial dos pais deste desporto, em que passará a valer tudo. O que é facto é que a caixa de pandora já foi aberta, e costuma ser apanágio da WWE e AEW, onde não se conhecem limites, e nem sequer se reconhece que eles existem, porque já foram totalmente ultrapassados.

Combates acrobáticos, cheios de spots arriscados e sem sentido, que saem rapidamente da cabeça das pessoas e das memórias dos fãs por um lado, e combates cinematográficos, com tendência para o sobrenatural ou ridículo podem e parecem ser o futuro. Cada vez mais coisas como estas são sinónimo com o wrestling e parece que cada vez mais o serão e as iremos ver como tal. O que restará a um enorme fã do wrestling na sua qualidade mais conservadora e old school fazer? Bem, o Japão continuará sempre a existir, um refúgio onde, com raríssimas exceções, continuam a nasceram estrelas, onde o wrestling ainda respeita os padrões, noções e conceitos mínimos, e que é cada vez mais o produto (e o único) com o qual me identifico a 100%.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

10 Comentários

  1. Victor X3 meses

    É por aí mesmo. Cada um curte wrestling de uma maneira e o que importa é assistir o que curte. Ficar com birra por empresa x ou y não vai levar a lugar nenhum

  2. BRRM3 meses

    Excelente artigo!

    Devo dizer que o “teu wrestling” me parece ser bastante idêntico ao “meu”. Sou mais aberto à incorporação de cenas sobrenaturais e cinemáticas e tal mas de resto estou basicamente de acordo contigo. Um spotfest consegue ser algo bastante divertido de se ver quando é bem feito (especialmente se se tratar de um ladder match ou algo do género) mas não há nada que bata uma história bem contada e um combate que decorra da forma mais credível possível. Pessoalmente sou uma pessoa que acha que a beleza do wrestling está nos pequenos detalhes que acabam por fazer toda a diferença pelo que o tipo de wrestling frenético que descreves e que é característicos de muitos membros no roster da AEW acaba por parecer demasiado superficial para mim. Não tenho nada contra quem gosta mas, lá está, não é o “meu wrestling” como te bem disseste.

    Sobre as críticas que mencionas nos parágrafos iniciais, infelizmente essas vão sempre existir. Pertencer a um grupo de fãs (seja de wrestling, futebol, música, cinema) é excelente quando se consegue partilhar momentos com pessoas que têm a mesma paixão que nós e que, mesmo que não concordem connosco, estão dispostas a ouvir o que temos a dizer pois compreendem que nem toda a gente tem de ter a mesma opinião (há coisas na vida que serão mais uma questão de bom senso do que propriamente de opiniões mas isso já é outra conversa…). Mas a verdade é que é difícil (pelo menos, eu acho) encontrar pessoas com esse nível de compreensão (e eu digo isto sabendo que já fui uma delas ahahah). Enfim, you gotta take the good with the bad, I guess.

  3. Bea Ospreay3 meses

    Consigo gostar dos dois, matchs baseadas em storytelling, e outras mais “spotfest”, mas não troco uma boa historia por nada, algo que realmente a NJPW ainda faz bem, alem de um booking a longo prazo mais consistente. Mas mesmo assim acompanho as tres “principais”; AEW, WWE e NJPW, pois sempre vai sair algo positivo no fim, mesmo que as vezes demore (como esse ultimo PPV da AEW que foi excelente).

  4. Sandrojr3 meses

    Prefiro a nova era do wrestling, mas respeito sua opinião, ótimo artigo.

  5. Sr k3 meses

    Esse argumento de não ter um físico credível. Eu acho um dos mais falhos possíveis. E toda vez que eu vejo alguém usando esse argumento, só reforça para mim o quanto é falho.

    Em qualquer modalidade esportiva, muitos dos melhores e mais populares atletas tem físicos não “””credíveis”””, e em qualquer mídia de entretenimento muitos dos personagens mais populares não tem esse seu físico “”credível”””. Não vai ser isso que vai prejudicar o Wrestling para pessoas que estão vendo pela primeira vez.

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      Obrigado pelo comentário. É a tua opinião e eu respeito, mas não podes ter uma perspetiva do wrestling enquanto modalidade desportiva a 100%, nunca foi esse o objetivo, mas sim tornar as suas personagens principais estrelas que vão para lá do desporto.