Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

No último dia do mês de janeiro, assistimos a um dos eventos de wrestling mais aguardados do ano, ou mesmo o evento mais aguardado para alguns fãs da modalidade, o WWE Royal Rumble, um dos PPVs que, por mais afastado que possa estar do produto da WWE, ainda vejo religiosamente, dada a facilidade com que se criam momentos espetaculares devido às características da temática do combate que dá nome ao evento, bem como é sempre dos eventos mais divertidos do ano, com um conceito que, por mais anos ou décadas que passem, continua a ser um dos mais atrativos que alguma mente no wrestling alguma vez conseguirá criar. Este foi, aliás, o primeiro Royal Rumble após a morte do seu criador, Pat Patterson, que com muita tristeza nos deixou em 2020. Mas ao contrário do que fiz para muitos eventos no passado, em que analisei combate a combate, quanto a este PPV irei fazer algo diferente. No card, tivemos três combates femininos que, a meu ver, espelham perfeitamente os problemas que a divisão feminina da WWE tem, apesar do imenso talento que tem. Gostaria de, através destes combates, partir para uma análise mais profunda da divisão.

No kickoff do Royal Rumble tivemos um combate pelos títulos de Tag Team Femininos entre as campeãs Asuka e Charlotte Flair e as candidatas Nia Jax e Shayna Baszler. Neste combate, temos três das melhores lutadoras que a WWE tem sob domínio da sua marca, mas, mesmo assim, este combate não passou de uma mistela de moves que foram quase todos feitos sem um nexo entre eles e sem se contar verdadeiramente uma história. O que as quatro lutadoras se limitaram a fazer foi entreter os fãs com alguns moves até haver a interferência de Ric Flair e de Lacey Evans, que era o único ponto que a WWE queria fazer passar com este combate.

Notei que a Charlotte e a Shayna, com muita pena minha, têm imensa dificuldade em trabalharem juntas, não sinto qualquer tipo de química, todas as interações não decorrem de forma natural e os próprios moves são arrancados a ferros. Não conseguem entrar em sintonia, e isso talvez se deva ao facto de ser quase sempre a Shayna que controlava o ritmo dos seus combates. Era isso que acontecia no NXT e por isso é que ela brilhava. Agora, quando obrigada a trabalhar com o estilo das outras, sente dificuldade de adaptação, e tal deve-se à falta de experiência, pois quatro ou cinco anos de wrestling é pouco para ter um destaque deste nível. E isto é algo que se passa constantemente nesta divisão. A WWE recruta muitas candidatas a lutadoras de inúmeros desportos, muitas delas que treinam um ou dois anos no Performance Center e são lançadas no NXT com uma personagem mais ou menos interessante e fazem algum sucesso porque estão a lutar num ambiente controlado e propício para brilharem, mas depois são lançadas aos leões no main-roster e todo o tipo de falta de experiência ou deficiências ainda não trabalhadas vêm ao de cima.

Por outro lado, ainda são vários os combates da divisão feminina da WWE em que sinto que não estou a ver um combate montado com cabeça, tronco e membros. Como disse, muitos são montados na ideia de fazer uma quantidade insana de moves para chocar ou para provar algum ponto que seja de que as lutadoras estão ao mesmo nível e conseguem fazer o mesmo que os membros do roster feminino. Não há uma conexão, nem uma transição entre os moves e isso explorarei melhor quando analisar o combate da Carmella e da Sasha Banks. Mas, que eu saiba, nem nos combates masculinos muitas vezes temos estes espetáculos de moves a toda a hora, costumamos ter algumas pausas no meio para recuperar, vários momentos de striking, porque wrestling não são só moves, são a construção de uma história. O caso da Nia Jax é o que me deixa mais perplexo. A Nia Jax tem o dobro do tamanho das restantes lutadoras e, muitas vezes, até o triplo. Então, porque razão é que tem de estar constantemente no chão? Uma lutadora com uma diferença de tamanho tal tem de ir ao chão apenas uma vez em quatro combates, se tanto!. Não pode ser qualquer lutadora que a consiga derrubar, e quando tal acontecer, deve ser visto como um feito enorme. Eu sei que sou antiquado, e sei que histórias à volta do tamanho do Andre The Giant sofrer um Body Slam não existem mais, mas então a Nia Jax deixa de ser especial, de ter um tamanho e força fora do normal, para passar tão simplesmente a ser mais uma.

Para além disso, aos olhos dos fãs, o quão não fica mal, esteticamente, a Nia Jax levantar-se imensas vezes durante o combate? É uma demonstração de fraqueza e um tiro nos pés no que diz respeito à sua credibilidade e legitimidade trazidas pelo seu tamanho. Depois ainda cai no erro de entrar em sequências em que se safa de pins rápidos. Faz algum sentido que uma lutadora daquele tamanho quando posta numa posição em que carrega com o seu peso e com o da lutadora conseguir safar-se constantemente e com facilidade? Eu defendi aqui na altura o facto da Tessa Blanchard vencer o título Mundial do Impact, e sabem como, no caminho até esse title match, a Tessa se tornou nº1 Contender? Venceu o Brian Cage com um pin rápido em que obrigou o seu corpo a ceder com a junção do seu peso e da própria Tessa. Há limites força e agilidade que têm de ser respeitando, tanto os lutadores como as lutadoras têm que procurar ser diferentes no seu direito, sabendo o seu tamanho e força.

O wrestling não é igual em todos combates e rivalidades, nem é igual para todo o tipo de lutadores, seja em estilo, seja em tamanho. O wrestling joga com as características de ambos e procura diversidade. Se a WWE quer montar um grupo de lutadoras que seja igual e homogéneo entre si, pois muito bem, está no caminho certo, mas se quer criar uma divisão feminina que conte com inúmeras possibilidades de contar histórias diferentes, então tem que ir ao baú da WWE Network e ver alguns combates, por vezes parece que se esqueceram como isto funciona. Acho impressionante como ninguém naquele enorme centro de treinos não diz à Nia Jax para fazer diferente. Mais uma vez, não há experiência que chegue, não há conhecimento alargado, e todo o tipo de falhas no trabalho das lutadoras vem ao de cima.

E quem diz o problema da Nia Jax em não proteger a credibilidade do seu tamanho, diz a Sasha Banks em não perceber que pelo corpo franzino não devia fazer certo tipo de moves. Este problema que, a meu ver, a Sasha tem, não foi visível no seu combate com a Carmella, pois esta é praticamente do seu tamanho, mas a Sasha ao fazer um Backstabber está a levar com todo o peso da sua adversária em cima dos seus joelhos, que, na maior parte dos casos, são maiores que ela. É verdade que no roster masculino também há casos assim, mas no roster feminino há inúmeros casos de lutadoras que não percebem a sua personagem e que o seu tamanho deve ter uma palavra a dizer no estilo que querem implementar no ringue. Este combate entre a Sasha e a Carmella foi mau, e não digo isto com muita facilidade de um combate.

Para já, eu que ainda não conhecia a nova personagem da Carmella fiquei sem perceber que tipo de nova personalidade ou atitude ela tem. A única coisa que percebi é que ela se achava bonita e queria que a admirássemos mais que nunca. Bolas, que coisa mais cativante! Principalmente em 2021, no wrestling, é exatamente algo assim que queremos, lutadoras que estão mais importadas com a sua imagem do que em ganhar combates. Este é, igualmente, um problema da Sasha. Sim, ela intitula-se “The Boss”. Porquê? Não sei, nem vocês sabem, mas a Sasha é uma lutadora que sempre que vem a ringue parece que vem fazer um desfile de moda do último conjunto outono/inverno ou primavera/verão. Eu quero ver personagens sérias, quero ver lutadores concentrados no seu trabalho, que sobressaiam pelas promos que fazem ou pelos combates que tenham. Se no dia a seguir os fãs estiverem a falar da roupa de certa lutadora e do quão bonita ou sexy estava, então isso significa que ela fez um péssimo trabalho.

Principalmente quando estava naquela blood feud com a Bayley, a Sasha vinha ao ringue fazer uma promo séria sobre quão mau o destino de Bayley ia ser, e que ela não se ia safar sem “levar nas trombas” (desculpem a expressão, porventura demasiado jucosa), mas depois vinha com um vestino às cores, ou um top com efeitos e com 20kg de maquilhagem. Porque razão é que os fãs que se apaixonaram a ver Stone Cold a vir ao ringue de calções de ganga cortados e uma t-shirt, a ver o Rock de fato treino, a ver o Triple H com os casos de cabedal, a ver o Ric Flair com os seus fatos elegantes, iriam também se apaixonar por uma rivalidade que, supostamente séria, fica para segundo plano quando as lutadoras são bonitas demais para ter um Grudge match? Este combate foi também um exemplo paradigmático da insuficiência que as lutadoras da WWE têm em contar uma história. Eu sei que isso não é fácil e demora anos a um lutador ter essa habilidade, mas então porque não se retorna ao básico dos básicos? Alguém que trabalhe na perna da adversária, no braço, nas costas, no abdómen, no pescoço, algum heel que domine decentemente a babyface para que eu sequer me importe de ver o seu comeback. Neste combate, temos a Carmella a ter dois minutos de pontapés e pisadelas na Sasha e mais três minutos de ela a berrar aos ouvidos da Sasha. E pior é que isto não é a exceção, mas a regra dos combates femininos na WWE.

Claro que esta falta de conhecimento das lutadoras da sua própria personagem é, principalmente, culpa do booking da WWE, assim como as histórias que, muitas vezes, não são montadas a partir do talento e capacidade física das lutadoras em questão. A WWE devia ser a primeira a proteger as lutadoras que quer ver como estrelas da sua empresa e evitar que a sua credibilidade fique manchada por botches constantes e por combates que não ficam na memória dos fãs pelas melhores razões. E isto liga-se ao final e último ponto que gostaria de transmitir neste artigo, é que o wrestling feminino não tem de provar nada ao wrestling masculino, são coisas diferentes, nenhum melhor que o outro. No combate entre a Sasha e a Carmella, esta última a certa altura faz um dive que repetido mais uma ou duas vezes me parece que tem tudo para correr, e o mesmo para a Sasha que já fez dives parecidos algumas vezes. Já no Rumble Rumble match vimos várias lutadoras a fazer Clotheslines que saem de forma muito pouco natural, de forma algo falsa e que parece provocar mais dano à lutadora que faz o move do que à lutadora que o sofre. Na minha opinião, da mesma forma que um lutador pequeno não vai fazer PowerBombs muitas vezes durante a sua carreira (quantas fez o Daniel Bryan? E o Rey Mysterio? E o Adam Cole? E o Johnny Gargano?), também não vejo razão para lutadoras com um corpo franzino o fazerem.

Tem de haver uma equivalência de tamanhos, ninguém é igual a ninguém. A Tamina e a Nia Jax podem e devem fazer um Lariat à Charlotte ou à Bayley, mas a Ruby Riott ou a Dana Brooke não devem fazer à Charlotte nem à Bayley, ou se o fizerem devem precisar de duas ou três tentativas, cansar a adversária, respeitar o seu tamanho e o tamanho da adversária. E se no lugar de um Lariat fizerem um Cross Body? Muito melhor, não acham? E se fizerem um Cross Body na Nia ou na Tamina? Claro que aí não faz sentido elas caírem à primeira, o que deverá acontecer é elas conseguirem interceder. Quanto aos dives tenho a mesma ideia. A Sasha e a Carmella caem de forma muito mais espalhafatosa porque a queda é maior para elas do que seria para o Samoa Joe, e porque a própria adversária, ao ser pequena, tem pouco terreno para a agarrar. Sempre que o Daniel Bryan faz um dive vejam quem é que o sofre: Randy Orton, Batista, Triple H, Cesaro, The Miz, etc. O que têm em comum? Todos são maiores do que ele, e conseguem amparar a sua queda com segurança. Assim, como podem ver, não se trata apenas de garantir um wrestling com sentido que será sempre um bom wrestling, trata-se de também zelar pela segurança e saúde das lutadoras que colocam o seu corpo em risco.

Deixem-me dizer-vos também que isto é reflexo e culpa da forma como evoluiu o próprio wrestling masculino. Hoje em dia, lutadores com diferentes tamanhos fazem dives ou saltos arriscados e espetaculares, cada vez mais as barreiras do sentido e da história realista se atenuam e os lutadores se homogeneízam, e parece ser esse o futuro. A ideia que quero transmitir aqui hoje é que tanto os lutadores ou lutadores como a fed que os quer tornar estrelas devem conhecer os limites de cada um, independentemente do género. Penso que é algo que se nota mais no roster feminino, mas que em muito é resultado do caminho que o próprio roster masculino tem optado em centenas de combates que vemos hoje em dia. Mas se há exceções e boas exceções? Claro que sim! Eu quero uma divisão que exista de tanto talento que tem, e acreditem que na WWE há muito. Não quero uma divisão como às vezes parece que só existe por existir, como jogada de marketing, com lutadoras inexperientes ou com falhas de compreensão do momento e do combate que são lançadas aos leões porque há que suprir o facto de algumas vezes nos últimos anos o roster ser bastante curto. Mas há vários nomes que me alegram ver e que fazem esta divisão ser talentosa para além dos problemas que elenquei aqui hoje.

A Bayley, apesar de ser pouco fã dela e de achar que é uma heel pouco interessante, é excelente no ringue em termos de segurança e raramente a vemos fazer algo que achemos que a mesma não conseguiria fazer numa luta real. A Charlotte Flair respira wrestling e carrega-se como uma estrela. A Rhea Ripley e a Mercedes Martínez têm uma atitude que deveria ser mais comum na WWE e não só na divisão feminina. Elas não estão ali porque era o seu “sonho”, como muitas personagens são apresentadas, estão ali para fazer a diferença e para chegar ao topo. A Bianca Belair tem uma credibilidade enquanto atleta que no seu caso sim, a permite fazer moves que exijam mais força. A Alexa Bliss tem uma capacidade acima do normal para tornar tudo o que faz interessante e ter uma personalidade largher than life, e já a tinha muito antes desta fase com o Fiend. A Asuka e a Io Shirai trazem o que de melhor se faz no Japão.

A Toni Storm tem uma personalidade rockstar e um estilo in-ring muito seguro e híbrido que costuma fazer parte do estilo das principais caras de qualquer promotora, porque assim pode ombrear com qualquer tipo de adversários. A Dakota Kai e a Raquel González são ótimas heels e jogam com o seu tamanho, a primeira para depender mais da segunda e ter moves mais rápidos, a segunda para credibilizar o seu tamanho. Como vêm, a divisão tem inúmeros exemplos que devem ser seguidos e é com estes nomes que a WWE deve avançar para formar a divisão feminina melhor possível. Talvez uma redução do número de títulos da divisão (tal como devia acontecer quanto ao roster masculino) fosse útil para passarem a estar a disputá-los as melhores e apenas as melhores.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

15 Comentários

  1. Sandrojr4 semanas

    Não concordo com tudo do artigo, mas repeito tua opinião, ótimo artigo

  2. João azevedo4 semanas

    Eu concordo com algumas partes outras não. Mas prontos cada um tem a sua opinião se está assim tão mau os combates da boa jax etc… Como é que iriam a derrotar como é que iria ela perder? Se fosse sempre assim nunca iriam ganhar a quase…..

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      Obrigado pelo comentário. Eu parto do princípio que não a WWE não deve estrear lutadores ou lutadoras sem que eles soubam exatamente o que têm de fazer. Vamos partir do pressuposto que a Nia era uma ótima lutadora.
      Ora, uma lutadora com aquele tamanho tem que atravessar imensos períodos de vitórias, que incluam jobbers, rookies, lutadoras com menos destaque e até estrelas da divisão. Só assim se protege a credibilidade que o tamanho de lhe dá imediatamente.
      Não estou a dizer que a Nia deve ser uma das caras da divisão sequer, mas que se deveria montar uma história à volta dela em que poucas são as que a conseguiram derrotar. Agora, se me disseres que a Nia não tem estofo para isto ainda, eu sou capaz de concordar, mas querendo a WWE usá-la acho que esta é a melhor opção. Até porque na maior parte dos combates, ela não vai precisar de fazer grande coisa.

  3. João azevedo4 semanas

    Ricardo Moreira não concordo de tudo com o seu comentário primeiro o tamanho não importa de tudo segundo a mil vezes melhores lutadoras ela é uma lutadora muito perigosa ela já lesionou várias pessoas se não sabe pesquise porque sinceramente e não concordo com a história acho que já lhe estão a dar fama é a mais…. Enquanto que temos pessoas muito melhores lutadoras tipo uma Liv Morgan. Mas enfim cada um tem a sua opinião.

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      Obrigado pelo comentário.
      Sim, no wrestling o tamanho importa, se não importasse todo o tipo de lutadores fazia todo o tipo de moves e todo o tipo de combates.
      Se a Nia Jax é perigosa ou não isso é uma questão para a WWE avaliar, mas se for então nem sequer deveria ter saído do PC. Eu parto do princípio que na WWE ainda há pessoas responsáveis que sabem quando algo é perigoso e, partindo daí fiz uma análise do que a personagem dela devia ser.

  4. João azevedo4 semanas

    Então deves ter feito a análise muito mal. Eu não estou a falar de moves mas sim dos tamanhos por exemplo temos uma kairi sane acho que o combate dela vs nia foi desnecessário porque todos nós já sabíamos que iria ganhar a kairi sane

  5. João azevedo4 semanas

    Sim senhor têm responsáveis. Mas sim a nós é perigosa isso é um facto e acho a uma lutadora que não tem a dar mais nada ao wrestling

    • João azevedo4 semanas

      *a nia é perigosa enganei me a escrever

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      Eu confesso que não tenho conhecimento suficiente para avaliar se a Nia é perigosa ou não, nunca praticou a modalidade. A WWE é que tem de saber isso e até as suas adversárias se sentirem isso é que têm que o dizer. Achas que a WWE e a própria Nia Jax já não aproveitaram isso dos fãs acharem que a Nia é perigosa para fazer disso parte da sua personagem? Eu não estou a afirmar nem a negar nada, confesso que não tenho conhecimento a esse nível.

  6. João azevedo4 semanas

    Pois….. Por exemplo estar sempre a comparar os homens as mulheres no seu artigo não gostei mas enfim o artigo é seu você que sabe

  7. João azevedo4 semanas

    Prontos enfim…. Desculpe então meu comentário