Cutting Edge #78 – History in the Cell

Dentro de dois dias, será feita história: Sasha Banks e Charlotte lutarão no primeiro combate Hell In A Cell de sempre, colocando um ponto final a uma rivalidade longa, mas igualmente histórica.

Contando com o NXT, já são anos de rivalidade. Quando esta começou, ninguém acreditaria que seria culminada num combate destes, inédito entre mulheres e ainda por cima na WWE, onde durante anos o sexo feminino foi tratado apenas como um intervalo entre os acontecimentos mais importantes e uma oportunidade para o público masculino “lavar a vista”.

Ao contrário do que alguns fãs mais céticos – e quem sabe se não terão razão? -, eu acredito mesmo que a WWE quer dar uma oportunidade às mulheres de brilharem como os homens. Claro que nem tudo está bem, mas se nem na divisão masculina alguma vez a perfeição existiu, é um pouco irrealista pedir que tal aconteça na divisão feminina.

Parece-me que há fãs que julgam que as coisas devem ser interpretadas como 8 ou 80, como preto e branco, como claro e escuro. Mas também há o cinzento. Nem tudo o que acontece de mal é porque a companhia tinha essa intenção.

Lembro-me de, no ano passado, aquando da rivalidade entre Paige e Charlotte na qual a primeira fez referência ao irmão falecido da rival, haver quem acusasse a WWE de estar a sabotá-las, visto que foi, de facto, um segmento fraco quando ainda por cima teve honras de main-event.

Ora, a WWE sabia que as coisas iam correr mal e, por isso, terá deixado isso para o segmento final de forma a mostrar que tem razão quando não aposta no Wrestling feminino.

Embora compreenda os receios (eu próprio, no meu dia-a-dia extra-Wrestling, sou adepto de teorias da conspiração), não me parece de todo que fosse objetivo da WWE que as coisas corressem mal com Paige e Charlotte de forma a provar que tinha razão e os fãs não sabem o que é melhor para a empresa.

Prova disso é que continuaram a dar um grande destaque à divisão feminina, tendo inclusive um dos combates principais da WrestleMania sido Charlotte vs Sasha Banks vs Becky Lynch pelo Título Feminino. Este combate viria a tornar-se, facilmente, no melhor combate feminino da História da WrestleMania, apenas comparável ao que pôs em confronto Trish Stratus e Mickie James, embora este não tenha atingido esse nível.

O resto de combates femininos no maior evento do ano são para deitar no lixo e nunca reciclar, incluindo o Trish vs Lita vs Jazz, que, mesmo opondo três lutadoras no verdadeiro sentido da palavra, esteve muito longe de ser razoável e não possuía uma história que interessasse a alguém.

Só por aqui podemos ver que, de facto, a WWE lhes está a dar uma oportunidade. Ainda há falhas? Sim.

Julgo que podiam fazer um trabalho bem melhor na forma como protegem as lutadoras no que diz respeito às suas fraquezas. Sasha Banks está longe de brilhar ao microfone, não só porque se sente muito mais confortável no papel de vilã (tal como Charlotte, como se comprova facilmente comparando o seu trabalho deste ano com o do ano passado), como também pelo facto de o guião não ser o melhor. Ou talvez a própria existência de um guião a prejudique, visto que me parece ser um daqueles talentos que sabem improvisar. Estando presa a um guião, acaba por não soar nada natural.

O mesmo se aplica a Becky Lynch: no “Talking Smack” e nas entrevistas de bastidores, parece muito mais genuína e brilha facilmente ao microfone. Quando está no ringue, isso já não acontece tão facilmente.

Seja como for, esse problema também existe na divisão masculina. Não podemos considerar que na divisão masculina se deve tudo a incompetência e na divisão feminina se deve tudo a uma conspiração contra as mulheres. Em ambos os casos há preguiça e incompetência.

Outro tópico que tem sido discutido é a possibilidade de este combate ser o main-event do PPV. Pessoalmente, julgo que não vale a pena.

Não está em questão se merecem. Merecem muito. Nem se a história é adequada. Porque é. Simplesmente, este PPV já é histórico.

Será sempre o PPV em que tivemos o primeiro combate Hell In A Cell feminino, independentemente de ser outro combate a fechar o evento.

O No Way Out 2004 será para sempre o evento em que Eddie Guerrero ganhou finalmente o Título da WWE. O Bad Blood 1997 será para sempre o PPV em que o conceito Hell In A Cell e a personagem de Kane se estrearam.

Nestes dois casos, os combates foram os main-events? Sim, foram.

Mas o King of the Ring de 1998 é histórico pelo Hell In A Cell entre Mankind e The Undertaker ou pelo combate “First Blood” entre Kane e Steve Austin no qual Kane ganhou pela única vez o Título da WWE? É relembrado claramente pelo primeiro, embora tenha sido o segundo o main-event da noite.

No SummerSlam de 2000, tivemos o primeiro TLC, no qual os Dudleys, os Hardys, Edge e Christian brilharam tal como o haviam feito noutros combates em 1999 e na WrestleMania 2000. Foi o último combate da noite? Nem por sombras, mas foi o combate que definiu esse PPV. Sinceramente, tive que ir ver agora qual foi o main-event desse evento (a título de curiosidade, fica aqui a informação: The Rock vs Triple H vs Kurt Angle pelo Título da WWE).

O que eu quero dizer é que a WWE não tem a necessidade de gastar já todos os seus trunfos. Este PPV já será histórico por ter o primeiro combate Hell In A Cell feminino. Espero que deixem para outra ocasião o main-event de PPV, o que tornará esse PPV igualmente histórico.

Mick Foley veio anunciar que este seria o main-event do Hell In A Cell, mas mais tarde veio corrigir, dizendo que ainda não se sabia. Na última Raw, a WWE fez questão de nos lembrar que o PPV terá um “triplo main-event“. Isso sim, soa um pouco a desespero, visto que parecem estar com receio de que os fãs “caguem” no combate entre Kevin Owens e Seth Rollins (a outra opção para último combate da noite) e parece ser uma forma de dizer aos fãs “olhem, elas não estiveram no último combate da noite, mas o seu combate teve o mesmo nível de importância desse combate”.

Não têm de ter receio. Os fãs, se foram inteligentes, vão perceber o porquê de elas não fecharem o PPV e não é por Mick Foley se ter precipitado que têm de se sentir enganados ou ultrajados.

Além disso, não podemos esquecer que o Título Universal não estará no main-event do Survivor Series (provavelmente nem será defendido nesse evento) e Kevin Owens precisa de uma vitória importante no main-event de um PPV, de preferência sem interferências (o que duvido que vá acontecer).

Caso sejam mesmo Sasha Banks e Charlotte a protagonizar o último combate da noite, não vem mal absolutamente nenhum ao mundo. Faz-se história a dobrar, elas merecem, a história merece, mas desperdiça-se um trunfo para vender um PPV mais tarde como o primeiro em que duas mulheres vão lutar no main-event.

Em relação às protagonistas, julgo que é unânime que, neste momento, Charlotte é a mais completa das duas e na WWE em geral. A sua evolução este ano foi soberba e quem quiser ser elevado ao nível máximo tem de passar por ela primeiro.

Já Sasha Banks tem tido, como já referi, algumas dificuldades nas suas promos como babyface, mas as suas performances em ringue têm sido sólidas e já conseguiu brilhar num combate nesse papel, precisamente o mais importante até agora: no main-event da Raw.

Na última Raw, Mick Foley fez mais um “daqueles” discursos que só ele sabe fazer, uma fórmula usada mais do que uma vez no passado mas que mesmo assim não se esgota. Fez-me lembrar o segmento em que levou Edge às lágrimas (é verdade que Edge sempre foi muito emocional, tal como Sasha Banks, curiosamente), antes do Hell In A Cell entra a “Rated-R Superstar” e The Undertaker em 2008.

Obviamente que o Hell In A Cell já não apresenta os perigos que apresentava na altura em que Mick Foley lutou contra The Undertaker (a menos que Charlotte faça mesmo um “Moonsault” do topo da cela, como li algures, ideia recusada pela WWE) e não é assim tão demoníaco, mas Mick Foley conseguiu ainda assim vender o combate na perfeição e alertar as lutadoras para aquilo que as espera.

Quanto ao combate em si, espero a maior vitória da carreira de Sasha Banks até agora e o momento em que ficará ao nível de Charlotte, como os dois grandes nomes desta divisão. Não tenho expectativas muito elevadas, porque é o primeiro combate feminino dentro da cela e, por isso, não houve outros anteriormente que pudessem ter sido estudados (podem estudar os combates masculinos, mas a dinâmica é outra). Espero que o segundo Hell In A Cell feminino seja melhor do que o primeiro, e o terceiro melhor do que o segundo, e assim sucessivamente.

O primeiro Hell In A Cell de sempre, entre Undertaker e Shawn Michaels, está longe de ser o melhor (e de ser o pior também), mas é histórico por duas razões: por ser o primeiro e pela estreia de Kane. Por isso é que nenhum fã o esquece.

Seja ou não histórico por duas razões ou apenas por uma, o que importa é que Sasha Banks e Charlotte farão sempre história no próximo domingo. Não me admirava nada que, depois do combate, Charlotte e Sasha se abraçassem, com a primeira a virar face, num momento a fazer relembrar o abraço entre as Four Horsewomen depois do Bayley vs Sasha Banks do ano passado. E essa, admito, seria uma excelente forma de acabar o PPV.

Numa semana em que a seleção portuguesa de futebol feminino conseguiu o feito histórico de se qualificar para um Campeonato da Europa, temos um PPV que não ficará para a história por Kevin Owens, Roman Reigns e os New Day manterem os seus títulos ou por Brian Kendrick conquistar o Título de Cruiserweights, mas sim porque teremos duas mulheres a lutar dentro do Hell In A Cell. Resta-nos simplesmente desfrutar.

Sobre o Autor

- Autor do espaço "Cutting Edge".

26 Comentários

  1. BRUNOju. - há 12 meses

    Artigo excelente Daniel. Concordo bastante com a sua visão, acho que se elas não forem o Main Event, não terá problemas, como você mesmo diz, já estão fazendo história.

    Mas eu li num sites que a equipe criativa quer colocar o combate ou no início do show ou no Main Event, porque se colocarem no meio do show, eles possuem receio que os fãs abandonem a arena antes do fim. Será que isso é verídico?

    Eu também estou achando que a Charlotte tornará face em breve para rivalizar com Dana Brooke e depois com Nia Jax.

    • danielLP21 - há 12 meses

      Obrigado!

      Acredito que seja o combate de abertura, porque quando há 3 HIAC’s o PPV começa logo com um deles, depois há outro a meio e outro no fim. Mas talvez o primeiro seja o Reigns/Rusev.

  2. "Awesome" Hater - há 12 meses

    Excelente artigo, Daniel, argumentação bem sólida, com a qual acabo por concordar – não tinha pensado sobre.
    Eu creio que outros talentos merecem fazer história também, não só as F4H, de forma que poderiam deixar ME ou algo para outras…
    Felizmente, isso é inevitável, já que quatro talentos não chega para um MITB ou EC.

  3. CMP - há 12 meses

    Bom artigo.
    Mas queria dizer uma coisa estas duas divas estão amostra que as mulheres estão a começar a ter poder também na wwe .
    Quem se lembra daqueles combates da treta de tirar roupa ou aqueles concursos da treta que faziam com as mulheres.
    Isso mudou na wwe isso e bom pq elas são contratadas para lutar e não para serem estrelas da playboy.
    Este ano elas ja deram grandes combates dos melhores que vi na wwe nos ultimo ano por isso tou a espera de um bom combate entre elas para acabar com esta rivalidade histórica.
    Espero que a wwe continue apostar forte na divisão feminina pq elas merecem.

  4. FFNXT - há 12 meses

    Grande artigo Daniel! Achei que fosse só eu que me incomodava com algumas pessoas que cobravam perfeição desse novo tratamento da divisão feminina da WWE sendo que nem a divisão masculina é perfeita e também tem seus defeitos. Sobre o combate eu não ligo se será main event ou não, até espero que seja o primeiro combate na cela da noite, tenho medo que o público se “canse” pois acho que três combates com a mesma estipulação no mesmo ppv pode deixar o público um pouco cansado. Espero que no futuro outras mulheres protagonizem combates numa cela, como Becky Lynch e Asuka que também merecem muito fazer história e tem talento para tal.

  5. FambroseDxDx - há 12 meses

    Mais uma vez, grande artigo Daniel.
    Quando faziam esses combates de almofadas,para tirar a roupa,entre outros, era uma ofensa para o próprio wrestling em s. Para não falar no desrespeito que davam ás chamadas “Divas”( agora Womens). Uma mulher merece muito respeito!
    Espero que no domingo nos dêem um grande combate pois é isso que esperamos.Têm capacidade para isto e muito mais.Espero que a Bayley venha a ter o mesmo destaque nos próximos tempos pois aquela rivalidade com Dana é uma desgraça.

  6. RFBM - há 12 meses

    Bom artigo Daniel, apenas queria discordar um pouco em relação ao Hell in a Cell match entre o Michaels e o Taker, que na minha opinião, se não foi o melhor, foi o segundo melhor ou o terceiro melhor. Queria apenas perguntar qual é o Hell in a Cell match que mais gostas?

    • danielLP21 - há 12 meses

      Obrigado.

      Aquele de que mais gosto é o Edge vs Undertaker. O melhor é o Mankind vs Undertaker.

      Não considero o primeiro tão bom como tu. Colocaria à frente desse os dois que já referi aqui, o Six-Man Hell In A Cell de 2000, o Randy Orton vs Undertaker, Triple H vs Cactus Jack, Brock Lesnar vs Undertaker, Triple H vs Shawn Michaels e Batista vs The Undertaker.

      Está facilmente no Top 10 e se eu for rever o combate agora até o posso pôr ao nível de alguns destes, mas nunca no Top 3.

      • Frederico_WWE - há 12 meses

        O Brock Lesnar VS The Undertaker de 2002 e não o de 2015 acredito eu…

      • danielLP21 - há 12 meses

        Nem me lembrava da existência do de 2015… Sim, o de 2002 claro!

      • RFBM - há 12 meses

        São opiniões, e é sempre bom compará-las 🙂

  7. KILL OWENS KILL - há 12 meses

    Excelente artigo. Concordo com tudo.

  8. Rui Ribeiro - há 12 meses

    Muito bom artigo!

    Confesso que adorava que fosse este combate a fechar o PPV mas também não fico chateado se não for, visto que como disseste este combate por si só já será histórico. O máximo que se podia “exigir” à WWE era um combate Hell In A Cell e isso felizmente vai acontecer.

  9. Artur - há 12 meses

    Ótimo artigo Daniel. Não há dúvidas de que no domingo teremos um PPV histórico e que com certeza abrirá ainda mais portas para o wrestling feminino na WWE. Se elas renderem uma ótima luta, não tenho dúvidas de que poderemos ver mais combates femininos com estimulações, como TLC Match, Money In The Bank Ladder Match, etc.

    A propósito, qual o teu Hell In A Cell Match preferido?

    • danielLP21 - há 12 meses

      Obrigado!

      O meu favorito é o Edge vs The Undertaker. Não é necessariamente o que acho melhor ou mais icónico, mas coincidiu com o auge da carreira do meu wrestler favorito e a feud foi muito boa. Além disso, acho que está no Top 5 de sempre dos melhores combates Hell In A Cell.

  10. Anónimo - há 12 meses

    Ótimo artigo. É muito bom ver a WWE dando mais destaque as wrestlers femininas,a tendência é que esses destaques venham a aumentar com o tempo (assim espero).

    • danielLP21 - há 12 meses

      Obrigado!

      Também espero que sim. Mas as wrestlers também têm que mostrar que merecem estar a este nível, não se pode colocá-las lá só porque fica bem.

  11. AANTI - há 12 meses

    How dare you me fazer não querer o Main Event de mulheres!artigo incrivel! e sim como eu disse a alguns dias atrás outras mulheres talentosas merecem fazer história também.

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