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Opinião Feminina #312 – Brand Loyalty

Novembro é mês de Survivor Series na WWE e, quando a separação do plantel está em vigor, isso significa batalhas entre o Raw e o SmackDown para perceber qual é o melhor programa. O conceito temático do Survivor Series, dependendo da sua apresentação, costuma ser um dos aspetos da WWE que, quando estudado mais a fundo, não faz muito sentido. Na realidade, o mundo da WWE está repleto de costumes que não fazem sentido, mas foram repetidos até se tornarem tradição.

A promoção deste ano do Survivor Series acusa ainda mais problemas que o normal, visto que a separação do plantel foi instaurada há poucos meses. É complicado acreditar no ódio entre os dois grupos de lutadores, quando apenas há poucos meses não existia qualquer separação. Ao longo dos anos assistimos a combates tradicionais de Survivor Series que tinham algo minimamente sério em jogo – empregos, futuro da companhia. Porém, na maioria das vezes, estes combates tradicionais tinham em jogo o orgulho e supremacia do programa, o que na realidade não é nada. Essa é uma das razões que levou à queda da importância do Survivor Series.

O Royal Rumble conta com surpresas e um lugar num dos combates principais da WrestleMania. A WrestleMania é o evento mais importante do ano. O SummerSlam é uma versão secundária da WrestleMania que carateriza o verão. O Survivor Series é um evento que ocorre na altura mais calma do ano e onde raramente o que está em jogo importa para alguma coisa. E, mesmo quando importa, nada garante que um mês depois a estipulação não se tornará numa (alguém se lembra do Survivor Series 2014)?

É injusto responsabilizar o Survivor Series por isto, visto que desvalorizar as suas próprias estipulações é um problema recorrente da WWE – combates de Steel Cage ou Hell in a Cell com interferências, lutadores despedidos que regressam semanas depois ou nunca deixam de aparecer de todo, entre outros (alguém se lembra do que aconteceu a Shane McMahon depois de perder para Undertaker na WrestleMania 32?). No entanto, o Survivor Series é um dos eventos que acaba mais prejudicado por esta desvalorização das estipulações.

Este ano, o Survivor Series sofre por não ter nada a sério em jogo – neste caso, é preso por ter cão e por não ter; sofre por não ter nada em jogo, mas se tivesse, também ninguém levaria a sério devido ao historial da WWE com estipulações – e sofre por ter a guerra pela supremacia entre grupos poucos meses depois destes terem sido formados.

Stephanie McMahon pode-lhes chamar “combates de sonho”, mas na realidade estamos apenas a falar de rever aquilo que vimos há poucos meses. Não tem qualquer drama ou peso ter um combate deste género tão cedo. Não existe história suficiente entre os lutadores e o programa onde estão para suportar o tipo de lealdade necessária para esta história funcionar. Porque é que os lutadores do Raw querem vencer os do SmackDown (e vice-versa)? Porque é que querem provar que as suas divisões são superiores? No mundo individualista e supostamente competitivo da WWE, onde o prémio máximo são os títulos principais (masculinos, femininos e de equipas), o que interessa a superioridade das divisões?

Não deveria ser o objetivo de cada lutador chegar ao topo da sua divisão, independentemente do programa em que estão? Percebo que alguns dos campeões queiram proclamar-se os melhores da companhia e que para eles seja importante vencer os campeões das outras divisões, mas a que custo? Aliarem-se às pessoas que mais odeiam e com quem têm rivalizado ao longo dos últimos meses? Como pode isto ser explicado? Como se pode explicar os American Alpha estarem lado a lado com os Usos, a equipa que os lesionou e foi a razão para não terem lutado nas finais do torneio de equipas?

Como é que se pode aceitar e entender o facto de Sasha Banks estar a lutar lado a lado com Charlotte? É certo que o combate mais histórico da sua rivalidade foi realizado única e exclusivamente com o propósito de fazer história, mas foi um combate violento e agressivo. Porque é que Banks odeia mais a equipa feminina do SmackDown do que Charlotte? E Bayley? Porque é que esta participou no ataque a uma pessoa indefesa com a qual esta ainda não teve qualquer interação? Como é que isso se enquadra no que sabemos da personalidade de Bayley? Não enquadra. Não faz sentido. Foi um assassínio do que tornou Bayley especial. A luta pela supremacia dos programas não é apenas um motivo aborrecido para matar tempo, é também a fórmula que, aos poucos, corrompe as poucas coisas que fazem sentido.

Ora, isto não afeta apenas as histórias e as personagens em questão, mas também os fãs. Como é que um fã se pode relacionar com a lealdade cega (e mal explicada) de um lutador (ou lutadores) a um programa? Um fã consegue-se relacionar com a vontade de um lutador de ser o melhor, com a sua luta para chegar ao topo e com todos os obstáculos que surgem no seu caminho, mas como se pode relacionar com esta lealdade?

É certo que, neste momento, o SmackDown é mais popular junto dos fãs por ser o programa mais consistente a nível criativo e também por ter dois General Managers bastante populares, mas, pessoalmente, não tenho qualquer sentido de lealdade para qualquer programa, portanto como me posso relacionar com esta luta? O que é que está em jogo, emocionalmente, para mim, como fã? Não vejo Wrestling para ver os lutadores a lutar pela supremacia do programa onde estão, especialmente quando percebo que tal não passa de guerras forçadas e palavras vazias.

Como se tudo isso não bastasse, a WWE promove os combates tradicionais de Survivor Series e a tensão entre as equipas ao fazer os membros enfrentarem-se repetidamente. Quando o objetivo é ver como é que um grupo de pessoas se vão entender como equipa, que lógica pode ter vê-las enfrentarem-se umas às outras? Ou enfrentarem outras equipas que também vão ter combates pela supremacia das suas divisões? Se o objetivo é defender a supremacia do Raw, então todas as equipas que vão lutar pelo Raw deveriam remar para o mesmo lado, não enfrentarem-se, atacarem-se e correrem o risco de lesão.

O SmackDown tentou evitar algum dos erros que o Raw cometeu ao fazer com que algumas das equipas que irão participar no combate tradicional de Survivor Series se juntassem para enfrentar aqueles que não se qualificaram para a equipa. Certamente faz mais sentido do que o Raw fez na noite anterior, mas mesmo assim, assistimos a Nikki Bella vs Carmella nessa noite. Alegadamente, o combate foi marcado para as duas esgotarem a sua rivalidade e o seu ódio, de forma a que nada disso interferisse no Survivor Series. De certa forma faz sentido. Mas faria mais sentido se as duas não tivessem passado os últimos meses a mostrar o quanto se odeiam e como, em particular Carmella, só encontrarão alguma paz quando permanentemente lesionarem a adversária.

Como se isso não bastasse, depois do combate, a equipa feminina do Raw atacou Nikki Bella, num momento que corrompeu as caraterísticas de Bayley e Sasha Banks, assim como criou a oportunidade dos fãs se questionarem se Carmella iria ou não ajudar Nikki. Ora, em vez de um momento emocionante e cheio de tensão, onde os fãs iriam realmente questionar o que é que Carmella iria fazer, os fãs foram presenteados com uma decisão bastante rápida, sem grande exibição de dúvida. Afinal, haviam mais fórmulas para executar.

A meu ver, não foram dadas razões suficientes para aceitar a importância desta guerra entre programas. Não foram dadas razões para aceitar porque é que lutadores que se odeiam, equipas que se odeiam, e lutam constantemente entre si no seu dia a dia, deixam tudo de parte numa só noite para provar que são melhores que os vizinhos do lado.

O que estamos a ver no Survivor Series é a mesma fórmula repetida três vezes – pessoas que estão fartas de rivalizar entre si formam equipas instáveis e improváveis, onde as tags são violentas e feitas à revelia dos parceiros de equipa, sem qualquer motivação realista para vencer outra equipa que foi formada sensivelmente da mesma forma. No fim, o resultado mais previsível é que uma equipa acaba por não funcionar, com um ou mais membros a traírem os restantes colegas, causando o fim do combate. Agora pergunto, dos três combates a seguirem esta fórmula, quantos vão ter este final, também ele formulaico?

Fórmulas não substituem histórias bem contadas.

Como se isso não bastasse, temos a questão dos General Managers. Que razão têm os lutadores e lutadoras para ser leais aos seus General Managers? AJ Styles tem problemas com Daniel Bryan, visto que este o colocou frequentemente em situações que este considera injustas. Roman Reigns e Stephanie McMahon contam com imensos problemas no seu passado. Chris Jericho e Kevin Owens tiveram um desentendimento com Mick Foley. Exemplos deste género não faltam, no entanto  ainda se espera que os fãs aceitem a lealdade dos lutadores ao seu programa e aos seus General Managers como algo natural e com sentido. Especialmente quanto temos Stephanie McMahon com as suas ameaças, humilhações e repreensões.

Este é um dos imensos problemas causados pela crescente importância do General Manager no mundo que a WWE criou. Quando as figuras de autoridade e a discussão de empregos entram em jogo, o título máximo deixa de ser a coisa mais importante, o que torna as histórias mais complicadas de contar e o universo ainda mais confuso. Deixamos de ter um mundo de atletas com personalidade a lutar pelo título máximo que podem alcançar na sua carreira para uma novela, onde a personagem principal não luta e cuja única função é ridicularizar e minimizar as restantes personagens. Não há razão nenhuma para os lutadores do Raw lhe serem leais.

Quando os General Managers deixam de ser figuras imparciais que existem apenas para que a história faça sentido e os fãs saibam quem fez as regras, centenas de problemas surgem. Quando tal acontece, não apenas uma vez para contar uma história e ajudar algumas personagens, mas permanentemente, então o número sobe para os milhares.

Num dos momentos mais irónicos, os fãs presentes no Raw apoiaram Shane McMahon e Daniel Bryan quando estes proclamaram que o SmackDown era melhor. Que outro resultado se esperava, tendo em conta a apresentação das personagens e a sua popularidade junto dos fãs? Esta questão surgiu quando o plantel foi separado e os General Managers de cada programa começaram a falar de uma guerra de audiências. Como se pode ter um vilão à frente de um programa a pedir a lealdade dos fãs? Não seria a reação natural dos fãs deixar de ver o programa que tem a pessoa que não gostam a mandar?

Como é óbvio não foi isto que os fãs fizeram, exatamente o que a WWE esperava, mas isso não invalida o facto da história não fazer qualquer sentido. Não existe qualquer coerência ou lógica. A WWE não deveria contar histórias sem sentido só porque confia que os fãs não se importam ou não vão notar. Num ambiente normal, a WWE não consegue contar uma história lógica que funcione e surta o efeito desejado. Quando juntamos os inúmeros problemas que se tornaram as figuras de autoridade e antigas fórmulas que raramente fizeram sentido, então estamos a lidar com um ambiente completamente minado que precisa de vários milagres para resultar. Isto é o Survivor Series de 2016.

Divirtam-se e até à próxima semana!

3 Comentários

  1. Anónimo - há 1 ano

    os artigos de Salgado ao invés de se chamar opinião feminina. deveriam chamá- se críticas femininas.

  2. KILL OWENS KILL - há 1 ano

    Bom artigo. É inacreditável que a mesma companhia que gere o NXT gere essas histórias lixo do Main Roster. Já agora, como estou na pilha do Takeover Toronto, mal posso esperar pelo seu artigo sobre o mesmo.

    O Survivor Series 2016 é um daqueles casos (raros) que não podemos pensar e só devemos aproveitar, assim como foram os dois Bragging Rights. Não fazem sentido.

    A WWE vacilou, só foram “construir” a rivalidade nessa última semana, se tivessem feito desde quando foi anunciado, poderiamos ter um dos melhores SS dos últimos anos. Não estou exagerando, ou vão dizer que não gostaram daquele Segmento final na última Raw? Coitada ainda mais da luta das duplas, ninguém nem lembrou de levar eles pra invadir nada. Infelizmente é isso que temos, merecia ser feito direito é claro, mas acho que pelo menos nesse caso podemos fechar os olhos só dessa vez… Diferente do “clássico” Lesnar VS Goldberg.

  3. John Hardy - há 1 ano

    Artigo começou bem mal quando você falou que não tem sentido pessoas que costumavam se enfrentar antes do Brand Split não terem lógica para quererem ser os melhores depois que foram separados por brands, claro que querem ser melhores que seus antigos adversários. Desenvolvimento cheio de altos e baixos em pontos de discordância, mas no final foi um bom artigo sobre a sua opinião, infelizmente eu discordo em muitas partes;

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