Opinião Feminina #345 – All Elite Wrestling

há 1 mês Artigos 7

Não é preciso muito para empolgar fãs de Wrestling. Não é preciso muito para incentivar a especulação, a curiosidade e, claro, as fantasias. O rastilho é fácil de acender, as chamas é que não costumam durar muito tempo. Estamos a assistir a mais um exemplo deste fenómeno com o anúncio da companhia criada por Cody Rhodes, The Young Bucks e Tony Khan, investidor e presidente. O anúncio oficial da companhia foi feito ao soar das doze badaladas, na passagem de ano, e desde então, não se tem falado de outra coisa.

Por um lado, é normal que o anúncio seja recebido com especulação e excitação, mas por outro, convém controlar a excitação e as fantasias. Por exemplo, é perfeitamente aceitável e normal ficar empolgado com a perspetiva de existir mais uma companhia de Wrestling a produzir conteúdo de qualidade e a dar mais e melhores oportunidades aos lutadores e lutadoras da indústria. Contudo, por outro, começar já a fantasiar com uma luta direta entre a WWE e a AEW, com a AEW a ser a derradeira competição à colossal gigante, como não se via desde os tempos da WCW, parece-me demasiado precipitado. Duvido muito que a AEW se venha a tornar na versão de Wrestling do Dom Sebastião, a surgir numa manhã de nevoeiro, e mesmo que um dia venha, não há quaisquer sinais, neste momento, que tal seja sequer possível.

Aliás, será complicado determinar o limite do potencial da AEW até, primeiro, conseguirem um acordo televisivo e, segundo, começarem a produzir conteúdo regularmente e a mostrar que há fãs interessados em seguir e pagar para aceder a tal produto. O sucesso do All In, evento realizado em setembro do ano passado e que plantou as sementes para a AEW, foi bastante motivador e merecido. Todavia, é diferente produzir conteúdo de qualidade com regularidade a produzir apenas um evento único. Como um grupo, eles conseguiram quebrar recordes com a produção do All In – os bilhetes esgotaram em menos de meia hora e foi o primeiro evento de Wrestling, desde 1993, sem ser produzido pela WWE ou pela WCW a conseguir dez mil fãs (onze mil, para ser mais preciso). Isto é fantástico. Fantástico, não só para eles, mas para os fãs e para a indústria como um todo.

Porém, comparado com o desafio que agora têm pela frente, o All In pareceu fácil. Mais complicado do que gerar interesse suficiente para conseguir este tipo de sucesso para um evento único é gerar interesse suficiente para o décimo, vigésimo e trigésimo evento. Não quer dizer que tenham todos de ver a bilheteira a esgotar em menos de meia, mas quer dizer que têm de gerar lucro suficiente para justificar o investimento.

De qualquer das formas, apesar de terem pela frente um desafio extremamente complicado, já se conseguem ver os benefícios do anúncio da AEW e não há muito a perder em apostar nesta aventura. Basta olhar para as notícias das ofertas que a WWE fez a Cody Rhodes, The Young Bucks, Ethan Page e Kenny Omega. Se forem verdade, todos receberam melhores ofertas hoje do que teriam recebido há um ano atrás.

Desde que a AEW foi anunciada, muito foi discutido sobre o seu limite e potencial. Muitos sonharam com a chegada de uma nova WCW, muitos gozaram com eles apenas por tentarem, outros criticaram-nos por criar mais uma companhia que apenas vai dividir ainda mais um nicho muito pequeno… Enfim, o que não faltaram foram opiniões, como de costume, mas perdeu-se um pouco o sentido do que realmente é importante. Pela primeira vez em muito tempo, lutadores estão a receber ofertas significativas, algumas com promessas que raramente são feitas, e podem até negociar. A criação da AEW veio dar novamente algum poder de negociação aos lutadores e, por consequente, melhorar as suas condições de trabalho e vida.

É importante que existam alternativas à WWE. Alternativas que consigam ajudar os lutadores a viver daquilo que gostam fazer. Sim, mais uma guerra de audiências entre duas companhias de Wrestling milionárias seria interessante e empolgante de assistir, mas as probabilidades de tal alguma vez se voltar a repetir são mínimas. E é verdade que as duas não são mutuamente exclusivas, mas apenas uma delas é um objetivo realista e com propósito.

Desde o anúncio oficial da AEW que os responsáveis têm falado de vários tópicos importantes como, por exemplo, seguro de saúde a longo prazo e igualdade de oportunidades e salário independentemente do género. Por exemplo, segundo Cody Rhodes, os lutadores da AEW irão ter alguma independência criativa e terão liberdade para continuar os projetos que tenham em mãos. Em comparação com a WWE, deveremos mesmo perguntar a Zack Ryder o que aconteceu depois da WWE se apoderar do seu programa de Youtube? Tony Khan, presidente da AEW, afirmou que os lutadores poderão continuar a vender o seu merchandise, independente da AEW.

Estes são alguns exemplos de como a AEW está a considerar diferir da WWE na forma como gere o seu talento. E são exemplos importantes. Nem todos vão conseguir chegar à WWE, nem todos os que chegarem vão ser felizes ou bem-sucedidos a trabalhar lá. Os lugares no topo são muito, muito limitados e são escolhidos a dedo com um processo de selecção complicado e cuidadoso. É importante que existam opções – boas opções. A AEW pode nunca vir a ter o tamanho ou o sucesso necessário para pressionar a WWE a melhorar criativamente. Todavia, se conseguir influenciar a indústria a mudar algumas das suas políticas e melhorar as condições de trabalho para os lutadores, se conseguir criar mais postos de trabalho e dar mais poder de negociação e segurança financeira aos seus lutadores e ainda conseguir produzir conteúdo de qualidade para os seus fãs, então já valeu a pena. Mesmo que nunca consiga realizar o sonho dos fãs de voltarem a assistir a uma guerra de companhias de Wrestling milionárias.

Há muito que se sonha com uma rival à WWE. A guerra entre a WCW e a WWE, não só pelas audiências, mas também pelo talento, é uma das razões pela qual a Attitude Era é lembrada com saudade e carinho. Contudo, e como é óbvio – posso estar errada, não acredito que tal alguma vez volte a acontecer.

A WWE já não é uma mera companhia carregada às costas por talentos, como foi em tempos por Hulk Hogan, Steve Austin, The Rock, entre outros. A WWE é agora uma instituição. Não existe um lutador que seja maior que a companhia. Não existe sequer a ilusão da WWE precisar de algum dos lutadores que tem sob contrato para manter as portas abertas. Para o resto do mundo, a WWE é o sinónimo de Wrestling. A companhia criou raízes tão sólidas dentro da indústria do entretenimento que agora se tornou inabalável. A descida das audiências não abala a companhia, os múltiplos eventos dos últimos anos em que fãs tiraram fotos a arenas vazias ou meio vazias não abalam a companhia, a chuva de críticas à qualidade da sua programação não abala a companhia.

Tudo o que há vinte anos podia ter derrotado a WWE na guerra contra a WCW é agora tudo aquilo a que a WWE é imune. Nunca a companhia foi tão lucrativa ou financeiramente estável.

Só há uma coisa que pode, de facto, abalar significativamente a companhia – imagem pública. Vivemos uma época de escândalos, onde várias celebridades já viram as suas carreiras arruinadas por coisas que disseram ou fizeram no passado. Basta o escândalo certo e aí veremos a WWE a tremer. No entanto, estamos a falar da mesma companhia que realizou dois eventos na Arábia Saudita no ano passado, pelos quais foi paga milhões, sem quaisquer repercussões públicas.

Acredito, muito sinceramente, que o que aconteceu há vinte anos nunca se voltará a replicar. As circunstâncias mudaram significativamente e isso faz toda a diferença. A WWE já não é assim tão vulnerável, como expliquei acima, e para além disso, é muito duvidoso que o Wrestling volte a atingir aqueles níveis de popularidade. No fim do dia, fãs casuais seguem modas, seguem histórias ou narrativas que os emocionem, seguem indivíduos com carisma que idolatrem ou com quem se identifiquem.

Foi assim que, há vinte anos, a guerra entre a WCW e a WWE conseguiu duplicar a audiência de Wrestling da altura. Foi assim que Steve Austin e The Rock fizeram check mate. Mas, lá está, as circunstâncias mudaram. Há vinte anos, um conjunto de circunstâncias improváveis causaram uma tempestade perfeita. As circunstâncias já não se verificam. Para o Wrestling voltar a transcender as suas barreiras, os seus lutadores teriam de ter mais poder e mais importância, e não serem meros peões substituíveis num jogo no qual não têm qualquer controlo. Isto não é uma questão de ter a história certa ou de ter o talento certo, é uma questão de aparências. E a WWE nunca vai deixar que um lutador aparente ter mais poder do que aquele que realmente tem e se, por acaso, se enganar e isso acontecer, Stephanie McMahon aparecerá rapidamente, tal que nem um ninja nas sombras, para retificar o problema.

Agora, estas modas não duram. Mesmo que voltasse a acontecer, o que é complicado, não iria durar. Eventualmente, os casuais esquecem o seu ídolo e voltam ao que estavam a ver. Basta ver como as lutas de Ronda Rousey tinham números inéditos de mulheres adultas a assistir, mas depois das suas derrotas e vários comportamentos controversos, esta perdeu popularidade. As pessoas que a estavam a acompanhar não ficaram para acompanhar a mulher que a derrotou ou a divisão que em tempos acompanharam, ou sequer seguiram Rousey para a WWE. Fãs casuais são isso mesmo, casuais. É aproveitá-los enquanto estão interessados, mas não depender deles o sucesso do negócio. Porque, eventualmente, alguma coisa acontece e eles voltam à sua vida.

É muito, muito pouco provável que a AEW consiga fazer frente à WWE, de forma séria, ou consiga ter uma estrela que transcenda os limites do Wrestling e a catapulte para as luzes da ribalta. Portanto, prefiro nem perder tempo a sonhar com o que, neste momento, é impossível. A competição é importante, sim, mas a competição de ideias e, mais importante, talento. Alternativas são importantes e a criação de mais uma é sempre motivo de alegria. Mais importante do que encostar a WWE à parede, a AEW tem aqui oportunidade de mudar a indústria e a vida de milhares para melhor. Espero que consigam. Obrigada e até daqui a duas semanas.

7 Comentários

  1. Gabriel Magalhães Siston há 1 mês

    Um dos melhores artigos que já li sobre o assunto, completo e pé no chão. Porém, Ethan Page é o All Ego do IW, Adam “Hangman” Page é o All Elite Wrestler

  2. Anonimo há 1 mês

    E que tal se a a AEW fizer exatamente o que é referido e que a wwe nao faz: apresentar as estrelas como mais importantes que a companhia?

    • Victor X há 1 mês

      A curto prazo talvez desse certo mas a longo prazo seria um grande tabu para a companhia

  3. Anônimo há 1 mês

    para mim a wwe está certa, em não querer ser mais carregada por este ou aquele lutador, uma empresa tem que ser muito maior que seus empregados, empregados vem e vão, mas a empresa continua.

  4. Tenho uma opinião praticamente igual sobre o assunto. Excelente artigo! 👏🏻

  5. Edjandro Martins há 1 mês

    Concordo plenamente com o artigo. Espero que a AEW tenha sucesso e proporcione condicões melhores para os wrestlers e profissionais da área como um todo, assim como um bom produto e uma alternativa a mais para os fãs.

  6. GRANDE artigo de opinião!

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