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Opinião Feminina #352 – Goodbye, for now

há 2 meses Artigos 8

Não imagino um futuro onde não seja fã de Wrestling. Mesmo durante fases em que estou mais afastada ou menos investida no que está a acontecer, não consigo imaginar um futuro onde não me deixe sensibilizar ou conquistar pelas histórias que importam. E histórias que importam podem vir de todo o lado, não apenas literatura, cinema ou teatro. Wrestling, no fundo, não passa de um veículo criativo, não muito diferente dos filmes que vemos no cinema ou das séries que vemos na televisão. Não é por acaso que muitos se referem ao Wrestling como sendo o tio racista do teatro.

É verdade, o Wrestling é, na sua maioria, absurdo e exagerado. É complicado para um fã assíduo defender o que vê todas as semanas em televisão a um fã casual. É complicado explicar ver dois lutadores como Dawson e Wilder, que já provaram em várias ocasiões serem capazes de carregar a divisão de equipas às costas, a depilarem-se após o banho como forma de justificar uma história e rivalidade. É complicado defender imensa patetice que é apresentada num regime semanal. As estrelas raramente se alinham e temos oportunidade de assistir a histórias que combinam bons combates com boas histórias. O departamento criativo, como de costume, é o mais complicado de gerir.

No caso particular da WWE, tal não é uma novidade. Nas últimas décadas temos assistido a muito disparate, muitos momentos embaraçosos recheados de racismo, sexismo ou humor degradante, intercalado com breves momentos de brilhantismo e humanidade. A realidade é que o produto apresentado pela WWE sempre foi assim – conteúdo degradante, humilhante ou sem nexo, alternado com breves momentos de sensibilidade e humanidade. E apesar disso tudo, apesar de na maioria das vezes a WWE não conseguir fazer justiça ao enorme calibre do talento que tem em mãos, por vezes há quem consiga triunfar e sobreviver.

Recentemente, tivemos o caso de Becky Lynch. O caso de uma irlandesa que há poucos anos esteve muito perto de ser despedida pela mesma companhia que a colocou no combate principal do maior evento do ano. O caso de uma irlandesa que sobreviveu a lesões, depressão, falta de oportunidades e, como seria de esperar, imensos obstáculos criativos, para se transformar numa das estrelas mais faladas do momento.

Tal como Daniel Bryan o fez há cinco anos, a sinceridade de Becky Lynch triunfou. A sinceridade do seu trabalho, do seu carisma, da sua paixão pelo que faz triunfou contra todos os obstáculos, criativos ou pessoais. É impossível não nos identificarmos com a sua história, com o seu percurso, com as suas dificuldades. É impossível não torcer pelo seu sucesso. Como não sentir, pelo menos, uma réstia de carinho ou compaixão pela sua vontade de concretizar os seus sonhos e pela resiliência que mostrou através de todas as dificuldades?

Não era suposto Becky Lynch fazer parte do combate principal da WrestleMania. Não era suposto os fãs terem gritado a seu favor quando, no SummerSlam do ano passado, esta atacou Charlotte após o combate. Afinal, Charlotte tinha vencido o combate e tinha-se sagrado na nova campeã. Para todos os efeitos, Lynch tinha mostrado uma enorme falta de ética e mau perder ao virar-se contra alguém que, ao longo da sua carreira na WWE, foi frequentemente apresentada como sua amiga. Nem sempre os fãs se comportam da maneira que é suposto e aquela foi mais uma noite onde a WWE e os seus fãs não estavam de acordo. É irónico que, nas últimas décadas, os melhores momentos tenham surgido exatamente quando a WWE e os fãs não estavam de acordo e estes últimos levaram a sua avante.

A WWE via Charlotte como a figura que estava destinada a enfrentar Rousey e Lynch como uma boa ferramenta secundária para ajudar a promover e preparar Charlotte para a derradeira batalha. Porém, não era assim que os fãs viam Lynch. Ela nunca tinha tido muito destaque, nunca tinha tido muitas oportunidades, todavia aparecia sempre para trabalhar com um sorriso na cara, muita boa-disposição e uma lista de trocadilhos prontos a serem usados. Lynch nunca desistiu de lutar, nunca desistiu de acreditar no seu sonho e, por isso, na noite em que uma pessoa que já tinha recebido dezenas de oportunidades, recebia mais uma, os fãs decidiram apoiar aquela que nunca tinha tido nenhuma.

O resto, como se costuma dizer, é história. Lynch explodiu e, para crédito da WWE, a companhia aproveitou a dica e investiu nela. Não o fez de imediato – a WWE raramente aceita mudar subitamente os seus planos sem mostrar primeiro alguma resistência – e nem sempre o fez da forma mais criativa possível, mas fê-lo e quase oito meses depois, Lynch encerrou a WrestleMania com dois títulos femininos nas mãos e Ronda Rousey e Charlotte aos seus pés.

Esta é uma história que já vimos contada múltiplas vezes, de muitas formas e feitios e por muita gente. Tal como Hollywood teve Rocky e uma legião de histórias semelhantes que se multiplicaram ao longo dos anos, a WWE teve Steve Austin e uma legião de histórias semelhantes que se multiplicaram ao longo dos anos. O ambiente pode incluir um ringue, um microfone, uma audiência ao vivo e muitos disparates, mas no fundo, a história é a mesma e o seu efeito nas pessoas também.

Estas são as histórias que transcendem barreiras e movem pessoas. Não é preciso gostar de Wrestling ou Boxe para compreender e simpatizar com a paixão e sinceridade destas personagens. E enquanto existirem talentos como Lynch, que sentem uma enorme paixão pelo que fazem e que deixam que isso os guie e sustenha, até nas fases mais complicadas, irão sempre existir fãs para os apoiar.

Infelizmente, talento nem sempre chega e, como comecei por dizer, a WWE já deu imensas provas que, criativamente, não é brilhante. Num mundo onde Kofi Kingston, Seth Rollins e Becky Lynch chegaram ao topo da montanha, derrotando tudo, desde bestas a anos de dificuldades e preconceito, a companhia continua a apresentar um produto estagnado, repetitivo e sem qualquer inspiração.  Há vários que vão conseguindo sobreviver, remando contra a maré de maus guiões, péssimas decisões criativas e falta de apoio da companhia, mas a maioria fica, como é natural, mais frustrada a cada dia que passa.

Dean Ambrose, uma das estrelas mais usadas nos últimos anos, anunciou a sua saída da WWE. Sasha Banks, uma das figuras principais da revolução feminina está atualmente afastada da WWE. Alegadamente, esta tentou despedir-se durante o fim-de-semana de WrestleMania, mas a companhia não aceitou o pedido. The Revival e Luke Harper já expressaram vontade de sair. Hideo Itami e Tye Dillinger pediram a demissão e a mesma foi-lhes concedida. Com a AEW a recrutar, a WWE não quer correr o risco de lhes dar algumas das suas estrelas mais reconhecíveis, portanto, como é natural, não está a facilitar a saída de todos que se querem despedir. Parece que Harper, Banks e outros terão de passar pelo mesmo que Neville passou até se ver finalmente livre do seu contrato.

Apesar de tudo o que foi preciso acontecer para chegar a este ponto, é bom para todos – indústria, fãs e atletas – que existam opções financeiramente viáveis para além da WWE. É bom para estes e todos os outros talentos sentirem a segurança que se as coisas não funcionarem na WWE, tal não significa o fim de um sonho ou o fim de uma carreira. É bom que exista estabilidade, ao ponto daqueles que realmente querem fazer do Wrestling a sua vida e profissão o consigam sem ser preciso acomodarem todas as exigências da WWE. É uma dinâmica que beneficia todos os envolvidos e, com um bocadinho de sorte, pode motivar e inspirar a WWE a fazer mais e melhor do que está a fazer.

A WWE já mostrou, ao longo da sua história, que não gosta deste tipo de coragem. Não gosta das pessoas que não se importam de ser despedidas, porque sabem que no dia a seguir voltam ao trabalho em qualquer outro ginásio ou arena do mundo e continuam a fazer o que gostam. A WWE, como qualquer outra grande companhia que gosta de manter o monopólio na indústria em que se especializa, não gosta de sentir que não é essencial. Agora, o que não faltam são relatos de como os Revival recusaram ofertas muito altas da WWE para ficar, de como Luke Harper e Sasha Banks poderão ficar de fora,  à espera que os seus contratos acabem, e dos jogos que a WWE vai fazer para os manter afastados do circuito independente o máximo tempo possível.

A lista dos que querem sair não fica por aqui. Muitos estão a ganhar agora coragem para sair e reagir de acordo com a sua frustração porque se sentem motivados pelo surgimento da AEW. Talvez, se a AEW não existisse, a maioria não teria a mesma coragem ou vontade. No entanto, há outros que tomariam as mesmas decisões, pois acreditam que no seu trabalho, acreditam na sua paixão e não têm medo de regressar (ou experimentar) fazer vida no circuito independente.

Se, criativamente, a WWE já era complicada e já atravessava uma fase sem qualquer inspiração, então agora que há uma lista de lutadores insatisfeitos e frustrados e a companhia pode mostrar a sua vertente mais infantil ao humilhá-los, então os próximos meses de televisão serão deveras interessantes.

O importante para todos, para os que querem ficar e para os que querem sair, é aprender com Becky Lynch e com todos os que vieram antes dela – a chave para tudo é perseverança. Acreditar no que estão a fazer, acreditar no que sentem e perseverar. Enquanto existirem talentos motivados por paixão e talento, existirão fãs para torcer por eles e para vibrar com as suas vitórias. E não há vitória mais doce do que aquela que foi conseguida através de muito sofrimento e dificuldades. Se for na WWE, que seja. Se não for, também não há problema, porque eventualmente, pode ser a própria WWE a ir bater-lhes à porta. Que o digam Kenny Omega e os Young Bucks.

Criativamente, a WWE é um caos neste momento. A companhia está agora a colher os frutos do que foi semeando ao longo dos últimos anos. Recentemente, numa reunião com investidores, Vince McMahon culpou a queda dos números da WWE na ausência de estrelas. Que estrelas estão ausentes? As que nunca foram criadas? Becky Lynch é campeã de duas divisões femininas e não tem ninguém com credibilidade suficiente para lhe fazer frente. Que credibilidade tem Bayley, depois do último ano de inconsistências e disparates a níveis criativos, para desafiar a campeã? Como culpar um fã por ver em Bayley, Lacey Evans ou Sasha Banks como adversárias viáveis? Lynch é uma estrela, mas para manter a chama viva, precisa de outras estrelas e, neste momento, a divisão não tem mais ninguém para além de Charlotte e essa fonte está prestes a secar.

Seth Rollins é campeão Universal, depois de ter derrotado a Besta. E agora, o que o espera? Viver numa realidade pós-Lesnar, uma realidade onde todos os que o rodeiam foram dizimados por Lesnar ou considerados pouco importantes e dignos do enfrentar. Se não estavam à altura de Lesnar, como justificar estarem à altura de Rollins?

Kofi Kingston está, neste momento, em rivalidade com Kevin Owens. Não deixa de ser irónico, visto que ambos passaram a maior parte da sua carreira na programação principal da WWE a serem tratados de forma indiferente e descuidada. O momento que Kingston protagonizou na WrestleMania foi emocionante e teve um efeito que se vai sentir nas próximas gerações, mas, infelizmente, o título não faz dele uma estrela. E, relativamente a Owens, este foi demasiado prejudicado nos últimos anos de televisão para conseguir ser levado a sério de momento. O que é muito deprimente, tendo em conta todo o potencial que ele tem.

Onde estava a WWE e a sua preocupação em criar estrelas durante o reinado de Kevin Owens como campeão universal? Onde estava a WWE e a sua preocupação em criar estrelas durante os vários reinados de Sasha Banks como campeã feminina do Raw? O mesmo se pode dizer das divisões de equipas e da forma como foram tratadas ao longo dos últimos anos. Podemos mesmo culpar os Revival por quererem sair?

As estrelas não estão ausentes. As estrelas são inexistentes. Portanto, esta desculpa é muito conveniente e pode enganar as pessoas que não assistem semanalmente ao produto que a companhia apresenta, mas é só para inglês ver. Sempre se disse que o investimento e o tempo de antena dado a estrelas como Brock Lesnar, Undertaker, Triple H, The Rock, entre outros, eram soluções a curto-prazo e que, no futuro, a companhia iria sentir o efeito de não ter investido mais nas estrelas do presente. Chegámos a esse futuro. A um futuro sem estrelas e com a exatamente a mesma direção criativa dos últimos 34 anos. Não é uma perspetiva animadora.

Mas, tal como comecei por dizer, serei sempre fã de Wrestling. Poderei já não ser aquela que assiste ansiosamente a todos os eventos mensais em direto. Poderei não ser aquela que assiste ao primeiro Raw após a WrestleMania, também em direto, com a excitação de quem não sabe ao certo o que vai acontecer. Poderei não ser aquela com mais paciência ou benefício da dúvida para dar, pois o meu ceticismo e pessimismo são incompatíveis com tais sentimentos. Mas serei sempre fã. Serei sempre fã de talentos que perseveram acima de tudo. Fã de talentos que acreditam no que estão a fazer, no que sentem uma paixão incomensurável pelo caminho que escolheram para a sua vida. Fã de histórias que parecem reais, porque, no fundo, o são. O Wrestling não é diferente de outras indústrias de entretenimento. Produz muito, muito, muito disparate, mas quando faz algo bom, verdadeiramente bom, então não há nada que lhe seja comparado.

Infelizmente, estou numa fase da minha vida extremamente preenchida que não me permite continuar este espaço, pelo qual sinto tanto, mas tanto carinho. Com, mais ou menos, um ano de pausa pelo meio, foram cerca de oito anos a escrever sobre Wrestling para fãs de Wrestling que, concordando ou não com o que digo, se identificam com o Wrestling da mesma maneira que eu. E foram oito anos que adorei. Tenho orgulho de todos os segundos que passei investida neste projeto e se pudesse fazê-lo outra vez, faria-o sem pensar duas vezes. Quero agradecer a todos os que acompanharam esta crónica e o meu trabalho. Quero agradecer pela paciência, pela devoção e pedir desculpa por qualquer coisa que possa não ter caído tão bem. Acima de tudo, quero agradecer, mais uma vez, ao Luís Salvador por me ter dado um veículo através do qual expressei o que sentia por esta indústria da qual, tal como todos vocês, sou fã.

Mais uma vez, muito obrigado a todos e até uma próxima vez.

8 Comentários

  1. Concordo com tudo o que disseste. Boa Sorte com a tua vida, e sinceramente espero que um dia voltes de novo( quando entenderes )ao site para expressares as tuas opiniões. De novo, boa sorte!

  2. Anônimo há 2 meses

    com todo o respeito a opinião da escritora, mas dizer que não há ninguém com credibilidade a altura de Seth Rollins é um exagerado, o Aj Styles está mais que na altura de Seth, e Drew Mclntyre tem potencial de sobra. para chegar a altura de Seth Rollins e lhe tirar o título, e com o atenuante que Drew nunca foi derrotado por lesnar, e sem esquecer que o Seth Rollins não derrotou o lesnar de forma limpa. ele usou golpe baixo, e se uma Vitória suja suja sobre o lesnar faz do Seth uma estrela superior as outras, então Roman também o é, pois não esqueça que antes do Seth. o Roman também derrotou o brock lesnar, e também de forma não muito limpo, por tanto eles estão em pé de igualdade.

  3. Leleco há 2 meses

    Ual.Que lindo! Concordo plenamente com tudo oque escreveste. Obrigada por tudo. Até breve.

  4. Foto de perfil do Facebook

    Com o máximo respeito a todos aqueles que aqui escrevem e escreveram – onde também me incluo – os melhores textos que alguma vez por aqui passaram foram os teus.
    Boa sorte e espero que voltes porque acredita, deixarás saudades.

  5. Foto de perfil do Facebook

    Desde que acompanho o site leio sempre os teus textos, sem desmerecer o trabalho de nem um outro, mas teus textos sempre foram os meus preferidos e me emociono ao saber que não haverá novas edições, no entanto só posso te agradecer e desejar todo o sucesso do mundo.
    Obrigado por todos esse anos Salgado!

  6. UNDERTAKER há 1 mês

    Escreve bem mas o conteúdo não corresponde à realidade. Seth galhou a Brock de forma injusta e ficou a imagem de um campeão muito mais fraco do que Brock. Quantos nomes estão à altura de Seth? Muitos…Aj, Strowman, Drew, Reigns, Joe, Bobby, Orton, Daniel etc…
    Quanto a Becky existem muitas alternativa: Alexa, Asuka, Charlotte, Lacey e acima de todas Nia Jax.
    Quanto ao aproveitamento dos big names como seria possível não o fazer? São nomes lendários que não aparecem em todas as eras e cujos mais novos podem prefeitamente crescer na sua sombra.

  7. Obrigado por teres regressado durante este ~ ano. Sabes que foste um dos elementos mais importantes que passaram por esta “casa” ao longo de quase 1 década. Eu, o Wrestling PT e os seus visitantes devemos-te um grande muito obrigado e desejamos-te a maior sorte para o futuro! 😉

  8. Um Velho há 7 dias

    Esse mundo ta tão chato que tão contaminando até meu WWE como jargões políticos como que a WWE promoveu episódios com “Sexismo”, “Machismo”, “Racismo”… PG Era e seus frutos!

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