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Through Brown Eyes #1 – The King of Soft Style

Carismático. Especial. Excêntrico. Peculiar.

Os adjetivos que referi acima são os que mais facilmente me vêm à mente cada vez que penso em Shinsuke Nakamura… Ou, devo antes dizer, “quando pensava em Shinsuke Nakamura”?

Embora tenha ficado fã do lutador japonês desde o brilhante combate que partilhou com Sami Zayn no NXT Takeover: Dallas – evento especial onde ocorreu a sua estreia -, fiquei desde logo bastante reticente quanto ao sucesso da sua personagem e excentricidade no universo WWE. Afinal, já alguns lutadores japoneses haviam passado pela WWE e esta quase sempre cedia às apresentações com base em ideias que tinham origem nos estereótipos da cultura japonesa – ou seja, recorrendo à ideia mais fácil e preguiçosa -, relegando-os muitas vezes ao low-card ou, no máximo, mid-card –, ao invés de tentar criar algo que quebrasse a típica imagem e experimentar uma abordagem diferente.

As razões para o meu receio inicial com Nakamura centravam-se, principalmente, na barreira linguística – pese embora o facto de se ter percebido em pouco tempo que o King of Strong Style se iria adaptar o suficiente para ultrapassar esse entrave – e na forma como poderiam apresentar a excentricidade do lutador. Além disso, o próprio booking dado às estrelas quando sobem para o plantel principal é drasticamente diferente (entenda-se, incomparavelmente pior) do que o booking praticado no NXT, portanto tudo isto era motivo de alarme para mim.

Para alguma surpresa minha, tudo correu bem aquando da sua estadia no NXT. Nakamura foi extremamente bem recebido pelos fãs e a apresentação era coerente com aquilo que já era conhecido do lutador fora do panorama WWE, tendo o mesmo se adaptado bem à nova realidade com relativa facilidade. Resumidamente, não se inventou nada e seguiu-se com a onda orgânica.

Ora, desde a subida ao plantel principal, mais concretamente para a brand azul, que os meus receios iniciais voltaram a ganhar força.

A estreia de Nakamura foi espetacular. O lutador não confrontou ninguém, é certo, mas a sua entrada é impactante e o mesmo foi apresentado aos fãs como uma verdadeira estrela desse modo. Não há como negar a presença e carisma de Shinsuke Nakamura. No entanto, com muita pena minha, os meses seguintes iriam confirmar o meu palpite inicial relativamente ao (pouco) cuidado que a WWE iria ter com o que tinha em mãos.

A primeira vez que fiquei de pé atrás foi no início da feud com Dolph Ziggler. Há muito que Ziggler deixou de representar qualquer tipo de prioridade para a WWE ou ser sinónimo de um lutador minimamente credível para que outro seja valorizado com uma vitória sobre si, e quando assim é, torna-se difícil para os fãs – ou pelo menos para mim –  haver qualquer tipo de investimento no lutador recém-chegado e que logo é emparelhado com alguém com a credibilidade de Ziggler.

É verdade que a típica abordagem no mundo do Wrestling, especialmente na WWE, passa por colocar alguém menos credível frente à estrela recém-chegada para que esta última tenha o primeiro obstáculo e de alguma forma se possa apresentar aos fãs. No entanto, neste caso não considero que tenha sido uma boa decisão porque a credibilidade de Ziggler era praticamente nula e o booking para os combates entre ambos mostraram bastante domínio por parte do Show Off, o que está errado, a meu ver, sob todas as perspetivas.

Nakamura deveria ter chegado à SmackDown e encostado Ziggler a um canto sem grande dificuldade, ao invés de ter combates de quinze minutos com o mesmo e ser dominado na maior parte do tempo por alguém com credibilidade praticamente nula.

Ainda assim, tal situação não era muito grave e facilmente se fechava os olhos a tal decisão. Os próximos dois passos da WWE, isso sim, é que considerei verdadeiros tiros no pé. Falo, pois, das vitórias sobre John Cena e Randy Orton.

Dada a importância de Cena e Orton, sempre esperei que a primeira vez que Nakamura se cruzasse com um deles fosse com o objetivo de aumentar significativamente o seu estatuto e popularidade dentro da brand azul. No fundo, uma feud com o objetivo de cimentar Nakamura como uma das estrelas principais da SmackDown e da companhia como um todo, ao mesmo tempo que o preparava para futuras conquistas.

Aquilo que se viu, todavia, foram duas vitórias extremamente prematuras sobre ambos e que forçaram a apresentação de Nakamura como uma estrela. Não houve qualquer história, preparação gradual ou PPV digno de ter como um dos combates principais Nakamura vs Cena ou Nakamura vs Orton. De forma muito resumida, o booking foi extremamente preguiçoso e descuidado. Tudo soou a uma mera formalidade e tentativa desesperada de colocar Nakamura no “mesmo patamar” que um Cena ou um Orton.

Cena e Orton não são, definitivamente, o tipo de estrelas que possam ser desperdiçadas num programa semanal e cujas vitórias sobre eles sejam gratuitas. Ambos seriam combates que facilmente aconteceriam num SummerSlam e numa WrestleMania. E assim deveria ter sido.

Seis meses se passaram desde que Nakamura se estreou no plantel principal e ainda não tinha tido qualquer feud que se destacasse ou tivesse contribuído para criar uma ligação com os fãs.

Depois, uma vez mais, seguiram-se meses de uma feud com Jinder Mahal. Todos têm a sua opinião acerca do Modern Day Maharaja – não irei sequer discutir acerca do seu reinado e decisão de lhe dar o título -, mas tornar Nakamura candidato ao título máximo quando o campeão é Mahal nunca me pareceu uma boa decisão (nem para ganhar, quanto mais perder).

Primeiro, porque sentia que Nakamura era o tipo de lutador cuja primeira oportunidade pela título da WWE devia resultar numa automática conquista – o que, obviamente, não se verificou. Depois, porque se opunha Nakamura a um lutador cuja credibilidade era, tal como no caso de Ziggler, altamente questionável. Contou-se com uma feud extremamente desinteressante, construída à base de piadas fáceis e ridículas e com vários programas da SmackDown em que os dois lutadores nem se cruzavam. Assim, Nakamura juntava ao seu currículo mais uma feud perfeitamente esquecível.

Olhando sob uma perspetiva geral para o trajeto de Nakamura até ao final da rivalidade com Mahal, assistimos a duas vitórias contra duas das maiores estrelas de sempre, para depois vê-lo perder para o Modern Day Maharaja. A prioridade, se assim se pode dizer, era Jinder Mahal e o seu reinado, mas usar Nakamura para de alguma forma apimentar a credibilidade de Jinder foi uma péssima decisão, especialmente se tivermos em conta quem Shinsuke Nakamura é.

O King of Strong Style passou meses a fio sem uma direção concreta, sem uma feud que representasse um natural crescimento e evolução ao olhos dos fãs e, no meu ponto de vista, tudo isso o afetou ao ponto de eu não ter qualquer interesse naquilo que ele faz. E isso inclui a sua vitória no Royal Rumble.

Nakamura tornou-se no vencedor da edição deste ano do Royal Rumble, naquela que foi uma noite histórica para os lutadores japoneses – Asuka também viria mais tarde a fazer história ao tornar-se na primeira mulher a vencer a primeira edição do Royal Rumble da sua divisão. O lutador garantiu assim a sua oportunidade pelo título da WWE na WrestleMania, sendo quase certo que irá lutar com o atual campeão, AJ Styles.

É, sem dúvida, um combate aliciante e merecedor de um palco de WrestleMania, mas é inegável que o booking de que o japonês foi alvo até esta conquista reduziram imenso o meu interesse nele e, consequentemente, no próprio combate com AJ Styles.

Sim, irei ver. Sim, Nakamura irá conquistar o título da WWE. Mas não tenho dúvidas de que os fãs se irão cansar gradualmente de Nakamura. Não lhe irão virar completamente as costas, isso não, mas Nakamura, mesmo com o título, não será aquilo que poderia e deveria ser.

É fácil apontar vários nomes, grandes nomes, vindos do NXT e que a WWE simplesmente decidiu ajustar “aqui” e “ali”, acabando por arruinar o que era orgânico e natural com todos esses ajustes. E Nakamura é, infelizmente, mais um desses casos.

Não é preciso inventar muito. Shinsuke Nakamura é carismático, especial, excêntrico e peculiar. E isso basta.


Este foi o meu primeiro artigo no Wrestling PT. E espero que muitos mais estejam para vir. Todos os sábados, quinzenalmente, sairá outro artigo. Cá vos espero! Bom fim de semana.

20 Comentários

  1. Bom Artigo. Continuação bom trabalho! 🙂

  2. Sou do Russo há 2 semanas

    Finalmente tenho o prazer de ler um artigo escrito por ti 🙂 fico bastante contente e espero que continues com o projecto, embora nem sempre possa comentar adoro ler os artigos da malta que aqui escreve 🙂 continuação de bom trabalho

  3. Foto de perfil do Facebook

    Para um artigo escrito por ti isto até foi uma boa experiência literária.

    Continuação do bom trabalho, buddy 😛

  4. Rui Ribeiro há 2 semanas

    Gostei bastante. Subscrevo totalmente.

  5. ZigglerPunk há 2 semanas

    Tá bom o artigo. Continua assim!

  6. Foto de perfil do Facebook

    Bom artigo micas. Parabéns pelo teu novo espaço aqui! E concordo com o que tu dizes sobre o Nak. O booking dele no main roster nunca me convenceu.

  7. Ótimo artigo! Sempre gostei de ler os teus comentários e fico feliz que finalmente tenhas um espaço só teu.

    Sobre o Nakamura, concordo plenamente. Muitos dos fãs que só seguem o main roster da WWE começam a demonstrar desagrado com a forma como a WWE lhe dá vitórias importantes sem mais nem menos e sem uma mudança substancial de booking, essa situação só vai piorar…

    • MicaelDuarte há 2 semanas

      Obrigado!

      Pode ser que a WWE decida criar uma verdadeira storyline entre o Nakamura e o Styles, ao invés de simplesmente se encostar ao facto do confronto entre os dois ser um dream match…

  8. Finalmente! Andas por aqui aos anos já e já merecias o teu lugar no site. Bem vindo.

  9. "Awesome" Hater há 2 semanas

    Fico feliz de ver que ganhaste um espaço aqui, é dos melhores comentadores que tem (:

  10. KILL OWENS KILL há 2 semanas

    Ora, ora, que grande surpresa. Parabéns, Micael pelo espaço, com certeza estarei sempre aqui dando feedback, sempre achei muito interessante suas opiniões e uma crônica deveria ser obrigatória para alguém como ti.

    Sobre o artigo, adorei le-lo assim como seus comentários. Já ao assunto, infelizmente não tenho uma opinião concreta, pois faz muito tempo que não assisto o SD, mas partilho do seu medo quanto ao Shinsuke, porém tenho esperanças ainda que o combate com o AJ lhe dê uma nova aura.

    • MicaelDuarte há 2 semanas

      Muito obrigado!

      Eu voltei a assistir com mais frequência e devo dizer que chega a ser penoso… É virar o disco e tocar o mesmo todas as semanas. Mas, uma vez que estamos na RTWM, espero que a WWE comece a fazer algo em condições.

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