Existem 2 vagas na Equipa do Wrestling PT para publicar notícias. Contacta-nos!

Bammer: “Como encarar as críticas”

Uma das coisas que mais adoro neste mundo do Wrestling é a forma apaixonada que as pessoas têm de manifestar a sua opinião. Poucas são as marcas que se podem gabar de ter pessoas tão vocais e tão empenhadas em opinar sobre tudo o que acontece- algumas companhias de Wrestling estão certamente nessa lista, naturalmente com a WWE em destaque.

Devido a isso (e claro, a muito trabalho), a WWE é hoje um fenómeno de social media, um autêntico case-study do que fazer no que diz respeito a community management– ao ponto de já ter sido distinguida pelo Mashable como a marca a seguir.

Claro que com esse sucesso surgem aspectos positivos e negativos- no meio de tanto feedback haverá, inevitavelmente, pessoas insatisfeitas. E se existe uma dose grande de afecto à marca/produto, essa opinião nem sempre será transmitida da melhor forma.

Enquanto lutadores, somos frequentemente alvos de críticas- que vêm de todas as direcções e de todas as maneiras- pelo que hoje darei algumas dicas sobre como as encarar para que o teu percurso até ao sucesso não seja afectado.

Antes de avançarmos, lembra-te: as críticas, tal como as reclamações, são geralmente entendidas como algo negativo- levamos a peito, como se fosse uma mensagem com o intuito único de nos magoar. O instinto de muita gente é tentar “tapar os ouvidos” e bloquear o conteúdo, por sentir que é carregado de negatividade.

No entanto, podem ser os melhores conselhos que podemos obter, de gente que ainda se dá ao trabalho de perder tempo connosco em vez de ficar simplesmente indiferente (esse sim, o pior dos feedbacks). É por este motivo que é tão importante saber como reagir face a qualquer tipo de comentário e perceber como melhorar gradualmente.

Ir a correr para casa fazer upload pode não ser boa ideia

Ir a correr para casa fazer upload pode não ser boa ideia

Um erro que não podes mesmo cometer

Acabaste de ter o teu primeiro combate, estás orgulhoso do que fizeste e alguém por acaso gravou-o e deu-te- agora, mal podes esperar por chegar a casa e pôr no YouTube.

Promoveste o vídeo junto aos teus amigos e conhecidos da comunidade e o feedback não tardou a chegar.

– “Que roupa é aquela?”
– “É isto que fazes ao fim-de-semana? Não tem nada a ver com o que dá na televisão.”
– “Lol, o Batista é muito melhor!”
– “Magoaste-te naquele spot? Não percebi bem o que aconteceu.”
– “Estás muito verde pah, precisas de mais treino.”
– “Que grande palhaçada!”

Era este o feedback que esperavas e querias obter? Provavelmente não.

Mas é frequente ser esse tipo de conteúdo que encontrarás ao início e deixo para ti a decisão de quereres ou não partilhar esses momentos com o mundo. Que fique claro, no meio do feedback encontrarás sempre algo positivo, mas o teor negativo (e a tua falta de preparação para o receber) poderá desanimar-te ao ponto de te colocar numa posição em que reconsideras o teu sonho.

Naturalmente, no teu percurso terás desafios bem mais complicados de superar do que ouvir meia-dúzia de críticas negativas, mas é bom que tenhas consciência de que há uma probabilidade de tal acontecer quando estás a começar.

Aqui, a dica é essencialmente esta: não tens de esperar 10 anos para partilhar combates teus com o mundo, mas se calhar aquele teu primeiro combate de 5 minutos que nem foi assim tão bom pode ficar apenas no disco rígido do teu computador. Se não puderes mesmo esperar, nesta era de “Eu penso, logo partilho”, então prepara-te para o que der e vier.

Uma questão de atitude

Se há coisa que aprendi neste tema é que há muita gente demasiado sensível sobre “o seu trabalho”. E, infelizmente, muita gente pouco realista, também.

Comecemos precisamente por esse 2º aspecto: há muita gente que se considera “treinada” ou “quase lá” após um mês de treino ou que sente que por ter participado em meia dúzia de shows de Wrestling acha que já é alguém merecedor de respeito. Pede (ou recebe) opinião do que acabou de fazer e fica em choque quando descobre que ninguém ficou positivamente impressionado com o que aconteceu no ringue- fazendo frequentemente uma birra logo a seguir.

O mundo do Wrestling nacional é (infelizmente) tão pequeno que muitas pessoas participam num espectáculo ao vivo muito antes de estarem preparadas. Em vez de ser um ambiente em que 30 pessoas treinam arduamente por aqueles 10–12 lugares para um espectáculo, o que acaba por acontecer é mais parecido com um jogo de futebol às quintas em que faltam 2 jogadores e um guarda-redes e qualquer pessoa serve.

O problema é alguns pensarem que essa convocatória foi fruto de imenso mérito/trabalho, o que só aumenta o choque quando descobrem que não parecem ser o próximo “Stone Cold” Steve Austin aos olhos dos restantes. Estranhamente, lá encaram o seu “trabalho” como se fosse uma obra-prima apesar de na semana passada terem aprendido o bodyslam e completado 10 flexões.

No WrestlingPortugal sempre fui contra colocar “qualquer um no ringue” (para tristeza/chatice de muita gente que entretanto desistiu, mudou de escola ou simplesmente esperou meses e meses até ter o seu momento) mas a verdade é que graças a esse critério nunca assisti a uma má estreia de um Graduado WP. Infelizmente, esse motivo contribuiui para que existissem poucos shows, mas sempre fomos apologistas de esperar até ter um plantel de qualidade em vez de criar um produto com talento de nível muito variável.

Claro que para obter essa graduação todos os meus alunos tiveram de ouvir muitas críticas, mas a verdade é que conseguiram chegar lá e enfrentar um público foi depois bem mais fácil.

Sobre a sensibilidade, há uma pergunta que deves fazer antes de pedir reacções ao teu “trabalho”: queres realmente ouvir a opinião? Estás só a ser simpático? Ouviste dizer que ficas bem visto na fotografia se pedires opinião a um veterano? Estás pronto para qualquer resposta? Interessa-te mesmo saber? Se deste a resposta certa e sincera a todas estas questões, então estás em condições de avançar. Se não, não percas o teu tempo (e o dos outros).

Em quem devo acreditar?

Em quem devo acreditar?

A análise que deves fazer

Quando recebes um comentário, deves tentar decifrar a mensagem que vem do outro lado. Às vezes a pessoa está com pena de ti e simplesmente não te quer magoar. Alguns impressionam-se com pouco e tudo é “a melhor coisa de sempre”. Outros estão roídos de inveja mas dizem-te apenas que “não foi mau”. E ainda há aqueles que te dizem que foste incrível mas depois reparas que disseram isso a todos os outros também e sabes que alguns não eram assim tão bons. Como levar a sério tudo isto?

É importante que recebas todos os comentários com uma mente aberta mas que nunca os coloques num pedestal- estão apenas a dar a sua opinião (esperemos que sincera) e não deves alterar algo a não ser que seja unânime ou recorrente que tal te seja apontado. Se toda a gente se queixa dos teus pontapés serem duros ou da tua roupa ser muito escorregadia, talvez seja na hora de mudar isso.

Simpáticos ou não, não procures só as pessoas que sabes que te vão sempre dizer coisas bonitas, mas também não sejas demasiado duro contigo mesmo e não vás sempre de encontro apenas aos que garantidamente te vão dar um banho de humildade porque apontaram todos os erros que cometeste.

Tenta balancear um pouco tudo o que ouves… e lembra-te, nunca vais conseguir agradar a todos e isso não tem nada de mal.

Todos se podem dirigir a ti

Toda a gente tem uma opinião. No Wrestling há imensos treinadores de bancada e wrestlers de sofá. Toda a gente se pode expressar e tens de aplicar um filtro para entender o que podes retirar de cada um.

#1: O professor

Esta é uma das pessoas mais importantes que deves ouvir… assumindo que o respeitas! Poucos acompanharam o teu desenvolvimento melhor que o professor e certamente estarão a par dos teus obstáculos e do teu potencial- sem dúvida que deves apontar tudo o que te diz, mesmo que seja “apenas uma opinião”.

O conselho: os professores são geralmente sinceros e mais centrados no que importa ao aluno do que a eles próprios, pelo que terão feedback valioso para ti sem qualquer benefício pessoal pelo meio- o que, mais tarde descobrirás, é raro encontrar por aí.

#2: O promotor

Há promotores e promotores… aqueles que gostam de fazer dinheiro e não percebem nada do Wrestling em si e aqueles que simplesmente querem promover Wrestling na sua região por amor à arte.

Independentemente das motivações, sem dúvida que deves ouvir o que têm para te dizer, porque será um lado muito diferente de qualquer outra entidade- são as pessoas que querem fazer dinheiro explorando o teu talento e não vão estar preocupadas com o spot que correu mal mas sim com a bilheteira, com a reacção do público quando te viu e na venda de merchandise.

O conselho: se o promotor tiver dicas para te tornar mais apelativo/comercial, sem dúvida que deves reflectir sobre o que é mencionado. Por outro lado, não deixa de ser na mesma “apenas uma opinião”, pelo que deves estabelecer uma linha do que estás ou não disposto a passar para agradar uma companhia/promotor mantendo a tua integridade enquanto artista.

#3: Os colegas

Aqui não há um consenso: há colegas que só querem dar-se bem com toda a gente (ou continuar a ter trabalho) e que vão sempre dizer que foi tudo muito giro desde que não lhes partas uma perna ou um braço. Há aqueles que te elogiam pela frente e te criticam assim que abandonas a área. Há os especialistas, os perfeccionistas mas também tens aqueles que não sabem sequer montar um combate. Basicamente, podes obter conteúdo de relevância muito variável aqui.

No meu grupo de amigos do WP, geralmente dirijo-me a pessoas diferentes consoante o tema, mas há algo de comum entre todas elas: são pessoas em que confio, admiro e que me inspiram em determinado departamento. Se sentir que são melhores que eu em algo, sem dúvida que recorro a elas para perguntar o que acharam.

O conselho: se confias no colega ou o admiras, sem dúvida que vale a pena pedir a sua opinião. Se os desprezas, não te interessa ou só queres meter conversa, encontra melhores coisas para fazer.

#4: Os fãs

Este é outro caso onde a resposta é “depende”. Vais ter um fã a dizer que devias saltar mais da 3ª corda, outro que preferia que virasses heel, outro que acha que “tens de ser mais agressivo”. Aqui, a opinião de cada um vale o que vale, o que não deixa de ser irónico considerando que são eles que ditam para onde o Wrestling vai a seguir.

O conselho: vais ouvir todo o tipo de disparates e coisas sensatas aqui. Se há um comentário em específico que ouves mais vezes do que outro, é possível que mereça alguma reflexão.

#5: Os restantes

Aqueles que foram ao espectáculo porque o filho/sobrinho/namorado(a) gosta. Os jornalistas que estão a fazer uma peça sobre ti. Crianças de 10 anos. As pessoas que recebem um evento e trabalham na bilheteira, comida ou merchandise. O que é que interessa a opinião deles? Nem sabem quem é o Dolph Ziggler.

Bom, a verdade é que geralmente podem dar-te das opiniões mais honestas que podes esperar. Primeiro, porque estão a falar na perspectiva de leigos da matéria, apenas a partilhar o seu ponto de vista da forma mais pura possível. Segundo, porque não viram o espectáculo com os “óculos especiais” que os fãs de Wrestling têm e colocam em causa questões de realismo que tu se calhar já não te consegues lembrar porque já viste tanta gente fazer o mesmo antes de ti.

O conselho aqui será: estas são as melhores pessoas para recolher opinião sobre a qualidade do espectáculo, o que causou impacto e, sinceramente, as mais difíceis de convencer e agradar por serem cépticos. Podes obter aqui conselhos muito valiosos que te abrirão a mente um pouco mais, ganhando assim a tua personagem maior consenso. Não subestimes o poder desta parte da audiência, que acaba por ser uma parte muito significativa em cada espectáculo. “Quando estás no ringue parece a sério” vindo dessas pessoas é sempre um dos melhores elogios que posso receber.

Cada um com uma opinião diferente mas algumas valem a pena ouvir

Cada um com uma opinião diferente… mas algumas valem a pena ouvir

O outro lado

Naturalmente, acabará por chegar a altura em que te pedirão (ou darás voluntariamente) a opinião face ao que acabou de acontecer.

Aqui aplicam-se os mesmo princípios básicos: se gostares/quiseres ajudar/respeitares a pessoa, claro que deves dar a tua opinião sincera… mas se estiveres só a querer fazê-lo porque “fica bem” ou porque te apetece conviver, talvez seja melhor escolheres outro assunto.

Escolhe bem as tuas palavras e tenta ajudar quem achas que merece ajuda. Repito a dica do que disse em cima: não percas o teu tempo nem o dos outros.

O últimos conselho… e o meu caso pessoal

Sempre tive o objectivo de seguir as pisadas do meu treinador e outros canadianos que muito me inspiraram. Naturalmente, essas personalidades sempre foram mais “wrestlers” do que “entertainers” e sempre foi esse o caminho que quis para mim. Com isso, aspectos como o carisma, a capacidade de falar ao microfone ou a imagem de rockstar foram aspectos que não cuidei, talvez porque poucos são os lutadores que admiro que têm nota 10 nesses departamentos- obviamente, pelo caminho ouvi várias vezes que não tinha o “it factor” que é preciso para vingar no Wrestling.

E isto leva-me ao meu último conselho: aprende a filtrar aquilo que é realmente relevante ou não para ti. Nunca vais conseguir agradar a todos. Para mim é um elogio maior ser comparado ao Dean Malenko ou ao Lance Storm do que ao John Cena ou ao Rock. Foi o caminho que quis seguir, porque para mim Wrestling ainda é mais sports do que entertainment. Nunca quis esse protagonismo… e acabei por chegar onde queria na mesma!

Até certo ponto, segue o teu caminho. Faz a tua cena!

E por esta semana é isto pessoal! Vou estar em Portugal durante as próximas 2 semanas, o que significa que vou fazer uma pausa nos artigos mas estarei presente na minha outra casa, a academia do WrestlingPortugal no último sábado de 2013 e no primeiro de 2014 para transmitir mais alguns conhecimentos na primeira pessoa.

Entretanto… bom Natal! Deixo-vos com um vídeo apropriado, cortesia do Heelbook.

Sobre o Autor

- Bruno “Bammer” Brito é português, treinou em Calgary, Alberta, Canadá e foi durante 6 anos treinador principal da academia do WrestlingPortugal. Durante esse período, foi responsável por formar alguns dos mais conhecidos e talentosos lutadores nacionais da actualidade e está agora a partilhar as suas experiências com a comunidade do Wrestling PT.

8 Comentários

  1. Dan - há 3 anos

    Olá Bammer, ótima coluna como sempre, vem melhorando a cada postagem! Gostaria de saber como é a rotina de um wrestler, como conciliava seu tempo etc, e também gostaria de saber quais são, na sua opinião, os wrestlers com mais futuro a frente. Obrigado.

    • Obrigado por leres e desculpa a demora na resposta, antes de mais.

      A nível de rotina, posso falar um pouco sobre a altura em que tinha mais eventos (entre 9-12) por mês. Durante o dia tinha o meu full-time e ia diariamente ao ginásio (geralmente a 2ª feira era mais relaxado com os pesos e jacuzzi para relaxar um pouco da tareia do fim-de-semana), sexta-feira à noite depois do trabalho seguia para o primeiro evento, ao sábado à tarde dava o treino na academia do WP e seguia para o segundo e ao domingo à tarde tinha mais um. Foram quase sempre a 1-2 horas de Lisboa, pelo que acabava por poder praticamente sempre ir para casa :)

      Relativamente ao futuro, referes-te a lutadores nacionais? Se sim, todos os graduados WP têm muito talento, apenas depende deles irem ou não atrás de mais qualquer coisa a nível europeu ou mundial.

  2. Mr. Anônimo - há 3 anos

    Mais um artigo incrível!! Só fico um pouco triste por não ter a oportunidade de treinar e colocar em prática tudo que aprendo apenas lendo seus artigos.

  3. Conspo - há 3 anos

    Bammer, é possível assistir uma aula no WP?

  4. PMB - há 3 anos

    Grande artigo , uma inspiração :)
    Tenho o grande sonho de vir a praticar wrestling infelizmente fico bastante longe das academias :( queria ver uma aula para ver como era…

Comentar

Login com Facebook

Editar avatar »

Notificações por email:

Wrestling.PT © 2006-2016 / Política de Privacidade / Disclaimer / Sobre Nós / Contactos / RSS Feed / Desenvolvido por Luís Salvador