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Bammer: “Treino Sem Ringue”

Esta semana vamos deixar a equipa de booking no escritório, o sonho de ser campeão para mais tarde e reflectir um pouco sobre o que podemos retirar de um treino sem um dos elementos mais essenciais para um espectáculo de Wrestling: o ringue.

Que fique claro desde já: este não será um artigo com o objectivo de elogiar o backyard Wrestling (até porque não vou escrever sobre trampolins) nem um post “anti-ringues de Wrestling”, simplesmente porque isso não faria qualquer sentido- há lugar para tudo no treino de cada lutador e aqui o que quero é sobretudo realçar os benefícios que podes retirar de um treino que muitos consideram “inferior”.

Poucas sensações são tão boas quanto pisar um ringue de Wrestling- no entanto, terás de experienciar outros ambientes para te tornares o lutador completo.

O meu caso pessoal

Quando comecei, há 12 anos atrás, o Wrestling em Portugal não estava tão desenvolvido. Na realidade, a esmagadora maioria dos meus primeiros 6 anos foi passada a cair em colchões. Caí em colchões verdes, cinzentos e azuis presentes na Fonte da Telha, Sete Rios, Alvalade, Portimão, Anjos e provavelmente noutras localidades que a minha miserável memória infelizmente já apagou.

Seis anos mais tarde, em 2007, o cenário mudou ligeiramente: tive a oportunidade de ter um ringue disponível todos os dias durante a minha estadia na Storm Wrestling Academy e, quando voltei, o WrestlingPortugal tinha acabado de receber o seu primeiro ringue, vindo directamente dos EUA.

É seguro então assumir que a partir daí só pisei ringues? Não.

Os colchões continuaram a fazer parte da minha rotina, por 3 motivos:

– O treino em colchões é fundamental e todos os alunos devem passar por isso;
– O ringue não pode estar montado toda a semana no nosso espaço em Queluz;
– Para algumas aulas, simplesmente não se justificava.

Mesmo com ringue, os colchões continuam a fazer parte de muitos treinos em Queluz

Mesmo com ringue, os colchões continuam a fazer parte de muitos treinos em Queluz

As vantagens de treinar sem ringue

Para explicar porque é que o treino sem ringue é fundamental, o melhor será mencionar as suas vantagens- algumas são óbvias, outras nem tanto.

Uma coisa é certa: sem aqueles 6 anos em colchões, dificilmente teria chegado ao estatuto de campeão no WP e na World Stars of Wrestling. Vamos a isto!

#1: Directos ao assunto

Sejamos realistas: comprar um par de colchões é consideravelmente mais barato do que importar um ringue dos EUA (que pode custar perto de 10 mil dólares). Paralelamente, também existe uma economia de tempo: é difíci montar um ringue em menos de 1 hora, mas para preparar colchões só precisamos de alguns minutos.

Basicamente, com colchões podes partir à acção de imediato- mas isso provavelmente já sabias. Adiante!

#2: Maior aproveitamento

Num ringue o espaço é limitado: dificilmente conseguirás realizar aquilo que te é pedido se estiverem vários pares de alunos lá dentro contigo.

Para contrariar esta limitação, a maior parte das escolas adopta a mesma solução: 1 par fica dentro do ringue e os restantes ficam no apron a aguardar a sua vez. O problema é que muitos pelo caminho arrefecem, distraem-se ou começam a relaxar.

O melhor antídoto? Enquanto uns treinam no ringue, outros fazem o mesmo em colchões- até que ponto precisas de um ringue para treinar o bodyslam ou a european uppercut?

Lembra-te: 90% do Wrestling consegues fazer sem ringue.

#3: Maior noção de posicionamento

Esta é capaz de ser a maior vantagem de treinar fora do ringue. O posicionamento correcto é fundamental e se o dominares mostrarás segurança e experiência frente a qualquer adversário- é, aliás, uma das maneiras mais fáceis de ver se um colega novo sabe o que está a fazer!

Num colchão tens de estar muito mais consciente relativamente a tudo o que fazes: tens que pegar no teu adversário, saber onde é que ele vai aterrar e garantir que ninguém acaba fora de 1 colchão ou entalado no meio de 2.

Devido à configuração dos colchões, treinar lá acaba por ser bastante mais complexo do que dentro de um ringue, o que te permitirá desenvolver competências que garantirão segurança a 100% em qualquer “squared circle”.

#4: Maior Inteligência e Criatividade

Pela razão acima referida, ao praticares um Wresling mais seguro serás automaticamente mais inteligente, visto que estarás sempre consciente tanto do teu posicionamento como do teu adversário.

Por outro lado, terás de ser capaz de montar combates sem utilizar um ringue e procurar outras formas de preencher um combate que não passem por utilizar os turnbuckles ou as cordas. Uma vez dominadas essas competências, trabalhar no ringue será ainda mais fácil.

#5: Maior atenção ao detalhe

Sem o ringue, muito do aparato perde-se de imediato. Sem todo aquele ruído à volta, é difícil parecer-se um lutador. Essa razão é suficiente para perceber porque é que não podem existir eventos de Wrestling sem ringue, mas para efeitos de treino isso é irrelevante.

Sem um ringue, a precisão das manobras, a presença do lutador e o realismo do combate são postos à prova de uma forma incomparável. Se fores credível neste ambiente, imagina o impacto que a tua personagem terá num ringue! Estarás definitivamente no caminho certo para o sucesso.

#6: Maior resistência ao desconforto

Cair nunca será 100% agradável, mas com treino o impacto na aterragem passa a ser algo perfeitamente suportável. No ringue, desde que este esteja bem montado e caias no meio, nunca será muito desagradável, mas em colchões o impacto pode surpreender.

Naturalmente, há vários tipos de colchões e uns estão mais preparados para amortecer quedas do que outros, mas ganhar resistência noutros ambientes é algo que sem dúvida recomendo: quando o dia do “ringue mal montado” chegar, ficarás indiferente face a esta notícia porque já passaste por muito pior.

#7: Mais um processo de selecção para a lista

Já mencionei “prima donnas” antes e a verdade é que todas essas “pessoas especiais” preferem treinar no ringue que não montaram (porque chegaram tarde ou ficaram a ver) do que em colchões, visto que não entendem a utilidade dos mesmos.

Aqui, repete-se a pergunta: valerá a pena investir numa pessoa que vai “fazer birra” quando chegar a um ringue que é duro, está mal montado ou não tem o tamanho que ele quer? Se isso é um problema para ele, espera até chegar a altura de combinar um combate… o que vale é que, se tiver passado pelo WP, provavelmente até lá desistiu porque se fartou de treinar em colchões!

O exemplo da famosa “Dungeon”

A antiga casa dos Harts ficou popular pela sua cave: a célebre Hart Family Dungeon. Esta propriedade (entretanto vendida) fez com que Calgary se tornasse sinónimo de qualidade no que diz respeito ao Wrestling.

A famosa casa dos Harts, em Calgary

A famosa casa dos Harts, em Calgary

Apesar da fama da Dungeon ter chegado ao exagero e muitas histórias não serem verdade, é inegável que por lá passaram grandes lutadores: Bret Hart, Owen Hart, Davey Boy Smith, Chris Benoit, Jushin Lyger, Tyson Kidd, Chris Jericho e o meu mentor, Lance Storm, são alguns exemplos disso mesmo.

Essa garantia de qualidade despertou o sonho de treinar nessa cidade em muitas pessoas, incluindo eu- que fiquei devastado quando descobri que a Dungeon iria fechar as portas e radiante quando mais tarde me apercebi que a Storm Wrestling Academy viria continuar a tradição.

Apesar de haver um ringue disponível, não podemos esquecer que em Calgary o Inverno dura 6 meses. Onde é que eles treinavam? Bem, a resposta está neste vídeo em baixo, que envolve o talentoso Tyson Kidd e o filho de Davey Boy Smith, DH Smith.

Os restantes 10%

No ringue, terás que aprender a utilizar as cordas, os cantos e praticar algumas manobras mais específicas, como saídas do ringue, springboards, mergulhos e up and overs. Se um aluno tiver a capacidade atlética necessária, conseguirá executar a maioria destes movimentos numa mão-cheia de treinos.

Treino em ringue será sempre fundamental, naturalmente. São basicamente treinos complementares e igualmente necessários para que alguém atinja o estatuto de graduado WP.

Em conclusão

Já experimentaste jogar em Easy depois de dominar o modo Hard?

Já experimentaste jogar em “Easy” depois de dominar o modo “Hard”?

Em linguagem de video-jogos, é como se treinar em colchões fosse um jogo em Hard que de repente passou para Easy ao pisar um ringue.

Treinar em colchões é realmente fundamental para desenvolveres as bases e se passares por esse tipo de treino, só terás a ganhar. É muito complicado ver um vídeo nosso em que estamos a combater em colchões por parecer tudo tão pouco profissional e ameaçador, mas a verdade é que depois de algum tempo em colchões, pisar o ringue torna-se muito mais fácil e tudo o que fizermos terá maior qualidade, credibilidade e segurança. E é isso que define um bom lutador, certo?

E por esta semana é isto pessoal! Venham daí os vossos comentários, mensagens e tweets!

Sobre o Autor

- Bruno “Bammer” Brito é português, treinou em Calgary, Alberta, Canadá e foi durante 6 anos treinador principal da academia do WrestlingPortugal. Durante esse período, foi responsável por formar alguns dos mais conhecidos e talentosos lutadores nacionais da actualidade e está agora a partilhar as suas experiências com a comunidade do Wrestling PT.

9 Comentários

  1. Ricardinhoo - há 3 anos

    Mais uma vez, excelente.

    Bruno, queria aproveitar para fazer uma pergunta:
    Já vi muitos lutadores referirem que ajudar a montar o ringue contribui muito na sua aprendizagem! Concordas ou achas que é simplesmente uma frase “cliché”?

    • Obrigado por leres e pelas palavras! :)

      Boa questão- não é um cliché, é realmente verdade. Ajudar a montar o ringue tem vários benefícios:
      – desenvolve o espírito de grupo (carregar ferro, madeira e cabos durante tantas horas acaba por criar muita conversa e muitos risos)
      – percebes onde é que o teu corpo vai cair naquele dia (estado da lona, colchões, tábuas, ferros)
      – mostras ao professor ou promotor que “vieste para trabalhar” e não és uma estrela
      – ficas a saber pontos a evitar ou coisas que não podes fazer. Por exemplo, há vários tipos de cordas, umas ficam mais apertadas que outras o que podem condicionar as manobras e claro, há sempre um par de tábuas que “convém evitar”.

      Quanto melhor o ringue ficar montado, mais seguro será e melhor se aguentará durante os anos (convém, já que não são baratos). Quando não faço parte da montagem do ringue, geralmente antes do show passeio por ele descalço para ver se há buracos, tábuas mais altas que outras, cordas pouco apertadas, turnbuckles com ferros de fora e coisas desse género… e se necessário adapto o meu arsenal ou spots. Na altura do combate, com a adrenalina é difícil pensar nisso, mas convém realmente fazer essa verificação antes de começar.

  2. Mr. Anônimo - há 3 anos

    Mais um ótimo artigo!! É uma pena eu não ter a oportunidade de treinar wrestling, porque não há uma academia de wrestling na minha localidade aqui no Brasil, mas se um dia eu tiver a oportunidade de treinar não tenho dúvidas de que seus artigos me ajudaram muito Bammer!

  3. Spear!!! - há 3 anos

    Bammer, eu treino judo, e um dia gostava de treinar wrestling.
    Mesmo sabendo que judo e wrestling são completamente diferentes, achas que a minha experiência em judo me poderá ajudar em wrestling?

    • Sim, penso que sim. Já experimentei judo e percebi que existem coisas similares, como por exemplo:
      – aprender a cair (apesar da manobra no Wrestling ser diferente, ao menos já é algo a que estás habituado)
      – técnicas (ninguém te impede de inserir alguns desses golpes no teu arsenal)
      – movimentações (saber entrar na área do adversário para causar desequilíbrio é útil no Wrestling)
      – disciplina e espírito de grupo

      Judo é um dos melhores backgrounds que se pode ter. A única dificuldade ao início poderá ser aprender a relaxar e ficar à mercê do adversário.

      • Beowolf - há 3 anos

        o proprio Great Muta tinha background de Judo quando entrou no wrestling.

  4. Eugen3 - há 3 anos

    Bom artigo Bammer, este espaço é muito bom.
    Eu compreendo o que queres dizer, eu fiz ginástica acrobática e em grupo, e no espaço em que treinava tínhamos poucas condições.
    Até que por fim adquirimos um praticável (espaço onde se fazem as provas), mas o bichinho belos colchões nunca desapareceu, é sempre bom experimentar novos meios.
    De reforçar que o nosso praticável não era nada comparado com os das provas e das outras equipas, o nosso era composto por tiras, e chegávamos às provas e parecíamos “burros a olhar para um palácio” com praticáveis cheios de molas e assim.
    Depois era ver os outros a praticar em sítios “mais rasca” cheios de dores e nós ali na boa.

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