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Opinião Feminina #273 – Grateful

“It’s not the size of the dog in the fight, it’s the size of the fight in the dog.” ― Mark Twain.

Para uma indústria frequentemente desvalorizada, apelidada de “falsa” e capaz dos atos mais vulgares e mesquinhos, o Wrestling Profissional consegue, ocasionalmente, mexer com as emoções dos seus fãs de forma estonteante.

O Wrestling é algo que tem o poder de nos fazer saltar da cadeira às tantas da madrugada, seja para celebrar ou para reclamar. É algo que tem o poder de se infiltrar dentro de nós, de nos apertar o coração e de nos obrigar a sentir. Para algo supostamente falso, Wrestling consegue ser assustadoramente real.

Pouco, na história da indústria, captou tão bem a essência desta arte quanto a despedida de Daniel Bryan dos ringues na última edição da Raw.

Foi um discurso que evocou todo o tipo de emoções. Alegria, quando Bryan conseguiu que uma arena inteira gritasse “That’s what she said”. Tristeza por tudo o que não aconteceu, como Daniel Bryan vs Shinsuke Nakamura, Daniel Bryan vs Brock Lesnar e Bayley a dar um abraço a Daniel Bryan. O abraço teria sido épico e os combates razoáveis. Pânico, quando a transmissão terminou e percebemos que a carreira de Bryan tinha mesmo chegado ao fim e que, ao contrário do que uma pequena parte de nós tinha ardentemente desejado, não tinha tudo sido um angle. Foi um discurso que ninguém queria ouvir, mas que agora ninguém irá esquecer.

“Wrestling longer matches always challenged me, both mentally and physically. It inspired me to be more creative, which was important because wrestling is my primary artistic outlet. It didn’t boost my confidence at all when William Regal warned me, “Your wrestling career is what you did before this [WWE]. Anything after is just a bonus.” ― Daniel Bryan, Yes!: My Improbable Journey to the Main Event of WrestleMania.

Quando chegou à WWE, a sua qualidade como lutador era o grande forte de Daniel Bryan. E por boa razão, afinal ele era – na altura – um dos melhores lutadores do mundo, senão o melhor. O seu trabalho destacava-se pela sua criatividade e versatilidade.

Bryan conseguia agarrar nos detalhes aparentemente mais insignificantes e dar-lhes novo brilho. O ato de agarrar as cordas durante os combates com Bryan tornou-se mais especial quando se sabia que vinha aí o popular “I have until five”. O Small Package ganhou outro significado quando aplicado por Bryan. Isto é importante, porque não basta fazer uma sequência de manobras bem executadas. É preciso trazer os fãs para o combate. É preciso contar uma história, mesmo que esta revolva à volta de apenas um headlock durante todo o combate.

A sua versatilidade como lutador apenas se tornou mais evidente com o sucesso deste na WWE. Bryan era capaz de se destacar em qualquer estilo, em qualquer ambiente, com qualquer lutador.

Este conseguia ser um sucesso no main-event da ROH, na Europa a lutar com uma lenda do Wrestling britânico, no main-event da WWE e até num programa para crianças, como o Saturday Morning Slam. Independentemente das limitações e diferenças de estilo para estilo, Bryan conseguia adaptar-se e sobressair. O mesmo se aplicava a diferentes adversários e dinâmicas.

Isto foi um resultado da sua enorme paixão pela indústria e vontade incansável de ser o melhor. Bryan nunca parou de estudar e se dedicar, nunca parou de pensar em novas formas de inovar. Ainda recentemente, antes de saber os resultados dos testes que ditaram o fim da sua carreira, Bryan andava a estudar CMLL, pois estava a planear ir para lá e colocar o seu cabelo em jogo.

O que não falta são combates de Bryan para ver e rever. Na WWE, temos o seu combate com John Cena no Summerslam, a Street Fight com Randy Orton na Raw em 2014, os combates que teve com Seth Rollins e Cesaro em 2013 na Raw, os seus combates na WrestleMania 30 e, por fim, um dos meus preferidos, o seu combate com Sheamus no Extreme Rules 2012.

Esse combate é particularmente curioso porque, para além de ser fantástico, é uma prova da versatilidade e e talento de Bryan. Este era o vilão do combate a lutar com uma pessoa consideravelmente maior. Era o oposto do David vs Golias.

Na ROH, embora agora causem alguma apreensão devido às cabeçadas e manobras mais duras, pois sabemos as consequências que tal veio a ter na sua carreira, a sua série de combates com Nigel McGuinness, o seu combate com KENTA e confronto com Takeshi Morishima são os mais falados. No entanto, há vários outros com CM Punk, Samoa Joe, Low Ki, Paul London, entre outros.

Daniel Bryan não foi apenas um dos melhores lutadores da Era moderna. Foi um dos melhores lutadores da Era moderna com mais longevidade. São dezasseis anos de combates com os mais variados adversários, nos mais variados ambientes. É um feito impressionante.

“When I came to WWE I heard about the politics here, I heard the nightmares, I heard all about that stuff; how Vince McMahon loves big guys and they like the guys that they make themselves, regardless of whether or not those people can come out here and engage the WWE Universe. I was a self-made man. I was not invented by the WWE machine and I would think with them having stock holders and this being a profitable company that they would want a guy who makes them the most money, okay?! They don’t have the ability to judge by prejudice who they pick to be stars, okay?! They need to pick guys who are the best people for this job and the best person for this job is me!” ― Daniel Bryan, WWE NXT 2010.

Quando Daniel Bryan chegou à WWE, as suas capacidades como orador foram extremamente desvalorizadas. Este foi descrito como sendo alguém sem qualquer carisma ou personalidade, quando a realidade era um pouco diferente.

À primeira vista, Bryan não transbordava carisma como The Rock, não era sinónimo de hostilidade e agressividade como CM Punk ou Steve Austin, nem tinha aquela qualidade larger than life de Hulk Hogan. Todavia, isso não significa que Bryan não era carismático ou capaz de uma promo emocionante. Ao microfone, Bryan estava no seu melhor quando era natural, quando era ele mesmo, não uma versão exagerada ou inventada.

Ao contrário de muitas pessoas que são melhores a representar um papel do que a ser elas mesmas, Bryan é alguém tão afável e possui uma aura tão positiva que este fazia melhores promos quando era sincero e deixava a sua paixão falar.

A promo dele na primeira temporada do NXT, depois de ser eliminado foi um dos exemplos mais óbvios de tal. Ele não era alguém sem carisma, era apenas alguém cujo carisma não era o que a WWE procurava. A despedida da passada Raw foi outro exemplo gritante. No circuito independente existem vários exemplos, mas lembro-me em particular da promo que este fez sobre a deslocação da retina durante o combate com Morishima na ROH.

Desde o NXT que Bryan não parou de provar que a WWE e muitos fãs estavam errados na avaliação das suas capacidades. Para alguém, alegadamente, sem carisma, Daniel Bryan fez excelentes promos na WWE. A promo mencionada acima, a promo no MizTV com John Cena, a promo que fez no Backstage Pass da última Raw antes da WrestleMania 30 são alguns dos exemplos que mais saltam à memória.

No entanto, estes não foram as únicas provas que Daniel Bryan tinha de carisma e personalidade. As mais especiais surgiram durante a sua aliança com Kane, quando os dois formaram a Team Hell No. O que não falta são momentos ou promos de Kane e Daniel Bryan absolutamente hilariantes. A discussão sobre quem é o Bestest Buddy, o Goatface vs Big Red Freak, o convite de Daniel Bryan para Kane passar o Natal com ele, o momento em que Daniel Bryan tem ciúmes ou oferece ajuda a Kane são alguns de muitos. O meu preferido é quando Daniel Bryan quer discutir estratégia com Undertaker e este não se encontra presente.

Fora da programação principal da WWE, Daniel Bryan tinha outra faceta, também exagerada e com fortes parecenças a um desenho animado, chamada The Dazzler. Os melhores momentos do Dazzler passaram-se no Saturday Morning Slam, onde Bryan frequentemente falou do seu fascínio por ursos, e no JBL & Cole Show, onde, entre várias outras coisas, Bryan fez magia assistido por William Regal e um rap com Kane.

Estes meses que Daniel Bryan passou a criar comédia com Kane apenas aumentaram ainda mais o apreço que os fãs já tinham por si. Foi assim que Bryan, não só aumentou o apoio dos fanáticos, mas conquistou ainda mais fãs que não eram familiares com o seu trabalho antes da WWE.

“Three weeks ago, in New York City, when Morishima punched me in the face, he detached my retina and fractured my orbital bone. It’s probably been one of the hardest times of my career. My mom had to take me to the doctor on Monday, to the ophthalmologist, and I had to have surgery, and when I came out my mom was just crying. You know, she’s never seen that part of wrestling.

My sister called me up on the phone, she was just yelling at me, screaming at me. She’s been there through a lot of it, she was there when I wrestled KENTA in Manhattan last year, and he was kicking my separated shoulder. She was yelling at me, and yelling at me, “Bryan, you can’t do this to yourself, you can’t do this us anymore. We can’t take it as a family.”

I was really feeling bad about it. That’s all the stuff that’s bad about wrestling. The injuries, the toll it takes on your body and the toll it takes on your family. It really made me rethink things. Then I went over and visited my dad and, you know, my dad is a great guy, he’s got a lot of wisdom and I respect his opinion. We were talking about all the different options and stuff. I could go back to school, I could go work in the mill. But right before my dad got up to make a tuna sandwich, he turns to me and he says “But this is the life you’ve always wanted.”

I went home and I thought about it. And, you know, wrestling is everything that I love. The pay-per-view main-events, being in front of the live crowd, the training to be a professional athlete. All the injuries, all the detached retinas, all the separated shoulders, all the muscle tears and everything, THIS is the life that I wanted my entire life. (…)”― Bryan Danielson, Ring of Honor 2007.

É aqui que chegamos ao busílis da situação. Daniel Bryan era algo fantástico, apenas não era algo que a WWE acreditava que pudesse ser fantástico e não era apenas em relação a tipos de carisma.

Quando chegou à WWE, Bryan era um vegan, não tinha televisão, media pouco mais de um metro e setenta, pesava cerca de noventa quilos, a sua maior ambição era ser o melhor lutador possível, não tornar-se rico ou famoso. Também não era alguém que se esperava ver a fazer jogos de bastidores ou a exigir por uma melhor posição. A situação mais polémica em que Bryan esteve envolvido nos bastidores foi quando Triple H mandou parar o seu combate. Alguns dos seus interesses principais eram o ambiente e a conservação da natureza.

Ele é o tipo de pessoa que se mete à conversa com jornalistas, em eventos da WWE, a falar sobre as estrelas de topo no Japão e sobre o G1 Climax. É o tipo de pessoa que diz aos fãs que nada o faria mais feliz do que os ver vestidos com t-shirts feitas por eles mesmos, pois sabe que as t-shirts da WWE são caras e não estão ao alcance de todos. A honestidade e genuinidade de Bryan são algumas razões que tornam tão especial e tão adorado pelos fãs.

Daniel Bryan era, em todos os aspetos que a WWE alguma vez considerou fundamentais para as suas estrelas de topo, exatamente o contrário. E por isso, passou a primeira temporada do NXT a ser ridicularizado por ser tão nerd e a perder todos os combates, menos um.

A WWE fez de tudo para provar ao mundo que Daniel Bryan não era assim tão fantástico quanto os fãs que o tinham seguido no circuito independente tinham dado a entender que ele era. Mesmo assim, os fãs não quiseram saber e revoltaram-se quando ele foi despedido, encerrando um pay-per-view da WWE em 2010 a gritar o nome dele.

Os fãs deram-lhe uma ovação comparável à de Steve Austin quando este se virou contra Bray Wyatt em 2014. E Bryan, mesmo lesionado na altura e tendo agora dificuldade em se lembrar do que estava a acontecer, teve a presença de espírito e o instinto necessário para conduzir os cânticos YES! como se fosse um maestro, começando primeiro muito devagar e aumentando a intensidade gradualmente. Este é o detalhe que separa os excelentes dos melhores de sempre. Isto é carisma, é presença, é atitude. É o que faz uma estrela.

Os fãs dominaram a cerimónia de ascensão dos Títulos em 2014, antes do TLC, com cânticos por ele enquanto o destaque era o combate de Randy Orton e John Cena. E, mais importante que tudo isso, revoltaram-se contra o Royal Rumble 2014 e Batista em protesto pela ausência de Daniel Bryan do combate.

Não interessa que versão inventada é que a WWE vai contar durante as próximas décadas. Daniel Bryan não estava nos planos para o combate pelo Título da WrestleMania 30, nem sequer estava agendado para enfrentar o homem que se tinha virado contra ele no Summerslam 2014 ― Triple H. Foram os fãs e a saída de CM Punk que forçaram a WWE a encerrar a história como esta merecia ser encerrada.

Daniel Bryan nunca teve aquilo que a WWE considerava essencial nas suas estrelas. A companhia andava à procura de algo extravagante como Thunderlips ou dominante como Ivan Drago e Daniel Bryan era apenas Rocky Balboa.

Daniel Bryan era apenas alguém com uma paixão incomensurável por Wrestling. Alguém naturalmente carismático, engraçado, humilde e incrivelmente honesto. Alguém genuíno, cheio de garra e vontade de ser o melhor. Daniel Bryan não era o que a WWE queria, mas era exatamente aquilo que os fãs procuravam. Num mundo de fantoches cuidadosamente montados para agradarem ao máximo número de pessoas possível, Daniel Bryan parecia humano, parecia real.

Era um herói que conseguia entreter miúdos e graúdos. Um herói que conseguia fazer os mais velhos esquecer o cinismo de anos e anos a acompanhar a indústria e a ver os mesmos preconceitos, limitações e visões retrógradas a serem impostas.

Bryan, como herói, ultrapassava qualquer barreira, fosse esta a idade, o género, a cultura ou a raça. Isto, porque a demanda de Bryan era universal – alguém que estava constantemente a ser ultrapassado, embora tivesse uma paixão inigualável e estivesse sempre a dar o seu melhor. A sua paixão pelo Wrestling e a sua incrivelmente adorável personalidade tornaram-no num herói a quem os fãs não conseguiam resistir. Um herói que forçava os fãs a envolverem-se e a sentirem.

Os fãs envolveram-se emocionalmente na demanda de Bryan, não porque queriam ver o melhor lutador da atualidade no topo, ou porque queriam ver a pessoa mais engraçada do roster a ter o seu momento sol. Envolveram-se porque se apaixonaram pela personalidade de Bryan, pela sua história, e queriam vê-lo a ter o seu momento sol.

É por isso que um dos meus momentos preferidos de sempre é quando, na noite após a WrestleMania 30, os fãs gritaram “You deserve it” a Daniel Bryan. Os fãs não se revoltaram porque ele era o melhor lutador ou a melhor pessoa a fazer promos – não era, revoltaram-se por ele, como um todo. Porque queriam vê-lo vencer.

Sim, mais do que nunca é preciso ser um excelente lutador ou, pelo menos, competente. Nos dias de hoje, até os fãs mais casuais da WWE valorizam esse aspeto e se um determinado indivíduo não corresponder nesse campo, então será arrasado pela audiência mais fanática antes mesmo de poder fazer alguma coisa. Não é por acaso que a personalidade mais vaiada da WWE é Eva Marie. A forma mais fácil de ser vilão, hoje em dia, é ser mau lutador. Sim, promos de qualidade e carisma também são extremamente importantes, senão até mais importantes que qualidade dentro de ringue.

Porém, no fim do dia, o que interessa é evocar emoções nos fãs, sejam de amor ou ódio. Qualidade dentro de ringue e ao microfone são aspetos que facilitam o processo de evocação, mas são ultimamente ultrapassados por aquela qualidade especial que ninguém sabe bem descrever, apenas sabe sentir. Mais uma vez, é o que separa os excelentes dos melhores de sempre. Os fãs sentiam a autenticidade dele, sentiam a paixão dele. Sentiam que ele era alguém por quem valia a pena lutar.

Há tantos talentos na história da WWE que foram brevemente apoiados pelos fãs, apenas para a WWE fazer de tudo para abafar esse apoio, porque na sua visão, eles não tinham o que era preciso para ser uma estrela. Zack Ryder é um desses nomes. Daniel Bryan podia ter sido um desses nomes. A série de derrotas no NXT, toda a gente na WWE a tratá-lo como se não fosse merecedor de um lugar na WWE perante uma audiência que, na sua maioria, mal o conhecia, a série de derrotas no roster principal, a derrota em dezoito segundos para Sheamus, entre tantas outras decisões, poderia ter acabado com a popularidade de Bryan.

Em três tempos este podia ter regressado ao midcard, sem qualquer apoio por parte dos fãs, provando que os fãs não apoiam lutadores baixos, sem vários quilos de músculo em cima e com caras de troll. Pelo menos, esta seria a versão que, internamente, a WWE iria defender.

Todavia, os fãs não permitiram que tal acontecesse, graças ao que sentiam por Daniel Bryan. Sentiam que ele era o seu herói, sentiam que ele era um deles. Afinal, porque raio é que fãs apaixonados por Wrestling não iriam sentir algo por Bryan, outro apaixonado por Wrestling?

Bryan é aquilo com que todos sonham e aquilo em que todos querem acreditar. Ele é a prova que, num mundo injusto e cruel, trabalho árduo, garra e força de caráter compensam no fim. Essa é a história em que todos querem acreditar. É uma história de esperança.

Não há uma receita mágica para criar este tipo de ligação. Há algumas direções e indicações que são aconselháveis para o fazer, mas ultimamente, o que interessa não se consegue explicar. O que interessa está dentro do coração do indivíduo ou indivídua.

Não há ligação mais verdadeira que essa e é uma verdadeira pena que a WWE nunca tenha tirado completo proveito dela. Porque não o fez. Bryan foi das pessoas mais ovacionadas da Era moderna, mas podia ter sido das estrelas mais rentáveis de sempre. Ele tinha o que era preciso para o fazer. Tinha a única coisa que era preciso para o fazer.

A WWE cedeu, quando tinha de ceder, mas nunca recuou na sua visão. Semanas depois da WrestleMania 30, Daniel Bryan andava a brincar aos filmes de terror com Kane e Brie Bella, numa cópia da mesma situação que tinha arrasado com Zack Ryder. Um ano depois, a companhia não o tinha em nenhum combate importante na WrestleMania e este passou os últimos meses antes do evento a brincar à batata quente com o Título Intercontinental e a ser chamado de excremento.

Quando estava no auge da sua popularidade e arenas inteiras de fãs celebravam com o YES! noutros desportos, a WWE ignorava o acontecimento. Quando vídeos se tornavam virais com pessoas de todas as partes do mundo a fazerem o YES!, a WWE também o ignorava. Sabe-se que teria sido diferente se a pessoa em questão fosse outra. Sabe-se que teríamos visto os vídeos na Raw semanas seguidas, se tivesse sido um escolhido. Daniel Bryan era a prova viva que a WWE estava errada na forma como decide quem são estrelas. Ninguém quer ser provado que está errado. Foi a WWE que perdeu com a sua teimosia e preconceito.

“I am grateful, because of wrestling, I got to meet the most wonderful woman in the world, who’s beautiful. She’s smart, and she completes me in a way that I didn’t even think was possible, and that’s because of wrestling.” ― Daniel Bryan, WWE Raw 2016.

Daniel Bryan venceu.

Começou por ter uma carreira fantástica que forçou a indústria a mudar em várias frentes. Tornou-se um nome estabelecido no circuito independente, ganhando o respeito e admiração de todos com quem trabalhou. A sua dominância no topo da indústria como melhor lutador (ou um dos melhores) foi das mais longas da indústria. Este pode ter passado apenas cinco anos na WWE, mas apresentou, consistentemente, combates espetaculares durante mais de uma década.

Na WWE, em apenas cinco anos, tornou-se um dos nomes mais populares da Era moderna, competiu em todas as WrestleMania em que teve no roster e sempre por algum Título, venceu todos os Títulos da companhia, lutou e venceu no main-event da WrestleMania e continuou a contribuir com fantásticos combates, por vezes quase todas as semanas. Ninguém esperava que ele tivesse uma carreira tão boa, em particular na WWE.

No campo pessoal, o mais importante, este também venceu. Conheceu a mulher dos seus sonhos, com quem se casou e poderá começar uma família. E, acima de tudo, reformou-se antes de ser tarde demais.

Sabendo a paixão que Bryan tem pelo Wrestling e a determinação que teve, durante muito tempo, em voltar aos ringues, mesmo que a WWE não o autorizasse, as coisas podiam ter corrido muito mal. Felizmente, a indústria está a mudar, em parte por causa dele e pelo que a sua experiência ensinou, e ele não foi autorizado a regressar aos ringues. É assustador pensar em como, não há muito tempo atrás, Bryan já tinha voltado aos ringues há meses e o pior já podia ter acontecido.

Ou então, nada tinha acontecido, este tinha-se reformado daqui a uns anos aparentemente bem e, anos mais tarde, os fãs acordavam para ouvir uma péssima notícia sobre a pessoa que idolatravam e que era suposto estar a viver a vida em pleno com a sua família.

Daniel Bryan podia, com uma facilidade aterradora, ter-se tornado noutra estatística. Poderia não morrer, mas podia ver a sua qualidade de vida a ser bastante limitada, enquanto ainda era bastante novo. E isso é algo que ninguém, especialmente Bryan e sua família, precisa. Mais uma vez, Bryan continua a ensinar lições a todos. É preferível abandonar os ringues e pensar no futuro, na família, na qualidade de vida, do que continuar por amor à arte e sacrificar coisas que não são para ser sacrificadas.

Tal como Edge, Bryan despediu-se dos fãs demasiado cedo, mas tal como Edge está agora a usufruir de tempo com a família e os seus cães, Bryan também o poderá fazer no futuro. E isso, é um verdadeiro final feliz. Mais do que qualquer vitória na WrestleMania ou cântico emocionante, isso é o que importa.

É ainda mais reconfortante saber e ver que Bryan aceitou esta realidade e tomou esta decisão por si, em vez de ser forçado a fazê-lo correndo o risco de ficar ressentido para o resto da vida. Tendo em conta os sacrifícios que este fez, conscientemente, ao longo da sua carreira, tal é algo que me enche de alívio.

Essa foi uma das emoções que mais senti durante o discurso na Raw. Porque, depois de ler o livro dele e saber os sacrifícios que este tinha feito conscientemente, não conseguia ficar descansada se este voltasse aos ringues, por muito que quisesse ver mais um combate. E um abraço.

“He never asked for respect. He didn’t have a demeanor that would demand it. He didn’t yearn for it. He just always got it and people listened to and followed him. He isn’t a loud leader that owns a room. Rather, he did it by example and how he conducted himself. He was looked up to by everyone. That is what made him a leader.” ― Gabe Sapolsky.

A indústria também venceu por ter tido alguém como Daniel Bryan. O seu sucesso forçou a indústria a mudar. Não bruscamente, como todos gostaríamos, mas passo a passo. Se não fosse pelo sucesso de CM Punk e Daniel Bryan, será que talentos como Kevin Owens, Finn Bálor, Sami Zayn, Neville e Seth Rollins tinham uma oportunidade? Será que AJ Styles teria alguma vez ido para o roster principal, diretamente, com uma estreia em grande destaque no Royal Rumble, se CM Punk e Daniel Bryan não tivessem provado já que podem ter sucesso? O mesmo para Samoa Joe, se de facto este se estrear na noite após a WrestleMania.

A WWE irá continuar a ter uma visão em particular para o seu lutador principal, mas é inegável que outros tipos de lutadores têm agora mais oportunidades do que tinham antes de CM Punk e Daniel Bryan.

A forma como se reformou, mais cedo do que o normal, mas saudável, poderá influenciar outros lutadores a fazerem o mesmo. A sua experiência poderá também influenciar outros lutadores a terem mais cuidado consigo e a medirem melhor os sacrifícios que fazem dentro de ringue.

Da minha parte, embora saiba que existe maior probabilidade de Bryan ver o meu tweet do que este artigo, resta-me apenas dizer obrigado. Pelos combates, pelas memórias, pelos sacrifícios que fez. Por me ter feito rir, por me ter feito chorar e, acima de tudo, por me ter feito gostar ainda mais desta arte, quando achava que tal não era possível. Por me ter feito sentir novamente como uma criança, numa altura em que Wrestling parecia ter perdido o brilho devido às repetidas manias e idiotices.

Daniel Bryan provou, ao longo da sua carreira e em particular na última Raw, que quando não é mesquinha e cruel, esta indústria consegue criar momentos incrivelmente especiais que nos tocam e nos mudam para melhor.

Fica aqui a minha, muito longa, homenagem e tentativa de honrar o que, ao longo dos últimos anos, foi uma experiência extremamente especial. Peço desculpa aos leitores, por uma edição particularmente longa, e desejo uma excelente a semana todos. Até à próxima edição – prometo que será mais curta.

“Don’t cry because it’s over, smile because it happened.” — Dr. Seuss

Sobre o Autor

- Administradora. Publico parte das notícias, faço a gestão da League, dos Passatempos e ainda sou escritora do artigo “Opinião Feminina”.

28 Comentários

  1. Anónimo - há 10 meses

    Perfeito, é preciso saber a hora de parar.

  2. Diogo7 - há 10 meses

    Que obra de arte. Dos melhores artigos que já li na minha vida. Simplesmente fantástico.

    Parabéns Salgado e obrigado por esta leitura.

  3. danielLP21 - há 10 meses

    Fantástico.

  4. Frederico_WWE - há 10 meses

    Bem… absolutamente sensacional!

    É por estas e por outras que merecias receber um ordenado… isto é demasiado bom e demasiado épico para ser considerado um “Artigo”… enfim ultrapassou todas as barreiras da lógica no que diz respeito a dar uma opinião pessoal sobre um determinado assunto com tamanha qualidade… eu garanto que não vejo melhor em mais lado nenhum… nem sequer nas revistas do sr. Dave Meltzer da Wrestling Observer Newsletter!

    É um privilégio para o W.PT contar com artigos deste.

  5. Anónimo - há 10 meses

    Excelente artigo. Muitos parabéns!
    E não peças desculpa, pois é um regalo poder ler os teus artigos.

  6. Tibraco - há 10 meses

    Um dos teus melhores artigos de sempre. A fazer jus à admiração que sentes pelo Bryan. Foi de uma qualidade assombrosa, parabéns!

  7. SadisticAnarchist - há 10 meses

    “Don’t cry because it’s over. Be grateful because it happened” Christian
    Daniel Bryan só vai haver um e mais nínguem, uma inspiração tanto no wrestling ou fora dele. Grande leitura and #Thanks Daniel Bryan

  8. BRRM - há 10 meses

    Nem tenho palavras para descrever a qualidade deste artigo.

  9. Wrestling Life - há 10 meses

    Sensacional!

  10. RFBM - há 10 meses

    Excelente artigo, bela homenagem ao Bryan.

  11. Rui Ribeiro - há 10 meses

    Espetacular!

  12. Hildo - há 10 meses

    Talvez o melhor artigo que já li nesse site. Obrigado, Salgado.

  13. King of Buzzards - há 10 meses

    EXCELENTE texto, estou aplaudindo de pé tudo o que foi escrito, é sem dúvida alguma o melhor artigo que já li nesse ou em qualquer outro site de PW.

    Uma bela homenagem a esse wrestler e ser humano espetacular, que é uma inspiração para todos e um dos melhores de toda a história, compartilho de cada sentimento.

  14. Rich and Negan - há 10 meses

    AtÉ me emocionou este artigo FANTÁSTICO

  15. Afonso Quintela - há 10 meses

    Artigo razoavel…So uma nota: como se trata de um site de língua portuguesa, frequentado por pessoas que falam portugues, convem pores todo o texto em portugues, inclusive as citacoes que recolheste e que deviam ter sido traduzidas.

    • Obrigado Afonso pela sugestão. De certeza que em 2674 posts que a Salgado já fez no WrestlingPT, ainda ninguém lhe tinha dado essa… :)

      Razoável, lool.

      • joaop - há 10 meses

        o homem é Quintela.. Deve ser da família do Zé Diogo Quintela pra mandar estas piadolas..

      • Afonso Quintela - há 10 meses

        a parte do razoavel era ironia..esperaava que tivessem compreendido…desculpa se nao li os 2674 posts da Salgado…falta me ler o 1173…mandas me o link? Agradecido…

    • danielLP21 - há 10 meses

      “Razoável” xD

    • paige jadbevis - há 10 meses

      “Artigo razoavel” deve ter sido ironia, não pode ser sério!… E outra, vocês querem tudo na mão! Eu sei falar inglês, mas para quem não sabe é usar este site:
      https://translate.google.com.br/m/translate?hl=pt-BR

    • Pirikito - há 10 meses

      Amigo, se o dono do site te trato com esse sarcasmo todo é pq as coisas não vão mudar, eu particularmente não leio os artigos dos escritores daqui por vários motivos, sendo a utilização do inglês em artigos português um deles, vê se o AS (jornal espanhol) pública colunas em ingles

      • joaop - há 10 meses

        Os Espanhóis e Brasileiros traduzem tudo e mais alguma coisa. Não vês nada legendado, a não ser que queiras. Alemães incluídos. Ajuda uns, emburrece outros. Pra todos os casos, usem o Google tradutor.. ou deixem de ser preguiçosos e aprendam inglês.

      • Pirikito - há 10 meses

        Seu comentário não ta errado, tirando a parte da “preguiça”, muitas pessoas estudam/trabalham e não tem tempo de fazer um curso a distancia

  16. Kurt Cobain - há 10 meses

    Baita de um artigo diga-se de passagem…parabéns Salgado..e mais uma vez #thankyoubryan

  17. paige jadbevis - há 10 meses

    Não há palavras para descrever a qualidade deste artigo!

  18. joaop - há 10 meses

    #thankyousalgado

  19. 434 Days - há 10 meses

    Grande artigo mesmo. Merece uma ovação.

  20. Sorlei Rui Oltramari - há 9 meses

    É um pouco tarde para comentar, mas não podia deixar passar sem dizer que este foi o MELHOR ARTIGO QUE EU LI NA MINHA VIDA. Uma escrita fantástica e uma excelente reflexão do que foi a carreira desse pequeno grande homem. De fato, por querer sempre que ele ganhasse mais e mais, talvez não nos tenhamos dado conta que ele já fez história. Ganhou todos os títulos possíveis na WWE e, mesmo sem o apoio da WWE, moveu multidões ao seu favor. Já é uma lenda.

    É duro ver alguém pelo qual temos tanto apreço se reformar logo aos 34 anos, mas é infinitamente melhor passarmos por isso agora e saber que ele o fez a tempo de poder ficar tranquilamente com a família que irá construir. Agora só nos resta reconhecer e celebrar a carreira daquele que, mesmo tendo ficado apenas cinco anos na WWE, fez o suficiente para ser lembrado por todos.

    #ThankYouBryan

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