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Opinião Feminina #319 – Raising the blue flag

A desnecessária, pelo menos a meu ver, separação do plantel em dois programas que iriam tentar ser o mais distintos possíveis tem sido um sucesso aos olhos de muitos fãs que têm celebrado a qualidade superior do SmackDown. E, em grande parte, concordo que o SmackDown tem apresentado um programa de qualidade superior, no entanto não acho que tem sido de qualidade tão arrasadora que justifica a mudança que a WWE fez no verão.

Ao contrário do que se possa pensar, nem tudo é rosas nas noites de terça e, tal como tudo o que foi criado para televisão, o SmackDown também acusa as suas falhas ocasionalmente. O que o coloca numa situação superior ao Raw, não é tanto a sua qualidade em ringue, mas sim a sua consistência. Enquanto o Raw perde muito tempo a correr no mesmo sítio, sempre com as mesmas pessoas no topo, o SmackDown mostra mais paciência e cuidado na apresentação do máximo número de pessoas possível.

Podemos começar por comparar as divisões femininas dos dois programas para perceber isso. Até há pouco tempo, a divisão feminina do Raw resumia-se unicamente a Charlotte e Sasha Banks. Nia Jax, Bayley e Dana Brooke apareciam ocasionalmente, mas quase sempre envolvidas diretamente na rivalidade principal e sempre com muito menos destaque, apesar do Raw ter três horas de duração. As rivalidades em questão não são particularmente fluídas ou lógicas – a rivalidade de Sasha Banks e Charlotte apresentou vários problemas, assim como o facto da companhia ter hesitado várias vezes e deixado pontas soltas no que toca à rivalidade de Charlotte e Dana Brooke.

O grupo feminino do SmackDown, apesar de mais fraco no seu geral, é apresentado de forma mais consistente. Desde a separação do plantel que existem, pelo menos, duas rivalidades a dominar a divisão e, apesar dos ocasionais combates de equipas que juntam heroínas contra vilãs, são completamente independentes. Basta vermos as edições mais recentes, onde temos a rivalidade pelo título, a rivalidade envolvendo Nikki Bella, a participação feminina na rivalidade de Dean Ambrose e The Miz, assim como a história de Carmella com James Ellsworth. São várias personagens femininas a serem usadas ao mesmo tempo e não da mesma forma. E isto com apenas duas horas de duração!

A WWE ainda não evoluiu o suficiente ao ponto de revolucionar um pouco as histórias em que as senhoras estão envolvidas – até no SmackDown, frequentemente vemos as personagens femininas a serem exageradamente maliciosas umas com as outras, seguindo o estereótipo que a WWE cultivou ao longo das últimas décadas com insultos questionáveis e objetivos ridículos. Todavia, é preciso dar crédito onde este é merecido. Se por um lado reviro os olhos à ideia da rivalidade de Natalya e Nikki Bella incluir comentários como “John Cena nunca irá casar contigo”, como se tal fosse aquilo que Nikki mais deseja e sem o qual nunca seria feliz, admiro a graciosidade e contenção com que a equipa criativa do SmackDown tem lidado com a relação de Renee Young e Dean Ambrose.

The Miz reconheceu, em plena transmissão de SmackDown, que Renee Young e Dean Ambrose são um casal, numa tentativa de arreliar e provocar Young. A reação de Young – e diga-se de passagem, esta é uma performer e peras e, de longe, a melhor entrevistadora que a WWE alguma vez teve sob contrato – foi extremamente natural e, acima de tudo, errada do ponto de vista moral.

Mas, em vez de Dean Ambrose aparecer que nem um cowboy para proteger a honra da donzela, esta lidou com a situação sem nunca estar em verdadeiro perigo e, mais tarde, reconheceu que tinha agido mal e pediu desculpas. Esta não foi tratada como uma donzela incapaz, mas sim como um ser humano. E, como penso que todos já nos apercebemos, até o mais honrado e honesto ser humano é imperfeito e comete erros.

Gostei de Renee Young ter cometido o erro de esbofetear The Miz. Apesar de ser uma ação demasiado banalizada e completamente errada, pois deveria ser tão aceitável uma mulher bater num homem como um homem bater numa mulher, gostei porque Young reconheceu que estava errada. Young mostrou verdadeiros remorsos e pediu desculpas (mais pela situação ética que tinha quebrado, mas não se pode ter tudo na vida). Não há qualquer problema os heróis cometerem erros, especialmente no calor do momento, desde que reconheçam que estão errados. É desta forma que os fãs encontram maneira de se relacionar com eles. Na vida real, ninguém é perfeito e faz a sua vida sem nunca cometer qualquer erro. Na ficção, também ninguém deveria ser.

Estes pequenos desenvolvimentos e as interações entre Young e Miz têm tornado esta rivalidade muito mais interessante do que tinha o direito de ser.  A apresentação das divisões femininas na WWE é uma mistura de velhos hábitos e estereótipos com tentativas forçadas de fazer melhor pelo reconhecimento público. Nesta mistela de passado com futuro, ocasionalmente surgem bons momentos criativos. A maior falha da divisão feminina do SmackDown continua a ser a performance dentro de ringue, que não sendo má, não está ao nível do que espera. Como lutadora, Alexa Bliss não é alguém que teria posto já no plantel principal, especialmente como campeã. Porém, o seu reinado tem sido extremamente interessante de acompanhar e agora temos o mistério da La Luchadora por desvendar.

É exatamente por causa disso que o esforço da equipa criativa do SmackDown em contar histórias e mantê-las interessantes é ainda mais apreciado.

Quando a palavra de ordem é consistência, os melhores exemplos a dar são AJ Styles e The Miz, os verdadeiros pilares do SmackDown desde a separação do plantel. É graças a eles que o SmackDown se tem aguentado criativamente e sido tão interessante ao longo dos últimos meses. Apesar de serem os dois vilões no papel, AJ Styles é extremamente popular na prática, o que torna a dinâmica das suas rivalidades um pouco complicada. No entanto, apesar desse detalhe inconveniente, ambos dão ao SmackDown aquilo que o Raw não tem – alguém que os fãs adoram e alguém que os fãs detestam.

Enfim… O que dizer de The Miz? The Miz é o que se encontra no dicionário quando se procura o significado da palavra “consistente”. Este não tem sido o membro mais usado do plantel ao longo da última década – tem tido altos e baixos, varia entre campeão principal ou detentor de títulos secundários. Mas não interessa qual é a posição de The Miz num evento. Não interessa se está a abrir ou a fechar. Os fãs podem sempre contar com o melhor dele. Ao longo da segunda metade de 2016, The Miz tem vindo a brilhar cada vez mais, mas só temos reparado porque a WWE decidiu novamente apontar-lhe o holofote, porque na realidade The Miz está sempre a brilhar em tudo o que faz.

Não havia razão nenhuma para a sua rivalidade com Dolph Ziggler ter gerado metade do interesse que gerou, mas a verdade é que, mesmo trabalhando com uma personagem que não tinha qualquer esperança, The Miz conseguiu que esta chamasse à atenção. Já se tinha visto os dois a lutar milhares de vezes, já se sabia que a WWE não ia fazer nada com Dolph Ziggler, o interesse em Ziggler já tinha desaparecido há muito tempo, mas mesmo assim, Miz ainda conseguiu que algumas pessoas se importassem.

A sua rivalidade com Daniel Bryan, apesar de ser mais uma história envolvendo figuras de autoridade e nunca poder culminar num combate entre ambos, também é dos melhores aspetos do SmackDown. Não porque Daniel Bryan é um excelente herói (este é popular, mas do ponto de vista moral, nem sempre está certo e quando não está, nem sempre o reconhece), mas porque The Miz é um fantástico vilão. Irrita-me quando a WWE cria histórias do género envolvendo talentos que estão de fora dos ringues por problemas de saúde ou talentos que já se reformaram. Estão a encher-nos a boca de água ao fazer-nos sonhar com algo que provavelmente nunca vai acontecer e nem deveria acontecer, para bem de um dos envolvidos. É cruel.

The Miz está a fazer pelo título Intercontinental o que John Cena fez pelo título de Estados Unidos em 2015 – está a dar-lhe relevância. Ao longo dos últimos meses, temos assistido a uma verdadeira tour de force de The Miz. E ainda bem. Ainda bem que ele nos está a relembrar (e a dar conhecer aos mais céticos) que não pode ser posto de parte e esquecido. The Miz vai ser sempre um dos mais subestimados na história da WWE, porque consegue ser tão detestável que, mesmo sendo um dos melhores aspetos da programação da WWE, custa horrores a muitos fãs admiti-lo. Espero que quando entre no Hall of Fame, os fãs o reconheçam e o tratem com o respeito que ele tanto fez por merecer.

E, por fim, AJ Styles, o atual campeão principal do SmackDown é também o seu derradeiro pilar. Enquanto este for vilão em história, vai sempre existir o problema deste ser adorado pelos fãs. É simplesmente impossível odiar alguém que é tão bom a fazer o seu trabalho (especialmente quando vem pelo caminho aprovado pelos fãs, ao contrário de The Miz). AJ Styles faz toda a gente que está no ringue consigo brilhar. É notório o seu árduo trabalho e esforço para fazer do seu combate o melhor da noite.

Uma das consequências da separação do plantel é o aumento do número de eventos o que, infelizmente, não significa necessariamente mais combates de qualidade, como temos visto ao longo dos últimos meses. Mas, por muito desnecessário que seja cada evento, contamos sempre com uma atuação brilhante de AJ Styles.

Este é o individuo perfeito para carregar um programa (ou companhia) às costas. Só tenho pena que esta oportunidade não tenha surgido mais cedo, teríamos ganho mais anos fenomenais de AJ Styles na WWE. Graças a ele, personagens como Baron Corbin encaixam que nem uma luva no combate principal da noite e têm o privilégio de brilhar. E agora, com John Cena de regresso, temos o reacender de uma das rivalidades principais de 2016. John Cena regressou determinado e aborrecido de todas as vezes que perdeu para Styles. Numa decisão que peca por tardia, John Cena reconhece a realidade e, em vez de se comportar como um desfavorecido como costuma fazer tantas vezes, admite que existem vários privilégios associados ao seu prestígio e nível.

É raro ver a WWE a desviar-se um pouco da narrativa de coitadinho do John Cena, uma das razões que o tornou tão aborrecido ao longo dos últimos anos, e reconhecer a realidade da situação. A última vez que me lembro de situação semelhante acontecer foi em 2011, quando CM Punk acusou John Cena de ser um legado vivo e não um desfavorecido como este tanto queria fingir. No entanto, desta vez foi John Cena a admiti-lo. Não acredito que se transforme num vilão apenas por causa desta sua nova atitude, mas também John Cena nem sempre foi a figura ética mais perfeita.

Este frequentemente envolvia-se em rivalidades de forma pouco heróica (humilhando ou provocando o adversário) e, quando perdia, costumava fazer desculpas ou chamar nomes ao seu adversário até este ceder e dar-lhe outra oportunidade. No fim do dia, existe uma padrão para todas as rivalidades de John Cena e a que este tem com AJ Styles não tem fugido muito ao padrão Reservo a esperança de ver um novo lado de John Cena. Não um lado maléfico, mas um lado imperfeito e humano. Um lado que erra, mas que admite os seus erros. Penso que estamos todos cansados do juvenil que faz piadas infantis para levar a sua avante.

Nem tudo no SmackDown são rosas. As histórias não são perfeitas e dignas de prémio. Mas, existe a distinta impressão de uma equipa (seja ela formada por escritores, produtores ou até os chefes principais da WWE) de fazer o melhor com o que se tem à disposição. Em grande parte, essa estratégia tem resultado num programa consistente e interessante de assistir todas as semanas. A falta de pressão de ser o Raw ou de ter as estrelas mais controladas da companhia dá tempo ao SmackDown para respirar fundo, organizar as peças do puzzle e começar a montá-las com calma.

É graças a essa calma, paciência e óbvio planeamento que somos brindados com belos eventos como a última edição de 2016 do SmackDown que foi, facilmente, melhor do que qualquer evento exclusivo do programa. E, agora que estamos a entrar em época de WrestleMania, os feitos do SmackDown são ainda mais enaltecidos quando temos em conta que o veterano que domina o topo do card e regressa para roubar o destaque ao presente é apenas John Cena. Coloca tudo em perspetiva, não?

Até à próxima edição!

2 Comentários

  1. Architect of a Dream - há 6 meses

    “E, agora que estamos a entrar em época de WrestleMania, os feitos do SmackDown são ainda mais enaltecidos quando temos em conta que o veterano que domina o topo do card e regressa para roubar o destaque ao presente é apenas John Cena.”
    Tudo dito em tão poucas palavras!
    Excelente artigo Salgado

  2. Gonçalo" the best" - há 6 meses

    Excelente artigo!

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