The People’s Elbow #82 – Submissão

Olá, caros visitantes! Neste esforço fortuito de assistir à actualidade da programação da Luta Livre, volto a ter de recorrer à capacidade de improviso.

Peço desculpa e anúncio que hoje o artigo será dedicado àqueles movimentos usados para fazer com que se desista por submissão.

Nestas “holds” e “stretches”, inclui-se uma série de manobras usadas para imobilizar o oponente, colocando pressão sobre certas partes ou posições do seu corpo.

Têm o intuito de enfraquecer o adversário ou forçá-lo a dar Tap Out, contudo, numa performance segura, não se chega ao ponto de submetê-lo ao risco de lesão ou corte no oxigénio.

Camel Clutch foi um move inventado no México por Gory Guerrero, tendo sido mais tarde divulgado por Ed Farhat (Iron Sheik), que o usou como seu finisher.

Seria habitual daí para a frente a sua adopção por personagens cujas storylines reflectiam o domínio nacionalista das suas pátrias.

Traduzido à letra, a designação “Bossa do Camelo” revela ambientes desérticos indianos (Jinder Mahal) ou árabes (Muhammad Hassan), tal como aborda a questão da Guerra Fria vivida nos idos verdes anos do seu principal utilizador e dos conflitos sociais e políticos entre EUA e Rússia patente no Rusev.

O aplicante senta-se nas costas do oponente deitado e põe os braços deste para trás das suas pernas, ficando eles imobilizados pela obstrução dos antebraços nas coxas flectidas.

O executante aplica o “Chin Lock” e encosta-se para trás, puxando-lhe a cabeça e aplicando pressão no pescoço e costas. Isto vai prender ainda mais os braços às pernas contrárias, dificultando o que antes era fácil de soltar e diminuindo as hipóteses de recursos a quebrar o ataque ou chegar às cordas.

O sofredor contorce a barriga e todos os membros inferiores estão colados ao tapete do ringue. O atacante pode gerir a densidade de dor a efectuar consoante se posicione para trás ou para a frente.

Das poucas alternativas para sair deste bloqueio está a possibilidade da vítima tentar levantar-se ou pôr-se de joelhos com o opositor às costas.

Aí poderá contra-atacar ou libertar-se, ocasionando uma bela maneira de voltar à luta após alguns segundos para respirar.

Esta é uma das minhas favoritas e uma das que precisa de ser feita de modo a ostentar toda a credibilidade possível. Digo isto por haver a sua “standing variation”, popularizada pelo Scott Steiner como Steiner Recliner, que não gosto tanto por ele ficar de pé a segurar o queixo do inimigo, oferecendo-lhe maiores garantias de se safar dali.

Cobra Clutch é uma Half Nelson Sleeper celebrizada pelo Sgt Slaughter e pelo Ted DiBiase (Million Dollar Dream), na qual o lutador está atrás do oponente e prende-lhe o ombro com o braço, usando depois o seu braço livre para puxar o tal no qual está a aplicar o Half Nelson contra a sua face.

Neste cruzar de braços, o lutador que está na ofensiva junta os pulsos atrás do pescoço do atleta para o fazer perder a consciência através da punição da artéria carótida.

Não só o braço defensivo escolhido para ficar preso sofre imenso desconforto, como é ele que o estrangula. É uma forma humilhante de desistir, pois o executante tanto o pode partir como tirar-lhe o ar quando o junta à sua boca.

O braço está controlado em toda a sua extensão, desde a omoplata à mão, mas ainda sobra o outro com o qual se poderá desembaraçar. Se houver abertura entre o braço e o queixo, poderá tentar passar a cabeça por baixo dele.

Confesso que a princípio me metia confusão esta amálgama de braços e não sabia o que estava a ver, mas explicado não tem tanta ciência quanto isso.

Continua a ser das minhas favoritas e a que me despertou interesse pelas submissões. Apesar de se concentrar só no braço e cabeça, é verosímil que o adversário não riposte pela sensação de desmaio provocada por aquela tensão por trás do pescoço e a respiração reduzida por aquela forca.

O Crossface é praticado de diferentes formas, todas elas atingindo um dos braços do oponente, como no Crippler Crossface do Chris Benoit, que envolvia o braço numa Leg Scissors, resultando nele ocupando uma posição sentada. De resto, pode-se visualizar o cadeado feito pelas duas mãos à volta da face do opositor, aplicando pressão na área do pescoço quando puxado para trás.

Daniel Bryan prefere uma “omoplata position”, o que, de igual modo, pressiona o braço só que logo desde cima. Uma terceira variante é a combinação com o Arm Bar, como exemplifica o Batista Bite.

Neste caso, o Animal está inclinado enquanto actua. Julgo aqui ser pior para se poder desprender, pena não ter havido continuação no seu reportório.

Quanto às outras, são eficazes, mas cada uma abre brechas para o final feliz do mártir na direcção das cordas, visto que possui outro braço e as pernas livres.

Têm o benefício de poder aparecer em qualquer situação, até naquelas desvantajosas, mas são vulneráveis ao assentamento.

A Mandible Claw (apesar de não parecer) pode provar dores intensas quando o agressor mete os seus dedos na boca do oponente, deslizando-os para debaixo da língua e o polegar do maxilar.

Foi inventado pelo médico Sam Sheppard durante a sua experiência nas lutas profissionais e popularizado pelo Mick Foley.

Parecido a algo que se faz para vomitar, virou fenómeno quando surgiu a peúga. Não é ortodoxo mas deu os seus frutos e, se pode ser anulado por o adversário se poder movimentar para onde quiser ou socar ou pontapear, é verdade que quando tinha o azar de cair ao chão de lá não saía.

Transparece a sensação que vai sufocar ou fazer regurgitar os que o sofrem, o que é excelente indício da sua qualidade e pertinência.

No Full Nelson, por trás do rival, o atleta desliza os braços por baixo dos sovacos e amarra as suas mãos por trás do pescoço, entrelaçando os dedos e empurrando a cabeça dele contra o peito.

O termo é derivado do herói de guerra britânico do século 19 Horatio Nelson, que usava estratégias baseadas no cerco aos oponentes.

É aplicada pressão no pescoço ao não deixar que ele se erga, sendo segurado pelas palmas do concorrente, que o impele para a frente.

Cada braço fica dorido e, para não haver escapatória possível, o aplicante não fica parado a olhar, pelo contrário, abana-o para todos os lados, apressando a vitória.

Se o executante se exceder, pode deslocar-lhe ou partir-lhe os braços ou aleijar-lhe o pescoço, sendo considerado perigoso e banido das provas amadoras.

Já o seu uso nos desportos de combate é limitado, sendo apenas segura para controlar o oponente. Tendo origens tão antigas, ganhou novo balanço pelo Chris Masters.

Cá está outra das minhas predilectas e que indica que devagar se vai ao longe, dado que é das mais minimalistas, não deixando de ser potente.

STF é a abreviatura para Stepover Toehold Facelock, no qual o lutador agarra uma das pernas do oponente (deitado de barriga para baixo) e mete o seu tornozelo entre as suas coxas.

O agressor deita-se sobre as costas do adversário e prende as suas mãos à volta da cabeça dele, puxando-a para trás, afectando não só a ela como as costas e o pescoço.

O inovador deste move foi Lou Thez e foi tornado famoso por John Cena. A sua variação Arm Trap Cross Leg foi pensada por William Regal, que a baptizou como Regal Stretch.

Nela, a diferença é que o usuário agarra as pernas do oponente e cruza-as contra os seus joelhos. Existe também o STS (Stepover Toehold Sleeper), versão modificada por Masahiro Chrono.

Enquanto que no Crossface a inutilização do braço do inimigo é uma prevenção a que ele possa tentar escapar, não sendo o objectivo danificá-lo, aqui a prisão do pé terá por certo igual ideia para contrariar a tentativa de fuga, só que infligindo maior dor.

O pé fica virado para cima, na direcção oposta à pressão que está a ser exercida a partir do queixo, o que causa pânico por opor forças contrárias.

O Body Lock (conhecido por Bear Hug) é uma “Stand-Up Grappling Position” onde os competidores estão frente a frente , com o utilizador a estender os braços à volta da cintura ou do peito do outro, aproximando-se os dois num abraço apertado, como se fosse feito pelos ursos.

O causador fica numa posição dominadora de grande controlo sobre o outro, apertando-o, espremendo-o e agitando a cada lado, de modo a gerar maiores dores nas costelas e coluna.

É frequente ser usado por indivíduos altos e corpulentos, evidenciando os efeitos que projecta nos mais pequenos quando apanhados por ele, não resultando se o castigado tiver igual peso e altura.

Maior a pressão exercida, maiores serão as dores nos ossos e músculos e oxigénio a sair dos pulmões. A única alternativa para o desaire das suas intenções serão os punhos e os murros que poderão dar para obrigar o antagonista a ir aliviando ou a libertar esta chave.

O Abdominal Stretch privilegia a lateral do adversário, travando uma das suas pernas para a seguir concentrar-se no braço que está mais perto de si, trancando-o contra as costas.

A vítima irá ficar na diagonal, com as costas flectidas e o abdómen esticado, e impedido de andar pelo bloqueio anterior nas suas pernas.

Foi mais habitual e fortalecido noutras épocas, agora pouco se vê e nunca é observado como conclusão da luta, já se tendo a certeza do seu insucesso, isto porque o “prisioneiro” poderá rodar e reverter a situação a seu proveito.

No Boston Crab, o praticante pega nas duas pernas do opositor pelos seus braços e fá-lo girar de barriga para baixo, pondo-se por cima dele no processo.

Irá aumentar a intensidade se estiver sentado e de costas voltas, pois se se agachar poupa demasiado o oponente e permite-lhe levantar-se ou partir para o Inside Cradle.

Na era moderna, não é tratado como uma submissão letal, apesar de tê-lo sido no passado. No Japão, por exemplo, é usado para derrotar jovens inexperientes e a habilidade para contorná-lo é considerado sinal de crescimento. A excepção à regra é Chris Jericho e a sua versão High Angle ou Elevated.

O Walls of Jericho é similar ao normal, mas adiciona maior agonia nas costas do rival, pondo-o todo dobrado e quase assente sobre a sua cabeça.

O Liontamer pressiona o joelho nas costas do oponente e, ao seu lado, estão outras variantes como o Cross Leg, Inverted, Over the Shoulder, Single Leg, Reverse etc…

Não sou apologista de que desistir para qualquer submissão vendida como deve ser é símbolo de fraqueza. Se toda a vez que surge é quebrada pelas cordas ou desenvencilhada, não vale a pena andar a fazê-las.

A procura pelas cordas ou para sair dali demonstra que a presa está a sofrer, o que valoriza as suas pretensões. Não acho certo que se dê logo Tap Out, só que, vendo que se está no centro do ringue e fora do alcance de sobreviver, não me custa nada aceitá-lo.

Se o público se revolta, terá de haver distinção entre finishers e submissions porque, como tudo está, há maior aceitação dos primeiros que dos segundos.

A culpa não será toda deles, não foi nenhum deles que pôs um especialista nesta área a ter de utilizar uma joelhada como golpe final para poder vencer o John Cena, e não foi ninguém das bancadas que teve a ideia de criar esta personalidade “Never Give Up”.

Foi isto que vos pude trazer nesta edição, sei que não estou no meu melhor e peço perdão. Não sei sequer o futuro do espaço, está a ser difícil conciliar a procura de trabalho com a visualização do que nos vai sendo servido todas as semanas nesta indústria.

Falo nisto porque, não havendo notícias para debater e não podendo comentar o que não vi, não quero estar só a ir buscar assuntos fáceis. Vão aguardando novidades, abraços a todos e obrigado pela vossa leitura!

PS: É a muito custo que informo que esta foi a derradeira cotovelada que vos dei, algo que entenderão pelas frases anteriores.

Preciso de orientar a minha vida profissional e ir tentando não perder pitada deste desporto que tanto adoro. Para já, é o final desta aventura fabulosa que se iniciou no Universo.

Agradeço ao Guilherme Nunes e ao Luís Salvador pela aposta e confiança e a toda e qualquer pessoa que dispensou parte das suas Segundas-Feiras a ler estas crónicas.

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “The People’s Elbow”. Nascido a 25/2/90 na margem Sul, fã desta modalidade desde 2009.

8 Comentários

  1. Kauê Souza - há 2 anos

    Parabéns o artigo está muito ótimo, na minha humilde opinião, eu acho que os golpes de submissão devem ser feitos em ultimo caso, para dar um ar diferente para a luta.

    A minha submissão preferida é o ”Haas of Pain” do Charlie Haas, que eu acho uma ótima submissão, e vi uns vídeos dos 45 moves dele, e acho o mesmo um bom wrestler.

    Se eu fosse um lutador gostaria de usar este move de submissão.

    #By

    • SergioR - há 2 anos

      Essa submissão é tipo o Calf Slicer do A.J.Styles, não sabia que o Charlie Haas fazia essa manobra, aliás eu não via wrestling com mais atenção até 2011 mais ou menos.

      • Kauê Souza - há 2 anos

        SergioR, eu também não sou um fã das antigas do wrestling, comecei a acompanhar quando passava no SBT em 2006, depois que o programa saiu do ar, só voltei a assistir em meados de 2011, mas acredito que essa Subimission Move que o Haas usa já faz um tempinho.

  2. Don_Ricardo_Corleone - há 2 anos

    As minhas manobras de submissão favoritas são aquelas mais realistas, que de facto na vida real seria possivel fazer sem a ajuda do adversário, que realmente inflija dor e que não seja fácil escapar dela.
    O problema do Mandible Claw é precisamente esse, talvez doa mas é relativamente fácil escapar, nada que um pontapé entre as pernas não resolva. lol. Igualmente o STF do John Cena em que ele nem disfarça o facto de não o conseguir fazer como deve ser, sem fazer o minimo de pressão no pescoço.
    Sempre gostei mais do Cross Arm Breaker, o Del Rio então é mestre nisso, o Crossface, a Gogoplata e o Ankle Lock, especialmente aquele do Kurt Angle em que ele se deita e se agarra à perna do adversário enquanto torce o tornozelo, aí sim deixa o adversário sem escapatória e é doloroso como o caraças!
    Eu nunca fiz wrestling, nem treinei, nem posso por razões de saúde, cuirosamente nunca levei o Full Nelson muito a sério até que um dia eu fui a um médico osteopata me fez algo parecido, senti uma pequena pressão no meio das costas, percebi logo que aquilo feito com força, para magoar, é para ser mesmo levado a sério. Tenho algumas dúvidas relativemente ao Sharpshooter e ao Boston Crab mas como não sei se é mesmo doloroso não posso opinar muito.

  3. Febras - há 2 anos

    eu curto o Anaconda Vise e o Kimura Lock

  4. Roberto ''The_Viper'' #Chaves Eterno - há 2 anos

    Belo artigo.
    A submissão que eu acho mais legal é sem dúvida a Hell’s Gate e o Cross Armbreaker :)

  5. danielLP21 - há 2 anos

    Tenho muita pena, Miguel. Os teus artigos, não sendo dos mais populares, sempre foram de enorme qualidade.

    Quanto ao conteúdo deste último artigo, devo dizer que já sofri “Full Nelsons” e “Crossfaces” e a dor é mesmo enorme quando quem aplica a manobra faz muita força. No “Full Nelson”, deixas de sentir força nas omoplatas e nos ombros, no “Croffsface” a dor nas costas é imensa.

    Mesmo não sendo visualmente atractiva, não sei até que ponto um “Mandible Claw” não será eficaz. Não sei qual é o mais eficaz, porque felizmente não sofri muitos (poucos, na verdade), mas acredito que a esmagadora maioria provoque mesmo muita dor.

    Até qualquer dia, Miguel.

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