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The People’s Elbow #83 – A Momentary Lapse of Reason

“O coração tem razões que a própria razão desconhece” é a frase mais citada do físico, filósofo e teólogo francês Pascal. Nas trajectórias das nossas vidas, qual de nós nunca se arrependeu de decisões precipitadas ou não pensou com o coração ao invés da cabeça?

Quando foi anunciado o final deste espaço, risquei do dicionário a palavra “irrevogável” para definir essa opção, até porque “nunca digas nunca” é outro ditado popular que absorvo.

O intelecto dizia-me que era a altura certa para parar, a emoção fez-me reconsiderar poucas semanas depois, tendo pedido para voltar e recuperar aquilo que estava a deixar os meus dias vazios.

Adoro o desporto de que trata este site e gosto de escrever, então, pouco ligando a outras reacções que não a do Luís Salvador, arrisquei e cá estou para ficar enquanto for possível.

Se eu tive este abalo de consciência, há mais quem tenha destes lapsos, tendo havido um particular que despoletou este regresso para que possa falar sobre ele.

Após ter deixado claro não querer voltar, a equipa criativa às ordens de Vince McMahon começou a conceber formas de reintroduzir Rey Mysterio no ringue antes da Mania 31.

Para isso, foi-lhe oferecido contrato lucrativo, tendo a sua vontade dado uma reviravolta inesperada. Durante o seu hiato para curar lesões, foi reportado que queria sair e que o seu contrato teria sido renovado sem a sua aprovação. As visitas à Lucha Underground e o vídeo enviado à AAA deram a entender qual a sua opinião acerca disto, desafiando ou até tentando de propósito o corte de relações contratuais.

Só que, não sei porquê, a World Wrestling Entertainment continua a achar que tê-lo aos 40 anos e de relatório clínico carregado é “Best For Business”.

Tudo porque não se soube (ou não se quis) criar novas atracções para o mercado mexicano e se pretende obrigá-lo a corresponder a essas manobras financeiras.

O seu sucessor não foi preparado de acordo ao exigido, até quando esteve ao seu lado, e a demissão de Alberto del Rio neste Agosto cavou um fosso na comunicação com as comunidades latinas.

A tensão já se havia iniciado quando, a 26 de Março de 2014, Luís Urive anunciou que voltaria a lutar no México, confirmando a sua rescisão com a empresa americana numa shoot, na qual reclamou os direitos sobre a caracterização de Sin Cara e desculpou o seu falhanço no facto de não lhe ter sido permitido usar o estilo de luta que o tornou estrela na Lucha Libre enquanto Místico.

Ídolo no seu país, houve divisão de águas na procura dos porquês sobre o fracasso fora de portas e os motivos por ele apresentados, adicionados às disputas legais e à lentidão da definição da sua situação, fizeram-no ganhar defensores e, por conseguinte, atacantes à sua entidade patronal.

Entre esta desilusão e as constantes baixas médicas do 619, sobrava apenas “El Patrón” como “Mexico’s Greatest Export”.

Era ele o representante daquele povo e do seu fervoroso sangue, sobretudo quando foi face, e da sua aristocracia e essência, moldes nos quais vincou a sua personalidade de vilão.

Acusado de falta de conduta ao agredir um funcionário que lhe terá dito para ir lavar pratos (numa alusão à sua nacionalidade e ao estrato que esta usufrui nas terras do tio Sam), foi despedido e trouxe consigo a raiva e o rancor de ter sido alvo de chacota xenófoba e a segurança de ter feito aquilo para defender a sua integridade.

Já achando nisto tudo demasiadas coincidências, a população latina fez-se ouvir contra estes testemunhos e as posteriores políticas de proibição de exercício de função de 90 dias.

Se será doloroso para toda esta massa associativa não ver os seus heróis reconhecidos no exterior, ainda mais o é quando é praticada a injustiça da suspensão temporária.

Aí, este género de cláusulas, por mais vulgares que elas possam ser, são entraves vistos como implicância e perseguição e, por coisa pouca, fica prejudicada a ligação entre as duas partes.

As pessoas daquele país, reflectidas na figura de Alberto, começaram-se a questionar sobre a banalidade e frequência daquelas piadas, anedotas ou insinuações sobre a sua cultura.

Não podendo rivalizar contra os todo-poderosos dos Sports Entertainment, poderiam, se quisessem, virar as luzes para, por exemplo, a CMLL e a AAA.

A riqueza da sua tradição desportiva bastaria para provocar danos diplomáticos, logísticos e materiais naquilo que são as metas orçamentais e de preparação de eventos da conjuntura de Stanford.

Para estreitar as relações e continuar a tirar proveito financeiro, eu até percebo que se perca a capacidade de reflexão e se aposte no que há.

Só que o que há aleija-se por tudo e por nada e acabou de completar 40 anos, o que para o que ele faz é quase a terceira idade.

Até posso corrigir o tempo verbal e escrever “fazia”, isto porque dá dó comparar as suas lutas de há 15 anos com as mais recentes.

Ele não sabe lutar mal, não é isso, não quero aqui cair no capítulo do desrespeito ou desconsideração, estou apenas a analisar verdades.

Rey é (ou foi, lá está) o maior “voador” dos escaparates desta indústria, daí que custe vê-lo a sacrificar-se.

Dirão que pela quantia que irá receber não será nada disso, que estará tudo certo, mas julgo que ainda fica pior o cenário, no qual ele foi persuadido, convencido ou manipulado a não conseguir dizer não.

É aflitivo o que se irá passar de seguida se se pensar que será suficiente abrir os cordões à bolsa para homens cansados e saturados verem a sua rebeldia vencida pela exaustão e pressão dos dólares.

Por trás disto, estarão mais uns pares de anos em que se continuará a adiar o futuro enquanto este puder prosseguir nos seus pulos e a vender máscaras.

Ele viu-se obrigado a aceitar e não teve para onde fugir, o que acaba por ser ingrato e o oposto do que é defendido nas leis de protecção do talento.

Creio que seria acertado uma reformulação das regras impostas quanto a isto, dado cada uma delas visar os astros de 45 ou mais anos e não ter o sentido de distinção entre eles.

O que quero dizer é que a esperança média de carreira vai depender do que cada indivíduo assimila para si: observá-lo a efectuar todas aquelas loucuras arriscadas não é igual para os que, desde cedo, vêm limitando a quantidade de golpes exagerados ou perigosos.

Sendo elas cada vez menos, não se justificará uma renovação de moves porque aquilo faz parte do espectáculo dele. Se há coisa que não quero é que ele sofra de Síndrome de Ric Flair, cujas lutas contra o Steamboat tive de descobrir para ficar a saber que ele não fora só Chops e Figure 4 antes.

Qual será a sua relevância no quotidiano e na actualidade, ela que já vinha sendo ofuscada e criticada pelo público pela notória falta de fulgor ou necessidade de ser lançado?

As sucessivas derrotas e as presenças infundadas são parecidas àquelas substituições feitas pelos treinadores nos períodos de descontos.

Aqui é que a porca torce o rabo: ele é esmiuçado não pelo que poderá fazer nas suas performances mas pelos quilates que daí ainda se subtrai.

Está-se a agir, portanto, como na Liga Indiana de Futebol, onde cada clube terá antigos craques a jogar, alguns deles estando retirados quando a proposta foi formalizada.

Tudo pelo vil dinheiro, como diria Marcos Feliciano. Seguindo na génese do desporto rei, tal como muitos colossos dão permissão aos jogadores veteranos ou históricos de voltar aos seus países ou às casas de partida para acabar as suas carreiras, não seria bonito o gesto de libertá-lo para que pudesse agradecer e despedir-se numa das promoções da sua terra?

Não sei se ele teria interesse nisso ou se preferiria parar neste instante, não custava era nada perguntar! Para ser sincero, as atitudes provocatórias e as indirectas inteligentes na gravação daquele vídeo ou nas visitas aos bastidores não são tanto aproximação a essas organizações mas tentativas revoltadas de violação de actas ou acórdãos contratuais.

Ele achou que seria punido, castigado e que não veria o seu contrato revalidado, só que ninguém se comoveu ou irritou demasiado.

Uns são filhos e outros enteados quanto a desafiar a autoridade, restando agora aguardar que o circo continue e que isto não afecte os que estão a dar frutos na brand amarela.

Neste retorno relâmpago, tentei adquirir o ritmo até a escrita começar a fluir e estou satisfeito pelo resultado alcançado; espero que esta seja uma nova fase e conto convosco para isso.

 

Sobre o Autor

- Escritor do artigo “The People’s Elbow”. Nascido a 25/2/90 na margem Sul, fã desta modalidade desde 2009.

4 Comentários

  1. Anónimo - há 2 anos

    MT bom .. Kalisto

  2. João Canelas - há 2 anos

    Esse Pink Floyd no título… :D

  3. Damien Mizdow - há 2 anos

    Eu concordo com aquilo que referes. Efectivamente o Rey não está mais em condições físicas favoraveis a prosseguir com o wrestling. O erro aqui acaba por ser da wwe que não conseguiu encontrar um substituto à altura. Sim é verdade que é praticamente impossivel encontrar um wrestler tão talentoso como o Rey Misterio que combata nos mesmos moldes deste último e certamente que esse wrestler não é o Sin Cara mas acredito muito sinceramente que não é uma missão de todo impossivel se as coisas foram bem feitas e com o tempo e paciência necessárias, coisa que não aconteceu e criou toda esta situação à volta do wrestler em questão e da propria wwe. Claro que é dificil fazer esquecer o mitico mascarado que encantou gerações e não é de todo garantida a aceitação de um sucessor pelo wwe universe mas certamente que uma equipa criativa esforçada e bem trabalhada pode oferecer alternativas ou supostamente era isso que deveria fazer se um high flyer talentoso e com essas características lhes chegasse em mãos.

    Agora o que também penso que seria apenas justo e o reconhecimento por todo o seu trabalho era oferecer ao Rey um último grande momento nesta wrestlemania de forma a poder dar-lhe a despedida que ele sempre mereceu e que recompense a sua excelente carreira. A vitoria na battle royal em memoria do Andre The Giant quiça. Para mim seria inteiramente justo por tudo o que ele representou e representa na wwe e um premio por toda a sua fantastica carreira que nao deixou ninguem indiferente.

  4. danielLP21 - há 2 anos

    Excelente artigo, Miguel, mais curto do que o habitual. Não conhecia esta foto do Rey com o CR7 :P

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