Boas a todos nesta grande casa que é o Wrestling PT!

Dos últimos anos, o passado dia 9 de outubro foi um dos dias mais importantes da história do joshi, palavra que designa todo o wrestling feminino japonês. Com a presença da Stardom na arena Osaka-Jo Hall e com a realização do maior evento da história da TJPW, que tiveram lugar exatamente no mesmo dia e em horários aproximados, a receção pelos fãs, até mesmo dos que não acompanham regularmente, mas estão atentos aos grandes eventos e grandes combates que vão tendo lugar no mundo do joshi, foi mais do que positiva e deixou bons indiciadores para o futuro, e não apenas num elemento isolado. De facto, ao nível da quantidade de bilhetes vendidos, tendo em conta que ainda estamos em pandemia, do impacto e mediatismo destes shows, do interesse gerado pelas histórias e rivalidades que conduziram aos eventos e o excelente wrestling entregue aquando do momento decisivo, o passado dia 9 provou que há potencial para o joshi puroresu ganhar mais notoriedade, principalmente no Japão, mas também fora dele, ou seja, que há realmente algum potencial de crescimento e que o mesmo é cada vez mais notório.

E se confesso ver e acompanhar apenas as duas promotoras mais conhecidas do joshi atual, a Stardom e a TJPW, embora esta última não seja necessariamente a segunda maior, confesso também que apesar de conhecer outras promotoras, ou por ter tentado conhecer no passado, ou mesmo ainda vendo coisas do presente, não conheço, no entanto, a sua situação atual a fundo, e é por isso que esta análise à situação atual do joshi moderno centrar-se-á quase apenas na Stardom e TJPW, embora não pudesse continuar com as minhas ilações e ideias sem antes dizer que a realidade de promotoras como a SEAdLINNNG, que promove um estilo de wrestling mais tradicional, e, nesse aspeto, é a maior competição para a Stardom, com a Nanae Takahashi, Arisa Nakajima e Ryo Mizunami à cabeça, como a Ice Ribbon, que é talvez a fed que mais fora da caixa pensa neste momento e que tem à cabeça a jovem com muito potencial Suzu Suzuki e a veterana Tsukasa Fujimoto, da Sendai Girls, etc., pelo que li e pela perceção (falível) que tenho, é também muito risonha, dado que em todos os momentos da história do wrestling, é um facto que quando há um interesse crescente no topo, as bases também são beneficiadas.

E é exatamente isso que penso estar a pensar acontecer com todo o joshi neste momento, porque nota-se mais interesse nas redes sociais, a venda de bilhetes, mesmo que difícil de apreciar pela pandemia, manteve-se relativamente positiva, cada promotora tem conseguido manter quase todas as suas estrelas, e quando não consegue, tenta criar novas estrelas. O próprio wrestling tende a ser muito bom em todo o lado, e há sempre um ou outro combate que circula entre a comunidade de joshi e de wrestling em geral que vale a pena ver. Ora, mas como disse, para que estas bases e promotoras mais pequenas começassem a ter também o seu reconhecimento, foi preciso que o topo, a elite do joshi atual, atravesse, também ele, um dos melhores momentos, se não mesmo o melhor momento dos últimos 20 anos. Sou um admirador e conhecedor de joshi há não muitos anos, porém, penso que é quase facto histórico que depois do sucesso da AJW nos anos 90, nunca o joshi atravessou uma fase tão boa como a que atravessa hoje. No período dos 2000’s houveram promotoras que tiveram o seu destaque, mas nunca com o destaque que a Stardom começou a ter já nos 2010’s quando nomes como Nane Takahashi, Mayu Iwatani, Io Shirai e Kairi Sane popularizaram uma modalidade que em tempos foi teve a Bull Nakano, Aja Kong, Manami Toyota e Akira Hokuto como suas caras. Hoje em dia, no entanto, já nos 2020’s, a Stardom entrou num período que não é apenas o melhor da sua história, mas que é também muito provavelmente o melhor das últimas décadas no que ao joshi diz respeito.

E há várias razões para isso, desde um booking coerente a rivalidades intensas que foram chamando a atenção. Mas há essencialmente dois aspetos que não escapam de serem os principais responsáveis por este momento: a qualidade do talentoso roster e, num efeito em cadeia, de causa-efeito, a qualidade dos combates. Efetivamente, a Stardom nos últimos 3 anos foi dominada por um roster que manteve nomes como Mayu Iwatani, a ace da Stardom e do joshi nos últimos 15 anos, Utami Hayashishita e Momo Watanabe, jovens lutadoras em ascensão que parecem vir trazer o wrestling feminino japonês para o próximo nível, Giulia, a potencial maior estrela de futuro de todo o joshi, com uma capacidade de gerar atenção imensa, Tam Nakano e Syuri, veteranas que apesar de terem explodido um pouco tarde, permitem a utilização da metáfora com o vinho do porto (“de que quanto mais velho melhor”). E ainda na “reserva” têm jovens talentosas e prontinhas a darem o salto assim que a oportunidade surgir. Falo da AZM, da Maika, da Saya Kamitani, da Starlight Kid, entre muitas outras.

Principalmente o reinado da Mayu Iwatani que durou grande parte de 2020 esteve a um nível astronómico, sendo daqueles reinados que em todos os combates há uma história e rivalidade diferentes, mas que todos têm em comum o facto do wrestling praticado ter sido do outro mundo. E se este reinado já tinha cumprido na perfeição o seu objetivo, eis que a atual campeã, Utami Hayashishita, não só pegou na bola que a Mayu lhe deixou, como a elevou a outros níveis. Pessoalmente, posso discordar que muitos dos seus combates tenham estado ao nível que a comunidade disse que estiverem, mas uma coisa é certa e inegável, é que foi este reinado da Utami que voltou a tirar o joshi do seu cantinho, da sua bolha, e a metê-lo na boca de um maior número de fãs possível. Qual foi o combate que voltou a colocar o famoso jornalista Dave Meltzer a ver joshi e até a dar uma nota altíssima ao mesmo e aos que se seguiram? Utami Hayashishita vs. Syuri já em 2021. Mesmo no ano passado, quando os fãs de joshi se deliciavam com a rivalidade entre a Mayu Iwatani e a Takumi Iroha, nunca foi este a este nível e nunca gerou tanto impacto como a feud Utami vs. Syuri. E se é verdade que uma feud não teria tanto impacto sem a atenção que a outra já tinha gerado, certo é que a feud em questão (Utami vs. Syuri) manteve o mesmo nível de qualidade, e não só manteve o mesmo nível de interesse, como o aumentou consideravelmente.

E embora considere que os fãs dão hoje uma importância às notas e opiniões de Dave Meltzer desnecessária e até irrisória, é, porém, impossível negar o relevo que a sua plataforma tem hoje em dia num mundo em que os fãs de wrestling valorizam cada vez mais a qualidade dos combates e conhecem muitos nomes e matches a partir das suas notas. E facto é que agora sempre que a Stardom faz um dos seus maiores eventos temos sempre notas altíssimas para os seus combates principais. Há aqui algo de semelhante entre a AJW e a Stardom, e isso existe devido à qualidade dos seus combates, imensamente duros para as lutadoras, costumando ser bastante longos, mas todos aos seu estilo, se mais rápido ou mais lento, se valorizando mais a história ou combinações de moves, etc., fazem parte da realeza do wrestling atual.

E todo este sucesso também se deve à BUSHIROAD, a mesma empresa que detém a NJPW e que tem um projeto de crescimento da Stardom, assim como o fez quanto à promotora masculina no passado. Há mais profissionalismo no lançamento e edição dos shows, gravados ou ao vivo e há um plano sólido para cada uma das suas estrelas. Há uma definição clara de qual a função de todos os seus atores. Há um booking muito confiável e que foi capaz de se adaptar a todos os reveses que a promotora sofreu desde o final de 2019 e que ainda hoje continua a sofrer por causa da pandemia. E só para terem uma noção da seriedade do projeto e do sucesso que já tem faz, vejamos alguns números. Este ano a Stardom já realizou um dos maiores eventos do ano na mítica arena japonesa Nippon Budokan, sendo que mesmo em pandemia, contou com 3318 pessoas no público. E para isto muito contribuiu ter sido o momento e confronto final da rivalidade de vários meses entre a Giulia e a Tam Nakano, que entregou neste evento aquele que para mim é o melhor combate do ano. E recentemente, no já referido dia 9, realizou um show na Osaka-Jo Hall, uma arena que não havia recebido joshi desde a AJW nos anos 90. Contabilizou 1441 pessoas. Mas a Stardom não vai ficar por aqui, e já em dezembro irá realizar um evento no Ryogoku Sumo Hall, que terá como main-event um novo embate entre a Utami e a Syuri, match colocado cirurgicamente neste evento de forma inteligente, obedecendo a uma fórmula simples, mas que é tradição no pro-wrestling: os maiores e melhores combates para os maiores shows.

Mas se na Stardom há um projeto organizado e ambicioso que pode voltar a colocar no estrelato uma promotora que apresenta um estilo de wrestling mais tradicional, aliás, mais tradicional do que a própria AJW apresentava nos anos 90, e onde há espaço para grandes histórias, mas é o lugar acima de tudo do grande wrestling, há também uma outra promotora com um projeto igualmente bem organizado e ambicioso. Estou a falar, claro está, da TJPW, detida pela CyberAgent e que sempre beneficiou de ser a “empresa-irmã” da DDT. Como tal, recebeu uma maior influência ao nível da comédia e apresenta um estilo muito distante do tradicional. Afasta-se ainda mais da AJW, valorizando outros aspetos, como o visual das suas lutadoras e o entretenimento, embora muito distante do “ridículo” da DDT.

Contudo, a meu ver, o seu principal ponto forte é, sem dúvida, a sua capacidade para contar histórias. Enquanto grande fã que com o tempo me tornei desta promotora, não vejo a mesma essencialmente pelo grande wrestling que apresenta, aliás, eu nem considero que metade do wrestling apresentado nos seus evento descola do razoável/bom para algo mais. Contudo, quando se aproximam os main-events e os combates com a presença das suas principais caras, o nível de interesse aumenta de forma drástica. E isso porque todas têm uma história e uma relação diferente entre si. E esse tipo de sentimentos transmitem-se para o público porque o principal forte dessas lutadoras é exatamente a capacidade de, através das expressões faciais, da sua linguagem corporal e até das suas palavras, que apesar de serem em japonês são percetíveis por toda a gente, conseguirem que qualquer um entenda o que estão a sentir em cada momento do combate. E estes, apesar de desvalorizarem mais o wrestling, costumam ser ótimos porque andam à volta dos sentimentos que se quer transmitir e que as lutadoras vão tendo, e deviam ter, ao longo do combate.

A mais recente prova do que estou a dizer foi precisamente o main-event do seu show do dia 9, o TJPW Wrestle Princess II, entre a campeã Miyu Yamashia e a desafiante Maki Itoh, que mantêm uma rivalidade que evoluiu de diferenças insuperáveis entre as duas, para o respeito, e agora para a amizade. Foram o combate de estreia da própria Maki Itoh, foram o primeiro combate da história da TJPW nos EUA e foram agora o evento principal do maior show da história da TJPW até hoje. Todos seus combates foram quase verdadeiros episódios de uma única história, da história da Maki Itoh e do seu insucesso e da necessidade de aprovação pela sua carreira no wrestling, ao mesmo tempo que a cada fase da sua carreira está mais próxima de ganhar o “big one”. Bem como da história específica da Maki Itoh com a Miyu Yamashita, a ace da TJPW, a sua principal cara, que sente cada vez mais dificuldades para ver a Itoh, mas que por respeito à competição e à própria adversária, continua a superar-se a si mesma para se manter no topo.

E mesmo quando à evolução do seu projeto em termos numéricos, tal tem sido bastante risonho. Num espaço de 2 anos, a TJPW passou de realizar os seus maiores eventos no Korakuen Hall, para passar a realizar praticamente todos os meses um evento nessa mesma arena. Não só isso, como o ano passado realizaram o TJPW Wrestle Princess I no Tokyo Dome City All, e já este ano, no passado dia 9, realizaram a segunda edição do seu maior evento, desta vez no Ota City General Gymnasium com 914 pessoas, o que tem de ser temperado com a condição de ainda vivermos em pandemia. Por fim, ressalvar que no dia 9 também foi anunciado que  esperam fazer um evento no Ryogoku Sumo Hall em 2022.

Em suma, será então de fácil compreensão o facto de hoje em dia o joshi ter no seu topo dois produtos completamente diferentes, um mais tradicional, e outro completamente alternativo, o que aliás favorece a presença e crescimento de cada uma das feds e dá aos fãs maior opção de escolha. Ver Stardom e ver TJPW são coisas muito diferentes, e apesar de serem ambas promotoras de wrestling, vejo perfeitamente um fã de Stardom não ser fã de TJPW, assim como o contrário (embora já me pareça mais difícil). Pelo conteúdo do seu produto, a Stardom tem e terá mais facilidade de crescer, por apresentar um estilo que tendencialmente abrange mais fãs, aliás, um estilo que seja capaz de superar as diferenças de fãs em quantidade, que tradicionalmente existe no Japão, entre o wrestling feminino e masculino. Já a TJPW não tem um estilo que toda a gente gostará, e eventualmente poderá colocar-se a questão de que terá um teto de crescimento, ao contrário da Stardom que tem um potencial de crescimento ilimitado. Contudo, a TJPW tem bons indicadores para o futuro, sendo que o principal é que é uma promotora muito jovem, tendo apenas 5 anos, e basta ver ao nível em que já está. Está ainda muito no início, e é uma boa altura para sonhar, pois a vontade de fazer mais tem como pilar um projeto sustentável de futuro.

Hoje ficamos por aqui.

Até para a semana e obrigado pela leitura.

8 Comentários

  1. SandroJr1 mês

    A Stardom é uma das promotoras que mais gosto de assisti atualmente, eu também gosto da TJPW, as duas são bem diferentes, e mesmo assim vem crescendo com o tempo. Ricardo, gostaria de saber quais são suas lutadoras preferidas tanto da Stardom quanto da TJPW. Ótimo artigo.

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      Obrigado pelo comentário, e também pela pergunta. Pensando apenas em duas lutadoras de cada uma das promotoras, da TJPW escolho a Miyu Yamashita e a Sakisama, e da Stardom escolho a Tam Nakano e a AZM.

  2. Mr Catra1 mês

    Mais um bom artigo, gosto quando vocês fala dessas promotoras menos conhecidas.

  3. Rafael1 mês

    Muito bom ver temas tão raros sendo abordados em um site de língua portuguesa. Eu nunca me interessei pela cena joshi, não por motivo específico, mas pq nunca dei uma chance para ver as japinhas. Vi TJPW pela primeira vez no Cyberfight Festival 2021, e eu gostei, mas mesmo assim não acompanhei o que veio a seguir. Todavia, Graças ao ótimo custo / benefício do Wrestle Universe (Noah, DDT, Gambare e TJPW por 900 ienes), decidi assistir ao Wrestle Princess II e esse show realmente me pegou. Fiquei encantado ainda mais pela luta principal e decidi investir de vez nisso. Talvez eu tente entrar no Stardom também, quando estiver mais habituado ao TJPW e porque já tenho muito wrestling para ver. Enfim, como eu sou sortudo por ser fã de PW em 2021!!!

  4. Alexandre1 mês

    Eu assisto a todos os shows de apenas duas companhias, por questão de tempo, uma é a AEW e a outra é a Stardom. A rivalidade entre a Tam e a Giulia é uma das melhores coisas na história do wrestling feminino. Todo o desenrolar até culminar naquela hair vs hair match, que sem dúvida é a luta do ano, foi simplesmente incrível de acompanhar. Essa rivalidade só se compara com Tam v Arisa, e ainda há uma conexão entre as duas. É um booking formidável.

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      Obrigado pelo comentário. À feud Tam vs Arisa de 2019 só faltou mesmo o momento final da Tam ganhar o white belt. E apesar de infelizmente a Arisa se ter retirado, se isso não acontecesse, nunca teríamos tido este momento da Tam a ganhar o belt à Giulia. O mundo dá realmente muitas voltas.