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Opinião Feminina #333 – Quality over quantity

No passado domingo, a WWE realizou o Extreme Rules e o grande tópico de conversa do evento foi o comportamento dos fãs durante o combate principal da noite, entre Dolph Ziggler e Seth Rollins. Os fãs aproveitaram a presença do relógio como pretexto, visto que a estipulação do combate tinha o tempo limite de 30 minutos, para se entreterem a contar os últimos dez segundos, como é hábito fazer durante o Royal Rumble, com direito a som de campainha e tudo!

Este tipo de comportamento não conformista, para além de ser auto-reforçante – os fãs divertem-se a fazê-lo, portanto não têm motivos para parar, foi também recompensado várias vezes pela companhia ao longo dos últimos anos. O evento muda, as vítimas mudam, mas a verdade é que o alegado desrespeito dos fãs para com os lutadores em ringue e a companhia tem sido um tópico recorrente ao longo dos últimos anos. Sejam cânticos a apoiar outros lutadores que não estão presentes no combate ou até sob contrato com a companhia, seja a tão irritante bola de praia, a verdade é que o comportamento que anteriormente era ocasional ou geográfico (dependendo da cidade ou país em que o evento se realiza, os comportamentos da plateia tornaram-se previsíveis), transformou-se num hábito.

As opiniões em relação a isto divergem. Por um lado, como pessoas que pagaram pelo direito de assistir ao evento, os fãs deveriam ter o direito de se expressar como bem entenderem. Atenção, que tal privilégio não inclui comportamentos desordeiros ou infringir as regras da arena. Existe um limite para tudo. Uma coisa é gritar por CM Punk no combate de Roman Reigns, outra é gritar insultos. Uma coisa é fazer a arena juntar-se toda para fazer a onda, de forma sincronizada, outra é atirar objetos para dentro de ringue ou até andar a fazer saltar uma bola de praia pela multidão.

Por outro lado, é injusto e pode até ser insultuoso para os artistas que estão dentro de ringue a fazer o seu trabalho ter uma audiência a sabotar o combate, sem mostrar qualquer interesse ou vontade. Apesar das frustrações dos fãs, nem sempre os que estão em ringue a atuar perante uma audiência desinteressada têm culpa.

Todavia, é preciso ter em conta que o Wrestling, ao contrário do teatro ou cinema, onde um comportamento  semelhante é motivo garantido para expulsão da sala, é uma arte interativa. Uma arte que, não só precisa, como floresce na presença de uma audiência participativa e motivada.

Com isto, chego à conclusão que o problema não foi a intervenção da audiência, mas sim a sua motivação. Quando motivados por aborrecimento, falta de interesse, frustração com o produto a nível criativo ou puro cansaço, as intervenções dos fãs tendem a ser mais cáusticas e frustrantes. Artigos são feitos todos os dias sobre a qualidade do produto que a WWE apresenta hoje em dia. Poderá ser embirração, mas também poderá ter um fundo de verdade. Não é difícil apontar as falhas criativas nas histórias apresentadas pela companhia, desde as histórias mais importantes, como a história do sempre ausente campeão Universal, Brock Lesnar, a histórias menos destacadas como a divisão de equipas.

E se o produto apresentado pela WWE fosse defeituoso, mas curto e tivesse outras vantagens, talvez os fãs não procurassem outras formas de se entreter. Contudo, a verdade é que a WWE conseguiu transformar algo que as pessoas estão dispostas a pagar (e pagar bem) para ver num castigo de horas e horas a fio. A quantidade de programação que a WWE apresenta hoje em dia é absolutamente ridícula. O tempo de duração de cada evento aumentou drasticamente ao longo dos últimos anos, com eventos normais a terem, em média, quatro horas e outros mais especiais, como a WrestleMania, a durarem cinco ou seis – excluindo o pré-show, a que muitos fãs em casa e alguns na arena assistem, dando assim mais uma hora ou duas a cada evento.

Este é um problema que a companhia não mostra qualquer vontade em resolver. Acho que é um problema que a companhia ainda nem sequer identificou como problema! O que é ainda mais descabido! Em vários anos consecutivos, assistimos aos fãs a perderem o gás e simplesmente ficarem cansados a meio de uma WrestleMania. A segunda metade do evento, após o esgotamento dos fãs, sofre sempre por causa da sua duração. Combates principais são apresentados ao som de silêncio ou cânticos rebeldes, não só porque os fãs poderão não estar a assistir ao que gostariam de assistir, mas porque simplesmente estão estafados, aborrecidos e desejosos que o evento acabe.

A máxima “always leave them wanting more” é algo que a WWE, não só não aplica, como parece nunca ter ouvido falar, apresentando horas e horas de programação até que os seus fãs mais leais desistam de acompanhar e procurem formas de se entreter.

Foi provado recentemente, com o combate de Gauntlet, em que Seth Rollins foi uma estrela autêntica, apresentado no início do ano que os fãs não têm défices de concentração ou problemas em acompanhar combates longos. O que os fãs têm problemas em acompanhar são eventos longos que dói, onde o único propósito que a companhia tem é encher chouriços e apresentar tudo o que tem! Não se trata de um caso especial, onde todas as histórias foram bem construídas, os lutadores estão a dar o seu melhor e seria uma injustiça crassa não configurarem no evento! Nada disso! Ao que assistimos regularmente é a necessidade da companhia de simplesmente incluir tudo aquilo que tem no seu arsenal numa só noite, mesmo que a maioria dos combates sejam todos feitos a despachar, com a maioria nem chegar à marca dos dez minutos, com estipulações ridículas ou conclusões que em nada prestam um bom serviço à história ou aos lutadores envolvidos.

Não se pode apresentar regularmente este tipo de evento e esperar que os fãs aguentem só porque são fãs. Não se pode, constantemente, castigar a audiência que está disposta a pagar e que constantemente dá lucro à companhia, com eventos tão longos que eles já estão desesperados para que o mesmo acabe e na sua maioria sejam combates para encher chouriços que não têm um motivo muito importante para justificar toda aquela estafa.

Vejo muitas pessoas a criticarem os fãs porque portaram-se mal durante um combate que era a vondade “deles”. “Olhem para eles a serem parvos, quando o Vince, numa só noite, lhes dá uma derrota do Roman Reigns e coloca o Seth Rollins e o Dolph Ziggler no combate principal” é o resumo das críticas feitas aos fãs. Não concordo nada com esta afirmação, acho que é redutiva e em nada consegue abranger a dimensão do verdadeiro problema. Primeiro que tudo, sim, Roman Reigns perdeu, mas como se viu na noite seguinte, as suas derrotas raramente significam alguma coisa, pois este continua a receber oportunidade atrás de oportunidade. Isto não é nada que não tenhamos assistido vezes sem contas nos últimos anos.

Segundo, Dolph Ziggler tinha o potencial para se tornar relevante, porque era um dos favoritos dos fãs, há cinco anos. Cinco! Há cinco anos, foi quando a sua crescente popularidade atingiu o seu pico, porque, na realidade, começou a formar-se há oito! Durante esse período de tempo em que podia ter apostado nele e talvez criado uma nova estrela permanente, a WWE castigou os fãs por gritarem por ele, metendo-o constantemente na prateleira e reduzindo-o a títulos secundários. Portanto, depois de ter tantas vezes castigado os fãs por gostarem de Dolph Ziggler até eles deixarem de dar um chavo por ele, não é propriamente justo agora acusar os fãs de serem incoerentes por não estarem a saltar da cadeira de alegria porque ele vai lutar no combate principal da noite.

Ainda por cima, lutar com alguém, como Seth Rollins, que é uma autêntica estrela e nunca deveria ter perdido o título e o ímpeto que estava a criar para uma rivalidade com Dolph Ziggler, alguém cuja credibilidade é inexistente!

Terceiro, o combate não foi propriamente a melhor coisa à face da Terra. Pedir aos fãs que depois de três horas de evento, se invistam num combate que vai durar, no mínimo dos mínimos, 30 minutos, onde o herói começa com clara vantagem, apenas para depois a perder toda, e as duas primeiras “falls” ocorrem nos primeiros dez minutos, quando já vimos estes dois a lutar por quase vinte minutos, sem derrotas? Criativamente falando, o combate não foi a última coca-cola do deserto.

Quarto, os fãs pagam para serem entretidos. Não pagam para dar abébias à WWE quando, criativamente, o produto não os motiva e para seguirem o guião à letra, exatamente da forma que a companhia o idealizou. Há uma diferença entre querer ir ao evento de propósito para o descarrilar e entre ir, não se divertirem com o que estão a ver, e acabarem por dispersar. O primeiro grupo é uma minoria muito, muito pequena. Não é uma minoria que consegue mover uma audiência de milhares.

No entanto, vamos imaginar que concordo com esta afirmação, como alegado resumo da noite e acusação aos fãs. Isso não diz já tudo? Se os fãs estão tão cansados, tão completamente saturados de assistirem a um evento que nunca mais acaba, seguido de combate após combate sem interesse, sem emoção, apresentado a despachar, que nem uma derrota do inimigo número um, Roman Reigns, e o posicionamento de Seth Rollins e Dolph Ziggler no combate principal os consegue satisfazer, então não fica mais que provado que não é preciso os eventos durarem tanto tempo?

É certo que se o título de equipas, um dos títulos femininos ou um combate secundário com um preferido dos fãs fosse relegado para o pré-show ou simplesmente falhasse o evento, haveria uma onda de indignação ou protesto. Não duvido que isso aconteceria. Mas nenhum fã pede para ser castigado com tantas horas de combate e combates apresentados desta forma. O que eu peço é um evento sólido onde tudo o que for apresentado tenha uma razão para lá estar. A companhia é que se tem de esforçar para apresentar um melhor produto, desde o último ao primeiro combate do card. Não quero sentir que estou a ser empatada só porque “temos que apresentar isto tudo, dê por onde der, independentemente da qualidade”.

É verdade, o comportamento dos fãs foi irritante. E a WWE não esteve muito melhor ao tirar-lhes o relógio. Como já deveriam estar fartos de saber, foi equivalente a acender um rastilho. E, se eu estivesse lá, acho que não me teria portado assim por muito cansada que estivesse. Acho que poderia ter participado uma ou duas vezes, pela piada, mas não iria passar um combate todo na brincadeira.

Mas não consigo recriminar os fãs pelo seu comportamento, já o fiz no passado e, no passado, o único motivo que eles tinham para ter estes comportamentos era porque o favorito deles não era campeão ou tinham ido propositadamente para a galhofa. Porém, da forma como as coisas mudaram na WWE, nos últimos anos, onde até a WrestleMania – a WrestleMania, o evento mais esperado do ano – é um castigo de assistir do início ao fim, acho que está cada vez mais complicado de criticar os fãs que não conseguem aguentar até ao fim ou que simplesmente se perdem a meio porque estão fartos de assistir a combates sem vida e sem consequências! Não se fazem eventos com a maioria dos combates a ser para encher chouriços e, especialmente, não se faz com que esses eventos durem uma eternidade. Não há derrota de Roman Reigns que compense isso. Obrigada e até daqui a duas semanas!

7 Comentários

  1. Anónimo há 5 meses

    fãs sabotam combates de Roman Reigns, eles estão cobertos de razão, fãs sabotam combate de Seth Rollins, aí eles são desrespeitosos.

  2. PedrKo há 5 meses

    Na minha opinião nunca se pode culpar os fãs. São eles que tornam tudo aquilo possível, por muito que apupem ou estejam calados são eles que pagam o bilhete e dão lucro à companhia para consequentemente pagarem os ordenados aos lutadores, eles são a parte mais importante da indústria.
    O grande problema é a wwe querer contratar todos os lutadores indy mais ou menos over e quando nos apercebemos existe um roster de centenas de lutadores a quem ninguém sabe o que fazer e “temos que os enfiar” todos num show mesmo que demore umas 7 horas e ninguém tenha interesse em vê-los.
    Os fãs têm culpa do Backlash, do Money in the Bank, do extreme rules, ou das 3 horas semanais de Raw?
    Com a qualidade do produto que tem apresentado, só o facto de alguém pagar bilhete para ir ver um show ao vivo devia ser motivo de felicidade para a wwe.

  3. “Não se fazem eventos com a maioria dos combates a ser para encher chouriços e, especialmente, não se faz com que esses eventos durem uma eternidade. Não há derrota de Roman Reigns que compense isso” hahahahaha…mitou!

  4. Tobias há 5 meses

    Falando em fãs, é apenas eu ou vocês tbm ficam reparando que em todo show está presente um cara gordo, com uma barbixa, geralmente com um boné e uma camisa verde e um outro com cabelo longo, logo nas primeiras cadeiras do evento?

    • YesNo há 5 meses

      passei a reparar nele na WM 30 hahahahaha, está em todo PPV e shows importantes. Sempre com a mesma máquina fotográfica na mão.

    • Bruno Rodrigues há 5 meses

      Até onde eu sei, esse cara faz parte da equipe do Instagram, Facebook e Twitter da WWE. Obviamente que não é um fã que vai a todos os shows na primeira fileira, isso seria loucura, além do cara ser bilionário, haha.

  5. KILL OWENS KILL há 5 meses

    Excelente artigo.

    Lembrar essas coisas sobre o Dolph dói tanto ;(

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